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Para verificar se a literatura brasileira está coerente ou silencia a dimensão do excluído, passamos agora a percorrer a Revista Teocomunicação182. Embora sejam pouco recorrentes os artigos sobre a temática dos excluídos, verificamos que, em todas as edições, existem em torno de 21 artigos sobre o nosso tema, dos quais 9 contêm citações do Quarto Evangelho. Em outras palavras, o recurso ao Evangelho de João é um tanto pequeno. Na edição número 141 de Teocomunicação de setembro de 2003, onde o tema foi “Fome e teologia” existem 7 artigos que tratam, direta ou indiretamente, da questão da fome e do pão como alimento. Neste, apenas 5 artigos contêm citações do Quarto Evangelho183, sendo que dois destes apenas em forma periférica. Destacamos aqui dois artigos que levam em conta a dimensão concreta do Evangelho de São João ao abordar a questão dos famintos de pão material.

No artigo: “Pedras em pão: Por que não? Uma interrogação cristológica”, Érico João Hammes, na referida edição número 141 de Teocomunicação, parte do pressuposto que a comida representa muito mais que o preenchimento de uma necessidade biológica. Não se trata apenas de comer, mas de participar de uma ceia, uma refeição. O autor faz uma leitura cristológica da fome, a partir da tentação sofrida por Jesus no deserto: “Essa estrutura básica de tentação associada à fome pode também ser encontrada no evangelho de João, quando, após a multiplicação dos pães, Jesus, “sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou- se, de novo, sozinho, na montanha” (Jo 6,15).”184 Mas como a leitura que o autor faz é cristológica, afirma que o ponto de partida para a superação da fome está na consciência do poder relativo ao pão: “O ponto de partida de uma leitura cristológica da superação da fome está, portanto, na consciência da ambiguidade do poder relativo ao pão. Os Evangelhos mostram Jesus, não apenas recusando-se a invocar o poder divino em seu próprio favor, mas

182 TEOCOMUNICAÇÃO. Porto Alegre: Edipucrs., 1970-.

183 São eles: 1 – O desejo do outro e a luta contra a fome de Ana Maria Hadwig Muller; 2 – Pedras em pão: Por que não? Uma interpretação cristológica de Érico João Hammes; 3 – Eles o reconheceram ao partir o pão de Carlos Gustavo Hass; 4 – Esmola, Jejum e oração: a obra ou o círculo da misericórdia de Luiz Carlos Susin; 5 – Eucaristia: pão de inclusão de Luiz Carlos Susin.

184 HAMMES, Érico João. Pedras em pão: Por que não? Uma interrogação cristológica. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 33, n. 141, set. 2003. p. 471.

também o poder de domínio sobre outros, originado do pão.”185 O próprio Jesus, no contexto das tentações, colocou a fidelidade ao Pai acima de qualquer necessidade humana de pão. No artigo encontramos 16 citações de Lucas, 15 de Mateus, 12 de Marcos e 10 citações do Quarto Evangelho. “Quanto a Jo 6, embora tenha sua origem no relato sinótico, faz claramente parte da reflexão eucarística e deve ser estudado nesse contexto.”186 No início, ficamos com a impressão de que a multiplicação dos pães é vista em Mateus, Marcos e Lucas com o objetivo de saciar a fome da multidão, enquanto em João teria como objetivo ser Sinal Eucarístico. Mas para se chegar ao Sinal Eucarístico, passa-se antes pela superação da fome através da multiplicação do pão material que foi servido para a multidão.

O artigo de Luis Carlos Susin “Eucaristia: Pão de inclusão”, também publicado na edição número 141 de Teocomunicação, mostra o quanto as ações de Jesus levavam as pessoas à inclusão. Em João 6, Ele é o pão que garante a vida e, ao aceitar conversar com Nicodemos à noite (Jo 3,1), Jesus mostra não colocar barreiras para que as pessoas possam se aproximar Dele. “Ele não exclui ninguém, nem ricos, nem poderosos ou sábios. Mas à mesa de Simão apareceu a mulher considerada pecadora na cidade, que o fariseu teria logo afastado ou excluído. Jesus mostra então a Simão como aquela mulher de má fama, candidata ao sacrifício da exclusão, acolheu melhor Jesus do que o próprio anfitrião de boa fama, e revela assim, mais uma vez, sua afinidade e sua preferência pelos excluídos e ameaçados.”187 O artigo mostra que Jesus quer que todos estejam contemplados estando à mesa com Ele, incluídos.

Na edição número 129 de Teocomunicação, Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues em seu artigo “Jesus e a Samaritana: Jo 4,1-42”, mostra a relação difícil e discriminatória dos judeus ligada aos samaritanos, bem como em relação às mulheres. Destaca que a iniciativa de romper esta barreira discriminatória é de Jesus que passa pelo território dos samaritanos e busca o diálogo com a mulher samaritana: “Foi Jesus quem tomou a iniciativa ao decidir passar pela Samaria, retornando da Judéia para a Galileia. Ele poderia ter feito outro caminho, mas observa São João: “Era preciso passar pela Samaria.”188 Ao analisar esta perícope, o autor mostra que é práxis de Jesus ir ao encontro dos mais necessitados, dos excluídos e marginalizados pela sociedade. Assim foi a atitude de Jesus diante da Samaritana que era

185 HAMMES, Érico João. Pedras em pão: Por que não? Uma interrogação cristológica. Teocomunicação, v. 33, n. 141, set. 2003, p. 471.

186 HAMMES, Érico João. Pedras em pão: Por que não? Uma interrogação cristológica. Teocomunicação, v. 33, n. 141, p. 477.

187 SUSIN, Luiz Carlos. Eucaristia: Pão de inclusão. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 33, n. 141, set. 2003. p. 659.

188 RODRIGUES, Eduardo Benes de Sales. Jesus e a Samaritana: Jo 4,1-42. Teocomunicação. Porto Alegre, v. 30, n. 129, setembro de 2000. p. 485.

discriminada seja por ser samaritana, seja por ser mulher. Jesus revela a face do Deus que vem ao nosso encontro porque ama todos, e para todos quer a salvação.

Já no distante 1975, destacamos o artigo: “A mulher e a Igreja” de Maria S. Mascarello, publicado no número 15 de Teocomunicação onde se mostra a relação da mulher dentro da Igreja. A autora destaca que, por um lado, houve avanços na valorização da mulher na Igreja, mas que, por outro, é preciso avançar ainda mais. Mostra ainda o quanto Jesus valorizou as mulheres, chegando ao ponto de causar escândalo ou, pelo menos, espanto, por exemplo, no encontro com a samaritana. Mas Jesus valoriza todos, vai ao encontro dos excluídos, não discrimina ninguém: “A raça maldita das mulheres é posta, por Cristo, no mesmo plano que a raça nobre dos homens, representada por Nicodemos (Jo 3,1-8), para receber a graça da revelação.”189 A autora ainda destaca a importância de reconhecer a mesma dignidade tanto para o homem quanto para a mulher, evitando qualquer forma de discriminação. O artigo destaca a importância da Igreja na valorização da mulher, dentro e fora dela: “A Igreja, recebendo o que o mundo lhe propõe, descobrirá e inventará novos meios para o crescimento da consciência eclesial, a qual só se poderá manifestar na responsabilidade comum de mulheres e de homens pela mesma Igreja.”190 A autora destaca a valorização da mulher como elemento para o crescimento da Igreja.