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5 Analyse

5.3 Brukerterskel – har systemene god brukervennlighet?

Em São Carlos organizou-se a Comissão Central de Abastecimento. Essa Comissão tinha por finalidade, levantar recursos e organizar a coleta de donativos de todo tipo, como dinheiro, alimentos, combustível, armas, animais, ferramentas e toda espécie de material útil às tropas.

A partir da Comissão Central de Abastecimento organizaram-se setores por todo o município, sendo cada setor responsável pela coleta de um tipo específico de artigo. O setor encarregado da coleta de alimentos e gado ficou sob a responsabilidade do líder da facção dos Botelhos, Bento Carlos de Arruda Botelho, contando com bases de apoio em São Carlos, Ibaté, Água Vermelha, Estação do Monjolinho, Santa Eudóxia e Babilônia.

99 Carvalho, Affonso. Capacete de aço: scenas da lucta do Exército do Leste no Valle do Parayba.

Civilização Brasileira Editora, Ro de Janeiro, 1933.

A saída de alimentos era estritamente controlada pela Prefeitura, principalmente no tocante a alimentos de primeira necessidade como cereais, sal, açúcar, etc, sendo os comerciantes e agricultores expressamente proibidos de enviá-los para fora sem autorização. Esse controle estrito dirigiu-se também a artigos como gasolina, querosene, chumbo, óleos lubrificantes, nitrato e cloreto de potássio. Esses materiais tinham que ter seus estoques declarados pelos comerciantes na Prefeitura, só podendo vendê-los com autorização, porém o nitrato e o cloreto de potássio bem como o arame farpado, tinham que obrigatoriamente ser entregues à Comissão de Explosivos, Cadastro e Mobilização Industrial.

O Correio de São Carlos, no dia 30 de julho, publica a seguinte nota: "A exemplo do que já foi feito em outras cidades do nosso Estado, a Prefeitura vai proibir, nesta cidade e no município, o trânsito de automóveis particulares, salvo os de médicos em serviço profissional. Apesar de ser ainda muito abundante no Estado o estoque de gasolina, torna-se perfeitamente explicável e muito louvável a medida de economia que vai ser posta em prática pelo nosso digno e operoso Prefeito, porque a ninguém é dado prever o tempo de duração da luta em que estamos empenhados". Em julho, o prefeito Militão de Lima recebe telegrama do Dr. Erasmo de Assunção Filho, chefe do Departamento das Tropas em Operação, solicitando que se procedesse à vistoria e à avaliação de todos os carros particulares ou de aluguel, para que estivessem prontos em caso de necessidade.

Essas medidas eram necessárias, pois o Estado estava isolado com toda a divisa cercada pelas tropas federais e o litoral bloqueado pela Marinha de Guerra. Apenas ao sul da divisa com o Mato Grosso havia acesso, mas esse estado aliado era demasiadamente pobre pra que pudesse contribuir de maneira efetiva, apesar de ter doado grandes rebanhos de gado para abastecer as tropas paulistas.

Foi imposto pelo governo do Estado o tabelamento de preços dos produtos de primeira necessidade. Essa medida visava coibir a especulação com os preços, evitando que a população fosse prejudicada.

A Força Pública da cidade também teve papel atuante, trabalhando fortemente na arrecadação de artigos como: zinco, ferro fundido, níquel, chumbo e outros materiais empregados com finalidade bélica.

A Prefeitura emitiu comunicados, através da imprensa, convocando os cidadãos, lojas de armas e empresas de transporte que possuíssem carabinas "Winchester 44", a enviar em 48 horas a relação dessas armas e munição.

Por ordens do governo do Estado, a prefeitura também comunicava que os criadores que tivessem condições deveriam contribuir com cavalos para a cavalaria das tropas baseadas em Minas Gerais, no que foi prontamente atendida, pois muitos animais foram cedidos. Em seu discurso “A Lavoura em Guerra” onde conclama os fazendeiros a empreenderem maiores esforços, um rico fazendeiro são-carlense afirma: “Um dos mais opulentos lavradores do nosso Estado, quando o administrador de suas fazendas, veio lhe perguntar que cavalos mandava à linha de fogo, respondeu: ‘meus filhos e genros partiram para a linha de fogo e você vem me perguntar que cavalos escolhe?’”.101

Na Escola Normal foi instalada uma seção da Cruz Vermelha dedicada ao preparo das ataduras e de outros materiais aos hospitais de sangue, ali também funcionou uma escola de enfermagem, enquanto no Tênis Clube a Cruzada Roupa Branca confeccionava grandes quantidades de peças de roupas brancas e agasalhos para os soldados. Na Escola Profissional eram feitas as caixinhas para munição, que depois eram transportadas em lombos de burros, e ali também eram torneadas cápsulas para a bala de canhão.

Em depoimento ao jornal A Cidade (08/071957), João Neves Carneiro, secretário de governo do prefeito Militão de Lima ao longo de sua gestão, recorda-se: (...) merece especial referência o Batalhão de Escoteiros ‘Pedro de Toledo’, que dia e noite se encarregava da execução de diversas tarefas como (...) organização de donativos para a Revolução, prestar serviços junto ao gabinete do Prefeito e Secretaria da Prefeitura, e assistência às instituições de caridade e outros encargos.

Quando desfilavam pelas ruas da cidade arvorava um enorme dístico, com esta inscrição: ‘Se for preciso, nós também iremos’ (...)”. 102

O são-carlense Ricardo Gonçalves recorda-se que “o orgulho dos pais era ter o filho como escoteiro, tinha mais ou menos 350, era bonito, a gente desfilava e as pessoas que tomavam conta da gente eram pessoas de muito respeito, sabiam o que era bom pras crianças, era muito bonito, eu me sentia orgulhoso (...) o escoteiro

101 Correio de São Carlos 24/08/1932

102 Isabel Ferreira Bertolucci , ao escrever para o jornal anarquista A Plebe em artigo de 24/11/1932,

assim comenta a cooptação de crianças por uma ordem beligerante ao longo da guerra civil de 32: “E ao contemplarmos coagidos e forçados o triste espetáculo da parada infantil, neste dia que lembra os mártires da “independência” (7 de setembro) repitamos fervorosamente esta frase sublime de Júlia Lopes de Almeida , escritora brasileira: ‘Louvar diante das crianças façanhas de guerra é dar-lhes a saborear pastilhas venenosas. Antes da mestra, já a mãe deve embalar o berço do seu filho com as cantigas em que se exaltem só ações de bondade e de justiça. Precisamos acalmar o coração do mundo, basta de ódio’”. In: Carone, Edgar. Movimento Operário no Brasil (1877-1944). São Paulo, Difel, 1979. p.472

acompanhava tudo, era também um patriota”. Segundo Pedro Monteleone “era até muito bonitinho a roupa de escoteiro, sabe? Brim caqui, roupinha amarela, com lencinho vermelho, com bonezinho, muito bonito, viu? E com a cinta escrito ‘sempre alerta’ (...)”.

Os escoteiros batiam de casa em casa pedindo o que fosse para os soldados no front e para as famílias dos combatentes, pois “precisava-se pedir cigarro, agasalhos para os soldados, bucha, calçados, ferro velho, o que fosse dado era usado e a gente nunca saía de mãos vazias, era tanto patriotismo das pessoas...”. O advogado Álvaro Giongo103 era, em São Carlos, uma das crianças integrantes desse batalhão. Residente em São Paulo no início da revolução recorda-se:

“Lembro-me da organização dos batalhões, dos desfiles, das bandas de música, dos discursos inflamados dos acadêmicos de direito do Largo São Francisco”. Lembranças de alguém que naquela época era um garoto de 13 anos e que freqüentava o externato em Campinas. “Mas naquele clima de euforia havia momentos de sobressalto. De repente, com medo, as pessoas corriam para os porões esperando bombas que iriam cair (...). Logo em agosto, trouxeram-me para São Carlos, onde passei a frequentar o batalhão dos escoteiros. Éramos responsáveis pela coleta de víveres e de roupas que, posteriormente, eram enviadas à frente de combate. Quando saíamos à procura de ovos, muitas vezes em famílias sem muito recurso, a mãe dirigia-se até o galinheiro, encontrar três ou quatro ovos e nos entregava todos eles, desprendidamente. Ao procurarmos cobertores, não raro ouvíamos a frase: ‘eu tenho três, levem dois’”.

Ricardo Gonçalves recorda-se durante a campanha do ferro velho onde o ímpeto por parte da população em querer contribuir foi tanto que na Rua São Carlos (atual avenida) formaram-se dois enormes montes de ferro velho que “atrapalhou completamente o trânsito da cidade ali”.

Em 17 de julho, iniciou-se a construção do campo de aviação. Essa foi uma determinação feita à prefeitura municipal pelo governo estadual através do Departamento de Municipalidades logo no início da revolução. O local escolhido foi uma área de 16.000 metros quadrados próximo ao cemitério da Vila Marina (onde até 2001 era o Aeroclube de São Carlos). Para a construção do campo de aviação, Paulino

Botelho de Abreu Sampaio, Bento Carlos de Arruda Botelho e Joaquim Evangelista de Toledo puseram à disposição da prefeitura os funcionários de suas fazendas, um total de 165 pessoas, que, juntamente com os da prefeitura formaram 265 trabalhadores. Em poucos dias o campo estava em operação.

Pistas de pouso de emergência foram construídas por todo o Estado de São Paulo, pois nessa época o avião já era largamente usado nas missões de transporte de mensagens e cargas além de serem empregados em batalha. Mariano Ortega recorda-se que em São Carlos “de vez em quando aparecia um avião chamado de vermelhinho”. O vermelho era a cor dos aviões empregados em 1932 quando vinham de fábrica e na realidade havia “vermelhinho” de ambos os lados. Com o desenrolar do conflito não houve tempo hábil para uma mudança de padrão de pintura dos aviões, então esse modelo foi marcante na guerra pelo terror que causava quando ao longe, mirava-se o horizonte e via-se uma mancha vermelha se aproximando, o que significava um ataque iminente sobre as tropas ou as cidades. Segundo Maria de Lima Prieto104, “todo mundo ficava apavorado com os vermelhinhos, o pessoal corria se esconder na igreja”.