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Em A Alternativa, da qual faz parte o Diário do

Sedutor, e em Estágios no Caminho da Vida, Kierkegaard

identifica através dos pseudônimos (autores-personagens) as características do modo de vida estético. Kierkegaard apresenta como exemplos típicos desse estágio Don Juan de Mozart, que simboliza a sensualidade pura, Fausto de Goethe, e Johannes, o sedutor. É a figura de Johannes que será destacada neste trabalho para uma abordagem do modo de vida estético.

Conforme exposto anteriormente, para Kierkegaard a existência é contínuo devir, onde o homem é um fazer- se. Nesse sentido, na esfera estética o indivíduo fica simplesmente no que é, sem poder devir, permanecendo no

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Os trechos a serem citados do livro A Alternativa, serão extraídos da tradução feita para o italiano por Alessandro Cortese, Enten-Eller, Milão: Adelphi Edizioni, 1989. Tomo V. Em dinamarquês, Enten-Eller significa, “ou - ou”.

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imediato. “Não é, pois existência, mas possibilidade de existência na direção da existência...”.16 Este modo de vida na concepção de Kierkegaard, é comum à maioria dos homens.

O mundo é compreendido em termos estéticos, como referencia dos valores da finitude e da temporalidade. Sem interioridade, o indivíduo é pura espontaneidade; na qual se considera apenas a vida das sensações, sobretudo as relacionadas ao prazer sensual e erótico. Na sua procura pelo sentido da existência, o homem entrega-se aos prazeres e sensações que a vida oferece, vivendo plenamente cada instante, só conhece as categorias dos

sentidos, o agradável e o desagradável.

Sua vida consiste em tirar da existência o máximo prazer possível. Na busca pela variedade e pela novidade, vive assim no instante em que satisfaz o prazer. “Tudo quanto é bom acontece sem demora(...)porque a

instantaneidade é a mais divina de todas as

categorias”.17 Nesses termos não há lugar para a

repetição, tudo é novo.

Sendo tudo dissolvido em “instantes”, o modo de vida estético é um universo de possibilidades, que não para de crescer aos olhos do indivíduo; considerando que nenhuma realidade se forma, as possibilidades nunca deixam de ser possibilidades, visto que não se tornam reais.

A estética é a esfera da imediatidade. “O instante significa o presente como coisa sem passado nem

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Kierkegaard, Post scriptum, p. 216.

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futuro e aí está onde realmente está a imperfeição da

existência sensual”.18 Esse estágio gira em torno do

prazer hedonista, que se torna o valor supremo da existência. Nesse modo de vida o indivíduo conforma a existência segundo o princípio deve-se gozar a vida; vida isenta de compromisso e finalidade, os quais o homem, nesse estágio, encara como uma limitação.

Embora o indivíduo no estágio estético se sinta numa liberdade total, é um escravo de seus próprios desejos e estados de ânimo. Nesse estágio o homem escolhe não escolher, fica suspenso entre tantas possibilidades, pois não encontra motivos para escolher entre uma alternativa e outra, o que caracteriza a indiferença. “Eu posso ou fazer assim ou de outra maneira, mas qualquer das partes em jogo que eu faça, é sempre um erro, logo não faço nada de nada”.19

Diferente de como o indivíduo nesse estágio compreende a vida, a existência implica a escolha, pois nem sempre as portas referentes às possibilidades permanecem abertas. Desta maneira, somos comprometidos pela vida na existência. Conforme Kierkegaard expressa:

“Talvez possa dizer:” posso fazer isto ou aquilo “(...) chegará ao fim um momento em que não se tratará de um ”ou isto-ou aquilo“, não porque tenha escolhido senão porque se descuidou de fazê-lo ou, se se quiser, porque outros escolheram por ele,

porque ele se perdeu a si mesmo”.20

18

Kierkegaard, O conceito de angústia, p. 92.

19

Kierkegaard, Enten-eller, p. 36.

20

Na medida em que vive na superficialidade da existência, o homem no estágio estético está fora de si mesmo, não tomando as rédeas da sua própria vida. Pelo fato de encontrar-se na superfície, não se comprometendo com nada permanente ou definitivo, seu pensar e agir são condicionados pelo seu estado de ânimo.

A interioridade do indivíduo não se manifesta, visto que, pela falta de profundidade, de não ter consciência de si próprio, ele se identifica com seu estado de ânimo mutável, pois encontra-se na superfície de si mesmo. Assim, “a expressão estética do gozo na sua relação com a personalidade é estado de ânimo”.21

Sem continuidade, pois ele vive para o agora, a vida do homem que se encontra nesse estágio, torna-se desconexa e descontínua. Sua existência é submetida às contingências, a fatores externos; não sendo dono de si mesmo, é dominado pelos sentidos e sentimentos, onde a fantasia sobrepõe-se à razão e à vontade e leva o esteta à realidade exterior, ao transitório, almejando um prazer após outro. “O indivíduo deve possuir uma multidão de condições exteriores para que tal concepção possa ser realizada e essa felicidade, ou melhor, essa desgraça só raramente é concedida a um homem”.22

Nesses termos, a condição do gozo não está em poder do indivíduo, mas é externa a ele. O homem no estágio estético põe sempre uma condição que ou está fora

21

Kierkegaard, Enten-eller, p. 114.

22

dele, ou, está no indivíduo de uma forma que não lhe é devida por força dele mesmo.23

O estágio estético não se restringe ao sensualismo puro; acrescenta-se a ele toda ação direcionada ao prazer, mesmo sendo este considerado digno ou com uma orientação intelectual. Vivendo em função do seu próprio desejo, o homem no estágio estético tem sua existência dispersa numa pluralidade ilimitada, pois considerando que o desejo é em sua essência insaciável, segue-se que ele desejaria infinitamente. Concernente a isso escreveu Kierkegaard:

“Compreende-se facilmente que se esta concepção da vida se dispersa numa pluralidade, entra na esfera da reflexão. Mas, esta reflexão é sempre uma reflexão finita e a personalidade permanece em sua

imediação”.24