É já amplamente reconhecido que o conceito de género não deve ser entendido como o sinónimo de sexo, visto que sexo e género são categorias distintas. Assim, enquanto o sexo remete somente para diferenças físicas e biológicas entre homens e mulheres, correspondendo a uma distinção geneticamente determinada e universal (Vintém et al., 2008), o género é construído socialmente e distingue o que é masculino do que é feminino, e, portanto, esta categoria tem diferentes compreensões e interpretações consoante a sociedade e o contexto social em que os indivíduos estão inseridos (Rodrigues, 2011). Deste modo, o género abrange mais do que o conceito de sexo visto que diz respeito à produção cultural feita em torno das diferenças biológicas e a noções socialmente construídas de feminilidade e masculinidade, salientando diferenças sociais entre homens e mulheres (Connell, 2005).
Para Anália Torres et al., o género “remete para a diferenciação das categorias sociais do masculino e do feminino, diferenciação social essa que, partindo das diferenças biológicas existentes entre homens e mulheres, se constitui como ideologia ou construção cultural que define, para contextos sociais específicos, os comportamentos e atitudes adequadas ao feminino e ao masculino” (Torres, Brites, Mendes e Lapa, 2002, p. 1, cit. in Vintém et al., 2008, p.4). Portanto, as diferenças psicológicas e comportamentais entre homens e mulheres não podem ser unicamente explicadas por fatores biológicos, ou seja, pelo sexo dos indivíduos, mas devem ser entendidas como resultado de construções sociais que justificam e influenciam características e comportamentos de género estereotipados a partir de valores, normas e ideologias culturais sobre o que significa ser homem e mulher (Rodrigues, 2011).
Então, existe um conjunto de características de personalidade, interiorizadas pelos indivíduos, que são socialmente adequadas à sua identidade de género. Assim, os estereótipos em torno da feminilidade levam a que as mulheres sejam associadas a características como a passividade, fragilidade, afetividade e sensibilidade, enquanto os homens são associados a características como a força, coragem, virilidade, racionalidade e autoridade (Rice et al., 2011). Logo, as mulheres são associadas com traços mais expressivos num contexto interpessoal, enquanto os estereótipos dos homens tendem a ser centrados em traços instrumentais em contextos de realização, e assim os homens são percebidos como mais racionais e as mulheres como mais emotivas (Sigmon et al., 2005), existindo uma maior valorização das características atribuídas aos homens.
Estas construções culturais em torno da masculinidade e da feminilidade são resultado da aprendizagem social, apreendidas desde cedo através da socialização inicial, que desempenha um papel fundamental, e que ensina os indivíduos a ter atitudes e comportamentos apropriados para o seu sexo, neste sentido, ser homem ou mulher diz respeito ao desempenho de um conjunto de expectativas ligadas ao status biológico dos indivíduos (Connell, 2005); e apesar de existirem diferenças entre culturas e sociedades, geralmente são colocadas restrições e especificidades relativamente ao comportamento adequado para homens e mulheres (Bussey e Bandura, 1999, in Broderick e Korteland, 2002). Isto é, as crianças aprendem desde cedo o comportamento adequado através dos modelos observados, pelo que lhes foi ensinado pela família e grupo de pares e pela forma como os outros respondem ao seu comportamento. Logo, os estereótipos em torno género determinam os comportamentos e atitudes socialmente admitidos e adequados para os indivíduos, levando a que adotem com maior frequência comportamentos apropriados ao seu género, bem como limita a variabilidade de comportamentos disponíveis (Immerman e Mackey, 2003), portanto não é a biologia que dita como se comportam homens e mulheres.
Relativamente ao papel de género masculino, o que se nota é a existência de uma masculinidade ideal e dominante na sociedade - a masculinidade hegemónica. Este termo foi utilizado pela primeira vez por Robert Connell (1995), e corresponde ao tipo de masculinidade dominante numa sociedade. Esta define uma série de características, identidades, discursos, normas e um padrão de comportamentos, realizados na ação social, às quais se esperam que os homens correspondam (Connell e Messerschmidt, 2013). Segundo Collier (198, p.21, cit.in Connell e Messerschmidt, 2013, p.256), a masculinidade hegemónica é “uma gama de ideologias populares do que constitui um ideal ou verdadeiras características do que é ‘ser homem’”, sendo assinalada por características como a demostração de autoridade, força e agressividade.
Esta masculinidade corresponde a uma masculinidade normativa e dominante, e à forma mais honrada de ser homem, legitimando a dominação dos homens na sociedade e a subordinação das mulheres - o patriarcado18; bem como se distingue das outras masculinidades existentes,
levando a uma hierarquia entre masculinidades, pelo que presume a subordinação de masculinidades não hegemónicas (Connell, 2005; Connell e Messerschmidt, 2013). Isto é, a masculinidade hegemónica subordina as mulheres, mas também as masculinidades que não correspondem a este modelo de masculinidade.
Assim sendo, a masculinidade e a feminilidade dos indivíduos devem ser comprovadas através dos seus comportamentos, contudo, a masculinidade é mais difícil de confirmar do que a feminilidade. Então, os homens confirmam a sua masculinidade através de comportamentos e atitudes híper-masculinos, visto que a sua masculinidade deve ser constantemente reafirmada
e confirmada ao longo da vida. Portanto, todas as características e comportamentos que não correspondam ao padrão da masculinidade hegemónica devem ser evitados pelos homens, pois são considerados não masculinos e tipicamente femininos e, portanto, inferiores. Isto é, a masculinidade hegemónica leva os homens a evitarem os modelos da feminilidade, visto que este padrão de masculinidade é socialmente definido em contraste com este modelo (Connell, 2005), pelo que as características ditas como tipicamente femininas não devem fazer parte do seu comportamento. Tal comportamento implica que não expressem vulnerabilidade, dependência e intimidade emocional (Zartaloudi, 2011). Portanto, os comportamentos adotados pelos homens são motivados, em parte, pelas normas sociais, visto que estes são comportamentos solicitados para o desenvolvimento e manutenção da sua masculinidade, e como tal não devem ser entendidos como algo natural à condição de ser homem (Augusto, 2013).
Esta construção da identidade de género masculina e do comportamento de género é reforçada e intensifica-se principalmente na fase da adolescência, devido à pressão dos pares, levando a uma inclinação dos jovens para práticas e comportamentos de risco em diversos contextos, pois nesta fase existe uma necessidade dos indivíduos definirem os seus comportamentos e uma maior pressão para se conformar às normas masculinas, e deste modo conseguirem ganhar e manter o seu estatuto perante os outros o que permite que se estabeleça a reputação masculina no contexto de grupo (Massad, 1981, in Rice et al., 2011; Connell e Messerschmidt, 2013; Raposo, et al., 2016).
Todas estas conceções em torno do género levam a que homens e mulheres tenham poderes, normas, papéis e expetativas sociais diferenciadas, e, portanto, a socialização de género afeta de modo distinto homens e mulheres (Hamberg, 2008). Ou seja, o sexo dos indivíduos atua como um status mestre que leva os indivíduos a terem papéis específicos de género, diferentes expetativas (Hughes, 1945; Angrist, 1969, in Gove e Tudor, 1973; Wisdom et al., 2007), bem como diferentes atitudes e comportamentos. Estas diferentes características, papéis e expetativas levam à existência, e justificam muitas vezes, as desigualdades existentes entre homens e mulheres, nomeadamente desigualdades salariais ou diferentes responsabilidades no cuidado com os filhos (Connell, 2005). Estas desigualdades de género estão estruturadas na sociedade e como tal refletem-se em todas as áreas do social (Vintém
et al., 2008).