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Del 2 Metode, analyse og drøfting

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As personagens femininas de Saramago, em Ensaio sobre a cegueira, são movidas por um discurso ideológico (feminino) na busca de seu reconhecimento, e é passando pela sua autoconsciência (como veremos no próximo capítulo) que o autor determina o papel da mulher em seu texto.

As mulheres que se destacam no romance representam o discurso sobre a mulher dentro da obra, seja (re)afirmando alguns estereótipos

enraizados nos imaginários sociodiscursivos, seja contrapondo-se a tais estereótipos. A mulher do médico, sempre no centro da narrativa e das decisões, como protagonista principal e responsável por guiar os cegos; a rapariga de óculos escuros, agindo como mãe, protetora e, por vezes, mostrando-se descontrolada, devido ao momento tenso em que todos se encontram; a mulher do primeiro cego, num primeiro momento submissa, mas se tornando, no desenrolar da trama, decidida e em busca da sua autoafirmação perante o marido e as circunstâncias que a cercam. É, principalmente, por esse prisma que tais personagens (femininas) revelam os perfis das mulheres saramaguianas no romance em foco. Suas condutas, seus comportamento, suas falas, fazem parte do emaranhado da figura feminina no texto, tecendo seu sentido e evidenciando as representações da mulher nele presentes.

As personagens femininas que se apresentam no romance são movidas pela antítese homem e mulher, pela (o)posição do gênero em suas falas e em seus comportamentos ao longo de todo o romance. Elas buscam uma identidade e têm consciência do seu papel, de sua importância e do seu lugar no desenrolar dos acontecimentos. As personagens possuem papéis expressivos, embora não sejam nomeadas e sim denominadas pela situação ou pela profissão que exercem. Nessa perspectiva, soa paradoxal o fato de a protagonista – a única que mantém a visão e, por isso mesmo, torna-se apta a guiar os outros – ser denominada a mulher do médico. Talvez com isso, o autor do romance queira subverter ou mesmo ironizar uma das características machistas da nossa sociedade: aquela que vê as mulheres como seres dependentes e coadjuvantes dos homens, estes, sim, os “verdadeiros” líderes, os “verdadeiros” heróis...

Sobre essa falta de nomes próprios em Ensaio sobre a cegueira, a seguinte passagem é emblemática:

Ainda estava nesta balança entre a curiosidade e a descrição quando a mulher fez a pergunta directa, Como se chama, Os cegos não precisam de nomes, eu sou esta voz que tenho, o resto não é importante, Mas escreveu livros, e esse livros levam o seu nome, disse a mulher do médico, Agora ninguém os pode ler, portanto é como senão existissem (SARAMAGO, 1995, p. 275).

As personagens de Ensaio sobre a cegueira são marcadas, cada uma delas, por características que a identificam na narrativa. No texto, algumas têm mais proeminência do que outras. Por essa razão, descreveremos, a seguir, apenas as personagens de destaque no/do romance e, embora nosso foco seja a figura feminina – sobretudo, a da “heroína” –, não podemos deixar de falar também das personagens masculinas, tendo em vista que, além de participarem ativamente da trama, elas auxiliam (muitas vezes, por oposição) na construção da figura feminina, como veremos nas análises.

1) A mulher do médico: única personagem que não é contaminada com a cegueira branca. Assim, desempenha a função de guia e protetora dos acometidos pela cegueira. Possui autoconsciência do seu “lugar”, afirmando ou contestando estereótipos socialmente difundidos.

2) O médico: oftalmologista, fica cego enquanto investiga a rara cegueira. Está, via de regra, ao lado da mulher na narrativa.

3) O primeiro cego: trata-se do primeiro indivíduo a ser contaminado pela cegueira, enquanto está parado num sinal de trânsito. Na narrativa, demonstra estar sempre revoltado com a situação.

4) A mulher do primeiro cego: reencontra o marido no manicômio, onde são confinados, por determinação do governo, todos os indivíduos que se tornam cegos. Mostra-se inicialmente submissa, mas, no decorrer da história descobre-se mais forte do que pensava.

5) O cego ladrão: oferece-se para ajudar o primeiro cego, mas rouba-lhe o carro. É morto pelos guardas que cuidam do manicômio.

6) O velho da venda preta: paciente do médico, pois sofre de catarata. É contaminado com a cegueira branca no olho que ainda enxergava. 7) Rapariga dos óculos escuros: é uma prostituta, que havia se consultado

com o médico, devido a uma conjuntivite. Tem relações sexuais com ele enquanto se encontram no manicômio. Ao sair de lá, relaciona-se com o velho da venda preta. Simboliza uma espécie de Maria Madalena, que foi perdoada. Demonstra instinto materno e protetor em relação ao rapazinho estrábico.

8) O rapazinho estrábico: levado ao manicômio sem a companhia da mãe, é praticamente assumido como filho pela rapariga dos óculos escuros.

9) O cego da pistola: chefe do grupo de cegos malvados que causa terror aos demais no manicômio. Assume um discurso de viés bastante machista.

10) O cego da contabilidade: também pertencente ao grupo dos malvados, já era cego antes da epidemia. Sabe, portanto, o alfabeto Braille e práticas contábeis, o que lhe dá certa vantagem no interior do grupo. 11) A velha do andar de baixo: é vizinha dos pais da rapariga dos óculos

escuros. Fica sozinha e abandonada e, por essa razão, acaba morrendo.

12) A cega das insônias: como sua denominação indica, tem dificuldades para dormir. No manicômio, ao ser agredida pelos cegos malvados, não aguenta e morre.

13) Escritor: ao ser expulso de seu próprio apartamento, passa a morar no apartamento do primeiro cego. Mesmo contaminado com a “treva branca”, continua a escrever, pois, sem isso, não seria capaz de viver.

Feita a apresentação do autor, de sua escritura, de suas produções mais relevantes e, especialmente, dos aspectos mais importantes de Ensaio sobre a cegueira, passemos à questão que nos interessa mais de perto: a da representação da mulher na sociedade e no universo saramaguiano da obra em foco.