3 MÅL, STRATEGIAR OG TILTAK
3.7 Landbrukstilknyta samfunnsutvikling
3.7.1 Buplikt og bulyst
Escravagina, o stand-up trans, nome apresentado pelo diretor da peça,
revelou que a arte expande seus limites não apenas no tratamento de seu conteúdo, como também de sua forma. Uma mescla de comédia, stand-up e performance com trechos dramáticos, tudo isso percebemos na sua estrutura. Para Foucault (2009), a leitura da arte no século XX dá-se a partir do combate das formas. É no início desse século que uma cultura que está mais ligada aos seus valores do que às suas formas emerge. Segundo o autor, “os combates em torno do formal foram uma das grandes características da cultura do século XX” (FOUCAULT, 2009, p. XXV).
Transbordam-se os limites do corpo, transbordam-se os da arte também (não necessariamente nessa ordem).
Na obra Do grotesco e do sublime, Victor Hugo (2007, p.40) discorre sobre a literatura moderna dramática que, diferentemente da arte antiga (ode e epopeia), traz em sua escrita a união do sublime com o grotesco. Essa nova literatura, para o autor, apresenta variação e mescla das formas artísticas. Embora a peça aqui analisada não se trate de drama, os estudos de Hugo são evocados para entendermos da diluição dos formatos aristotélicos teatrais, como, por exemplo, os da comédia e da tragédia, do sublime e do grotesco, compreendidos pelos gregos como categorias separáveis e opostas.
Com base no “Prefácio de Cromwell”, percebemos que o autor notava uma transformação do ideal do belo na poesia a partir dos modelos existentes na Idade Média, visto que “tudo na criação não é humanamente belo, que o feio existe ao lado do belo, o disforme perto do gracioso, o grotesco no reverso do sublime, o mal com o bem, a sombra com a luz” (HUGO, 2007, p. 25). Ou seja, os formatos artísticos contaminam-se, hibridizam-se. Eco (2007) também propõe reflexões similares com a de Victor Hugo sobre a ideia do feio. Para o autor de A história da feiura (2007), além de o feio ser uma contribuição para a beleza do conjunto, ele é relativo aos tempos e às culturas, o que é aceito hoje como belo pode não ter sido ontem. Eco ainda concorda que o belo e o feio atuais convivem mais juntos do que outrora e que cada vez mais estão diluídas essas oposições em filmes, performances, body-art e outras manifestações artísticas. Sendo assim, as categorizações impostas por mídias e instituições normatizadoras da noção de belo e feio, seja para as artes ou para o corpo, devem ser repensadas, já que são relativas a épocas e impostas por determinados grupos.
Trouxemos também a ideia de uma arte kitsch, a partir dos escritos de Moles (2015). Esse autor categoriza tal fenômeno como pertencente a todos os tempos e a todas as artes, tendo seu apogeu com o crescimento da burguesia, no qual a cultura de massa começa a desenvolver-se e a arte e mercado, ou a arte e a indústria cultural, afinam suas relações. Arte que parodia, escracha e utiliza-se da mescla de diferentes referências de diversas épocas para criar. O autor também levanta o questionamento do dualismo belo-feio e afirma estarem mesclados na arte, principalmente a partir do kitsch.
As práticas híbridas que apresentam o teatro, principalmente a partir da década de 1970 com a expansão de novos formatos artísticos (performances,
happenings), também pertencem à Escravagina, já que o espetáculo faz interagir no
palco diferentes estilos teatrais e utiliza a metalinguagem como uma de suas características. Os processos contemporâneos teatrais não estão fixados somente nas regras do drama, buscam aproximar encenação e dramaturgia e preocupam-se com a construção da teatralidade.
Traços da paródia, ironia e intertexto também são recorrentes. Parodia-se o próprio fazer teatral em Escravagina, bem como parodia-se filmes brasileiros, músicas estrangeiras, trechos bíblicos, referências midiáticas televisivas, discursos políticos e pinturas artísticas. Ironiza-se a condição de vida “glamorosa” transexual, os dogmas religiosos, a situação política e seus representantes, a profissão teatral, as regras artísticas, o sexo, a sexualidade e os desejos sexuais. Intertextualiza-se textos (bíblicos, teatrais), imagens, filmes e músicas. Essas são características pertencentes à obra contemporânea que não nega o passado, mas o cita, joga com ele, questionando “sistemas centralizados, totalizados, hierarquizados e fechados: questiona, mas não destrói” (HUTCHEON, 1991, p. 65).
“Adoraria morrer trepando. Seria lindo. Seria divino, deslumbrante!” (ALMEIDA, 2014, p. 4). Em Escravagina, a coexistência do sagrado e do profano também se faz presente em alguns momentos, como na fala citada: “divino” é “morrer trepando”. O estranhamento acontece a partir do encontro de termos tidos como distantes, já que o que se refere ao sexual e ao carnal está em oposição aos céus, ao sublime e celestial, similar ao que foi apresentado por Bakhtin (2013), em relação aos extremos opostos do terreno (órgãos baixos, como ânus) e do sagrado (órgão de cima, como a cabeça). O gesto profanador também diz respeito à obra que está dessacralizada, mais acessível ao público. O espetáculo foi disponibilizado via internet na íntegra para aqueles que não puderam assisti-lo no palco, como também o texto da peça foi publicado em livro e disponível para sua montagem. Ademais, a relação de troca e de proximidade entre atriz, técnicos de cena, direção e público atesta a profanação.
Escravagina retira a obra de seu status de lógica e razão para ganhar lugar
no paradoxal. Critica o modelo de arte tradicional, mas ao mesmo tempo utiliza-se dela para realizar sua crítica, pois o espaço de cena é ainda o do antigo palco italiano. Característica da arte contemporânea paradoxal: não somente rompe com a
tradição, mas se utiliza dela para falar sobre a ruptura. O espetáculo intercala textos, imagens, sons, gestos e luzes que apresentam ambiguidade: o bem e o mal, o feminino e o masculino, o sagrado e o profano, o riso e o choro, a verdade e a mentira, sempre no jogo que desestabiliza, que põe o espectador em um estado de atenção e de estranhamento.
Além de estimular-nos a pensar nessas posições binárias que se rompem, a peça faz com que reflitamos sobre a aproximação entre a arte e o dinheiro. Sua construção e manutenção não se dá de forma segura e estável, considerando os poucos investimentos em suas produções. O grupo Rainha de Duas Cabeças recorreu à arrecadação de fundos on-line, buscando entre seus pares o financiamento da peça. O dinheiro é tema relacionado também com a beleza e com o prazer. “Quem tem mais dinheiro goza melhor? Ou sofre menos preconceito?”, “Quem sabe é mais bonito?” são perguntas levantadas durante a peça, colocando- nos em reflexão sobre nossa condição de dependência do dinheiro e questionando o quanto realmente é ele que nos muda positivamente.
As categorias levantadas do espetáculo desestabilizam o público, colocam- no em um lugar
[e]m que o espectador é convidado a progredir através de imagens, sons e movimentos que o obrigam a olhar as coisas de maneira inédita. Em todos eles há um princípio de negação que inverte os significados tradicionais e mostra um processo de investigação transgressora, que submete o teatro de seu tempo a uma prova de instabilidade. (FERNANDES, 2010, p. 11). Cesar Almeida propõe na peça e em seu teatro queer a subversão a partir de seus temas polêmicos envolvendo diluição das relações humanas, a coisificação do ser humano, as relações e indivíduos gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e outros (ou outras) que não estejam necessariamente encaixados em nenhum desses enquadramentos. Um teatro cômico e satírico que mostra as ambivalências e possibilidades que extrapolam as categorias, rasgam-se os rótulos.
Quanto às limitações, Foucault (2009) apresenta a transgressão dos códigos sociais e dos padrões, a arte vai ao limite da linguagem: ela transgrede a si mesma. Ao propor uma obra que, apesar de seguir um texto pré-estabelecido e decorado pela atriz, está aberta a interações palco-plateia, em que a nudez não só é revelada como expandida através de lente de aumento, além de um corpo reconstruído ser mostrado, a arte em Escravagina vai aos seus limites.
A trans(gressão) foucaultiana nesse espetáculo aparece na imagem do próprio corpo da atriz: mutante, reconstruído e desviante. A transexualidade é então exibida, aumentada e manipulada para os olhos curiosos da plateia que paga por sua curiosidade e coragem, já que transgride aquele também que se põe à mostra no palco para examiná-la, não só quem a exibe. A partir da obra de Sade, Foucault traz um corpo intensamente orgânico, no qual a hierarquia não se organiza a partir da cabeça, mas do sexo, das genitálias. E, nesse sentido, o espetáculo discute a organicidade corporal e a valorização dos desejos sexuais, bem como da identificação com o gênero mais do que o pensamento racional. O sensorial, o sentido, o sentimento e o desejo têm lugar de primazia.
Blasfêmias e depravações. É o que percebemos, além do texto e do vídeo, no cartaz de divulgação da peça. A atriz posicionada em forma de cruz lembra a própria crucificação de Cristo. Maite passa pelo martírio, sofrimento e redenção em seu processo transexualizador. Um grande “T” em cor preta cobre suas partes íntimas, reafirmando a imagem da cruz, bem como a da letra que inicia a palavra “transexual”. A cor contrasta com o fundo claro de seu corpo, bem como com o fundo branco do templo. O preto cobrindo seu sexo revela a impureza, ideia construída socialmente, desse corpo desviante em meio ao branco celestial. Os olhos da atriz voltados para o céu atestam a sua dor e redenção. A atriz está prostrada em frente a um monumento que podemos compreender como um grande templo grego, considerando suas reconhecíveis colunas arquitetônicas de cada lado do corpo. O seu corpo é um templo, lugar de visitação e contemplação. Ela é a Vênus Contemporânea, deusa bela transgressora.
Figura 17 – Cartaz de divulgação do espetáculo Escravagina [frente] Fonte: (ALMEIDA, 2014a).
Figura 18 – Aquarela 6 Fonte: (MARQUES, 2015f).