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In document Kongsberg Aerodynamiske Drone (sider 53-200)

Para viabilizar o percurso investigativo desta pesquisa, optei por privilegiar uma abordagem qualitativa, pois, como sugere Haguette (1987, p. 56), o método qualitativo se evidencia nos estudos

[...] baseados na análise de documentos pessoais, entrevistas e observação participante sobre diferentes objetos”, além de ser utilizado “nos estudos das unidades sociais naturais, tais como: organizações (empresas, hospitais, prisões) e comunidades.

Quanto às técnicas utilizadas para dar conta da abordagem qualitativa, a autora aponta a observação participante, a entrevista, a história oral e a história de vida como ferramentas apropriadas para o acesso às informações que estão imbricadas em cada uma das situações acima referidas.

A utilização da história oral em suas múltiplas possibilidades, no caso da minha tese, se apresenta como uma ferramenta metodológica possível. Ao utilizar a técnica de história oral, entendo que a utilização da oralidade se constitui em escutas atentas à “voz do passado” em articulação constante com o presente. Na minha pesquisa, procuro acessar fatos de um passado recente em que algumas dimensões do fenômeno não se revelam na documentação ou em outras formas de arquivamento e, nesse contexto, as várias possibilidades dessa metodologia tornam- se pertinentes: a relação entre memória e história, organização de acervos orais, tipos de entrevistas, a narração das trajetórias individuais (biografias, autobiografias, histórias de vida). Também a fotografia é uma ferramenta que considero eficaz como suporte metodológico na minha pesquisa porque é um recurso que dá materialidade à narrativa do entrevistado. Como afirmam Oliveira et al. (2004, p.167), “a oralidade traz a espontaneidade, a fotografia o detalhe”. E as autoras vão além,

Através das histórias de vida contadas oralmente e pelo recurso da fotografia, nos aproximamos de imagens reconstruídas no presente, a partir de significados atribuídos às trajetórias vividas. Conhecemos os processos de formação, visitamos as paisagens, os comportamentos, os tempos vividos através dos sentidos trazidos no momento da fala (p. 166).

A captação das narrativas orais através dos aparatos tecnológicos (gravador, câmera de vídeo, câmera fotográfica) propicia a construção de um campo

empírico que orienta o desenvolvimento das análises sociológicas do objeto em questão, sendo o uso do testemunho oral uma possibilidade no que diz respeito a elucidações de trajetórias individuais. Sobre isso, Ferreira e Amado (2006, p. XIV) afirmam que:

O uso sistemático do testemunho oral possibilita à historia oral esclarecer histórias individuais, eventos ou processos que às vezes não têm como ser entendidos ou elucidados de outra forma: são depoimentos de analfabetos, rebeldes, mulheres, crianças, miseráveis, prisioneiros, loucos... São histórias de movimentos sociais populares, de lutas cotidianas encobertas ou esquecidas, de versões menosprezadas.

Dessa forma, entendo a escuta aos sujeitos da minha pesquisa porque, logo no início do meu trabalho de campo, após os primeiros contatos e primeiras articulações, percebi que estava diante de um grupo heterogêneo e que, portanto, deveria pensar estratégias diferenciadas no que tange à aproximação com esses indivíduos e, no segundo momento, observar as suas várias especificidades para a elaboração das entrevistas.

A partir dessa constatação, por organização metodológica, dividi-os, até aqui, em três grupos de narradores: primeiramente, os familiares de Damião que veem a possibilidade de um trabalho acadêmico sobre sua história como uma forma de não permitir o esquecimento da sua morte violenta. Revisitar a história, mesmo que seja doloroso, também é uma ferramenta de luta. Como já me referi nesse texto, para a família os culpados ainda não foram punidos e a visibilidade permanente pode tornar-se uma aliada na prolongada batalha judicial.

O segundo grupo diz respeito aos ex-internos da Casa de Repouso Guararapes. Esses sujeitos71, que considero narradores essenciais para a minha pesquisa, exigem andanças, negociações e um percurso por vários caminhos, inclusive institucionais, para que sejam contatados.

As entrevistas até aqui realizadas me colocaram face a face com os limites desses oradores que se expressam na deficiência da memória ou pelos “limites de seu corpo” (BOSI, 1994, p. 39). São indivíduos remanescentes de um prolongado período de “aferrolhamento” no qual vivenciaram sistemáticas

71 Entrevistei quatro ex-internos da Casa de Repouso: desses, apenas um esteve com Damião. Os outros três se submeteram a períodos de internamento em diferentes momentos de suas existências e contribuíram para a elaboração de um panorama do cotidiano do manicômio. Dois dos entrevistados são do sexo masculino e duas do sexo feminino.

experiências de mortificações do eu72. As repetidas mortificações incidem inclusive

no corpo através de maus tratos físicos, eletrochoques e o uso prolongado de substâncias psicotrópicas. É perceptível nos relatos a ausência de ordenamento dos fatos, o esquecimento de datas, além de sucessivas repetições de acontecimentos já narrados. Bosi (2003, p. 65) arremata a constatação da pesquisadora,

A fala emotiva e fragmentada é portadora de significações que nos aproximam da verdade. Aprendemos a amar esse discurso tateante, suas pausas, suas franjas com fios perdidos quase irreparáveis.

O terceiro grupo de narradores é composto por dois dos profissionais que atuaram na Junta Interventora quando do fechamento da Casa de Repouso Guararapes73. Neste grupo, também situo os gestores e profissionais que atualmente trabalham na atenção à saúde mental em Sobral, cujos relatos são relevantes para o “mapeamento” da atual estrutura de atendimento aos portadores de transtornos mentais na cidade e municípios vizinhos.

Não posso deixar de apontar que, no campo de pesquisa, já nas primeiras entrevistas, percebi as interdições que envolvem alguns dos depoimentos desses profissionais, até porque, alguns deles estão arrolados como testemunhas do processo por maus tratos movido pela família do Damião contra o proprietário da Guararapes e, também, há implicações políticas e ideológicas pelo menos para alguns dos membros que compuseram a Junta Interventora e também para aqueles que ocupam lugar de destaque na hierarquia da RAISM.

As mudanças implementadas, de forma emergencial, no atendimento aos pacientes com transtornos mentais no município, foram motivadas pelo “caso” Damião, mas, sem dúvida, já havia ações da Secretaria de Saúde que estavam alinhadas com a “onda” transformista emergente do discurso pró-reforma psiquiátrica. Cito como exemplo a criação de um “ambulatório de saúde mental” em 1997 “com um psiquiatra que não era psiquiatra, era um clínico que aprendeu dentro

72 Tomo como referencia a obra de Irving Goffman (2001) na qual o autor utiliza o conceito de “mortificação do eu” na elaboração de uma mudança da “carreira moral” do internado nas instituições totais.

73 Segundo Walter, coordenador administrativo, a Junta era composta por ele, que tinha a responsabilidade de suprir todo o aspecto material e todo o aspecto institucional, por duas médicas psiquiatras com a responsabilidade de implantar um novo projeto terapêutico, uma enfermeira, uma assistente social e também tinha a figura de um supervisor institucional, outro médico psiquiatra. Recebi depois a informação de que as duas médicas psiquiatras contratadas eram do Hospital das Clinicas de São Paulo-HC e o propósito dessa contratação estava na perspectiva de trazer para a Junta um olhar diferenciado.

do manicômio, assistente social, enfermeira e um psicólogo” (Assistente Social)74.

Esse ambulatório seria o embrião do CAPS, oficialmente fundado em 2000. Em abril de 1998, ocorreu o 1º Seminário de Saúde Mental em Sobral com a proposta de discutir novas ações para o município vislumbrando a criação de um Programa de Saúde Mental75.

A data de criação do primeiro CAPS em Sobral está envolto em informações controversas. De acordo com o Relatório da Secretaria de Saúde e Assistência Social do dia 21 de fevereiro de 2000 já havia um CAPS em funcionamento no dia 4 outubro de 1999, data da morte de Damião. Consta a seguinte informação no relatório citado:

Às vinte horas do mesmo dia, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Sobral foi comunicado pela Enfermeira Sandra Maria Carneiro Flôr, da Coordenação de Vigilância à Saúde, que havia ocorrido um óbito na Casa de Repouso Guararapes. A família foi procurada para auferirem-se maiores detalhes sobre o ocorrido. Diante do que foi relatado e da consternação da família em face das circunstâncias do óbito orientou-se à Sra. Albertina Viana Lopes que, se fosse do seu desejo, ela poderia comparecer à Coordenação Municipal de Controle e Avaliação de Sobral para proferir denuncia contra a Casa de Repouso Guararapes76 (p.1)

Uma ferramenta utilizada constantemente para obter dados para a minha pesquisa tem sido as “redes sociais”. Em 2013, me retirei da cidade por motivos profissionais, mas devido à construção de uma rede de relações pessoais nos três anos em que lá permaneci, mantive contato frequente com profissionais da RAISM, com ex-alunos e ex-alunas aos quais pude recorrer sempre que surgiram dúvidas durante a minha escrita. Esses contatos constantes foram frutíferos no sentido de que me mantiveram atualizada sobre novas ações empreendidas pela Rede e acontecimentos que envolviam o meu campo de pesquisa. Retornei à cidade algumas vezes, mas as viagens tornaram-se cada vez mais inapropriadas devido aos custos e também à falta de tempo. Daí, alguns dos interlocutores sugeriram a utilização do “facebook” para a continuidade das entrevistas, “envia as perguntas

74 Francisca Lopes é Assistente Social, concursada da prefeitura de Sobral e atua na Rede desde 1997: fez parte da equipe de intervenção do manicômio, foi a primeira coordenadora da RAISM, foi coordenadora da Escola de Saúde da Família, atualmente é coordenadora da célula de “Educação Permanente” voltada para a capacitação dos profissionais da Rede que funciona na Escola de Saúde da família.

75 Retomaremos essa discussão no último capítulo da tese

76 Não há nenhum relato ou documento de trate da denuncia de Irene ou de sua mãe no órgão indicado acima.

pelo face que eu respondo” e, por diversas vezes, utilizei essa via de acesso às informações.

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