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3.4 Column results

3.4.1 Euler buckling

Meu corpo, não meu agente, meu envelope selado, meu revólver de assustar, tornou-se meu carcereiro, me sabe mais que me sei. [...] Meu corpo inventou a dor a fim de torná-la interna, integrante do meu Id, ofuscadora da luz que aí tentava espalhar-se. [...] Meu corpo ordena que eu saia em busca do que não quero, e me nega, ao se firmar como senhor do meu Eu convertido em cão servil. [...] Se tento dele afastar-me, por abstração ignorá-lo, volto a mim, com todo o peso de sua carne poluída, seu tédio, seu desconforto. (ANDRADE, Carlos Drummond de, 1984, p. 56)

Mas, o que é o corpo? Podemos começar destacando o artigo O Ego e o Id, de 1923, quando Freud afirma que “o ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície” (FREUD, 1923/1996, p. 39). Assim, o ego corporal freudiano nos dá a ideia de um eu que se faz em uma troca de experiências corporais e que, apesar de ter como base primordial as marcas das necessidades vitais do corpo como organismo, gradativamente se afasta delas para registrar suas significações e traçar seus destinos para esse que agora se tornou um corpo.

O marco inaugural de Freud apresenta um corpo distinto do corpo biológico ou do orgânico, ao mesmo tempo em que o considera como um corpo habitado pela linguagem:

lugar onde se tece a trama das relações entre o somático e o psíquico, estruturando a linguagem própria do inconsciente. O surgimento desse corpo se dá quando o ego encontra sua primeira estruturação unitária no registro da imagem, que pode, por isso, ser investido como objeto de amor. Em Dolto (1984), a imagem do corpo tem, então, um papel de suma importância na constituição psíquica da existência humana e na construção feminina. Ideia de imagem do corpo que é, acima de tudo, definida por uma construção histórica e inconsciente das vivências corporais mais primitivas do sujeito.

Para a psicanálise o corpo se apresenta na dimensão do discurso, sendo também a condição de existência desse discurso – “o corpo se faz sintoma e esforça-se por dizer o que não pode ser dito”, escreve Diniz (1997, p.87). Percebi durante a pesquisa, aliás, já no início do processo, que pende sobre o mal-estar um corpo docente que muitas vezes vai se tornar um corpo doente. Sem a possibilidade de nomear o que sentem, as professoras, antes de qualquer palavra, apresentam-nos um corpo. Corpo curvado de roupas apagadas pelas cores frias que usualmente vestem. Cabelos presos, unhas curtas com cutículas preservadas pelo pó de giz que faz das mãos mais secas. A sensação é a que vem de admirar uma fotografia emoldurada pelas paredes, ora cinza, ora marrom, das escolas nas quais trabalham. E quando ganha som, o corpo fala de vários sentimentos misturados, de muito cansaço e queixas de um corpo dolorido.

Diniz (1997), ao discorrer sobre o mal-estar docente, aponta-nos a escola como lugar de um mal-estar que acaba por se fazer presente e potente exatamente pelo fato de não haver espaço no ambiente escolar para que esse assunto possa ser tomado e falado pelo corpo docente. Explica a autora que essa negação, pela escola, tem consequências: "a instituição, quando sutura o mal-estar, transforma-se [ela mesma] em fonte de mal-estar" (DINIZ,1997, p. 86). Mal-estar esse, sentido, legitimado, escondido, falado e também calado por um corpo.

E mais uma vez nos perguntamos: O que é um corpo? O que faz um corpo? Para que serve um corpo – um corpo nosso que é poroso, que é atravessado em todas as partes e de inúmeras maneiras, que se afeta e é afetado? Como poderíamos definir o corpo hoje? Ele que é não só nossa conexão com o mundo, mas o nosso próprio “eu”, constituído de pele, carne, osso e tudo mais que nos atravessa, todas as informações que nos devoram, todas as imagens que queremos ser – e também não queremos – e ainda todas as marcas do que vivemos. Ele que expressa o sujeito diante de um todo, ele que é moldado e manipulado por todas as relações sociais.

É em consequência do olhar estético que o corpo se faz objeto. É a partir do que vejo no Outro que o transformo em objeto, quando crio sobre ele uma percepção estética. Não

existem maneiras de se distanciar dessa percepção, pois “para que não haja nenhum risco de sua desaparição, o corpo é necessariamente tratado como objeto” (JEUDY, 2002, p.29). Será que só passamos a existir como corpo quando ele se torna objeto, e só se torna objeto o corpo visto pelo Outro?

“O corpo” aparece como um meio passivo sobre o qual se inscrevem significados culturais, ou então como o instrumento pelo qual uma vontade de apropriação ou interpretação determina o significado cultural por si mesma. Em ambos os casos, o corpo é representado como instrumento ou meio com o qual um conjunto de significados culturais é apenas externamente relacionado. (BUTLER, 2003, p.27)

Isso possibilita a criação de rotulações para o corpo, visto que se o corpo é um instrumento, ele tem determinada serventia. Dessa forma, amplia-se a possibilidade de surgirem imagens inventadas, como, por exemplo, o corpo colocado em função de ter filhos ou o corpo colocado na função da conquista sexual, e assim por diante.

O corpo está cada vez mais qualificado, mensurado, avaliado e hierarquizado face às gestões do comportamento. Não é isso mesmo que nos dizia Foucault? O homem, durante milênios, permaneceu como o homem concebido por Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz de existência política; o homem moderno é um animal, em cuja política, sua vida de ser vivo está em questão (FOUCAULT, 1984, p.134). Uma política que consiste em um trabalho sobre o corpo, em uma manipulação calculada dos seus elementos, gestos e comportamentos. O corpo entra em uma maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Corpos magros, gordos, tatuados, saudáveis, doentes: sempre temos o que dizer e prescrever sobre eles.

Esse corpo é aparelhado por uma linguagem. Para a psicanálise, a desarmonia do sujeito com o seu corpo se situa no impossível de dizer, em uma dimensão inconsciente que chamamos de real. O corpo é afetado pela linguagem. “A fala, com efeito, é um dom de linguagem, e a linguagem não é imaterial. É um corpo sutil, mas é corpo.” (LACAN, 1988, p. 302). E o corpo conquista a sua verdadeira unidade pela entrada da palavra na linguagem. As palavras são tiradas de todas as imagens corporais que capturam o sujeito. Cada um lida com as marcas primordiais sobre seu corpo, a partir das palavras ditas ou não. O corpo, construído como corpo simbólico, é diferente do corpo biológico – um corpo que é colocado na ordem de alguma administração, da burocracia. O corpo simbólico faz com que o corpo real nele se incorpore.

Lacan (2003), com a formalização da topologia dos três registros: real, simbólico e imaginário, articula o corpo ao imaginário – o corpo como uma imagem –, ao simbólico – o corpo marcado pelos significantes – e ao real – como substância de gozo. Pode-se dizer que o corpo para a psicanálise se constitui com a história do sujeito, e é por isso que o corpo é um acontecimento do significante. “O corpo, a levá-lo a sério, é para começar aquilo que pode portar a marca adequada para situá-lo numa sequência de significantes.” (LACAN, 2003, p. 407)

É possível questionar, então: por que sendo o corpo simbólico, insistimos em discursos que o aprisionam a uma condição biológica? Como este corpo particular, singular, que é afetado e afeta os outros, instala-se na escola? De que forma se constitui o corpo de uma escola? Aqui, vamos pensar o corpo como esse lugar de instalações significantes. Um corpo tatuado pelo mal-estar docente, um corpo marcado pelos traços anatômicos que lhe conferem um gênero. Um corpo simbólico, um corpo do(c)ente, dolorido, como ouvi nos relatos ocorridos durante a pesquisa. É como se a lembrança de ter um corpo viesse pelo registro da dor – “meu corpo só existe quando dói”, fala que me marcou e me impactou no percurso do trabalho.

Concordo com Jeudy (2002) que a dor é um elemento fundamental para sentirmos nossos próprios corpos “e, com frequência, é a dor que parece nos fazer sentir a realidade tangível de nosso corpo” (JEUDY, 2002, p.15). Afirmo isso com a intenção de pensar a relação existente entre o corpo doente e o corpo docente nos espaços da educação. Dores físicas ou mentais são sintomas trazidos, com frequência, no discurso do corpo docente das escolas.