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Este capítulo procura analisar os dados de fusões e aquisições de empresas classificados pela KPMG, instituição de cunho privado que notabilizou-se, no Brasil, por pesquisar e divulgar os totais das transações, através de publicações trimestrais desde 1992. Por considerar que tais dados indicam possibilidades importantes de análise, nos dedicamos a esse exercício interpretativo.

Ao mesmo tempo, procura-se apresentar uma síntese geral das transações e de seus valores, com a intenção de cruzar os números da KPMG e os valores dos negócios, diante da inexistência de fontes periódicas, confiáveis e regulares dos montantes dessas transações. Para tanto, os dados foram pesquisados

54 Em análise sobre os anos 1990, Paulo N.

Batista Jr. afirma: “(...) para os interesses financeiros externos e internos, a década de 90 não foi nada perdida (...) O ex-secretário da Receita Federal, Osíris Lopes Fº, alinha-se àqueles que consideram a expressão “década perdida” inadequada para os anos 90. Para ele, o que tivemos foi uma “década prostituída” A expressão é violenta (...) mas não é de todo descabida. Nesses anos, venderam o país com grande afinco e entusiasmo. A desnacionalização avançou perigosamente. E as políticas macroeconômicas adotadas deixaram o Brasil à mercê do hospício em autogestão vulgarmente conhecido como ‘sistema financeiro internacional’”. (“A década prostituída”. Folha de S. Paulo, Dinheiro, 30/12/1999).

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Para Luciano Coutinho “Cinco anos de câmbio sobrevalorizado, juros proibitivos, abertura comercial gratuita e privatização sem estratégia produziram um movimento sem precedentes de desnacionalização e de encolhimento dos grupos econômicos nacionais (...) O Brasil, após marcar passo nos anos 80, retrocedeu nos 90. Enquanto isso, algumas economias asiáticas (notadamente a Coréia do Sul, mas também a China e Taiwan) construíram grandes grupos econômicos – de

porte e atuação globais (grifo nosso), com crescente capacitação técnica na fronteira das

tecnologias da informação e com afirmação de marcas mundiais.” (“Por que ‘multinacionais’ brasileiras?”. Folha de S. Paulo, Dinheiro, 27/02/2000.

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“Bode expiatório”. Disponível em http://www2.correiodacidadania.com.br/ed332/economia2.htm Acesso aos 03/02/2011.

52 exaustivamente em fontes secundárias, porém eles são parciais e algumas vezes discrepantes.57

Inicialmente a KPMG divulgava os resultados de suas pesquisas através de periódicos impressos, e até 2010 era possível consultá-los no endereço eletrônico da empresa. Suas publicações apresentavam os totais dos negócios através do ranking setorial de transações, distinguidos entre “transações domésticas” e transações “cross-border” (ou “transfronteiriças”)58. Os números da KPMG mostram a divisão geográfica dos negócios no Brasil e a participação dos países nas transações, mas não apresentam seus respectivos valores. Por esse motivo, procurou-se relacionar os dados da KPMG com os valores divulgados pela imprensa.

Como exemplo, apresenta-se na Tabela II. 1 a discriminação dos totais de transações realizadas no Brasil, no período 1992-2010, sendo 3.085 transações domésticas (45,48% do total) e 3.697 (54,51%) transações envolvendo o capital estrangeiro. Os dados da tabela mostram as transações domésticas e transfronteiriças no período abrangido. Percebe-se sua evolução e o maior percentual apresentado pelos negócios envolvendo capital estrangeiro.

De 1992 a 2003, a KPMG divide seus dados entre “transações domésticas” e “transfronteiriças”, entretanto, a partir de 2004 a pesquisa apresenta subdivisões dos diversos negócios transfronteiriços, incluindo a aquisição de empresas estrangeiras por brasileiras no exterior, refletindo a internacionalização.59

Os dados apresentados na Tabela II.1, meramente quantitativos, expressam a qualidade e o tipo das transações realizadas e refletem as políticas de governo nos dois períodos: no primeiro, de abertura desenfreada e desregulamentação, ocorrem as maiores privatizações, quando as parcelas mais importantes do setor estatal são vendidas. É o período da privatização de diversos setores (siderúrgico, petroquímico, mineração, telecomunicações, entre outros); de privatização de empresas como a Vale do Rio Doce e do Sistema Telebrás, dos bancos estaduais, como o Banespa, o BEMGE e o Banerj; de desnacionalização do setor soja, com as aquisições da Ceval pela Bunge e do setor soja da Sadia pela ADM em

57 Vale ressaltar que o próprio CADE utiliza os dados da KPMG para a elaboração de seus relatórios. 58 Neste trabalho foi adotada a terminologia “transfronteiriça”, indicando transações envolvendo

capital estrangeiro, no lugar de cross-border (CB).

59 O detalhamento do período será apresentado no próximo tópico. Para as especificações dos tipos

53 Rondonópolis (MT). É o período de venda de empresas privadas que participaram do processo de desenvolvimento nacional, como Metal Leve, Cofap, Arno, Brastemp, entre outras. É o período da associação entre Friboi e Bertin, através da BF Alimentos, no controle do Frigorífico Anglo, que terminou incorporado pelo Friboi.

Tabela II. 1: Total de Transações domésticas e transfronteiriças

PERÍODOS ANO TRANSAÇÕES DOMÉSTICAS TRANSFRONTEIRIÇAS TOTAL/

ANO TOTAL/ PERÍODO % % Collor- Itamar 1992 37 63,79 21 36,21 58 383 1993 82 54,67 68 45,33 150 1994 81 46,29 94 53,71 175 PSDB/ FHC 1995 82 38,68 130 61,62 212 1263 1996 161 49,09 167 50,91 328 1997 168 45,16 204 54,84 372 1998 130 37,04 221 62,96 351 1999 101 32,69 208 67,31 309 1229 2000 123 34,85 230 65,15 353 2001 146 43,23 194 56,77 340 2002 143 65,99 84 34,01 227 PT/ LULA 2003 116 50,44 114 49,56 230 1365 2004 100 34,95 199 65,05 299 2005 150 41,32 213 58,68 363 2006 183 38,69 290 61,31 473 2007 351 50,22 348 49,78 699 2542 2008 379 56,86 284 43,14 663 2009 219 48,00 235 52,00 454 2010 333 45,86 393 54,14 724 Total 3085 45,48 3697 54,51 6727 6782

Fonte: KPMG Corporate Finance, Pesquisa de Fusões & Aquisições, 1998, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010. Elaboração do autor.

No período seguinte, ainda ocorrem algumas privatizações, como as de alguns bancos estaduais, quando os investimentos do Banco do Brasil foram importantes, por exemplo, na aquisição da Nossa Caixa, do governo de São Paulo. Nesse período, o papel das políticas de financiamento do governo – principalmente via BNDES -, contrasta e opõe os dois períodos.

A comparação entre os períodos PSDB/FHC e PT/LULA, deve considerar o processo de privatização, pois conforme o BNDES, de 1991 a 2002, as privatizações federais totalizaram US$ 70,8 bilhões, enquanto as privatizações estaduais atraíram US$ 34,7 bilhões.

Uma comparação simples, apenas numérica, entre os distintos períodos mostrados (vide Tabela II. 2), evidencia um percentual de transações transfronteiriças inferior à média total da Tabela II. 1: 53,15% no período 2003/10, frente a 57,44% no período 1994/02, e 54,51% de 1992 a 2010.

54 Considerando, portanto, o maior número de transações (3.907) do período 2003/10, diante do resultado anterior (2.667), infere-se que, ao menos em termos percentuais, a desnacionalização do segundo período (2003/10) foi menor que a do período 1994/02.

Tabela II. 2: Comparação entre os períodos 1994/2002 e 2003/2010

´PERÍODOS

TRANSAÇÕES

DOMÉSTICAS TRANSFRONTEIRIÇAS TOTAL

% %

1994/02 1135 42,55 1532 57,44 2667

2003/10 1831 46,86 2076 53,15 3907

Fonte: KPMG Corporate Finance, Pesquisa de Fusões & Aquisições, 1998, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010.

Elaboração do autor.

O Gráfico II. 1, elaborado com os dados contidos na Tabela II.1, representa a evolução dos totais de transações realizadas no Brasil, no período 1992-2010, considerando os dados da KPMG.

Gráfico II. 1: Transações realizadas no Brasil (1992-2010)

Fonte: KPMG Corporate Finance, publicações dos anos de 2000 a 2010. Elaboração do autor.

Além da evolução anual de F&A, verifica-se ligeira diminuição dos negócios em 1998/99, atribuída à crise cambial. Em 2002/03, a queda ocorreu em função da expectativa pelo resultado eleitoral de 200260; os negócios diminuíram, no geral, e o percentual das transações domésticas foi maior. O ano de 2003 apresenta volume

60 Ver Tabela II.1, pg. 53. Pode-se inferir que a retração representada pela coluna referente a 2002,

seja no total de negócios como na diminuição da participação do capital estrangeiro deve-se ao processo eleitoral daquele ano, que levou ao poder um ex-operário e líder sindical.

55 semelhante de negócios, mas a partir de 2004 as transações tornam-se crescentes e ao contrário do período anterior, quando predominou o capital estrangeiro nas transações, os negócios com participação do capital doméstico são crescentes, inclusive com a internacionalização de diversas empresas e Grupos, como JBS- Friboi, Marfrig e Minerva, entre outros. A presença do capital nacional nas transações pode ser observado tanto na Tabela II. 1 como no Gráfico II. 2.

No biênio 2008/09, as conseqüências da crise econômica mundial atingiram as F&A no Brasil, com a posterior retomada dos negócios em 2010, quando ocorreu o maior número de F&A realizadas no País até então: 726.

Ressalte-se que, até então, o ano de 2007 havia registrado o maior número de fusões e aquisições desde 1992, o que ocorreu também no setor de alimentos e bebidas –, marcando um verdadeiro recorde de transações: o estudo da KPMG aponta a realização de 699 combinações no ano, número superado apenas em 2010. 61

No Gráfico II. 2, mostrado a seguir, observa-se o movimento total de transações domésticas e transfronteiriças no referido período.

Gráfico II. 2: Transações domésticas e transfronteiriças realizadas no Brasil: 1992-2010

Fonte: KPMG Corporate Finance, publicações dos anos de 1999 a 2010. Elaboração do autor.

61 NÚMERO de fusões bate recorde no país. Folha de S. Paulo, 05/12/2007. Disponível em

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