Marco teórico
2.3. Marco Político
2.3.2 Buen vivir/vivir bien: una propuesta liberadora
Nesta seção o intuito é discorrer sobre algumas abordagens, relacionadas ao lugar e ao espaço, utilizadas no teatro. Recorro a autores como Patrice Pavis e Anne Ubersfeld no campo teatral e também ao teórico Michel de Certeau, que discutem o assunto e cujas definições servirão como guia para esclarecer o conceito de lugar teatral abordado neste estudo. Pontuo que são encontradas várias formas de entender e conceituar “espaço” e “lugar” em relação ao teatro, dado o seu caráter polissêmico. Aqui apresento algumas que, dadas suas diferenças de área de conhecimento, possuem certos pontos em comum e contemplam a linha de pensamento desejável para este estudo, inclusive diante do que nos lembra Patrice Pavis: “separar e definir cada um desses espaços é uma
65 REBOUÇAS, Evill, op. cit., p. 181.
empreitada tão vã quanto desesperada”67. Cabe dizer que a ideia de espaço e de lugar se
relaciona, portanto, dependemos de um para definir o outro.
Sabemos que o espaço é inerente à atividade teatral. Da origem do teatro na Grécia antiga até os dias atuais, a configuração espacial para a realização de uma poética cênica passou por diversas transformações. Da arena a céu aberto nas encostas das montanhas na Grécia antiga, à rigidez frontal do palco italiano, aos espaços não convencionais utilizados a partir do século XX, quando estes são concebidos como importante elemento para a encenação. Com isso, ao longo dos anos a tendência de utilização de lugares teatrais para a realização de encenações cresceu e encontrou nos grupos de teatro terreno fértil para experimentos que explorassem as potencialidades criativas específicas de cada profissional envolvido na empreitada, assim como as potencialidades do espaço a ser ocupado.
O francês Michel de Certeau, em sua obra A invenção do cotidiano68, no capítulo “Práticas do espaço”, apresenta sua análise conceitual de lugar e espaço. Para o autor o lugar é a configuração estável de posições, é a ordem pela qual os elementos são distribuídos, cada um ocupando um lugar próprio, ou seja, tem como característica a estabilidade. O espaço, por sua vez, é de ordem móvel, anima-se pelo conjunto de movimentos, pois não há posições definidas. “Existe espaço sempre que se tomam em conta vetores de direção, quantidades de velocidade e a variável tempo. O espaço é um cruzamento de móveis.”69
Segundo Certeau, um lugar se torna espaço quando nele ocorre movimento produzido pelos corpos dos indivíduos que o vivenciam, uma presença ativa. Ativado e potencializado, o espaço se transforma em lugar praticado. Constitui-se a partir das interações humanas e é percebido por meio de seu uso, ou seja, das ações ali realizadas. Na visão de Certeau “o espaço é um lugar praticado.”70. Nesse sentido, podemos pensar o
lugar teatral como o lugar onde ocorrem as relações entre indivíduos atores e espectadores, assim, a partir dos deslocamentos destes o lugar praticado se renova.
67 PAVIS, Patrice, op. cit., p. 132.
68 CERTEAU, Michel de. A invenção de cotidiano. 3 ed. Petrópolis: Vozes. 1998. 69Idem, ibdem, p. 202.
No campo teórico da arte teatro, encontramos várias nomeações para tal tendência de ocupação espacial. No Dicionário de teatro (2011) e no livro A análise dos espetáculos (2011), ambos de Patrice Pavis, vemos algumas definições sobre espaço ligadas ao texto e à representação. O autor aponta duas possibilidades de experiência espacial:
1. Concebe-se o espaço como um espaço vazio que é preciso preencher como se preenche um container ou um meio ambiente que é preciso controlar, preencher e fazer com que se expresse. Típica dessa concepção seria, por exemplo, a de um Artaud: “Digo que a cena é um lugar físico e concreto que exige que alguém o preencha, e que o faça falar sua linguagem concreta”.
2. Considera-se o espaço como invisível, ilimitado e ligado a seus utilizadores, a partir de suas coordenadas, de seus deslocamentos, de sua trajetória, como uma substância não a ser preenchida, mas a ser estendida.71
Pavis concede duas maneiras diferentes de entender tais concepções, sendo: 1 – o espaço objetivo externo, que é o espaço visível, frontal muitas vezes, preenchível e descritivo composto por “lugar teatral”: o edifício teatral, o prédio propriamente dito, sua arquitetura e sua inscrição na cidade, no qual se encontram internamente bem definidos os espaços como palco, plateia, camarim etc. Mas, também, o local que não foi criado para a atividade teatral, onde a encenação escolheu se instalar. “Espaço cênico”: onde ocorre a evolução dos atores, a área de representação, e demais prolongamentos como a coxia. E “espaço liminar”: o que marca a separação entre palco e plateia, palco e coxia. Um espaço que ainda preenchido fale por si. E 2 – o “espaço gestual”, traçado corporalmente pelo ator, criado pela presença, a posição cênica e os deslocamentos dos atores, e que se manifesta por meio: a) do terreno - o espaço de deslocamento de determinado ator no decorrer da cena, o “silo” que marca a posse de território e que pode mudar quando o espectador dirige o olhar a outro elemento cênico; b) da experiência cinestésica - a percepção de seus movimentos, de seu eixo gravitacional e tempo rítmico, dados que pertencem ao ator e que este transmite voluntariamente ao espectador; c) da sub-partitura - pontos de referência de orientação do ator no espaço e no tempo, e que fornecem um trajeto; d) da proxêmica - codificações culturais das relações dos indivíduos no espaço; e) do espaço centrífugo – do corpo do ator para o exterior. Corpo prolongado pela dinâmica do movimento (às vezes, por acessórios como o figurino). Para Eugênio Barba, segundo Pavis, “corpo dilatado” que
71 PATRICE, Pavis. A análise dos espetáculos: teatro, mímica, dança, dança-teatro, cinema. São Paulo:
expressa intensamente sua presença. O espaço que se mostra fisicamente, também, por meio dos deslocamentos de quem o ocupa, das possíveis trajetórias de um ponto a outro ou a outros nesse espaço.
Há ainda a definição de espaço dramático, aquele “espaço construído pelo espectador ou pelo leitor para fixar o âmbito da evolução da ação e das personagens; pertence ao texto dramático e só é visualizável quando o espectador constrói imaginariamente o espaço dramático”72. Temos, então, o espaço indicado ou sugerido ao
leitor pelo texto e o espaço construído pela imaginação do espectador diante das ações das personagens durante o ato cênico, ou seja, o espaço dramático se estabelece na comunicação entre autor e leitor e autor e espectador. Já o espaço cênico é “concretamente perceptível pelo público na ou nas cenas, ou ainda os fragmentos de cenas de todas as cenografias imagináveis [...] O espaço cênico nos é dado aqui e agora pelo espetáculo, graças aos atores cujas evoluções gestuais circunscrevem este espaço cênico”73. Ou seja, o
espaço físico real do palco utilizado para a encenação em um edifício teatral tradicional, e no caso de um espaço não convencional, seria a área, ou áreas, onde ocorrem as cenas. Espaço cenográfico ou espaço teatral é aquele “em cujo interior situam-se público e atores durante a representação”74, entendido como o da relação teatral entre atores e espectadores.
Nessa definição Pavis ainda cita o lugar teatral e reforça particularidades ao dizer que ele se refere aos locais que substituem o edifício teatral e se caracterizam também por uma relação social mais específica: “[...] o teatro se instala onde bem lhe parece, procurando antes de mais nada um contato mais estreito com um grupo social, e tentando escapar aos circuitos tradicionais da vida teatral”75.Espaço lúdico ou gestual é aquele “criado pela
evolução gestual dos atores. Por ações, de proximidade ou de afastamento, livres expansões ou confinamentos a uma área mínima de jogo, os atores traçam os exatos limites de seus territórios individual e coletivo”76. Por meio de sua presença, deslocamento,
disposição e relação de jogo com o grupo, o ator cria o espaço. Espaço textual é aquele em sua matéria bruta, disposta à vista e ao ouvido do público: “o teatro põe à vista do público textos que se respondem e que só são compreensíveis numa interação quase física”77.
Espaço interior: “mas o teatro é também o local no qual o espectador deve projetar-se [...]
72 PATRICE, Pavis, op. cit., 2011, p. 135. 73Idem, ibdem, p. 133.
74Idem, ibdem, p. 132. 75Idem, ibdem, p. 138. 76Idem, ibdem, p. 137. 77Idem, ibdem, p. 138.
Para que haja teatro é preciso que haja um início de identificação e de catarse [...]”78. O
autor nos fala da percepção do espectador, de sua vivência e memória, pois este cria imagens a partir do que a encenação lhe apresenta, entretanto, isso não é uma regra. “Projetando a imagem de sua personagem, dando a ver o invisível de sua consciência, ele nunca deixa de revelar o âmago do seu ser”79, e nesse ponto Pavis refere-se ao
desnudamento do ator ao projetar corporalmente uma personagem. Espaço ergonômico do ator é seu espaço de trabalho e de vida, compreendendo a dimensão proxêmica, háptica e cinésica em relação às pessoas. Espaço da instalação é considerado o espaço teatral, diferenciando-o da arquitetura e respeitando a presença e os deslocamentos dos atores.
Diante dessas definições dadas por Pavis, no tocante ao espaço no teatro podemos perceber uma variação em suas definições, que se amplia passando pelo espaço de representação propriamente dito ao corpo do ator e envolvendo o triângulo espaço/tempo/ação. Como o próprio autor diz é difícil uma descrição desses elementos na encenação contemporânea, sendo que um estará sempre associado aos outros dois. É o que Pavis chama de trinômio, situado “na interseção do mundo concreto da cena (como materialidade) e da ficção imaginada como mundo possível.”80
Para Anne Ubersfeld81, teórica de teatro, o texto teatral necessita de um lugar para existir, onde se darão as relações das personagens, um espaço teatral. Segundo a pesquisadora, esse texto é precário quanto à descrição dos lugares (com ressalvas), entretanto é no espaço (ou em determinado espaço) que se concretiza a articulação entre texto e representação, ou seja, o espaço no teatro é meio para comunicação. Percebemos que os estudos de Ubersfeld contemplam a relação texto-representação para conceituar espaço, que em conjunto com a ação humana caracteriza o teatro, pois “se a primeira característica do texto teatral é a utilização de personagens que são representadas por seres humanos, a segunda, indissociavelmente ligada à primeira, é a existência de um espaço em que esses seres vivos estão presentes”82.
A autora considera três tipos de espaço no teatro: “espaço teatral” (que articula com lugar teatral), “espaço cênico” (que articula com “lugar cênico”) e “espaço
78Idem, ibdem, p. 136. 79Idem, ibdem, p. 136. 80Idem, ibdem, p. 139.
81 UBERSFELD, Anne. Para ler o teatro. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 91. 82Idem, ibdem, p. 91.
dramático”. O “espaço teatral” é entendido como sinônimo da atividade teatral na qual se reorganizam os signos do mundo, lugar de mediação entre o homem e seu espaço sociocultural. Este está ligado ao lugar teatral entendido como o lugar físico onde a representação teatral se realiza, independentemente de tratar-se ou não de uma construção física específica para tal atividade. O “espaço cênico” é o lugar onde ocorre a atividade teatral, o conjunto de acontecimentos na cena (iluminação, efeitos sonoros, deslocamento de atores etc.), articulando-se com o “lugar cênico”, que corresponde à área de atuação ou área de jogo que pode se modificar de acordo com mudanças no lugar teatral em decorrência da encenação. Área delimitada do espaço cênico que não se restringe ao palco, mas a toda representação proveniente do “lugar cênico” no interior do lugar teatral. Já o “espaço dramático” refere-se a toda espacialidade dentro e fora da cena, sendo resultado da relação entre texto e “espaço teatral”. Espaço onde o espectador experiencia o texto como um espaço construído cenicamente.83 Como dito, essas definições se interligam.
Aliadas ao pensamento de Certeau sobre o espaço praticado, as definições de Pavis de espaço cenográfico ou espaço teatral e de Anne Ubersfeld de espaço teatral e espaço cênico aproximam-se, dadas as características de movimento, de espaço vivenciado e de espaço de jogo encontradas nos três autores. Lembrando que Pavis e Ubersfeld ainda associam lugar teatral no mesmo bojo, referindo-se aos locais que substituem o edifício teatral e ao lugar onde se realiza a cena e ocorre a interação com o espectador. No sentido de consolidar a abordagem conceitual de lugar teatral, encontro também a seguinte definição dada por Anna Mantovani:
Chamamos de lugar teatral o lugar onde é apresentado o espetáculo teatral e onde se estabelece a relação cena/público. Usamos o termo lugar teatral em vez de teatro, porque esse último significa somente o edifício teatral. [...] O lugar teatral é composto pelo lugar do espectador e pelo lugar cênico – onde atua o ator e acontece a cena.84.
Diante do exposto, lugar teatral pode ser entendido como aquele onde se realiza e estabelece a relação entre cena e espectadores. Então, temos um possível caminho que colabora com a organização argumentativa do conceito de lugar teatral, base desta pesquisa. Recorro a partir de agora aos estudos de José Simões de Almeida Júnior, principalmente à sua tese de doutorado, que apresenta discussões a cerca da abordagem conceitual de lugar teatral.
83 ALMEIDA JR, José Simões de, op. cit., p. 51-52. 84 MANTOVANI, Anna, op. cit., p. 7.