3.1.3.1.
Definição e outras questões
A metodologia da “action-research”, que doravante designamos na presente dissertação por “investigação-ação”, a par de outras formas de investigação qualitativa, tornou-se um distinto paradigma de investigação, em gestão, conforme referido em Eden e Huxham (1996).
Esta é uma metodologia que associa a investigação à prática da intervenção, constituindo-se numa abordagem integrada do abstrato com o concreto. Uma das características que melhor define a investigação-ação, a que os autores consensualmente aludem, refere que “(…) os resultados da investigação decorrem do envolvimento do investigador com os membros de uma organização, na resolução de um dado problema que genuinamente lhes diga respeito (…)” (Eden e Huxham 1996:75).
De igual modo, Levin e Greenwood (2011) interpretam-na como uma abordagem que estabelece a ligação entre a “(…) praxis e a teoria, na investigação social” (2011:29).
A investigação em ciências sociais, que não possa ser aplicada, não pode, genuinamente, ser considerada investigação, sublinham os autores (2011), na esteira dos trabalhos pioneiros de Kurt Lewin (1946; 1947), revistos por Eden e Huxham (1996).
Autores como Levin e Greenwood (2011) asseveram que “(…) teorias que não possam ser testadas, no seu contexto, são meramente especulativas” (2011:29).
Efetivamente, os autores recusam a noção de que podem existir “práticas de investigação aplicadas sem estarem explicitamente conectadas às teorias e aos métodos”
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(idem). Por conseguinte, a investigação-ação “(…) rejeita a dicotomia entre teoria e prática na qual a maior parte dos investigadores sociais se baseiam” (Levin e Greenwood, 2011:29).
Da perspetiva epistemológica e metodológica, a investigação-ação tem sido vista como padecendo de “falta de rigor”. A sua justificação parece ter o fundamento nos argumentos de que “mais relevância requereria menos rigor” a que Argyris e Schon (1978; 1996) se contrapuseram, veementemente.
Em consonância com Argyris e Schon (1978; 1996), Levin e Greenwood (2011) consideram que a metodologia da investigação-ação tem a hermenêutica necessária à compreensão da experiência, i.e., da ação sobre o objeto de investigação, sendo igualmente flexível no acolhimento do pensamento retrospetivo sobre a resultante, promovendo a modificação e/ou a expansão do saber do corpo teórico, do campo das ciências sociais.
Para estes mesmos autores, o rigor não adviria assim da separação entre o mundo da investigação teórica e o mundo da prática – situação ainda muito fomentada pela própria universidade, guardiã de tais fronteiras - mas sim da conexão entre ambos, nomeadamente, do envolvimento dos investigadores com os atores sociais, que dialogicamente constroem uma realidade social, repleta de significados sociais “em uso” pelos próprios, que importa compreender, codificar, apresentar e refletir.
Tal posição, encontra, igualmente fundamento na Psicologia Social Construtivista de Karl Weick, bem como nos fundamentos da posição filosófica do pragmatismo (Levin e Greenwood, 2011).
3.1.3.2.
Metodologia da Investigação-Ação
De acordo com Eden e Huxham (1996), existem diferentes escolas que tomam posição face à abordagem da investigação-ação, diferindo, entretanto, na sua capacidade de gerar os tipos de dados que cada uma requer. Se por um lado, há investigações inscritas nesta metodologia que estabelecem testes de hipóteses (Adelfer, 1993 in Eden e Huxham, 1996), por outro lado, existem outras que se filiam na investigação indutiva, enquadrada pelo paradigma interpretativista-construtivista (Gioia e Chittipeddi, 1991; Eden e Huxham, 1996; Vangen e Huxham, 2003).
Uma vez mais, é o problema de investigação que informa a adequabilidade das técnicas e as abordagens a utilizar ao longo da investigação e não preferências estabelecidas a
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priori ou o seguidismo de “modas” ou “mainstream” que Balogun, Huff e Johnson (2003) referem ser o habitual “estudo de caso” ou a abordagem etnográfica, nas ciências da gestão.
Na literatura, existem inúmeros casos de investigação-ação que conectaram a resolução de problemas práticos com avanços teóricos e metodológicos, significativos, sendo o estudo mais paradigmático e pioneiro o conduzido por Emery e Trist (1973) ou o realizado por Mintzberg (1976).
Na esteira de Eden e Huxham (1996), Balogun et al. (2003) e Levin e Greenwood (2011) consideram que os dados recolhidos através desta abordagem têm o potencial de fornecer “insights” novos, inesperados, de grande riqueza e profundidade, mas de difícil interpretação e acesso que de outro modo não seriam passíveis de captar.
Autores como Mintzberg (1988), ou Pettigrew (1992) e Van de Ven (1992) revistos por Balogun et al. (2003), referem que “(…) os processos organizacionais não podem ser compreendidos de forma descontextualizada ou transversal”. Porém, os métodos tradicionais de recolha de dados apenas recobrem uma parte destes, de modo superficial, situação que, no entender dos autores, não possibilita a compreensão dos processos. Acresce que a partilha das práticas e dos conhecimentos pelos ator sociais é “(…) potencialmente difícil em qualquer outro contexto que não seja a própria prática” (Gioia e Chittipeddi, 1991), o que sugere a necessidade de maior envolvimento dos investigadores na própria ação de investigação, para além das técnicas hermeticamente distintas das práticas de intervenção, a que nos referimos anteriormente (dicotomização entre a teoria e a prática).
A necessidade deste “território intermédio” encabeçada pela investigação-ação serve dois princípios contrastantes ou dois “amos”, nos termos de Levin e Greenwood (2011). Os autores sublinham, a este propósito a importância dos investigadores sociais serem íntegros na medida em que “(…) não podem laborar apenas no mundo da abstração académica (…) nem no mundo das soluções práticas dos problemas sociais (2011:31).
A integridade do investigador enquadrado por esta abordagem de investigação-ação, movendo-se continuamente entre estes dois territórios contraditórios, é a chave do seu sucesso.
“É na ação que nasce o pensamento” defende Karl Weick. Na medida em que a realidade é socialmente construída, os atores interpretam e criam sentido sobre a sua vivência individual, grupal ou coletiva, a posteriori, i.e., dado lugar ao “sensemaking”. Neste sentido, separar a investigação da ação, não teria qualquer razão de ser.
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A investigação-ação e a sua abordagem hermenêutica de “criação de sentido” em relação ao objeto investigado, encoraja a intervenção no contexto da investigação, envolvendo os indivíduos como participantes no próprio processo de investigação (Stringer, 1996:9). Tal pressupõe uma democratização, uma humanização e um empoderamento da própria ação de investigar e os pilares da “investigação-ação baseada na comunidade” (idem).
Enquanto metodologia de investigação, aquela seria emergente e indutiva, na medida em que o investigador “(…) não pode saber de antemão as oportunidades de intervenção a desenvolver ou que análises pode realizar sobre que intervenções” de acordo com Huxham (2003:240) e Eisenhardt (1989). Deriva assim os seus “(…) insights teóricos a partir de dados que ocorrem naturalmente” e catalisadores do processo de desenvolvimento teórico indutivo, conforme Eisenhardt (1989).