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2. Teori

2.1 Bruk av steinmel og om forekomsten på Stjernøy

No princípio, Sagarana não foi Sagarana: foi Sezão. O febril manuscrito (efeito rebarbativo do acesso da “febre inspiradora”, do “magma íntimo”?)46,

contendo não menos de cinco centenas de páginas, seria reformulado, perderia alguns dos textos e ganharia sua hora, mais de dez anos depois, em 1946, com a primeira edição em livro dos nove definitivos contos, tornando-se de vez Sagarana. Nessa travessia iniciada por VIATOR, codinome usado para o concurso literário, revela-se o nome de JOÃO GUIMARÃES

ROSA, confirmando-o como um dos maiores escritores da literatura nacional brasileira e

também universal.

Sagarana estreia também a forma narrativa (que se pese aqui as teorias de

misturas de gênero, de que a obra rosiana faz aproveitamento), ditando o gênero literário escolhido pelo autor, quase que exclusivamente. Quase..., não fosse o enfeixe de poemas depositado, também em concurso literário, um ano antes de Sezão: chamou-se Magma (1936). Este sim alcançou o primeiro lugar, e, entretanto, o autor jamais quis vê-lo publicado, mesmo

46 Expressões utilizadas pelo autor em seu discurso na Associação Brasileira de Literatura (ABL). O discurso, que

saiu na Revista da Academia Brasileira de Letras, nos anais de 1937, é também reproduzido em parte em: João Guimarães Rosa, Magma, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 08 – 09.

sob o cabal parecer da comissão julgadora do concurso, elevando a obra “tão altamente distanciada” dos demais concorrentes que a ela (comissão julgadora ou Magma, como queiram...) não pareceu “possível concessão, a qualquer outra, de um aproximador segundo prêmio.”47 A obra receberia edição em livro somente 30 anos após a morte do autor, em 1997.

A proximidade temporal de ideação de Magma e Sagarana, mesmo dando precedência cronológica à primeira, e juntando-se traços e índices coincidentes, que perpassam uma e outra, revelam o quanto estão amalgamadas num já definido projeto literário.

A propósito, apenas um parêntese. Não seriam os boiadeiros da comitiva do poema “Boiada”48 (Magma), os quais acompanham o “gado magro”, “sob o sol de fornalha...”, em

meio à “poeira vermelha”, os mesmos que, posteriormente, seguem com a boiada em “O burrinho pedrês” (Sagarana)? Para ficar aqui apenas com um exemplo. O quadro apresentado no poema – uma comitiva, com vaqueiros e bois – não teria semelhança com o dia narrado em “O burrinho pedrês”? Parte da configuração das personagens do poema reaparece na narrativa, a julgar pelos nomes coincidentes: Joaquim/Juca Bananeira, Raimundo/Raymundão, Zé Grande/Zé Grande, João Nanico/João Manico. Outro dado alude à prática econômica da pecuária extensiva, na região: o gado magro, capturado nos ermos sertões, é levado às fazendas, para que fossem engordados. O que se realça no poema é a seca, a poeira, o gado magro. Já no conto, é o oposto: sob a umidade do dia chuvoso, o gado gordo, produto, pronto agora para o abate, é levado à estação de trem do arraial. Há um paralelismo assimétrico comunicando os dois eventos, até para se pontuar uma ordem cronológica: primeiro, o bois são capturados magros, depois são engordados para a venda.

47 Foram nestes termos que o relator do concurso, Guilherme de Almeida, expressou seu parecer sobre a

premiação do concurso: “(...) que seja o 1º. prêmio do Concurso de Poesia de 1936 concedido ao livro Magma, de João Guimarães Rosa; e que não seja a ninguém, neste torneio, conferido o 2º. prêmio, tão distanciados estão do primeiro premiado os demais concorrentes.” In: João Guimarães Rosa, Magma, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 07.

Mas isso é apenas um adiantamento de matéria tratada no capítulo seguinte (CAPÍTULO II).

Fecha parêntese.

Se com esse ponto de partida (Sagarana), o autor obtém reconhecimento, sendo mesmo aclamado como “uma grande estreia”, a produção rosiana, entretanto, alçaria maior sofisticação literária em obras posteriores, é o que afirmam muitos dentre a crítica especializada no autor. Mesmo assim Sagarana impõe seu espaço e sua importância, pois foi com ele “que o escritor afinou seus instrumentos, sua maneira, sua linguagem, e circunscreveu seu espaço – este último tão decisivo e marcante em toda sua obra”. Esta apreciação, de WALNICE NOGUEIRA GALVÃO49, corrobora a ideia de um projeto literário já

estabelecido nessa origem.

No momento mesmo de aparição da obra, alguns críticos não tardaram em apontar suas qualidades. Dentre eles, ANTONIO CANDIDO, que expressa assim sua satisfação com a

obra do autor mineiro: “(...) construindo em termos brasileiros certas experiências de uma altura encontrada geralmente apenas nas grandes literaturas estrangeiras, criando uma vivência poderosamente nossa e ao mesmo tempo universal”50.

Outro foi JOSÉ CARLOS GARBUGLIO51, por sua vez, insere Sagarana como parte

fundamental de um “roteiro da aventura criadora do escritor”. Ele afirma que o livro “representa a fundamental importância de encerrar, em germe, todos os desenvolvimentos posteriores do escritor, quer em nível temático, quer em nível linguístico”. Veja que são elementos coincidentes entre os pontuados por GARBUGLIO eGALVÃO.

Para finalizar, recupero a apreciação de ÁLVARO LINS, no calor da hora, em 1946,

ele define assim o livro: “E Sagarana vem a ser precisamente isso: o retrato físico,

49 Walnice Nogueira Galvão, Guimarães Rosa, São Paulo: Publifolha, p. 52.

50 Antonio Candido, “Sagarana”, in: Afrânio F. Coutinho (Org.), Guimarães Rosa – Fortuna Crítica (col. 06), 2

ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, p. 247.

51 José Carlos Garbuglio, “A saga do Rosa: a gênese de uma obra”. In: Marli Fantini (Org.), A poética migrante

psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, através de histórias, personagens, costumes e paisagens, vistos e recriados sob a forma da arte de ficção.”52

Os excertos citados, para além de mero caráter apologético da obra, retêm e atestam o teor do que se está no centro do interesse deste estudo e, portanto, diretrizes orientadoras das análises dos textos de Sagarana. São pontos fundamentais para abordar aspectos da representação da sociedade plasmada nos contos.

Esses traços biográficos, por assim dizer, de Sagarana, situam o objeto desse estudo e colocam algumas de suas principais questões. Essas apreciações (que delineiam esses traços de biografia) importam aqui na medida em que apontam elementos para se traçar um determinado perfil de Sagarana, que lhe confere coesão temática e formal, unindo num conjunto coeso as nove diversas narrativas. Com narradores muito particulares e dos mais diversos, passando da primeira à terceira pessoa, com discursos direto, indireto e indireto livre. O fio condutor dessa unidade, entretanto, é delimitado pelo fundo humano, social e histórico representado na obra. E tudo isso plasmado na e pela comicidade. Ou seja, o quadro social representado e perpassado pelo veio formal da comicidade, do riso.