Resulta dos parágrafos anteriores, que, se se pretende aplicar a AP como teoria de Projecto a sistemas com comportamento físico, excluindo-se da Engenharia os fenómenos não científicos, é necessário avaliar em que medida essa teoria pode ser considerada científica, e a anteriori definir o que é Ciência. A existência de diversos métodos e metodologias de Projecto, de opiniões dissonantes sobre teorias, ou sobre sistemas, impõe
a necessidade de recurso à Filosofia da Ciência para caracterizar a Ciência de Projecto. Esta Ciência, que ainda se encontra numa fase de afirmação e apresenta-se como um novo campo de pesquisa. “A proliferação de articulações concorrentes, a disposição de tentar qualquer coisa, a expressão de descontentamento explícito, o recurso à filosofia e o debate sobre os fundamentos são sintomas da transição da pesquisa normal para a pesquisa extraordinária” [Pag.123, 1.2].
Nesta linha, faz-se de seguida uma breve resenha da evolução do conceito de Ciência, baseada na opinião de alguns filósofos que tiveram maior influência na sua definição, a saber: Auguste Comte, Karl Popper, Thomas Khun e Michel Foucault.
Comte propõe o Positivismo como uma Filosofia que englobe a Filosofia Natural, originada nos trabalhos de Bacon e de Newton, mas também os fenómenos sociais. Esta Filosofia era apresentada como “uma maneira uniforme de raciocinar, aplicável a todos os objectos sobre os quais o espírito humano pode exercer” [Pag.LII, 1.8]. O positivismo tem origem na “Ciência Nova” do século XVII, que “conseguira finalmente rejeitar as explicações aristotélicas e escolásticas expressas em termos das essências dos corpos materiais” [Pag.138, 1.2]. É essa novidade que caracteriza o novo espírito científico: “(…) o carácter fundamental da filosofia positiva é a de olhar todos os fenómenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, das quais a sua descoberta precisa e a redução ao menor número possível são o princípio de todos os esforços, considerando como absolutamente inacessível e vazio de interesse, para a nossa investigação, o que se designa por causas, sejam primeiras ou finais” [Pag.26 e 27, 1.8]. A descoberta das causas primeiras é substituída pela descoberta das articulações das leis universais que regem a Natureza. Estas leis, designadas então por dogmas, enunciam o funcionamento da Natureza, sem no entanto tentarem explicar as suas causas. As causas foram consideradas pelo Positivismo como sendo metafísicas. Comte indica a linha a seguir pela Ciência: “A tendência constante do espírito humano, relativamente à exposição dos conhecimentos, é portanto a de substituir progressivamente a ordem histórica pela ordem dogmática, a única que pode convir ao estado de perfeição da nossa inteligência” [Pag.125, 1.8].
O Positivismo ainda é a linha filosófica com maior aceitação nas Ciências Naturais, “que pela utilização bem combinada da razão e da observação” permite alcançar “as suas leis efectivas, quer dizer as suas relações invariáveis de sucessão e de semelhança” [Pag.8, 1.8].
Mais tarde, surgem resistências à aceitação de princípios dogmáticos na Ciência. A eliminação dos dogmas traz dificuldades à síntese de resultados de experiências em leis naturais. Não admitindo o dogmatismo, ou se acredita que a concordância com a experiência é obtida pelo imediato “sentimento de convicção” que nos é transmitido,
todos os testes possíveis sobre uma lei. Esta última hipótese leva necessariamente a um número infinito de testes, designada por “regressão infinita”. [Cap.5, 1.6].
A resolução deste trilema, designado por trilema de Fries (dogmatismo, psicologismo ou regressão infinita) é proposta por Karl Popper, doutorado em Filosofia com formação anterior em Matemática e Física. Popper distingue entre enunciados universais, ou leis universais, e enunciados particulares aplicados a uma certa experiência. O método aplicado na obtenção das leis da Natureza, ou método empírico, “caracteriza-se tão-somente por: a convenção ou decisão não determina, de maneira imediata, a nossa aceitação de enunciados universais, mas, pelo contrário, influi na nossa aceitação de enunciados singulares, ou seja, de enunciados básicos” [Pag.116, 1.6]. E, “sustento que, em última instância, decide-se do destino de uma teoria pelo resultado de uma prova, isto é, pela concordância acerca de enunciados básicos” [Pag.117, 1.6].
Ou seja, se existir uma teoria, a que corresponde um enunciado universal, tL, e uma
proposição de uma experiência, pL, designado por enunciado básico, o método assenta na
eliminação da teoria se não for confirmada a proposição, e não na aceitação imediata da teoria por confirmação da proposição. O método científico deverá assentar no modus
tollens, ou seja se (( tL pL )∧ ~pL ) ~tL , e não na indução (se p e depois tL , pL tL ). Ou,
dito de outro modo, “o teste positivo ou bem-sucedido de uma hipótese nunca pode ser definitivo. Por mais confirmada (corroborada) que a hipótese possa ser, é sempre possível que venha a ser deposta no futuro” [Pag.33, 1.9]. As leis universais são, assim, válidas até que surja uma experiência que as deponha. O método científico, descrito desta forma, assenta apenas na lógica, sem necessidade de considerar a “imutabilidade e invariância no espaço e no tempo das leis naturais”, princípio que sendo aceite por Popper, era considerado pelo próprio de natureza metafísica.
Se apenas as proposições associadas a experiências podem ser confirmadas ou refutadas, um conjunto de leis universais que constitua “um sistema axiomático, não pode ser visto como um sistema de hipóteses empíricas ou científicas, porque não pode ser refutado por falsificação das suas consequências” [Pag.77, 1.6]. Só as proposições básicas de nível empírico mais baixo podem ser falseadas e, com elas, falseada a teoria.
O critério de demarcação da Ciência é esta possibilidade de ser falseada. Só uma teoria com possibilidade de falseamento, por refutação de proposições básicas dela deduzidas, pode ser considerada científica. Assim, a escolha de teorias científicas e a definição da objectividade dos seus enunciados “reside na circunstância de poderem ser intersubjectivamente submetidos a testes”, ou seja, dependem da aceitação desses testes pela comunidade científica.
Neste sentido, Popper aproxima-se de Thomas Kuhn, físico de formação, que considera a comunidade científica como o veículo de escolha das linhas de investigação, da sua aceitação e do conhecimento do mundo: “A comunidade é um instrumento extremamente eficaz para maximizar o número e precisão dos problemas resolvidos por intermédio da mudança de paradigma” [Pag.213, 1.2]. A aceitação tácita da imutabilidade das leis físicas poderá porventura estar expressa na declaração: “não é apenas a comunidade científica que deve ser algo especial. O mundo do qual essa comunidade faz parte também possui características especiais” [Pag.218, 1.2].
Esta comunidade estuda geralmente problemas com base em teorias e técnicas conhecidas, a que Kuhn designou por Ciência normal, não sem que isso obrigue à resolução de difíceis “quebra-cabeças”. “Resolver um problema da pesquisa normal é alcançar o antecipado de uma nova maneira. Isso requer a solução de todo o tipo de complexos quebra-cabeças instrumentais, conceptuais e matemáticos” [Pag.59, 1.2].
Em algumas situações, a teoria falha! Nessas condições, surgem novas ideias, provenientes por vezes da desorientação. Algumas das ideias, quando devidamente articuladas, podem originar aquilo a que Kuhn designou por paradigmas, ou seja, realizações “suficientemente inauditas para atrair um grupo sólido de partidários das práticas de actividades científicas rivais” e, simultaneamente, permitir estar “suficientemente em aberto para deixar toda a espécie de problemas para que os novos núcleos de praticantes os (possam) resolver”. O paradigma, não é apenas uma ideia articulada ou uma teoria, é um conjunto constituído pelos valores, teorias, técnicas e instrumentação comuns à comunidade científica. A terminologia de paradigma foi também empregue por Kuhn, no sentido estrito de teoria.
O aparecimento de falhas num paradigma não implica a sua destituição imediata. A comunidade científica só a depõe por substituição de um novo paradigma: “Tendo atingido o estatuto de paradigma, uma teoria científica apenas é declarada inválida se estiver disponível uma alternativa que ocupe o seu lugar.” O novo paradigma deve explicar melhor os fenómenos, deve ser comparado com os factos anteriores e articulado com as teorias existentes, criando-se então uma nova teoria. Kuhn afirma: “a determinação do facto significativo, a harmonização dos factos com a teoria e articulação da teoria, esgotam, creio, a literatura da ciência normal, tanto teórica como empírica” [Pag.55, 1.2]. Este reordenamento da teoria faz com que o novo paradigma não seja apenas um incremento ao existente. “A sua assimilação requer a reconstrução da teoria precedente e a reavaliação dos factos anteriores”.
Um exemplo interessante desta assimilação ocorreu quando Dalton, nos estudos da atmosfera em que se empenhou como meteorologista, considerou que, nas reacções químicas, os átomos se poderiam combinar em proporções inteiras. As proporções,
peso de oxigénio para 28% de carbono, para passaram a ser de duas partes do volume de oxigénio para uma parte de carbono.
O paradigma alterou a forma de ver as reacções. “Os próprios dados haviam mudado. Este é o último dos sentidos no qual desejamos dizer que, após uma revolução, os cientistas trabalham num mundo diferente” [Pag.174, 1.2].
Em resumo, Popper situa o observador no próprio cientista, que ao fazer um conjunto de trabalhos se apercebe da corroboração ou não corroboração destes trabalhos com a teoria, aceitando a existência de leis universais externas ao cientista; Kuhn coloca o observador como externo ao mundo científico, olhando a sua evolução, mas coloca as teorias como pertença da comunidade científica.
A evolução da Ciência, feita de paradigmas que sobrevivem e que se destronam, pode equiparar-se, na Ciência, à teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. Piaget, biólogo de formação e pai do Construtivismo, afirmava que a "vida é, em essência, auto-regulação", ou seja, face a uma nova situação o indivíduo assimila-a e acomoda-a, seguindo-se uma fase de reorganização das suas estruturas mentais. Neste sentido, a evolução ou epistemologia da Ciência é análoga à psicologia genética, ou Construtivismo.
Michel Foucault aplica as ideias construtivistas à evolução da ciência no contexto social de cada época. O conjunto de teorias de uma Ciência (episteme) está associado a um inconsciente colectivo, pelo que a alteração desse inconsciente colectivo provoca alterações na Ciência. Esta ideia de evolução é próxima do conceito de paradigma de Kuhn: “a descrição que Kuhn faz das revoluções científicas, esta espécie de niilismo bem pode ser a única forma honesta de rigor possível no século XX” (Michel Foucault). E diz, a episteme “é o conjunto de relações que podemos descobrir, para uma dada época, entre as ciências quando as analisamos ao nível das regularidades discursivas”. “Não tem por fim reconstituir o sistema de postulados a que obedecem todos os conhecimentos de uma época, mas percorrer um campo indefinido de relações” [Pag.244, 1.10].
Neste sentido, o Construtivismo permite o subjectivismo, ou seja, a Ciência é encarada função da época, das sociedades e de cada pessoa, cada uma com a sua cultura ou educação próprias: “como era possível que homens, no interior de uma mesma prática discursiva, falassem de objectos diferentes, tivessem opiniões opostas, fizessem escolhas contraditórias” [Pag.252, 1.10]. Ou, como finalização da opinião de Michel Foucault: “porque é bem sabido que, no campo teórico moderno, aquilo que se gosta de inventar não são sistemas demonstráveis, mas disciplinas cuja possibilidade se abre, cujo programa se desenha e cujo futuro e destino se confiam aos outros” [Pag.259, 1.10].
Desta breve resenha da evolução da atitude filosófica relativamente à Ciência nos dois últimos séculos, passámos da atitude dogmática para a relativista. Saltámos da possibilidade humana de alcançar o conhecimento, para a situação de admitir qualquer possibilidade de conhecimento dependente do contexto. Esta última atitude tem tido forte expressão nas novas Ciências Sociais.
A maioria dos autores integra a Ciência do Projecto nas Ciências Sociais.
Popper, crítico acérrimo do relativismo, coloca a contextualização como a “doutrina da impossibilidade de entendimento entre culturas, gerações, ou períodos históricos diferentes, inclusive na Ciência ou na Física.” Propõe em alternativa a atitude racional de discussão entre ideias diferentes, com vista à avaliação das suas consequências, considerando a possibilidade de avaliação do real: “Por outro lado, o método correcto da discussão crítica parte desta questão: quais são as consequências da nossa tese ou teoria? Serão elas todas aceitáveis para nós?”