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Hvor mye skal det etiske prinsippet stå for?

8 Brukermedvirkning – etikk og moral i praksis

8.8 Hvordan opprettholder man brukermedvirkning når man står ovenfor et etisk

8.8.3 Hvor mye skal det etiske prinsippet stå for?

Dia ensolarado de abril, do penúltimo ano do século XX. Passo a manhã e a tarde em espaços extremamente familiares, não só para mim como, certamente, para grande parte das pessoas deste século. Trata-se de duas salas retangulares, de aproximadamente 40m2 cada, com grandes janelas. Embora pertencentes a duas instituições diferentes, as salas têm um mobiliário muito semelhante: dois armários de aço; aproximadamente 30 mesas pequenas, todas idênticas entre si, com suas cadeiras respectivas (acopladas às mesas numa sala, separadas na outra); uma mesa um pouco maior, à frente das demais e voltada para elas, com uma cadeira. As mesas menores se alinham uma atrás da outra, formando fileiras que às vezes estão organizadas de duas a duas, às vezes estão separadas. As duas salas têm as paredes revestidas até a metade por azulejos (brancos numa delas, de cor creme na outra), e cobertas por enfeites, trabalhos feitos por crianças, cartazes impressos. Na parede da frente de cada uma observa-se um grande painel de cimento pintado de verde e, acima dele, um relógio. Nessa parede há ainda a imagem de um santo da Igreja Católica, numa das salas, e a de uma “Nossa Senhora”, na outra. Durante a maior parte do tempo em que observo, as salas são ocupadas por um grupo de crianças e uma mulher adulta. As crianças ficam quase todo o tempo assentadas, ao passo que a mulher adulta costuma se movimentar pelos espaços existentes entre o mobiliário. A mulher detém também o direito de falar sempre que

desejar, enquanto as crianças, na maior parte das vezes, precisam pedir autorização para se manifestar.

Lembrando Delamont (1987), pode-se dizer que qualquer leitor que se deparasse com o trecho acima certamente perceberia de que tipo de sala se trata. Certamente também, já iria evocando, durante a leitura, as categorias adequadas para as descrições feitas: sala de aula, carteiras, lousa ou quadro-negro, alunos, professora... Desde o advento da escolarização em massa, a sala de aula tornou-se um cenário bastante característico, que tem atravessado praticamente incólume as sucessões de gerações, sendo familiar a grande parte dos seus membros. Entretanto, como afirma Delamont, a tarefa das Ciências Sociais “implica uma luta para transformar em coisas estranhas os cenários, acontecimentos e papéis que são familiares”, sendo que “...a tarefa do especialista de ciência social consiste em fazer estranho aquilo que é familiar.” (Delamont, 1987: 152 – 153).

Assim, aproveito, sempre que possível, os momentos em que os/as alunos/as e a professora regente não estão nas salas, e percorro os “corredores” entre as carteiras observando os cadernos, as mochilas, os trabalhos realizados... Eles me falam de uma instituição cujas funções básicas têm se conservado através de décadas, e que também tem mantido, durante esse tempo, traços essenciais de organização, que se mostram de forma semelhante nas duas salas de aula que observo. É o que revelam os cadernos, identificados por etiquetas que indicam diferentes disciplinas (Português, Matemática, Ciências, Estudos Sociais...). É o que denota a presença, sobre as carteiras, do caderno de “Para Casa”, com atividades similares às da época em que eu própria era uma aluna do Ensino Fundamental. É o que me diz uma “Avaliação de Ciências”, que entrevejo dentro de uma das pastas semi-abertas, mostrando a nota obtida pelo aluno e uma

mensagem (“Muito bem!”) da professora. É o que me segreda a simples inscrição “3ª série”, na etiqueta da régua de uma aluna... Disciplinaridade, atividades tipicamente escolares a serem realizadas pelo/a aluno/a em casa ou na escola, testes para avaliar a aprendizagem, divisão dos estudantes em “séries”... Traços que vêm sendo apontados como característicos da cultura escolar (n4, p3) em nosso século, e cujas origens remontam ao processo de “disciplinarização dos saberes e disciplinarização dos sujeitos” iniciado pelos jesuítas após o Renascimento e impulsionado, a partir do final do século XVIII, com a formação dos Estados Modernos e o processo de industrialização, e sua conseqüente necessidade de novas formas de regulação social (Varela, 1994; Popkewitz, 1994).

Entretanto, será que tudo é apenas “mesmice” e repetição, nessa “cultura escolar”? Trata-se realmente a escola de uma instituição “fossilizada”, “parada no tempo”? Seriam as experiências escolares dos alunos das duas turmas unificadas sob o peso dessa cultura?

A investigação atenta mostra-me outros indícios que sinalizam respostas para tais questões. Sobre a mesa da professora, na sala X, vejo os originais de uma “Avaliação Interdisciplinar”. No caderno de Português de um dos alunos, inscreve-se: “Registro da aula de Informática.”Em meio aos meus materiais, encontro o trabalho de pesquisa que me fora emprestado por uma das crianças da turma Y, que o realizara utilizando a Internet, tendo em vista uma atividade em grupos a ser desenvolvida na sala. Em um dos cadernos de Ciências da mesma turma, deparo-me com o registro de uma das atividades feitas: “Relatório sobre o filme assistido na aula de hoje: O Homem de Neanderthal.” São elementos que falam, mais uma vez, da necessidade de evitar os discursos estereotipados a respeito da escola e da cultura que nela se desenvolve,

buscando, na perspectiva da análise sociológica dos processos de ensino, localizar de que escola se está falando, quais são os atores e as dinâmicas sociais que nela se fazem presentes, a que propósitos serve sua forma de organização, quais são as mudanças e as permanências nos processos que coloca em ação, quais os contextos dessas mudanças e permanências... Seria necessário, como afirmam Alves, Azevedo e Oliveira (1998: 11), “olhar/ver/sentir/tocar (e muito mais) as expressões diferentes surgidas nas inumeráveis ações que somente na aparência, [...] são iguais ou repetitivas. É preciso mesmo que se busque outro sentido para o que é repetição, buscando entendê- la nas suas múltiplas justificativas e necessidades.”

As duas salas de aula, fisicamente organizadas de forma tradicional, bem como a maioria dos materiais aos quais tenho acesso, expõem instituições que efetivamente não se diferenciam por uma proposta pedagógica inovadora. Entretanto, também não me autorizam a rotulá-las de “fossilizadas”, principalmente se deixo de contemplar apenas as salas vazias e vejo entrarem e tomarem lugar os atores desse cenário: alunos e professora. Eles trazem para o interior desse espaço físico chamado “sala de aula” uma diversidade humana, social, cultural, que é preciso tentar captar. E busco fazê-lo focalizando principalmente os elementos mais diretamente relacionados ao objeto de minha pesquisa. Quem são esses alunos? Qual o seu acesso à informação fora da escola? Sabendo-se que, nas duas turmas investigadas, as crianças pertencem às classes médias, poder-se-ia afirmar que todos têm acesso amplo à informação fora da escola? Quem é essa professora? Quais as suas experiências, a sua formação, qual é o conjunto de saberes e crenças que ela traz para a sala de aula, e a partir dos quais lida com os alunos e com as informações que eles trazem?

Novas perguntas, novas iniciativas em busca de respostas. A aplicação do questionário aos alunos, as observações e as entrevistas realizadas permitem-me avançar um pouco mais no conhecimento desse universo que me propus a perscrutar.