Considerando o trabalho em equipe como parte da categoria temática “Trabalho no PMC”, identificamos como subtema as “Habilidades Valorizadas”, que serão chamadas assim por caracterizar os tipos de competências, habilidades e atitudes dos trabalhadores do PMC. Os profissionais que atuam em equipes de atenção domiciliar precisam desenvolver habilidades, como a escuta ativa, suporte aos limites do adoecimento, comunicação, conhecimento técnico das situações, as quais irão enfrentar. Além disso, precisam criar estratégias de enfrentamento no que se refere ao fim da vida (CREMESP, 2008).
Durante a pesquisa, os profissionais qualificaram algumas habilidades como positivas e necessárias aos trabalhadores no PMC. Chamou atenção durante o trabalho de campo, no questionário, nas entrevistas e nos grupos focais a questão da flexibilidade:
E acho que tem que ter flexibilidade, né? [...] precisa ter um perfil mais sensível, adaptado [...] é primordial [...] a gente tem um aprendizado, né, que é a parte teórica, porém, na atenção domiciliar não tem como você fazer igualzinho você faz na teoria [...] (GF16). [...] flexibilidade, uma coisa que você tem que ter pra trabalhar na atenção domiciliar. [...] Em casa você tem que fazer adaptações, às vezes você tem que aceitar o cuidado que a família tá prestando, porque, por exemplo, um ambiente muito sujo, um ambiente muito desorganizado, a vontade da gente é ir lá, arrumar tudo e deixar tudo arrumadinho. Mas tem famílias que o normal, o organizado deles é a desordem, né? Já outros que são extremamente limpos [...] teve família que viu uma manchinha no jaleco da pessoa que ia entrar e depois reclamou para mim “oh, seu funcionário tá entrando aqui com jaleco com uma macha suja”. Então, assim você tem que aceitar e respeitar a individualidade de cada lar, de cada casa, de cada família, tem que ser no contexto deles, tem que ser flexível, porque se for duro, aí vai bater de frente aí perde o vínculo com a família.
Então, tem que ter esse jogo de cintura. Também não deixar correr frouxo também de poder fazer tudo, não! Você tem que ir trabalhando
aos poucos pra encontrar um ponto de equilíbrio (GF51). Autonomia, flexibilidade com os gestores, respeito (Q04).
Autonomia, interdisciplinaridade, flexibilidade e cogestão (Q37). A interdisciplinaridade, flexibilidade e integração da equipe refletem diretamente na qualidade do serviço prestado, levando a humanização para a condição de saúde do indivíduo, fazendo com que este se perceba como um ser integral. Souza e Souza (2009, p. 122) ressaltam que “a integralidade do cuidado está presente no contato entre usuário e profissionais de saúde, que através de atitudes buscam reconhecer as necessidades de saúde implícitas e explícitas por este cidadão”.
Outra característica importante enaltecida pelos trabalhadores é o amor ao próximo, amor pelo trabalho que prestam. Esse sentimento não foi percebido apenas nas palavras transcritas, mas foi sentido durante a inserção no campo.
A gente usa perseverança, amor! (GF04).
[...] tem que ter muito amor, né? Chegar lá de salto, colar de pérola e mostrar postura, não vai fluir! [...] A gente é muito unido, muito! A gente é muito amigo! (GF08).
A gente também é muito humana. Tem que ter o lado humano, vamos dizer, assim, um pouco aflorado [...] a gente faz muito mais do que tem que fazer (GF19).
Também consideramos como habilidade desses trabalhadores a proatividade, boa articulação e bom senso para o manuseio das situações, características que necessariamente precisam de envolvimento pessoal.
[...] já teve caso da gente chegar para examinar o paciente e o pacienta tá lá amarrado na cama, urinado, acuado e barbudo. Aí um olha para o outro e “vamos dar banho?”, “vamos”, leva para o chuveiro, faz barba, depois dá banho e depois molha tudo. Isso é pra todos! Não é um ou outro, é todos! As vezes a ligação da gente é tão grande que não precisa nem falar, é só olhar “vamos pro chuveiro?”
“vamos” (GF08).
[...] eu me envolvo muito. E eu vejo passar uma orientação, eu sou atenta aquilo, porque eu gosto, é uma característica minha [...] E essa questão do perfil, se você não tem uma paciência, gostar de se envolver, porque isso é meio que imposto pra você também (GF09). [...] tem que ser articulado, se não for articulado, não dá, não flui (GF21).
[...] ver a dificuldade do outro [...] leva um tempo para ele assimilar [...] (GF46).
Característica de ouvinte e possível intermediador em conflitos familiares e ou reorganização social e familiar no que se refere ao
cuidado [...] Orientador, esclarecedor, direcionador (Q34).
Percebeu-se pelos relatos que os trabalhadores acreditam que esse perfil de flexibilidade, amor ao próximo e proatividade são extremamente necessários. Eles também acreditam que a falta deles pode comprometer o desempenho do trabalho.
[...] você tem que ter uma visão ampliada do paciente. Senão você não dá conta de lidar nem com a família, nem com o paciente, nem com o cuidador. Então você tem que saber um pouquinho de tudo [...] (GF21).
Tem que ter a mente muito aberta. Essa questão de que todo mundo faz um pouco a função do outro. Todo mundo! Não adianta aqui você
não ser humilde e ter vaidade, você não consegue ficar aqui (GF18). Com toda certeza, as habilidades valorizadas por esses trabalhadores também colocam a prova seu senso de humanidade. Conviver com outra pessoa e oferecer a ela o seu melhor, mesmo em momentos difíceis, pode trazer para o trabalhador momentos de choque com a sua própria realidade e com seus próprios sentimentos. Rezende, Gomes e Machado (2014, p. 32) assinalam que “a pessoa que sofre deseja ser compreendida, pois além de dores físicas, desenvolve conflitos emocionais e existenciais, para os quais não existem aparelhos ou remédios que possam aliviar”. É necessário que os trabalhadores desenvolvam atitudes de empatia e compreensão, pois o paciente necessita ser acolhido. Mais que habilidades, eles esperam respeito, humildade e compaixão nessa relação (SILVA; ARAÚJO, 2009).
Rezende, Gomes e Machado (2014) apontam que o profissional da saúde deve buscar aprimoramento de sua capacidade de comunicação, saber a hora de falar e também de ficar em silêncio e ouvir. Em complemento, Silva e Araújo (2009) destacam que a escuta é a maior habilidade que devemos desenvolver e Kovács (2006, p. 86) enfatiza que “o que nos caracteriza como humanos é a capacidade de ouvir a nós mesmos e aos outros”.
[...] pelo fato da gente ser humano, né? Da gente sentir tudo isso, tem umas limitações no trabalho também [...] (GF03).
A gente fala que atenção domiciliar tem que ter perfil e tem pessoas que não estão preparadas para lidar com a morte, com sofrimento muito ativo. Tem pessoas que não conseguem que já chegaram e já saíram ”ah, eu não tenho perfil, porque é muito sofrimento e eu não dou conta”[...] (E48, grifos nossos).
Voltamos ao paradoxo em que o trabalho na atenção domiciliar coloca as questões pessoais do profissional em cheque. Para Torres (1999), as intervenções desses trabalhadores devem valorizar os usuários, sua condição de vida como humano que pensa e sente, e observar sua história de vida, que vai além de sua doença. Entretanto, a condição do trabalhador não deve ser desconsiderada, pois o perfil desse trabalhador talvez esteja mais envolvido com sua cultura e consciência pessoal do que como lidar ou não com questões de perda e sofrimento. Escudeiro (2008, p. 18) afirma que “nos enganamos e vivemos como se não fossemos morrer, nem nós nem nossos entes queridos”. Porém, essa é uma grande ilusão, pois “a vida é feita de perdas e ganhos e uma das maiores perdas que enfrentamos é a morte”.
Yalom (2008, p. 29) vem dizer que “certas situações na vida quase sempre despertam angústias da morte, como uma doença grave, o falecimento de uma pessoa próxima ou uma ameaça séria e irreversível à segurança de alguém”. No PMC, essa angústia é realçada a todo tempo e em cada caso, o que nos conduz, de certa forma, a olhar para nós mesmos “como se tentássemos olhar fixamente para o sol: existe um limite até o qual conseguiríamos suportar” (YALOM, 2008, p. 16).
Essas habilidades colocadas nos remetem ao trabalho prestado pelas equipes, como se organizam para oferecer um serviço de qualidade com tantas habilidades reconhecidas como necessárias, compreendendo suas limitações e sentimentos.