Uma revisão de literatura a diferentes autores da especialidade permitiu-nos estabelecer e sistematizar os principais pontos contrastantes entre as abordagens de investigação qualitativa, já anteriormente abordada, e a investigação quantitativa, procurando ganhar clareza na abordagem e discussão, nomeadamente metodológica, com relação a estas.
Um dos traços distintivos da abordagem quantitativa é a ênfase colocada sobre a "mensurabilidade" das variáveis em termos de "quantidade, intensidade, frequência" (Denzin e Lincon, 2011:8). Por contraposição, a análise qualitativa incide sobre os processos, as qualidades dos objetos e os significados atribuídos pelos atores sociais, os quais não podem ser sujeitos a “designs” experimentais ou a uma mensuração, no sentido estrito do termo.
A investigação qualitativa, por seu lado, alicerça-se no paradigma de investigação interpretativista, por oposição à tradição positivista, na esteira de Schutz (1973) e Weick (1979). A investigação qualitativa realça a íntima relação entre o investigador e a realidade investigada. Para Denzin e Lincon (2001) este assume o papel do investigador “bricoleur” que "(...) reúne um conjunto de representações" (2011:4) "holísticas" (Gephart, 2004) acerca da realidade. Miles e Huberman (1994) referem-se, de igual modo, à influência "dos valores do investigador" na ação "simultânea" de recolha, perceção e interpretação dos dados, o que, de acordo com Denzin e Lincon (2001) reflete "(...) os constrangimentos situacionais que moldam a investigação" (2011:8).
Por contraposição, a investigação quantitativa propõe-se estudar as relações de causalidade entre variáveis, positivamente consideradas como sendo observáveis, quantificáveis e analisáveis, a partir de quadros conceptuais que testam hipóteses ou proposições gerais, passíveis de serem generalizáveis a partir de modelos estatísticos ou matemáticos (Gephart, 2004; Denzin e Lincon, 2011; Gioia et. al., 2012).
A investigação qualitativa, deste modo, "(...) produz descrições profundas e detalhadas das ações reais dos contextos do quotidiano, as quais recuperam e preservam os significados atuais que os atores lhes atribuem (...)" (Gephart, 2004:455). Os insights conseguidos com a investigação qualitativa não são alcançáveis através do paradigma de investigação quantitativa. A metodologia hipotético-dedutiva que informa esta última corrente parece falhar em conseguir captar significados, processos e interações humanas, conforme nos alertam Gephart (2004) e Denzin e Lincon (2011), nomeadamente.
42
Flick (2002) revisto por Denzin e Lincon (2011) refere que a investigação qualitativa "(...) é forçada a usar as estratégias de investigação indutiva em vez de partir das teorias e de as testar(...), o conhecimento e a prática são estudados enquanto conhecimento e práticas locais" (2011:9). Van Maanen (1998) revisto por Gephart (2004) concebe, igualmente, a investigação qualitativa enquanto "indutiva e interpretativa" (2004:455), que "(...) inicia e termina em palavras, narrativas e textos enquanto representações significativas de conceitos" (Gephart 2004:455; Pratt, 2009:856).
Efetivamente, a investigação qualitativa procura explicar a descrição das observações através da produção de insights bem fundamentados, que demonstrem a abrangência dos conceitos e das teorias aplicados, naquele caso (Gephart, 2004). A investigação quantitativa, por outro lado, procura um conhecimento científico abstrato, ético e baseado em modelos probabilísticos que considerem grandes amostras de dados, aleatoriamente geradas (Denzin e Lincon, 2011).
Na tabela 1, em baixo, procuramos resumir os principais pontos representativos e contrastantes das duas abordagens de investigação, a partir de parâmetros comparáveis, com base na revisão de literatura de Gephart (2004), Denzin e Lincon (2011) e de Gioia et. al. (2012).
43
Tabela 1 – Paradigmas de Investigação: Qualitativa versus Quantitativa (Adaptado de Gephart, 2004; Denzin e Lincon, 2011; e Gioia et al., 2012).
Pontos Investigação Qualitativa Investigação Quantitativa
Design de Investigação
Interpretativo e Indutivo: descobrir novos insights e conceitos teóricos - mais gerais e menos específicos de modo a captar as qualidades que descrevem e explicam os fenómenos de interesse;
Articular a pergunta de investigação e o fenómeno em estudo. A pergunta é feita em termos de "como"; Fornecer narrativa do "como" é que os ator sociais constroem e compreendem a sua experiência e lhe atribuem significados; descrever as interações e os significados; focalizar e conhecer profundamente os processos.
Hipotético-dedutivo: Revelar as relações de
causalidade entre variáveis e testar proposições gerais ou medir constructos teóricos;
Articular a pergunta de investigação com a dedução de hipóteses e verificação destas ou a sua não-
falsificação. A pergunta é feita em termos de “quanto”;
Fornecer explicações sobre o "quanto", i.e., número de ocorrências, frequências e intensidade do objeto mensurável de análise.
Assunções sobre a realidade
Realidade tida como socialmente construída pelos indivíduos a partir dos "conceitos-em-uso", por estes.
Realidade tida como objetiva passível de ser revelada e analisada. O significado científico da realidade é imposto aos indivíduos e a investigação procura analisar a verdade científica da realidade (que se presume verdadeira).
Objetivo Descrever e compreender os processos, os significados e
as representações.
Revelar a verdade acerca das variáveis (mensuração) e as relações entre estas.
Unidade de
análise Palavras, textos, narrativas, ações não-verbais, incidentes, sinais e símbolos. Variáveis e constructos teóricos.
Recolha de
Dados Emergente e Flexível: a investigação é desenhada ao mesmo tempo que é realizada.
Pré-determinada e definitiva ou probabilística: a investigação procura controlar as variáveis, medir proposições e constructos e testar as hipóteses deduzidas da sua não-falsificação.
Análise dos dados
Investigação interpretativista, naturalista e indutiva (codificação aberta, qualidades dos objetos de análise, representações, interações).
Investigação quantitativa: codifica, contabiliza e mede variáveis, fenómenos e constructos (através de codificação fechada ou grelha-prévia; frequências, e escalas), procurando representar de modo significativo o objeto de análise.
Racional conhecimento
Insights para compreender os processos sociais inerentes aos aspetos da criação de significado a partir das experiências vividas pelos atores sociais.
Conhecimento científico baseado em modelos estatísticos e matemáticos.
Paradigma
Metodológico Abordagem Qualitativa: Construtivista, Interpretativa-indutiva
Abordagem Quantitativa: Positivista, Hipotetico- dedutiva
Esta reflexão acerca dos diferentes paradigmas de investigação devem fazer-nos perceber que não nos devemos influenciar por um ou por outro sem o alicerce epistemológico da teoria e do problema de investigação. Qualquer uma das abordagens deve ser usada de modo consistente com a visão teórica ou paradigmática adotada, bem como, com o problema específico, definido.