A determinação de compostos organoclorados em sedimentos pode ser uma fonte importante de informações para avaliar a contaminação de origem antrópicas nos ecossistemas aquáticos (SILVA; TONIAL, 2004b). Embora sua análise não conduza exatamente à toxicidade em meios aquosos, ela pode permitir estudos comparativos das fontes de poluição (FÖRSTNER; WITTMANN, 1983).
Os pesticidas provenientes de áreas agrícolas podem se acumular nos sedimentos, sendo que estas concentrações estão relacionadas com o diâmetro das partículas (COPE, 1966), quantidade de argila e temperatura (HUANG, 1971) e principalmente teor de matéria orgânica (BURTON, 2002).
As amostras de sedimento do presente trabalho apresentaram maiores valores de pesticidas organoclorados no período seco, com exceção do pesticida aldrin nos pontos UFSCar, USP, Usina. As concentrações de aldrin estiveram entre zero e 0,07 µg/Kg; de heptacloro entre zero e 10,64 µg/Kg; e de endosulfan entre zero e 9,11 µg/Kg.
Em relação ao “Canadian Environmental Sediment Criteria Guidelines” (CCME, 2003), só existe limites estabelecidos para o organoclorado heptacloro, sendo 0,6 µg/Kg o valor de TEL e 2,74 µg/Kg o valor de PEL. Desta forma, apesar do pesticida em questão ser detectado apenas nos pontos Ponte Caída e Confluência, as concentrações na estiagem estiveram acima do limite estabelecido, atingindo cerca de 18 vezes acima.
Os maiores valores detectados no período seco se devem principalmente à menor remobilização dos sedimentos neste período, uma vez que há menor turbulência das águas. Este fato pode ser observado principalmente para endosulfan, o qual esteve presente no sedimento apenas no período seco, onde não esteve presente na água, indicando a liberação deste composto para a coluna d´água no período de chuvas.
Silva (2000) ao avaliar a concentração de compostos organoclorados nos sedimentos do rio Piracicaba, verificou que as concentrações de endosulfan estiveram mais elevadas no período de estiagem, corroborando com o presente trabalho.
Em relação ao heptacloro, as concentrações no período de estiagem foram mais elevadas nos sedimentos dos pontos Cancã e Confluência, e na água dos
pontos UFSCar e Usina. Já no período chuvoso, o pesticida só foi detectado nos pontos Nascente (concentração mais elevada na água) e na Confluência, onde os valores foram mais elevados no compartimento sedimento.
O aldrin foi detectado, na época seca, em concentrações mais elevadas nos sedimentos dos pontos Ponte Caída, Serra e Confluência, sendo que os pontos UFSCar, Usina e Cancã, apresentaram maiores valores na água. Em janeiro/04, as concentrações de aldrin foram maiores nos sedimentos dos pontos UFSCar e Confluência, e na água dos pontos Nascente, USP e Usina.
Diante do exposto, é possível observar que a presença de compostos organoclorados aldrin e heptacloro não apresentaram um padrão, podendo variar nos compartimentos água e sedimento nos diferentes períodos amostrados. Apenas no ponto Confluência foi possível observar um padrão, uma vez que durante todo o período de estudo, os três pesticidas analisados estiveram presentes em maiores concentrações no compartimento sedimento, o que provavelmente está relacionado às maiores porcentagens de matéria orgânica registradas neste ponto.
Segundo Castilho et al. (2000) a concentração de compostos organoclorados e a matéria orgânica aumentam com a diminuição do tamanho das partículas. Assim, no presente trabalho a tendência é que os pesticidas organoclorados, ao invés de serem depositados nos sedimentos eles se tornem livres na coluna d´água, e conseqüentemente disponíveis à biota, face ao elevado teor de areia e ao baixo teor de matéria orgânica. Além disto, os organoclorados apresentam baixa solubilidade em água, o que representa uma tendência à deposição nos sedimentos.
No entanto, a concentração destes compostos na água ou no sedimento, não depende somente de fatores físicos, como a presença de matéria orgânica, ou tamanho das partículas. Deve-se também considerar os fatores químicos, como temperatura, pH e potencial de óxido-redução, natureza dos ligantes químicos, natureza do composto organclorados, bem como a mistura de vários compostos e diferentes formulações, e fatores biológicos (absorção e transformação dos compostos) que dependem da espécie, e de fatores intrínsecos como idade, sexo, tamanho do organismo, etc. Ainda, é necessário considerar a intensidade e o tipo de utilização dos compostos organoclorados nos diferentes locais de estudo e períodos de amostragem.
No mesmo sistema, a avaliação de compostos organoclorados no sedimento (PELÁEZ-RODRIGUES, 2001) demonstrou a presença de aldrin, heptacloro, e
endosulfan em concentrações máximas de 0,69µg/Kg (Nascente); 14,0 µg/Kg (Nascente) e 0,52 µg/Kg (Ponte caída), respectivamente. O autor verificou que no período chuvoso, as concentrações de pesticidas no sedimento foram mais elevadas que na água, atribuindo estes resultados ao processo de lixiviação dos solos e entrada de material particulados com resíduos provenientes da bacia hidrográfica. O heptacloro foi detectado em elevadas concentrações nos períodos seco e chuvoso, indicando possíveis efeitos adversos à biota.
Como é possível observar, as concentrações de compostos organoclorados num mesmo sistema pode variar no decorrer dos anos em função dos fatores acima mencionados, no entanto, as concentrações de heptacloro registradas pelo autor no ano de 2001 já se apresentavam elevadas com alto risco para os organismos aquáticos. No presente trabalho, as concentrações de heptacloro no sedimento ultrapassaram os limites estabelecidos pelo critério de qualidade de sedimento (CCME, 2003), corroborando com o trabalho citado. Alguns trabalhos avaliaram as concentrações de pesticidas organoclorados nos sedimentos de corpos d´água brasileiros. Na TABELA 56 estão apresentadas as máximas concentrações detectadas em diversos rios brasileiros reportadas por diferentes autores.
TABELA 56: Concentrações máximas dos compostos organoclorados aldrin, heptacloro e endosulfan (µg/Kg) em amostras de sedimento de diferentes corpos d´ água do Brasil, inclusive o presente trabalho.
Corpo de água Aldrin Heptacloro Endosulfan
Rio Monjolinho a 0,07 10,64 9,11 Rio Monjolinho b 0,69 14,00 0,41 Ribeirão do Feijãob 0,70 21,87 0,35 Rio Piracicabac 45,00 7,00 38,00 Rio Mogi-Guaçud 29,30 nd nd Rio Chopime 0,12 1,02 - Rios PETARf - 0,40 -
a (Presente trabalho); b (PELÁEZ-RODRIGUES, 2001); c (SILVA, 2000); d (BRIGANTE et al., 2003); e (SILVA; TONIAL, 2004b); f (MORAES et al., 2003); nd – não detectado; - não analisado.
Comparando-se o presente trabalho com resultados das concentrações de pesticidas organoclorados em sedimento de diferentes rios reportados pelos autores acima, pode-se considerar que o rio Monjolinho apresenta-se, de certa forma, menos
impactado em relação ao composto aldrin, o que não foi notado para os pesticidas heptacloro e endosulfan, que apresentaram concentrações próximas ou superiores aos demais corpos dá água.
De acordo com Silva e Tonial (2004b), a presença de pesticidas organoclorados em elevadas concentrações em sedimentos de superfície, principalmente aldrin e DDT, mostra um elevado grau de contaminação de um sistema. Neste caso, o heptacloro foi o único que esteve acima do critério de qualidade de sedimento, indicando uma situação preocupante que requer medidas urgentes de remediação.
Os inseticidas avaliados no presente trabalho são substâncias que não ocorrem naturalmente no ambiente e sua presença é resultante principalmente de alterações na paisagem e na forma de manejo dos solos agrícolas. São produtos extremamente perigosos, que podem desencadear efeitos mutagênicos e cancerígenos, cujos produtos de degradação no ambiente podem se apresentar tão ou mais tóxicos que os compostos originais.
A contaminação de ecossistemas aquáticos com pesticidas organoclorados não se restringe ao Brasil. Inúmeros estudos têm reportado elevadas concentrações destes compostos em vários sistemas aquáticos do mundo (BORDAJANDI et al., 2003; JURACEK; MAU, 2003; LÓPEZ-MARTIN; RUIZ-OLMO; BORRELL et al., 1995; OSFOR; ABD EL WAHAB; EL DESSOUKI, 1998; ROVEDATTI et al., 2001), inclusive na região do Ártico, onde estes compostos jamais foram utilizados (AYOTTE et al., 1995).
Diante do exposto, verifica-se que apesar das leis, a contaminação dos rios por pesticidas continua preocupante, considerando o elevado número de habitantes que utilizam as água para abastecimento, irrigação, piscicultura, etc. No presente trabalho, é possível considerar que as principais fontes destes compostos são o escoamento superficial e lixiviação dos solos cultivados com cana-de-açúcar e o reflorestamento, atividades que são predominantes na bacia hidrográfica, além da provável utilização destes pelos pequenos proprietários.