Entre seus contemporâneos, Varnhagen, foi reconhecido como um homem de estilo, segundo a acepção que a palavra tinha à época.
Talvez a primeira referência às qualidades estilísticas dos textos de Varnhagen tenha sido feita pelo conde D. Francisco de São Luiz, que avaliou as Reflexões Críticas68 a pedido da Academia Real de Ciências de Lisboa. Afirmava ele que Varnhagen escrevia de modo
67 VARNHAGEN, 1877, p. XII-XIII (Prólogo).Escuta-se nas afirmações de Varnhagen uma ressonância das
colocações de Políbio acerca da diferença entre a história e a tragédia, para quem: a tragédia procurava “aturdir e fascinar os ouvintes no tempo presente”, a história visava “através das ações e discursos verdadeiros, para todo o tempo, instruir e convencer quem deseja aprender”. Cf. Políbio apud. HARTOG, 2001, p. 119.
68 Trata-se das Reflexões redigidas por Varnhagen sobre a obra de Gabriel Soares de Souza e publicadas com
o título de Noticia do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, no tomo III da Collecção das noticias para a
106 “claro e conciso, e com erudiçam curiosa, opportuna, e nam enfastiada”.69 Ou seja, segundo o conde, o texto de Varnhagen, além de demonstrar, na medida certa, erudição, guardava as virtudes de ser “claro e conciso”. D. Francisco, por sua vez, fazia uso dos instrumentos de crítica literária então reconhecidos como válidos, empregando os critérios da clareza e da concisão para sua avaliação.
Desses mesmos critérios lançou mão, em 1851, Joaquim da Costa Cascaes, antigo colega de Varnhagen no Real Colégio Militar da Luz.70 Nas páginas da Revista Universal
Lisbonense, Cascaes publicou uma apreciação do Florilégio da poesia brasileira e avaliou
o texto introdutório, intitulado Ensaio histórico (...), como “escripto em estilo conveniente”.71 Para Cascaes, Varnhagen escrevera o Ensaio histórico de forma apropriada ao assunto tratado: fora hábil ao lançar mão de corretos recursos estilísticos para o gênero em questão.
Na edição do segundo volume da HGB de 1857, Varnhagen acrescentou, ao final do volume, um Post scriptium, onde declarava: “Não podéra soltar das mãos este volume, sem o acompanhar da manifestação da minha gratidão aos que mais me favoreceram depois da publicação do primeiro (...)”. Nessas avaliações, o estilo de Varnhagen apareceu várias vezes elogiado: Humboldt reconhecia que “mème les ornements artistiques ne lui manquem pas”; Gonçalves Dias declarava que “achei o estylo optimo”, enquanto Rebello da Silva afirmava que a obra tinha valor e demonstrava “as qualidades do escriptor” que:72
Pintando de vista, mas com tacto e o vigor conciso do observador, que sabe olhar e reproduzir ... soube ligar o discriptivo imaginoso com a exposição authentica da verdade dos factos. Mas sua phantasia, ornando a verdade, aviva-a, não a desflora; e sem esquecer o plano da obra, e as proporções que lhe prescreve o espaço limitado, offerece-nos um painel acabado, que a erudicção adopta; porque as bazes são as mais seguras, e que o gosto não pode deixar de acolher, porque narração tocada de certa graça campestre e pittoresca, entra pelos sentidos, convencendo ao mesmo tempo a intelligencia.73
69 SÃO LUIZ apud RODRIGUES, José Carlos de, 1873, p.110.
70 Joaquim da Costa Cacaes foi colega de Varnhagen pelo menos em três anos do curso do Real Colégio
Militar, conforme se pode ler nos livros de Matrícula dos alunos referentes ao segundo, terceiro e quarto anos. Cf. Matrícula dos Alumnos do 2º Anno lectivo, livro I; Matrícula dos Alumnos do 3º Anno lectivo, livro I; Matrícula dos Alumnos do 4º Anno lectivo, livro I.
71 CASCAES, 1851, p. 431-432.
72 VARNHAGEN, 1857, s/p (Post scriptium).
73 VARNHAGEN, 1857, s/p (Post scriptium). Varnhagen fez questão de destacar a importância intelectual
dos homens que avaliaram sua obra: lembrava aos leitores que Humboldt era “o rei das sciencias no século XIX” e que Rebello da Silva era em Portugal “um dos primeiros litteratos e publicistas”.
107 A avaliação de Rebello da Silva é significativa porque explicita como as qualidades do escritor foram usadas para o bem do historiador: fora o correto “discriptivo imaginoso” que permitira a Varnhagen alcançar a “exposição authentica dos factos” – a “phatansia” ornava e avivava “a verdade”. Ou seja, o emprego adequado das ornamentações permitira a Varnhagen expor de forma duplamente eficiente, pois atingia os “sentidos” e a “inteligência”. Rebello valorizava o texto varnhageniano em termos de sua capacidade de, fazendo uso de “certa graça campestre”, ser eficaz sem, contudo, afrontar a verdade – e sim, pelo contrário – de torná-la mais real.
No último quartel do XIX, Capistrano de Abreu afirmava haver na HGB “muito pensamento e muita idea que esclarece de modo feliz factos antes percebidos de modo imperfeito”. Mas ponderava que, se isso não era reconhecido, “em parte deve attribuir-se a não ter sido a Historia Geral estudada com a attenção que merece, em parte á falta de aptidões artisticas em nosso historiador”.74 E o que seria essa falta de aptidão artística? Muito provavelmente estaria no fato de Varnhagen oscilar, na avaliação de Capistrano, entre uma tendência à crônica e à história e, para Capistrano, a história não era, diferentemente da crônica, uma simples compilação de fatos:
A obra de Varnhagen, por exemplo, tem incontestavelmente muito de chronica, mas abunda em paginas que revelam muita perspicácia, contém observações e vistas que escapariam a qualquer intelligencia oridinaria, possue, sem contestação, também o caracter de historia.75
Entretanto, Capistrano julgava que Varnhagen poderia “apresentar obra melhor, si (...) não lhe faltassem aptidões artísticas: isto é, si elle fosse capaz de ter uma intuição do conjunto, imprimir-lhe o sello da intenção e mostrar a convergencia das partes”.76 Capistrano explicava que Varnhagen: “na distribuição das materias, quase nunca tomou como chefe de classe um acontecimento importante, mas factos muitas vezes inferiores, demissões de governos, tratados feitos na Europa, mortes de reis, etc.”; e afirmava ainda que a Varnhagen faltara sensibilidade para perceber as feições próprias de cada etapa distinta da história do Brasil:
Sob as mãos de Varnhagen, a historia do Brasil uniformiza-se e esplandece; os relevos arrazam-se, os característicos misturam-se e as côres desbotam. Vê-se uma
74 ABREU, 1931, p. 203, 204. (b). 75 ABREU, 1931, p. 203. (b). 76 ABREU, 1931, p. 205. (b).
108
extensão, mas plana, sempre igual, que lembra as paginas de um livro que o brochador descuidoso repete.77
Capistrano sugeria, na seqüência, uma divisão da história do Brasil em seis períodos e afirmava, que eles “apresentam entre si, ao lado de feições congêneres, caracteres que os separam pronunciadamente”. Julgava, então, que: “estes caracteres (...) Varnhagen não os soube distinguir. É o defeito fundamental do seu livro”.78 Ou seja, para Capistrano, Varnhagen “não nos deu coisa que, ao menos de longe lembre a arte”, porque escrevera muito em forma de crônica.79 A falta de arte que Capistrano atribuía a Varnhagen estava na diferença entre a sua concepção do que deveria ser uma obra de história e a do autor da
HGB.
No início do século XX, a falta de arte em Varnhagen, apontada por Capistrano, foi analisada como falta de estilo. Vejamos dois exemplos. Em 1903, Oliveira Lima afirmou que Varnhagen não fora um artista, porque não soubera conjugar “a sagacidade da verificação com o talento da exposição, alliar a circumspecção do pesquizador á habilidade do narrador”. Acreditava que Varnhagen não possuíra as “galas do estylo” e que não era “um estylista (...)”, pois escrevia sem garbo, sem elegância, sem brilho; considerava ainda que os textos de polêmica de Varnhagen eram fracos de argumentação, enfadonhos e marcados pela “ausencia de todo cunho artistico”.80 Oliveira Lima procuraria explicar o estilo de Varnhagen e afirmaria que o historiador era um “sizudo cronista militar”, que escrevia “à velha moda portugueza, sem adubos nem temperos francezes”.81 Como cronista, narraria seqüencialmente os acontecimentos; como militar, que era por formação, seria duro e sizudo. Interessante é que Varnhagen explicitamente declarava, inclusive para seus leitores, que escrevia como um “imparcial e sizudo” juiz.
Em 1923, Celso Vieira afirmou que Varnhagen fora um “adorador de Buffon e de seus conceitos”, inclusive aqueles relativos à importância do estilo.82 Em sua opinião,
77 ABREU, 1931, p. 206. (b). 78 ABREU, 1931, p. 208, 209. (b). 79 ABREU, 1931, p. 211. (b).
80 LIMA, 1903, p. 10/15/19/27. O texto de Varnhagen, ao qual se referia Oliveira Lima, é Os indios bravos e
o Sr. Lisboa, publicado em 1867. Varnhagen nele defendia suas idéias sobre os indígenas brasileiros,
contrapondo-se às argüições postas por João Francisco Lisboa, em seu Jornal do Timon.
81 LIMA, 1903, p. 38.
82 Sobre a origem do texto de Celso Vieira, sabe-se que foi pronunciado no Gabinete Português de Leitura, a
17 de fevereiro de 1923. Procede de Rocha Pombo a informação de que o texto de Celso Vieira foi originalmente um discurso: “Mas quanto ao nosso Patrono [Varnhagen] ides ouvir daqui a momento a palavra
109 Varnhagen preocupava-se com a forma, mas não tinha efetivamente “galas de estilo”. Vieira recupera a assertiva de Varnhagen – “pelo brilho e ornato do estylo não levamos pois a menor pretensão de campear. Irão os períodos muitas vezes como foram de primeiro jacto concebidos, em presença dos documentos estudados”83 – para afirmar que Varnhagen manifestava desprezo com relação ao estilo, mas que isso não passava de dissimulação, para escamotear sua incapacidade estilística. Interessante novamente é que Celso Vieira reconhecia no estilo de Varnhagen “a solidez, o decoro, a clareza” – todas as qualidades estilísticas destacadas e elogiadas pelos contemporâneos de Varnhagen, mas que então passam a ser consideradas como defeitos.
Na década de 1960, José Honório Rodrigues interpretaria de um outro modo a “dissimulação” identificada por Celso Vieira. Segundo Rodrigues, “a arte da exposição de Varnhagen (...) é fruto da sua ideologia e concepção da história”.84 Como um homem do pensamento conservador, Varnhagen odiava toda manifestação de inconformismo, condenava o republicanismo, defendia sempre a atuação civilizatória realizada pela colonização portuguesa – era um monarquista convicto. Contudo, segundo Rodrigues, ele ocultava toda sua atitude parcial e mesmo preconceituosa. Exemplificava sua afirmativa recordando que, por exemplo, Varnhagen diminuíra os méritos de José Bonifácio no processo da independência, mas que “sua gravidade e compostura conseguiam ocultar o ódio que alimentava pelo parecer escrito por José Bonifácio depois de sua visita à Fábrica de Ipanema, em 1820, cheio de críticas à administração de Varnhagen pai”.85 Rodrigues atrelava a ideologia de Varnhagen a sua “arte de exposição”. Ou seja, interpretava a dissimulação como uma estratégia adotada por Varnhagen: a aparência grave do historiador não permitia a seu leitor perceber seu preconceito – o leitor ficava com a certeza de que
fulgurante do nosso digno orador official”. Cf. ROCHA POMBO, 1923, p. 25. Pode-se presumir que o texto do discurso é o mesmo que aqui se analisa, pois Celso Vieira era o primeiro vice-presidente do Instituto Varnhagen que se criava. Sobre o Instituto Varnhagen, nada foi apurado. Contudo, Rocha Pombo, na qualidade de seu presidente perpétuo, pronunciou um Discurso Inaugural na sessão de instalação. Afirmava, então, que a história era a “mais edificativa de todas as sciencias” e que aqueles que “não tem o senso da Historia esquecem o passado tambem pode dizer-se que negam o futuro”. Cf. ROCHA POMBO, 1923, p. 35, 33. O Instituto se propunha a ser um centro cuja missão seria a “rehabilitação cívica” do país por meio da “revivescencia da nossa cultura historica”. ROCHA POMBO, 1923, p. 39.
83 VARNHAGEN, 1877, p. XII. (Prólogo). 84 RODRIGUES, José Honório, 1967, p. 189. 85 RODRIGUES, José Honório, 1988, p. 3-17.
110 realmente Bonifácio fora um personagem de menor importância na independência do Brasil.
José Honório desnudava, assim, uma estratégia discursiva de Varnhagen, uma estratégia de dissimulação, empregada para persuadir seu leitor de seu ponto de vista partidário. Em seus prefácios, Varnhagen apresentava-se como o tribuno a pronunciar a verdade. Ele desejava que seus leitores tivessem essa convicção: o historiador apresentava seus veredictos com a mais pura imparcialidade, a partir do que havia encontrado na documentação. Isso não significa que Varnhagen não lançasse mão de “ornamentos” para compor a HGB. Mas, para seu leitor, ele enfatizava que o estilo da história não podia ser o eloqüente e florido – e como não podia ser, Varnhagen garantia que não o havia empregado. Afinal, apenas o estilo sério, prudente e discreto – o discurso do juiz – poderia bem anunciar as verdades reveladas pela pesquisa erudita do historiador. Tratava-se de uma escolha, de uma estratégia estilística premeditada.
Já se afirmou que a obra de Varnhagen é “monolítica”.86 O que se acrescenta é que Varnhagen também foi o mesmo em suas preocupações com o domínio da palavra. Para seus leitores, ele assegurava, conforme enfatizava, escrever sem afetação, sem vícios de linguagem, sem ornamentações, como o sentenciador da verdade histórica. Talvez Varnhagen tenha sido feliz em seus efeitos pretendidos, apesar de a crítica especializada não os avaliar nessa direção. Vejamos um exemplo. No final da década de 1970, Nilo Odália denunciava que no campo da criação literária “faltava [a Varnhagen] o espírito de fineza para ser um literato” e que “em suas obras históricas o estilo é pesado e monótono”. Compara o estilo de Varnhagen ao de um botânico, “descrevendo espécime raro da flora, a mesma aridez, o mesmo distanciamento”, sem nenhum tipo de atrativo capaz de segurar seu leitor, o que denunciaria “graves limitações literárias”. Odália afirmava ainda que “seu estilo é o de um erudito”.87 Só que para Odália, isso aparecia como defeito.
Parece novamente razoável supor que Varnhagen seguia, também nesse aspecto, prescrições vindas de uma longa tradição. Se voltarmos aos escritores da Antigüidade,
86 A afirmativa é de Arno Wehling, para quem: “A vasta obra de Varnhagen iniciou-se no final da década de
1830 estendeu-se até o ano de sua morte, 1878. É uma obra monolítica, no sentido de que nela não se encontram fases ou etapas sucessivas; o que existe é um interesse multifacetado (...)”. WEHLING, 1999, p. 47.
111 poderemos encontrar vários deles prescrevendo sobre a forma da escrita da história. Políbio preceituava que a história era um gênero que tratava “das ações dos povos” e “dos fatos” e que, diferentemente da tragédia, encontrava-se inteiramente ao lado “do verdadeiro, visando ao proveito de quem gosta de aprender”. Como um gênero, a história tinha um estilo: ela deveria guardar “uma certa austeridade”.88 Quintiliano preceituava que o historiador deveria escrever como “quem procura não a beleza da exposição, mas a confiança”.89 Já Luciano de Samósata estabelecia que o historiador escrevesse de forma densa e “adequada à vida pública”, numa linguagem que fosse por todos facilmente compreendida, mas que também recebesse elogios dos homens cultos. Quanto aos ornatos, dizia que poderiam ser empregados, desde que não tornassem a linguagem artificial: “que sua expressão caminhe com os pés no chão, elevando-se até a beleza e a grandeza do que se diz e adequando-se a cada coisa o máximo possível”. De qualquer modo, Luciano lembrava que o historiador estava submetido a duas normas. A primeira: comprovar os fatos que narrava, mesmo que ao “ao preço de mil penas e sofrimentos”. A segunda: empregar a linguagem de modo a “explicar claramente os fatos e fazê-los aparecer em plena luz (...)”.90
Se aos leitores de seus prefácios Varnhagen se apresenta como o juiz circunspecto, contudo, a seus correspondentes, ele não cessou de se apresentar como um homem de estilo, que conhecia e manipulava a palavra segundo suas intenções persuasivas e o gênero em questão, ou, simplesmente, como um literato. Em suas cartas é possível encontrá-lo referindo-se a seus mais diferentes escritos como trabalhos de caráter literário. Vejam-se os seguintes casos, dentre inúmeros que poderiam ser arrolados: em 1840, declarava a Januário da Cunha Barbosa que pretendia algum dia (...) emprehender alguma tentativa amena na litteratura Brasileira”91, que no caso dizia respeito à escrita de uma história do Brasil; em 1841, referia-se ao Instituto Histórico como uma “corporação litteraria”92; em
88 Políbio apud. HARTOG, 2001, p. 121/119. 89 Quintiliano apud. HARTOG, 2001, p. 165. 90 Luciano apud. HARTOG, 2001, p. 227/229.
91 Varnhagen in LESSA, 1961, p. 55. Varnhagen encontrava-se no Brasil e de São Paulo escreveu a Januário
da Cunha Barbosa, afirmando estar interessado em, ao ler os documentos encontrados nos arquivos da câmara da vila, “(...) familiarizar-me com differentes pessoas que figurarão em diversas épochas”, para posteriormente escrever uma história nacional.
92 Varnhagen in LESSA, 1961, p. 63. Trata-se de uma carta dirigida a Januário da Cunha Barbosa, então
112 1851, protestava merecer condecorações do Império por suas “locubrações nas lettras”93; em 1867, declarava que a correspondência que mantivera com João Francisco Lisboa tinha “caracter de litteraria”94; em 1874, afirmava não possuir “vaidade litteraria”.95
Contudo, se tivermos em mente a noção de literatura como criação de obras ficcionais ou a filha da inspiração e manifestação do talento individual, não é possível compreender bem o que, para Varnhagen, que falava de produção literária inclusive quando se referia a trabalhos no campo da pesquisa histórica, significava ser um literato. Morais Silva assim define a palavra “litterato”: “adj. Que respeita ás Lettras, sciencias, estudos, erudições. Os homens doutos”.96 Ser um literato seria, segundo a definição, deter o conhecimento de um vasto conjunto de obras e, simultaneamente, possuir o conhecimento das regras de sua composição. Por isso, em Varnhagen, o historiador era também um literato.97
Por fim, certamente é importante devolver-lhe a palavra. Em 1852, ele escreveu a D. Pedro II a seguinte carta:
Meu Senhor! A leitura de uns artigos dos dois primeiros números do Guanabara sobre Berredo, moveu-me de não deixar para mais tarde a solução de uma questão importante acerca da qual convém muito ao pais e ao Throno que a opinião se não extravie, com idéas que acabam por ser subversivas. Submetto, pois, a V. M. a memoria junta, acerca de como se deve entender a nacionalidade brasileira, e a V. M. Imperial fico o Dar-lhe o destino que mais conveniente Julgue. Eu lembro que
93 Varnhagen in LESSA, 1961, p. 168. O texto em questão encontra-se no Arquivo Imperial de Petrópolis,
sem assinatura e sem destinatário. É iniciado assim: “Francisco A. de Varnhagen pediu verbalmente a S. M. Imperial a graça de uma condecoração”, e continua todo na terceira pessoa. Porém claramente foi redigido pelo interessado, conforme destacou Lessa. Cf. LESSA, 1961, p. 166, nota.
94 VARNHAGEN, 1867, p. 8. A frase está no texto publicado por Varnhagen contra os ataques de João
Francisco Lisboa às suas idéias sobre os indígenas brasileiros. Ele transcreveu nesse texto a correspondência mantida entre os dois, no início dos anos de 1850. Tratar-se-ia, segundo afirmava, de uma correspondência a que fora obrigado por dever de ofício e porque lhe fora solicitada. Lembrava que Lisboa fora enviado em missão especial pelo governo brasileiro a Portugal, a fim de recolher documentos referentes à história do Brasil e, não conhecendo os arquivos portugueses, solicitara-lhe ajuda.
95 VARNHAGEN, 1874, p. 10. O trecho está na carta de Varnhagen dirigiria ao IHGB – um Officio Protesto
–, contra a defesa que, na Revista do Instituto, Antonio Henriques Leal fizera das idéias indianistas de João Francisco Lisboa, contra as dele. Dizia tornar público o folheto para se defender.
96 MORAIS SILVA, 1922 (1813), vol. II, p. 231.
97 Já no final de sua vida, em 1874, em carta enviada ao IHGB, ele afirmava ser: “o primeiro a reconhecer em
meus passados escriptos, não só faltas, que eu proprio vou de boa fé descobrindo e revelando, como desigualdades e inferioridades, e ás vezes até afectaçôes de estylo. A muitos outros que valem mais do que eu passou outro tanto. Admitto que hoje mesmo, habituado á gravidade do estylo official, o sigo nos meus ensaios historicos, que por certo se não recommendam pela brilhantez da phantesia. Nem tão pouco o sinto: escrevo de acordo com a lisura do meu caracter e a sinceridade de todo o averiguador consciencioso. Cf. VARNHAGEN, 1874, p. 10-11.
113
poderia, depois de ser lida n’uma sessão do Instituto (onde fosse pela pessoa que V. M. Imperial se Dignar Indicar), entrar n’um dos primeiros números do Guanabara, donde depois a transcrevesse a Revista.
Sei que com esta e outras busco expontaneamente novos trabalhos; mas se alguém se não expõe a elles, dizendo, com abnegação e em bem do paiz, destas verdades, onde iríamos parar?! – A minha vida é do Brazil, que é a minha pátria, e de V. M. Imperial, que me Protege. Cumpre-me pois combater, com as armas que devo a Deus, pelo que julgo em consciência em favor de V. M. I. e do Brazil.98 (grifos do autor)
Em nota a essa carta, Clado Lessa informa que o texto a que Varnhagen fazia referência era a “Introdução à 2ª edição dos Anaes do Maranhão de Bernardo Pereira de Berredo, escrita por Gonçalves Dias em 1849, e reeditada no 1º e 2º números do