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3.5 Diskusjon

4.5.2 Brekkeelva

Várias são as teorias de valores culturais utilizadas na compreensão das semelhanças e diferenças verificadas nas sociedades. Segundo Ros (2002, p. 1973), as teorias transculturais de Bond, Hofstede, Schwartz e Inglehart são as que representam na atualidade as formulações mais consistentes sobre as dimensões culturais dos valores. Neste momento, as teorias de Schwartz recebem uma abordagem mais extensa, na medida em que esta é a base deste trabalho.

Primeiramente, é importante lembrar que por valores transculturais compreende-se um conjunto de valores presentes em todas as culturas, ou seja, os países em que foram realizadas as pesquisas dos autores mencionados apresentaram valores que se repetem e os resultados foram corroborados pelos dados das dimensões culturais estudadas (ROS, 2002).

As pesquisas de Hofstede (1991) resultaram na identificação de quatro categorias de problemas com os quais todas as sociedades, modernas ou tradicionais, se defrontam, diferenciando-se somente nas respostas oferecidas e contribuiu para a compreensão das diferenças culturais. Essas categorias representam quatro fatores que diferenciam as culturas, numa pesquisa realizada em mais de 40 países, com 116.000 empregados de uma mesma empresa, sobre os valores associados ao trabalho. Os fatores são:

 Distância do poder – grau em que as pessoas aceitam a distribuição desigual de poder;  Controle da incerteza – grau de tolerância ou intolerância e ambigüidade numa

sociedade;

 Masculinidade / feminilidade – preferência entre relações pessoais em oposição a preferência pelo êxito material;

 Individualismo / coletivismo – preferência por relações sociais em que os indivíduos cuidam mais de si mesmos ou relações sociais mais harmônicas com o grupo social a que pertencem.

Desse conjunto, o nível Individualismo versus Coletivismo é o que mais tem despertado o interesse dos estudiosos e é considerado como uma dimensão bipolar, por ser definido como a valorização da independência emocional e a autonomia da pessoa, conforme destaca Ros (2001, p. 177).

Os conceitos de individualismo e coletivismo estão fortemente vinculados a variáveis sociais, políticas e econômicas, conforme Hofstede (1991) destaca quando compara a diferença entre as nações mais desenvolvidas com aquelas mais pobres. Há uma predominância da cultura individualista nos países mais ricos e coletivistas nos países mais pobres. O crescimento da riqueza estimula o crescimento do individualismo, mas isso não ocorre em situação contrária, ou seja, o aumento do individualismo não leva ao crescimento econômico., como é o caso da África do Sul, décima sexta colocada na classificação pelo índice de individualismo.

Os resultados da pesquisa de Hofstede (1991) indicam que o individualismo é o grau com que as pessoas preferem agir como indivíduos, ao invés de agirem como membros de um grupo, onde cada um deve ocupar-se de si próprio e da sua família mais próxima. O coletivismo, ao contrário, ocorre quando prevalecem sentimentos e preocupações em relação ao grupo, caracterizado pelas sociedades nas quais as pessoas são integradas e se protegem por toda a vida em troca de lealdade inquestionável. Nas sociedades coletivistas existe o hábito de se criarem laços pseudo-familiares para se integram ao grupo, apesar de não serem parentes biológicos.

Os resultados encontrados por Hofstede (1991) mostram que em algumas culturas há predominância do coletivo sobre o indivíduo, isto é, metas pessoais estão subordinadas ao grupo. Em outras culturas há predominância do indivíduo, as metas pessoais são prioritárias em relação às metas do grupo. As principais diferenças existentes na dimensão individualista

versus coletivista são atribuídas por Hofstede (1991) a alguns fatores, como no Quadro 4.

Quadro 4 – Fatores relativos ao individualismo e ao coletivismo

Individualismo Coletivismo

O tempo pessoal, a liberdade e o desafio pessoal enfatizam a independência do empregado em relação à organização.

A formação, as condições de trabalho e a utilização das competências são do domínio do que a organização pode proporcionar ao empregado.

A identidade está baseada no indivíduo. A identidade é função do grupo social a que cada um pertence.

A relação empregador-empregado constitui um contrato que se presume em vantagens mútuas.

A relação empregador-empregado é percebida em termos morais como um vínculo familiar.

A comunicação é de baixo contexto e o silencio é considerado suspeito, ainda que as conversas sejam banais, são obrigatórias.

A comunicação é de elevado contexto, o fato de estar junto é suficiente e não existe obrigação de falar se não houver informação para transmitir.

As implicações de pertencer a uma determinada categoria são impostas pelo próprio indivíduo.

As implicações de pertencer a uma determinada categoria são impostas pelo grupo ou pela tradição.

Nas culturas individualistas, os pais sentem orgulho quando os filhos, ainda jovens, conseguem trabalho que lhe proporcione dinheiro.

As obrigações com a família coletivista vão além das questões financeiras e as celebrações familiares são de extrema importância.

Na escola a educação é aprender como

aprender. Na escola a educação é para aprender a fazer. Fonte: Hofstede, 1991, p.104

Além disso, Hofstede (1991) lembra que nas relações comerciais das culturas individualistas todos devem ser tratados de forma igual, que “na linguagem sociológica se conhece como

universalismo [...] e nas culturas coletivistas ocorre exatamente o contrário [...] que os

sociólogos denominam de particularismo” (HOFSTEDE, 1991, p.86). Em negócios, dar tratamento preferencial a um cliente em relação a outro é considerado uma péssima estratégia e falta de ética, para os individualistas. No entanto, na sociedade coletivista, a distinção entre

os grupos pertence à cultura e está enraizada nas pessoas, sendo considerada ética e uma boa estratégia de negócios.

Ros (2001) destaca uma discussão apresentada por Schwartz (1999) sobre os conceitos de individualismo e coletivismo, em razão das diferenças culturais, e argumenta que essa diferenciação torna os países mais ou menos predominantes nos valores que caracterizam esses dois tipos conceituais de valores que definem uma sociedade. No entanto, as sociedades podem possuir uma combinação desses valores de forma distinta de um país para outro sem a prevalência específica dos valores contidos nos perfis de coletivismo ou individualismo.

Ros (2001) também assinala que o individualismo pesquisado por Hofstede (1991) está relacionado ao desenvolvimento econômico e o individualismo, pesquisado por Schwartz (1999), tem seu vínculo com o desenvolvimento humano. Assim, lembra que “parecem existir distintos tipos de individualismo, um mais competitivo, o que mede Triandis e Hofstede, e outro mais afetivo e intelectual, que é o que mede Schwartz” (ROS, 2001, p.41).

Schwartz (2005) traz uma comparação entre as dimensões da sua teoria e a de Hofstede. Para o autor as quatro dimensões da cultura nacional podem ser associadas, em parte, às dimensões da teoria de valores culturais, conforme item 2.11 deste trabalho.

Assim, o grau de individualismo ou coletivismo de uma sociedade tem repercussões no conceito que essa sociedade tem sobre a natureza humana, o desenvolvimento econômico do país e o crescimento da população, dentre outros fatores destacados por Hofstede (1991). Nesse sentido, os países mais ricos são mais individualistas, enquanto que os mais pobres são mais coletivistas. De forma semelhante, também é nos países mais pobres e coletivistas onde

se encontram as maiores populações de famílias numerosas. Tais diferenças são cruciais para a formação dos valores de uma sociedade.

O trabalho de Inglehart (1997), por outro lado, partiu da teoria das necessidades humanas de Maslow para explicar como os valores políticos emergem das necessidades individuais durante o processo de socialização para desenvolver o conceito dos valores de materialismo e pós-materialismo. Conforme Ros (2002, p.14) ressalta, para Inglehart (1997) a dimensão bipolar cultural formada por esses pólos apontam na dimensão materialista e foram identificados valores relacionados a segurança, ordem social, estabilidade e também gestão política e econômica que crê nas ações e decisões tomadas com base na realidade e tais comportamentos são associados aos valores de segurança e poder. Os valores pós- materialistas, por outro lado, enfatizam a liberdade individual, a igualdade, a preocupação com o meio ambiente e a participação cidadã.

Para Inglehart (1997) a sociedade tem necessidades de ordem superior e, enquanto as necessidades de ordem inferior não são atendidas, as condições econômicas da sociedade são responsáveis por suas orientações de valor, por essa razão, a escassez gera insegurança e leva a priorização das necessidades materiais. A mudança de necessidades materiais para necessidades pós-materiais, segundo Inglehart (1997) é conseqüência da mudança nas condições socioeconômicas.

Inglehart (1997) encontrou também a dimensão Modernização e associou-a à teoria Weberiana para apontar a transição das sociedades tradicionais para sociedades modernas. Para o autor, essa dimensão significa a mudança da autoridade religiosa para a autoridade

estatal, através da secularização e burocratização e a teoria da modernização propõe que o desenvolvimento econômico está vinculado à cultura e à vida social e política.

Ros (2002, p. 15-16) destaca que para Inglehart (1997) o desenvolvimento econômico proporciona duas dimensões psicossociais das diferenças transculturais: “a primeira dimensão associada à industrialização recente e ao surgimento da classe trabalhadora, e a segunda dimensão que reflete as condições de bem estar econômico das sociedades industriais avançadas com aumento dos setores de serviços e de conhecimento”.

Inglehart (1997) sugere, portanto, que a teoria da modernização tem uma relação com o crescimento econômico durante o processo de industrialização, vinculado ao materialismo, e, a partir da satisfação das necessidades básicas, as sociedades avançam para os valores do Pós- materialismo, associado às necessidades de bem-estar.

Ros (2001, p.180) também aponta Bond como um dos estudiosos da teoria transcultural de valores, especificamente os da sociedade chinesa. Esse pesquisador enfatizou quatro fatores: Integração, Dinamismo de Trabalho Confuciano, Humanitarismo e Disciplina Moral. Tais resultados “revelam uma nova dimensão específica da sociedade chinesa e que, em princípio, é distinta das encontradas pelos teóricos precedentes de sociedades ocidentais” (ROS 2001, p. 181).

Para Ros (2001, p. 181) esses quatro modelos “se propõem a diferenciar as distintas culturas nacionais, e como tal, representam tipologias transculturais. Não se concentram em compreender culturas, concentram-se na diferenciação do padrão cultural”. Por outro lado,

“apesar de terem sido encontrados dados sobre o modelo teórico de Bond, não se corroboraram em análises mais recentes” (ROS 2001, p. 183).

Para a autora existem evidências suficientes da validade convergente entre o modelo de Hofstede e Bond com os valores de Rokeach, como por exemplo: Individualismo se correlacionando com os valores de Vida Excitante e Mundo de Beleza. Ros (2001 e 2002) associou as teorias de valores transculturais desses pesquisadores e encontrou evidências que corroboram similaridades conceituais entre as dimensões culturais dessas teorias.

Quanto ao modelo de Inglehart (1997), Ros (2001 e 2002, p.187) aponta a existência de evidências da validade convergente de materialismo / pós-materialismo com os fatores de Harmonia / Igualdade e Autonomia Afetiva / Igualitarismo de Schwartz (1999). Portanto, quando o conceito é Pós-materialismo, refere-se aos mesmos valores contidos nas dimensões culturais Autonomia Afetiva e Igualitarismo (ROS, 2002). Para a pesquisadora, os resultados do trabalho de Inglehart (1997) apresentam um padrão de convergência entre os valores mundo de beleza, sabedoria e harmonia interna, de Rokeach (1973) com os elementos pós- materialistas. Por outro lado, existem diferenças e as maiores dessas diferenças encontram-se nas dimensões Pós-materialismo / Conservação e Hierarquia / Domínio.

Para Ros (2002, p. 29-30) “a diferença entre o modelo unidimensional de Inglehart e o bidimensional de Schwartz consiste em que o modelo bidimensional aponta sutilezas que o outro não percebe” e que “os valores são o resultado de uma série de condições macroeconômicas (...) enquanto o crescimento econômico reforça os valores materiais, o desenvolvimento humano reforça os valores mais solidários”.

Os estudos de Bond analisados por Ros (2001, p. 189) indicam que “Bond realizou um estudo entre as teorias transculturais de Hofstede (H), Bond (B) e Schwartz (S) e encontrou três dimensões bipolares e uma unipolar”. A dimensão unipolar é referente a Masculinidade e as dimensões bipolares são:

 Igualitarismo (S) e Individualismo (H) versus Conservação (S) e Hierarquia (S)  Controle da Incerteza (H) e Autonomia Intelectual (S) versus Harmonia (S)

 Dinamismo do Trabalho Confuciano (B) e Disciplina Moral (B) versus Autonomia Afetiva (S) e Competência (S)

Para Ros (2001) os resultados das pesquisas de Hofstede (1991) são adequados, em particular para diferenciar organizações, tendo em vista que o estudo foi elaborado com os empregados de uma empresa multinacional e os valores encontrados podem ser associados aos valores do trabalho. O trabalho de Inglehart, por outro lado, que tem por base as necessidades humanas de Maslow, também reúne evidências da adequação dos conceitos de materialismo e pós- materialismo para comparar culturas. Entretanto, Ros (2001 e 2002) ressalta que a teoria de Schwartz (1994), apesar de ser a mais recente, é a que contém mais evidências de validade e robustez.