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Capítulo II: Os Miseráveis, uma epopeia moderna

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Enquanto existir, fundamentada nas leis e nos costumes, uma condenação social que crie artificialmente, em plena civilização, verdadeiros infernos, ampliando com uma fatalidade humana o destino, que é divino; enquanto os três problemas deste século, a degradação do homem no proletariado, o enfraquecimento da mulher pela fome e a atrofia da criança pela escuridão da noite, não forem resolvidos; enquanto, em certas regiões, a asfixia social for possível; em outros termos, e sob um ponto de vista ainda mais abrangente, enquanto houver sobre a terra a ignorância e miséria, os livros da natureza deste poderão não ser inúteis.

Hauteville-House

1º de janeiro de 1862.

VICTOR-MARIE HUGO, nascido em 1802 na cidade de Besançon, na região do

Franco-condado, morreu em 1885 em Paris. Sua morte causou enorme comoção junto a população parisiense, tendo seu corpo velado sob o Arco do Triunfo e posteriormente levado ao Pantheon, local onde hoje jazem figuras célebres da França, e seu cortejo foi realizado “sem padre nem cruz”, como desejava. É considerado um dos grandes nomes do Romantismo, tendo contribuído enormemente no embate estético levado a cabo contra o Classicismo – corrente que gozava de grande prestígio na França – além de pulsante participação na vida pública da cidade.

Victor Hugo inicia sua carreira de escritor desde muito cedo. Aos 15 anos já havia recebido um prêmio da Academia Francesa, e, em 1820, cai nas graças do rei Luiz XVIII o que lhe rende uma pensão paga pelo Estado francês.

Filho da aristocracia, monarquista e católico, o escritor teve uma vida muito marcada pelo contexto de sua época. A ebulição política, artística e social de seu tempo pode ser vista em sua biografia, chegando mesmo a confundirem-se. A ruptura com a Igreja – mas não com Deus – se deu devido ao apoio desta com o governo de Napoleão III, que apoiava seu governo, o que lhe rendeu, inclusive, um exílio de quase vinte anos na Bélgica, trazendo enormes complicações em suas questões familiares, uma vez que após negar a anistia dada pelo “imperador”, sua família se desfaz deixando Hugo na solidão.

Eleito algumas vezes como representante parlamentar, Hugo foi um pessoa compelida a se transformar, repensando a todo o momento seus posicionamentos e

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posturas políticas. Foi contra o movimento de 1848 de cunho socialista na França, mas isso não quis dizer que fosse contrário às demandas das classes operárias, questão que acabou por afastá-lo do partido conservador por não ver neste um sentimento de integração entre as classes mais oprimidas e uma condição digna de vida. Foi de monarquista, como já o dissemos, a republicano, passando por violenta crítica ao Império. Os tempos eram de mudança, ser monarquista representava, em algum momento, ser liberal, já que Napoleão – I e III – personificavam o domínio burguês sobre a nobreza. Hugo encontra-se então diante deste turbilhão de mudanças político- sociais.

Em meio a esse contexto de transformação, de tentativas de construções e reconstruções da política e da sociedade francesa, e também de mudanças dentro dos indivíduos que atuavam nesse momento ímpar da história europeia, surge a obra “Os Miseráveis”, no ano de 1862, publicada concomitantemente em várias capitais do continente, revelando tais embates sob a óptica de Victor Hugo. Levando dezesseis anos para escrevê-la em seu exílio na Bélgica e na ilha britânica de Guernesey, e dividindo-a em cinco partes – sendo I Fantine, II Cosette, III Marius, IV O idílio da Rue Plumet e a epopeia da Rue Saint-Denis –, o já consagrado romancista parece buscar uma espécie de reconciliação pra consigo mesmo. Aqui a personagem Marius torna-se preponderante para tal entendimento, já que é mostrado como jovem perdido entre o avô monarquista, o pai condecorado como Barão pelo próprio Napoleão, e seu grupo de amigos republicanos que o acolhem em um momento de extrema aflição e autoexílio familiar.

Todos os elementos da política francesa que compõem o período cronológico da obra (entre 1815, e a queda do Império Napoleônico, e 1832, nas barricadas do levante popular contra a monarquia de Luís Filipe I) fazem parte da biografia dessa personagem. Sua trajetória mescla-se mesmo com a própria biografia de Hugo, que salva, na obra, a personagem de todos os equívocos que incorre uma vez que é levada a cometê-los, segundo o autor, por seu ímpeto juvenil ou por sua condição de homem ainda em progresso, ainda em formação. Lembramos que o homem romântico não cessa de transformar-se, não peca por omissão e erra por estar procurando seu caminho, este lhe é próprio e não admite direcionamentos prévios.

Sendo assim, vemos obra e autor construindo-se juntos. Um mostrando aspectos que influenciam e modificam o outro. Em um contexto único, imerso também nas lamentações de um autor exilado e que busca uma redenção para consigo mesmo,

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vemos emergir uma obra com extrema pulsão romântica, levando-nos a lugares repletos de idealização, de rebeldia e transgressão, mas também de infortúnios e obscuridade. Nas palavras de Victor Hugo o Classicismo se dissipa, embora não chegue a se extinguir completamente, mesmo que a monarquia e Napoleão – temáticas mais relacionadas aos clássicos, sobretudo na figura do rei e do grande homem – sejam salvos em uma brilhante reconciliação da França republicana com seu próprio passado. Assim a Nação pode retomar sua grandeza, ilustrada na figura de Marius: aquele que aprende a respeitar sua tradição e compreende seu presente, tendo vivenciado as agruras dos oprimidos pela sociedade, chegando mesmo a sentir tal peso, assim como mostrado em nossa epígrafe. Então, o advogado, pode projetar seu futuro através da justiça e pelo arrebatamento do amor que sente por Cosette,33 sua esposa. O racionalismo encontra sua

condição de existência no Romantismo: a pulsão sentimental e idealizada.