5 Fra interesse til innsikt
5.5 Brev som kilde i forhold til andre kilder
Na passagem para o atual milênio está surgindo uma nova forma de sociedade, que para Manuel Castells (2012) é um “novo mundo” em formação. Ela recebe diferentes designações genéricas, como “pós-industrial” e “pós-moderna”. Isto se deve, como lembra Alfredo Mela (1999), a uma falta de unanimidade em sua conceituação pelos diferentes autores, que não são, necessariamente, do mesmo campo científico. Para Castells (2012) a sociedade atual é a “Sociedade em Rede”20, cuja nova
estrutura social é constituída por redes em todas as dimensões fundamentais da organização e da prática social. Esta denominação reforça as características de conexões, trocas e tecnologias informacionais que são inerentes às redes, com os seus nós e fluxos, e que estão presentes na sociedade contemporânea.
No entanto, a passagem para esta nova forma de sociedade, independente da adjetivação utilizada, se dá em meio a tempos conturbados, de agonia e incerteza por ações terroristas, guerras e crises – econômicas e políticas –, como é observado por Castells e vivenciado por nós, seja na vida cotidiana ou ao lermos e assistirmos às notícias diárias.
Castells (2012) entende que uma nova sociedade surge quando há transformações estruturais em múltiplas dimensões – que podem ser observadas nas diferentes relações de produção, poder e experiência – e que conduz a modificações substanciais nas formas sociais de espaço e tempo, dando origem a uma nova cultura.
Para designar genericamente a sociedade atual utilizaremos as denominações “sociedade contemporânea” e “sociedade pós-moderna”. Quando do emprego das definições específicas de Castells (2012) será utilizada a expressão “sociedade em rede”21. Como mencionado anteriormente, evitamos o termo “pós-industrial”, pois
este parece remeter a uma sociedade ou a um período de desenvolvimento (contemporâneo) em que a participação da indústria é reduzida, o que acreditamos não acontecer, como está sendo observado ao longo deste trabalho.
20 Também título de seu livro, onde são propostos novos conceitos e perspectivas para compreender as
tendências que caracterizam a estrutura e a dinâmica da sociedade no início do século XXI. A primeira edição deste livro foi lançada em 1996 e atualizada em 2010, com um novo prefácio. A nova edição, em português, foi lançada em 2012, data que é usada como referência. CASTELLS, Manuel. A Sociedade
em Rede. 6a edição atualizada com novo prefácio, São Paulo: Paz e Terra, 2012.
21 Uma certa repetição da referência bibliográfica (CASTELLS, 2012) se faz necessária por este autor
ter utilizado em trabalhos anteriores o termo “sociedade informacional”. Convém ainda esclarecer que a definição atual de “sociedade em rede” é uma evolução da definição anterior, informacional.
As transformações que possibilitaram o período atual de desenvolvimento (pós- fordista) e, consequentemente, conformaram a sociedade contemporânea, foram iniciadas ainda no ciclo anterior fordista, na transição entre esses dois períodos (como observado preliminarmente). Desse modo, a transição para a sociedade pós- moderna teve início entre o fim da década de 1960-70 e meados da década de 1970- 80 e ainda continua, como destacam Mela (1999) e Castells (2012). Para este último autor, esta transição ocorreu a partir da coincidência histórica entre três processos interdependentes:
A revolução da tecnologia da informação com as comunicações por satélite e micro-ondas, a miniaturização dos componentes eletrônicos e a invenção do microcomputador;
A crise econômica, que teve como um dos fatores principais o já mencionado desabastecimento de petróleo da década de 1970-80. Isto levou à reestruturação do capitalismo e ao fim do comunismo na União Soviética (URSS) e nos países do Leste Europeu;
O auge dos movimentos sociais e culturais, como o liberalismo, o ambientalismo, o feminismo e os direitos humanos22.
Nesse sentido, a revolução tecnológica e da informação, bases da inovação que marca o começo do período de desenvolvimento pós-fordista, deu origem ao que foi denominado por Castells como informacionismo, que é a base material para a nova sociedade. Desse modo, a geração de riqueza, o poder e os novos códigos culturais passaram a depender da capacidade tecnológica das sociedades e dos indivíduos. “A tecnologia da informação tornou-se ferramenta indispensável para a implantação efetiva dos processos de reestruturação socioeconômica” (CASTELLS, 1999, p. 412). Em uma perspectiva histórica mais ampla, Castells considera a sociedade em rede uma transformação qualitativa da experiência humana que representa o surgimento de uma nova era. “É o começo de uma nova existência e, sem dúvida, o início de uma nova era, a era da informação, marcada pela autonomia da cultura
vis-à-vis as bases materiais de nossa existência” (CASTELLS, 2012, p. 574).
22 Os movimentos sociais eclodiram no final da década de 1960-70 como forma de reação à “sociedade
de consumo”. Segundo Castells (1999), apesar desses movimentos não estarem relacionados diretamente à crise econômica, eles conseguiram impactar a economia, a política, a tecnologia e os acontecimentos resultantes do processo de reestruturação capitalista. Esses movimentos
influenciaram na utilização individual e descentralizada da tecnologia, a partir de uma cultura aberta e libertária. Havia também uma experimentação tecnológica, permitindo a manipulação de símbolos como forma de representações imaginárias, o que ocasionou em uma evolução para a cultura da virtualidade real.
Entretanto, do mesmo modo que as sociedades industriais abrigaram por muito tempo formas pré-industriais, na sociedade pós-moderna (ou em rede) nem todas as instituições e dimensões seguem essa nova lógica. Neste sentido, cabe recordar que durante os séculos XIX e XX, em períodos de desenvolvimento industriais anteriores (incluso o fordista), a contínua inovação dos meios de transporte e de comunicação permitiram a difusão de redes internacionais pioneiras, que eram cada vez mais integradas e especializadas (MELA, 1999). E a integração em redes teve uma forte aceleração com a implementação em massa das tecnologias da informação a partir da década de 1980-90, na transição entre os períodos fordista e pós-fordista. Milton Santos, ao tratar das relações entre o global e o local em 1996, já observava que “a noção de rede global se impõe nesta fase da história” (SANTOS, 1996, p. 269).
O processo social, em suas diferentes dimensões – política, econômica, espacial, urbana, tecnológica, cultural, ideológica – e em suas múltiplas interações e desdobramentos, é a base para as transformações em curso. São essas dimensões que possibilitaram o aparecimento da nova estrutura social – a sociedade pós- moderna (ou em rede, na definição de Castells). Estes processos e seus desdobramentos serão abordados a seguir. No entanto, vale a ressalva de que eles se interpolam ou são transversais, o que dificulta a delimitação precisa em subtemas.
1.2.1. - Neoliberalismo e a economia informacional global
A crise do modelo de desenvolvimento econômico do capitalismo na década de 1970-80 motivou sua reestruturação. Governos e empresas estabeleceram políticas e medidas que, em conjunto, levaram a uma nova forma de capitalismo23, de origem
neoliberal e global – na visão de Castells (2012), informacional, flexível e rejuvenescido.
Esta nova forma econômica tem sua origem no modelo neoliberal, que foi iniciado no final da década de 1970-80 e início da seguinte com a ascensão ao poder da Primeira Ministra Margaret Thatcher, no Reino Unido, e do presidente Ronald Reagan, nos Estados Unidos. Os dois eram de partidos políticos com tendências
23 Este capitalismo difere do formado na era industrial e do seu resultante fordista pós Segunda
conservadoras24. Ao implementarem em seus governos vigorosas abordagens
políticas e econômicas, ambos deram origem ao modelo econômico e ideológico chamado de Neoliberalismo, que passou a dar o tom da economia mundial a partir da década de 1980-90, com ações no sentido de:
Reduzir a participação do Estado na economia, com a privatização de empresas e serviços públicos;
Desmantelar as políticas de assistência pública (saúde, educação e segurança social) que levam à crise do Estado do Bem-estar Social na Europa;
Estimular a iniciativa privada para atuação nos campos econômicos e sociais que antes eram ocupados pelo Estado.
Para Mela (1999) o neoliberalismo procura legitimar o enfraquecimento do papel social do Estado, não só com base na realidade econômica da época, mas também como uma convocação ao ativismo econômico e ao individualismo, valores que estão presentes no senso comum dos países anglo-saxões.
Com a queda do regime comunista na antiga URSS e nos países do Leste Europeu a partir das revoluções do começo da década de 1990-2000, o capitalismo ampliou sua atuação nesses países, nas suas culturas e em seus modos de vida.
Pela primeira vez na história, o modo capitalista de produção dá forma às relações sociais em todo o planeta. Mas esse tipo de capitalismo é profundamente diferente de seus predecessores históricos. Tem duas características distintas fundamentais: é global e está estruturado, em grande medida, em uma rede de fluxos financeiros. O capital funciona globalmente com uma unidade em tempo real; e é percebido, investido e acumulado principalmente na esfera de circulação, isto é, como capital financeiro (CASTELLS, 2012, p. 567).
Segundo Castells (2012), mesmo com as profundas transformações em curso com a introdução dessa nova forma de capitalismo – informacional e global –, a essência deste segue preservada, mantendo-se voltado para a produção pelo lucro25. Esta é a
mesma visão de Santos (1996):
24 Ela, do Partido Conservador, e ele, do Partido Republicano, partidos chamados de
neoconservadores. Para maiores informações históricas e críticas ao processo neoliberal ver Castells (2012), Capítulo 2 - “A nova economia: informacionismo, globalização, funcionamento em rede”.
25“O capitalismo visa a maximização de lucros, ou seja, o aumento do excedente apropriado pelo
capital com base no controle privado sobre os meios de produção e circulação” (CASTELLS, 2012, p. 53).
Na escala do globo, o motor implacável de tantas reorganizações, sociais, econômicas, políticas, e também, geográficas, é essa mais- valia global, cujo braço armado é a competitividade, que, neste nosso mundo belicoso, é a mais guerreira de todas as ações (SANTOS, 1996, p. 333).
Posteriormente, o neoliberalismo foi a base para o chamado “Consenso de Washington”, em que organismos internacionais multilaterais estabelecidos na capital norte-americana (Fundo Monetário Internacional – FMI, Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, Banco Mundial e Departamento do Tesouro dos EUA) criaram em 1989 um conjunto de medidas de ajuste macroeconômico. Estas seriam adotadas pelos países em desenvolvimento (até então chamados de Terceiro Mundo) ou com dificuldades financeiras caso fossem tomar empréstimos externos com estas instituições.
Essa “receita” era dividida em dez regras: disciplina fiscal, redução dos gastos públicos, reforma tributária, juros de mercado, câmbio flutuante (no valor de mercado), abertura comercial, eliminação de restrições aos investimentos estrangeiros diretos, privatização das estatais, desregulamentação econômica e trabalhista (flexibilização do emprego e dos salários), respeito à propriedade intelectual. Assim, este conjunto de medidas neoliberais se tornou a política oficial do FMI em 1990 (CASTELLS, 2012).
Os países latino-americanos, que padeciam do forte endividamento externo na década de 1980-90, sofreram enormes pressões para que aderissem a essas regras quando da renegociação de suas dívidas com os organismos internacionais. A receita recebia o título sutil de “recomendações” que tinham diferentes intensidades conforme a necessidade do empréstimo para cada país. Como observado na descrição dessas regras, elas tinham como objetivo promover políticas de ajuste com a realização de reformas estruturais, que eram justificadas pela necessidade de se reestabelecer a competitividade e o crescimento destes países.
Para o arquiteto e urbanista Carlos De Mattos (2004) a reestruturação macroeconômica determinou as bases para a nova fase de modernização do capitalismo na América Latina. No entanto, esta reestruturação não se desenvolveu com a mesma velocidade e profundidade em todos os países dessa região. Esta modernização os levou, mais cedo ou mais tarde, a se articularem à economia global, sendo afetados pelas transformações em curso e progressivamente incorporados à dinâmica da globalização.
A reestruturação do capitalismo com a adoção do modelo neoliberal levou à economia informacional global, que se caracteriza por formas de organização das atividades econômicas mais flexíveis – estruturas empresariais e produtivas, além das relações de trabalho –, utilizando-se da tecnologia para a gestão, o aumento da produtividade motivada pela inovação e da competitividade voltada para a globalização, de modo a gerar maior riqueza e apropriá-la seletivamente. Essa flexibilização levou ao enfraquecimento dos movimentos sindicais e à crise e redução do Estado do Bem-estar Social, que era o alicerce do contrato social nos países europeus durante o período fordista.
Por economia global entendemos como aquela que funciona em tempo real como uma unidade em um espaço mundial, tanto para o capital como para a gestão, o trabalho, a tecnologia, a informação e os mercados (CASTELLS; HALL, 2001, p. 21-22, tradução livre do autor).
Na economia global também estão inclusas as empresas voltadas apenas para o mercado nacional, mas que dependem da dinâmica e da lógica da economia mundial. Para o planejador e historiador do urbanismo Peter Hall e também para Manuel Castells (2001), os processos históricos mencionados anteriormente estão inter-relacionados:
A economia informacional é uma economia global porque a capacidade gerada pelas novas fontes produtivas necessita de uma expansão constante em um mercado mundial dominado por uma nova hierarquia do poder econômico, o qual depende de forma decisiva da informação e da tecnologia, e que cada vez está menos condicionado – sem descartarmos temporalmente as fontes de energia não renováveis – ao custo do trabalho e das matérias-primas. A revolução tecnológica fornece a infraestrutura necessária para o processo de formação de uma economia da informação global e é fomentada pelas demandas funcionais geradas por essa economia. As novas tecnologias da informação resultam decisivas para os processos e as formas da nova economia, em, pelo menos, três níveis (CASTELLS; HALL, 2001, p. 23, tradução livre do autor).
Esses três níveis seriam:
A base material voltada para a integração dos processos econômicos a nível mundial, de maneira a conservar a flexibilidade organizativa para esses processos. A crescente integração das redes de comunicações com os
computadores cria uma infraestrutura tecnológica comparável ao avanço proporcionado pela estrada de ferro no século XIX;
Os setores industriais da nova economia foram os de maior crescimento mundial no último quarto do século XX. Quanto maior for o potencial das regiões e países em gerar desenvolvimento de novas indústrias de tecnologia avançada, maior será o seu potencial econômico na competição global;
A transformação tecnológica da economia global, impulsionada pela formação educacional, demanda um rápido processo de modernização de todos os setores da economia, de forma a serem capazes de competir em uma economia aberta. A difusão (e democratização) do conhecimento e da tecnologia em todas as atividades econômicas se torna mais decisiva do que o próprio desenvolvimento da produção de alta tecnologia em si.
(CASTELLS; HALL, 2001)
Nessa nova economia, global e interdependente, há uma grande competitividade e concorrência envolvendo países e empresas por uma maior participação na produção, comércio e trabalho. Isso foi facilitado pela formação das múltiplas redes, difundidas pela massificação da comunicação à distância, do processamento e armazenamento de informações, o que permitiu ainda a individualização do trabalho.
Segundo Castells (1999), a economia global penetrará durante o século XXI todos os países, territórios e culturas utilizando-se das tecnologias de comunicação e informação. Os fluxos de comunicação e as redes financeiras explorarão o planeta de forma contínua em busca de novas oportunidades de lucros. Isso ocorrerá de forma seletiva, conectando segmentos de valor e desconectando locais e pessoas não pertinentes. E a economia informacional será regida por instituições multilaterais de base neoliberal, como as que deram forma ao Consenso de Washington, citado anteriormente, e que serão ligadas pelo sistema de redes. A geopolítica será regida pelo multilateralismo, com organizações desempenhando um papel cada vez mais importante na administração de conflitos internacionais e mesmo nacionais.
A adoção do modelo neoliberal e de suas medidas de ajuste econômico pelo governo brasileiro, no início da década de 1990-2000, levou a profundas transformações na economia, nas atividades produtivas, nas relações trabalhistas e, consequentemente, no processo de urbanização e (re)estruturação dos espaços
urbanos. A privatização da CSN em 1993 e os desdobramentos desse modelo econômico no espaço urbano-regional do Vale do Paraíba, com o início do processo de dispersão a partir da instalação de novas indústrias transnacionais na região, são observados nos capítulos 4 e 5.
Os componentes dessa nova economia global e informacional – a globalização e seus desdobramentos espaciais, as redes e seus elementos, a crise do Estado e a competitividade local, a organização da produção de modo flexível, suas consequências no trabalho e as desigualdades geradas – serão observados nos tópicos a seguir.
1.2.2. - Globalização
A nova economia global e informacional, baseada no modelo neoliberal, se desenvolveu em simultâneo com o conjunto das transformações tecnológicas ocorridas durante a década de 1980-90 e aos poucos vem substituindo a forma econômica anterior, fordista. No entanto, para Castells e Hall (2001) esta nova economia passava despercebida, sendo mascarada pela forma econômica anterior, e sua percepção é relativamente recente, começando a ser observada a partir da década de 1990-2000. Este novo ciclo de desenvolvimento é a base para a globalização em curso, que na atualidade está se intensificando e se diversificando. Para o sociólogo Anthony Giddens (1991) a globalização é a intensificação das relações sociais em escala planetária, gerando interdependências e utilizando-se da conjunção das mudanças tecnológicas e mercantis para a consolidação de mercados de natureza planetária, o que proporcionou a circulação global de capital e informações. Em termos históricos esse processo coincidiu com o fim da União Soviética (URSS) e o esgotamento da divisão bipolar do mundo, iniciada após a Segunda Guerra Mundial.
A globalização pode ser assim definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção anversa às relações muito distanciadas que os modelam (GIDDENS, 1991, p. 76)
Já para Milton Santos (2000) a globalização demarca um período claro do processo histórico. Funda-se um “novo mundo”, nos mesmos termo e sentido usados por Castells (2012), cuja realidade histórica é unitária, apesar de ser extremamente diversificada. Esse novo mundo possui traços comuns na sua constituição técnica e no seu motor único para ações hegemônicas – o lucro na escala global. Isto, em conjunto com a generalização da informação, garante que cada lugar esteja em comunhão com todos os demais.
O processo de globalização influencia, direta e indiretamente, todos os aspectos da existência, ao mesmo tempo que “o próprio mundo se instala nos lugares” (SANTOS, 2000, p. 172). Assim, a totalidade do planeta é influenciada pela globalização, com toda superfície terrestre sendo compartimentada pela ação direta ou indireta (política) do homem. “Com a globalização, todo e qualquer pedaço da superfície da Terra se torna funcional às necessidades, usos e apetites de Estados e empresas nesta fase da história” (p. 81).
Mas este processo não é homogêneo, pois os indivíduos não são igualmente atingidos por ele, já que sua difusão encontra obstáculos na diversidade de pessoas e lugares. De fato, a globalização agrava as diferenças (heterogeneidades), dando a elas um caráter ainda mais estrutural (SANTOS, 2000). Ou seja, aumenta desigualdades, exacerbando polarizações sociais, bem como a segregação e a exclusão, como será visto mais à frente neste capítulo.
Segundo Santos (2000), as novas técnicas e sistemas informacionais dão apoio às lógicas presentes no capital (informacional), que se impõem, tornando o dinheiro abstrato – fluido e praticamente invisível. E a velocidade com o que capital circula nesses sistemas imprime agilidade e competitividade a empresas e Estados. Nesse sentido, o mercado externo, com suas exigências de competitividade, força o aumento da velocidade, enquanto o mercado interno força a diminuição do desejo de velocidade.
Os mercados e lugares se tornaram interdependentes e intercorrentes. O mercado externo tende a invadir os mercados internos (nacionais) e os territórios, tentando destruir as formas econômicas preexistentes. Os projetos de grandes empresas, articulados globalmente, são impostos de uma maneira ou de outra. Essas empresas criam suas próprias normas de maneira privada, com vigência indiferente aos contextos em que se inserem. Com isso, acabam guiando a evolução dos países, mesmo que suas normas próprias não estejam de acordo com as instâncias políticas. Para Santos, em muitos casos os países são subservientes, deixando de
lado suas características particulares e interesses. Assim, esse autor considera que a “nação passiva” utiliza os lugares como mais um recurso a seu serviço26, mas sem
ter um compromisso maior com cada lugar.
A globalização subverte o jogo da evolução territorial e impõe novas lógicas, utilizando-se da primazia dos sistemas técnicos e informacionais. Dessa maneira, um determinado território, ou sua fração, submete-se a uma lógica extralocal ou extrarregional dependendo da escala, que segundo Santos (1996), rompe com os vínculos locais, muitas vezes de modo profundo.
Assim, enquanto o “mundo” intervém no espaço e o transforma unilateralmente, para responder localmente a imperativos ditos