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6.2 BONUSSYSTEMENES EVNE TIL Å KNYTTE INNTEKTER OG KOSTNADER SAMMEN

6.2.4 Brann

Uma das causas - e também das consequências - desse "pânico moral" em torno do crack como problema social é a conformação de um entendimento bastante comum acerca dos usuários, o qual é bem resumido por Albuquerque (2010):

podemos afirmar que o usuário de crack é considerado como a escória da sociedade de consumo, pois ele não se adapta ao mundo competitivo do trabalho e restringe sua vida ao consumo e à aquisição do crack. Ao mesmo tempo, o usuário de crack se realiza a partir do uso da droga que, metaforicamente, "consome o próprio

consumidor". O crack vai além de uma transubstanciação: ele inverte papéis, transformando-se em sujeito, enquanto o usuário passa a ser um objeto consumível. (ALBUQUERQUE, 2010, p. 33, grifos do autor)

Se considerados os efeitos psicofisiológicos do crack (euforia, paranoia, depressão, ansiedade...), é compreensível que os usuários acabem constituindo um grupo particular de toxicômanos, na maioria das vezes incapaz de manter relações sociais para além daquelas que garantam acesso à droga, o que leva esses sujeitos a uma espiral de sofrimento, de deterioração dos laços afetivos e de degradação corporal. Além de ser associado à criminalidade, como o é grande parte dos dependentes das demais drogas, o usuário de crack é ainda fortemente relacionado às imagens da autodestruição e da ausência total de autocontrole.

Por ser considerado uma droga impura, suja, de má qualidade por não passar pelo processo de refino - e, por isso, ter um valor de mercado mais baixo -, o crack personifica e simboliza o que é da ordem do refugo, do resto, do rebotalho. Para Dias (2012), essa associação entre o crack e o descarte, entre a droga e a excrescência, suscita uma reflexão social e política a respeito da condição de seu usuário. Associados à impureza da droga, seus usuários se tornam igualmente restos, que devem ser recolhidos ou repelidos ao sabor das políticas de higienização, repressão ou atenção terapêutica:

"O crack", ao tornar-se tão escancaradamente público, "se faz ver", e é por intermédio de sua presença que os outros refugos, isto é, os descartes da cidade e da comunidade, se anunciam-denunciam-evidenciam: falamos dos modos de vida pauperizados, do circuito das ruas como morada, dos laços continuamente interrompidos, do cotidiano esvaziado pela estrita subsistência, da inacessibilidade dos espaços coletivos (clubes, parques, bibliotecas, centros esportivos). (DIAS, 2012, p. 93)

O usuário de crack, portanto, está inserido em um universo simbólico capaz de reunir diferentes elementos depreciadores, que acabam justificando aquele pânico moral em torno da droga e inserindo os toxicômanos num circuito fechado no qual são associados à degradação moral, à natureza criminosa, ao temperamento violento, às condutas manipulatórias. Todos esses "defeitos de caráter" só encontram antídoto na associação de caráter jurídico-médico, sobretudo proibicionista, que oferece a esses sujeitos apenas duas saídas possíveis: a prisão ou a internação.

Entretanto, é esse tipo de reificação apriorística dos sujeitos, um modelo já conhecido de abordagem das vítimas e dessa problemática, que tentaremos matizar e dele retirar consequências para pensarmos em problemas relativos aos dilemas políticos do testemunho midiático do sofrimento. Um primeiro passo nesse sentido é reconhecermos enquanto vítimas

do uso compulsivo os sujeitos sofredores inscritos nas narrativas midiáticas. Também é necessário considerar as situações de infortúnio às quais esses indivíduos estão submetidos, numa tentativa de responder ao como da aparição das vítimas, observando os modos de entender e retratar os infelizes, o sofrimento daqueles que construíram uma relação permanente e radical com o crack.

Após uma longa e detalhada jornada etnográfica, Rui (2014) demonstrou que, diferente das afirmações recorrentes sobre a dependência e a compulsão, "os usuários de crack não assistem passivamente ao definhamento de seus corpos. Ao contrário, eles fazem isso com os próprios corpos e refletem, por vezes excessivamente, sobre a situação em que se encontram" (p. 364). É preciso, portanto, em vez de partir de uma premissa reificante segundo a qual o usuário torna-se objeto da droga - e, assim, incapaz de dar conta da própria condição física e psíquica - atentar às formas de inscrição desses sujeitos nos regimes de visibilidade e dizibilidade da mídia. Dessa maneira, evita-se que o próprio percurso analítico-argumentativo se torne uma tautologia pouco útil, na qual o exame dessas narrativas sirva tão somente para corroborar aquela premissa.

Não se pode negar que o sofrimento constitui questão elementar para se entender a experiência dos usuários compulsivos de crack. Trata-se, como explica Vieira (2010), de uma prática relacionada à degradação fisiológica, mas também psicológica e sociológica. O sofrimento gerado pelo consumo da pedra pode advir tanto da sintomatologia do uso recorrente, quanto do tratamento compulsório, das pressões familiares, da exigência de retomada da vida produtiva, das situações precárias de rua, da repressão policial, da premência de se afastar do tráfico por motivos variados, das dificuldades de acesso a serviços básicos de saúde, entre outras razões (VIEIRA, 2010; ALBUQUERQUE, 2010; RUI, 2014).

O conjunto dessas situações de sofrimento, associado às condições corporais do usuário de crack, é conformador de modos de subjetividade bastante peculiares, os quais, restritivos ou não, dispõem os toxicodependentes em um lugar à parte, visível quando se torna incômodo e marginal quando confinado aos territórios de consumo. De um ponto de vista antropológico (ALBUQUERQUE, 2010; GOMES; ADORNO, 2011; RUI, 2014), quando são descritas as formas com que muitos desses sujeitos ocupam os espaços públicos, apresentando-se sujos, descuidados, maltrapilhos, entorpecidos e por vezes com andar desajeitado, evidencia-se sobretudo o lugar reservado de antemão a esses indivíduos numa certa ordem sensível, ou melhor, o modo como os usuários ocupam, habitam esse regime sensível à parte.

Entretanto, as condições físicas, higiênicas, indumentárias e comportamentais dos usuários compulsivos de crack, como argumenta Rui (2014), não devem ser vistas como provas da ausência de consciência sobre si, ou da consequente objetificação dos indivíduos, sob o risco de nos deixarmos levar pela solução simples de diagnosticar esses casos pela via da exclusão e do assujeitamento, quando, na verdade, esses aspectos do contexto social e do universo simbólico em que habitam esses sujeitos nos parecem, antes, sintomas. Conforme percebeu Rui (2014, p. 315), "é no processo mesmo de notarem que seus corpos chocam quem os vê que também criam e experimentam ambíguas sensações de vergonha e embaraço, mas também de poder". A mesma corporeidade suja, fétida, malvestida e excessivamente magra pode despertar, por um lado, a vexação, e, por outro lado, possibilitar a intimidação a outras pessoas, inibir as revistas policiais, facilitar a mendicância ou permitir que o usuário simplesmente chame a atenção para si graças a seu deslocamento do lugar que lhe é destinado.

Para compreender a experiência de sofrimento dos usuários de crack, é preciso avançarmos no sentido de perceber que tanto as consequências dos infortúnios quanto aqueles modos de subjetivação são vividos nos corpos, pelos corpos. E que são eles que se tornam visíveis e passam a ocupar determinadas cenas, incluindo-se as cenas (ou encenações) midiáticas.