A HISTERIA E O NARCISISMO
Rimo-nos, nas barracas de diversões, daqueles caricatos espelhos, que nos reduzem a monstrengos, esticados ou globosos. Mas, se só usamos os planos (...) deve-se a que primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagos, lameiros, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse...Sim, são para se ter medo, os espelhos.
João Guimarães Rosa
A análise empreendida até aqui a respeito do corpo como sintoma da histeria,
tomando como referência clínica o caso de Vera, parece se contrapor ao que vem sendo
observado acerca do tratamento dado ao corpo na contemporaneidade. Distante de um
corpo emagrecido pela doença, amputado, marcado por cicatrizes, às vezes
fisiologicamente enlouquecido, encontramos atualmente um corpo não menos
compensado, mas extremamente paramentado. As histéricas de hoje empreendem uma
árdua busca por um corpo belo e saudável, segundo atestam esteticistas,
dermatologistas, cirurgiões plásticos, nutricionistas, e afins. Não pode haver nada fora
do lugar, nenhuma marca do tempo, nenhuma falha, nenhum a mais ou a menos.
Observamos, assim, que não há nada mais contraditório em relação ao quadro clínico
recém-apresentado. Mas não sejamos precipitados. Refletindo um pouco mais,
verificaremos que tal contradição é aparente. O que vemos atravessar a modernidade é
um culto à imagem, sendo o corpo considerado o carro-chefe desse culto. Qual seria o
3.1. O narcisismo entre a primeira e a segunda tópica
O desenvolvimento do conceito de narcisismo, realizado por Freud em 1914,
introduziu profundas modificações em vários campos teóricos como, por exemplo, a
teoria da libido e o dualismo pulsional, possibilitando a abertura para a elaboração da
segunda tópica. Segundo André Green (1988), a introdução do conceito de narcisismo
representa um parêntese na teorização freudiana. Embora a sexualidade mantenha um
lugar incontestável na teoria de Freud, seu poder foi sempre balizado por uma outra
força que se modifica no decorrer do tempo. Na primeira formulação da teoria das
pulsões, ou seja, antes do narcisismo, a sexualidade se opunha às pulsões de
autoconservação. Depois, no chamado segundo dualismo pulsional, as pulsões sexuais,
juntamente com as pulsões de autoconservação, passam a se opor à pulsão de morte.
Desse modo, a introdução do conceito de narcisismo promoveu um abalo na
dualidade pulsional freudiana ao postular a libidinização do eu. O que o texto de 1914
propõe com a definição do narcisismo está centrado no fato de que a libido retirada dos
objetos poderia ser reinvestida no eu. Assim, o eu passa a ser tanto o reservatório da
libido, de onde esta parte em direção aos objetos, como também, ele próprio, torna-se
objeto de investimento libidinal. Nesse sentido, a oposição delimitada entre a libido do
eu e a libido do objeto pressupõe que todo o psiquismo se tornou sexualizado, na
medida em que o eu passa a ser sujeito e objeto da libido.
A libido se caracteriza por uma energia psíquica sujeita a um ordenamento
econômico, ou seja, passível de variações quantitativas como expressão da pulsão
sexual. Com isso, as pulsões de autoconservação são substituídas pelas pulsões sexuais.
No entanto, as pulsões de autoconservação não deixam de ser libidinizadas, pois Freud
egoísmo da pulsão de autoconservação” (p. 90), não se exime de identificar a presença
de uma energia sexual no âmbito das pulsões de autoconservação. No entanto, essa
dificuldade não foi suficiente para que Freud recuasse diante de uma visão dualista do
aparelho psíquico, pois, com a introdução do narcisismo, a dualidade fica estabelecida
entre pulsões do eu e pulsões sexuais. Contudo, essa dualidade só será plenamente
afirmada alguns anos depois com a introdução do conceito de pulsão de morte. A este,
contrapor-se-ão as pulsões de vida, as quais englobam tanto as pulsões sexuais quanto
as pulsões de autoconservação.
Cabe ressaltar que Freud, embora sustente a libido como energia sexual
propriamente, não deixa de apontar, ao longo de suas elaborações teóricas, uma outra
energia na qual se baseiam os processos psíquicos. Essa dupla energia marca, segundo
Garcia-Roza (2000), “o lugar do não-sexual” (p. 35), ocupado primeiramente pelas
pulsões de autoconservação e, depois, pela pulsão de morte. A introdução do conceito
de narcisismo constitui, por um lado, o desmantelamento da primeira tópica, e, por
outro, abre caminho para o desenvolvimento da segunda tópica. No entanto, com a
publicação de “Além do princípio de prazer”, Freud (1920g/1987) dá um novo estatuto
para a sexualidade, pois o que se opõe à pulsão de morte não são apenas as pulsões
sexuais, mas todo o conjunto de elementos – narcisismo, libido objetal, pulsões de
autoconservação - reunidos sob o bastão de Eros.
Com base nisso, o narcisismo deixa de ser priorizado em função do
desenvolvimento da última teoria das pulsões. Por que o narcisismo perde terreno para a
pulsão de morte? Não podemos dizer ao certo. Observa-se, entretanto, que, se as
neuroses de transferência levaram Freud a se enganar quanto ao postulado da antítese
entre as pulsões do eu e as pulsões sexuais, foi necessário que ele recorresse à
histeria, mais especificamente, não lhe possibilitou perceber uma possível articulação
entre o narcisismo e a pulsão de morte, posto que a construção desse último conceito
partiu de uma realidade clínica. Porém, verificamos que Freud (1917e [1915]/1987)
concebe, de certo modo, uma ligação possível entre os dois conceitos ao teorizar a
respeito da melancolia em 1915, embora a pulsão de morte só apareça cinco anos
depois. Mas, antes de discorrer sobre as relações do narcisismo com a pulsão de morte,
retomemos algumas considerações sobre o narcisismo.
3.2. Corpo auto-erótico e corpo-narcísico
O nascimento do narcisismo proporcionou uma modificação na relação entre
corpo e sujeito. De um corpo auto-erótico fragmentado, postulado nos “Três ensaios
para a teoria da sexualidade”, caracterizado por um estado no qual a pulsão sexual
anárquica se liga a zonas erógenas e fonte das várias pulsões parciais, Freud passa a
definição de um corpo totalizado investido libidinalmente. É assim que, no início do
artigo “Narcisismo: uma introdução”, Freud (1914c/1987), utilizando a descrição dada
por Paul Näcke, apresenta o termo como “a atitude de uma pessoa que trata seu próprio
corpo da mesma forma pela qual o corpo de um objeto sexual é comumente tratado –
que o contempla, vale dizer, o afaga e o acaricia até obter satisfação completa através
dessas atividades” (p. 89). O corpo, a partir da introdução do conceito de narcisismo,
passou, assim, a ser objeto de um investimento libidinal marcado por uma economia
pulsional. Para Freud, o narcisismo se constitui entre o auto-erotismo e o amor objetal,
estabelecendo, desse modo, uma reformulação de sua dualidade pulsional elaborada até
Como vimos, Freud considera o auto-erotismo como um momento inicial da
sexualidade infantil, no qual o investimento libidinal se dá no próprio corpo. A
satisfação obtida pela pulsão sexual é parcial e independe da função biológica e de
qualquer objeto externo. Assim, o ato da criança sugar o dedo repete uma satisfação
prazerosa primeiramente obtida ao sugar o seio materno, mas que, no entanto, torna-se
separado da necessidade de nutrição e da busca do alimento como um objeto. O prazer
é, então, deslocado para o próprio corpo, sendo experimentado de forma auto-erótica.
Vemos, dessa forma, que o auto-erotismo se caracteriza pelo surgimento de uma
primeira sexualidade desorganizada e marcada por um modo de satisfação parcial
assentado no próprio corpo. O corpo auto-erótico é concebido como um corpo
fragmentado que serve de base para o estabelecimento de uma sexualidade anárquica.
Em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud (1914c/1987) pergunta logo no
início do texto qual a relação entre o narcisismo e o auto-erotismo, ou seja, como passar
de corpo auto-erótico para um corpo narcísico. Segundo ele, é preciso considerar que
“uma unidade comparável ao ego não pode existir no indivíduo desde o começo; o ego
tem de ser desenvolvido. As pulsões auto-eróticas, contudo, ali se encontram desde o
início, sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao auto-erotismo – uma
nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo” (p. 93). Com essa afirmação,
Freud estabelece que as pulsões auto-eróticas são originárias e que, por não serem
configuradas por uma unidade, é necessária uma transformação, “uma nova ação
psíquica” para que elas se unifiquem e dêem origem ao narcisismo. O que é necessário
acrescentar ao auto-erotismo para que o narcisismo se constitua?
Nesse momento, Freud considera que, no estado auto-erótico, o que existe é a
pulsão sexual satisfazendo-se no próprio corpo, não existindo ainda um eu. Então, para
O que determina a constituição desse eu? Freud (1914c/1987) concebe esse “algo a ser
acrescentado” como sendo o investimento do amor dos pais no corpo da criança,
propiciando que o fragmentário do corpo auto-erótico seja transformado em um corpo
unificado.
Freud (1914c/1987) denomina o narcisismo primário como resultado da
formação do eu com base na revivescência e reprodução do narcisismo dos pais. Assim,
ele afirma que “o amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é
senão o narcisismo dos pais renascido, o qual, transformado em amor objetal,
inequivocamente revela sua natureza anterior” (p. 108). Dessa forma, os pais têm a
tendência a dar aos filhos todos os privilégios que eles foram obrigados a abandonar,
esperando que esses possam concretizar “os sonhos dourados que os pais jamais
realizaram” (p. 108). Freud anuncia, com isso, que o narcisismo primário representa o
desejo dos pais ou o lugar do ideal dos pais, que determinará os caminhos para a
constituição do sujeito. Assim, o desejo do Outro, mais especificamente, permite a saída
do estágio auto-erótico para o nascimento do corpo narcísico. Nesse momento, o que
nos interessa é reconhecer que a constituição desse corpo narcísico institui a emergência
do eu a partir da relação com o outro, introduzindo o princípio da unidade. Essa unidade
corporal designada pelo narcisismo primário é correlativa de uma relação dual que
aspira à não-separação.
Esse é um momento importante para a constituição do sujeito. No entanto, ele
revela também um grande engodo, pois não deixa de comportar riscos e dificuldades
para o acesso do sujeito ao registro do simbólico. O drama de Narciso revela os
paradoxos das relações entre corpo, sujeito e alteridade. Narciso apaixona-se não por si
mesmo, mas por um outro, visto que ele toma seu corpo pelo de um outro. Entretanto,
forma, ele morre de amores por um outro que é, na verdade, ele mesmo. Contudo, esse
outro não tem corpo, já que é apenas uma imagem, um corpo feito de água, um corpo
transparente. Esse é o momento em que a maldição cai sobre ele: poderá amar, mas
jamais possuirá o objeto de seu amor. É provável que essa seja a sua grande tragédia –
ele se apaixona por um outro e, portanto, não consegue dele se separar, mas, ao mesmo
tempo, jamais o alcançará por se tratar apenas de sua própria imagem. Grande confusão!
Eu sou o outro e o outro sou eu. Assim, o drama de nosso herói propõe que o eu se
constitua por um efeito de imagem dada com base em um outro, considerado como
reflexo de sua própria imagem. Porém, trata-se de um outro que foge, que escapa na
medida que esse outro se apresenta como pura imagem. Portanto, nessa relação entre
afirmação e negação da alteridade, o eu se constitui sob a forma imagética do próprio
corpo.
Nesse sentido, a constituição do corpo narcísico, a partir da identificação de uma
unidade corporal, designa a relação do sujeito com a imagem do duplo que é sempre
enganosa, exigindo um constante reconhecimento. A totalização alcançada pela
emergência do corpo narcísico pressupõe, ao mesmo tempo, a perda dessa unidade.
Considerar o outro como o mesmo representa, de um lado o surgimento de uma
unidade, e, de outro, pode representar também uma ameaça de fragmentação dessa
completude. De acordo com Bastos (1998), há uma relação dialética entre corpo
narcísico e corpo auto-erótico, pois a constituição do corpo narcísico não significa a
extinção do auto-erótico. Na verdade, eles coexistem simultaneamente, não havendo
corpo narcísico sem corpo auto-erótico. Qualquer experiência de perda, de
incompletude, pode fazer surgir o corpo auto-erótico, que se apresenta sob o domínio
das pulsões parciais. Essa questão nos permite supor que, no caso da histeria, a ênfase
tentativa de totalizar o corpo para impedir que algo seja perdido ou que possa escapar.
Quando mostramos a importância da zona erógena oral na configuração sintomática de
Dora, vimos que, por meio de trabalho da oralidade, a asma e a repugnância são
transformações que se produzem como um reforço do auto-erotismo. Os sintomas e a
masturbação infantil de Dora remetem à importância do investimento nas zonas
erógenas. Assim, tanto os sintomas de Dora como sua masturbação infantil indicam
uma busca por um gozo total, perfeito. A ameaça de perda da unidade experienciada, no
momento em que se sente excluída na relação sexual dos pais, faz com que ela regrida à
oralidade em uma última tentativa de manter a não-separação, de impedir a quebra da
unidade.
3.3. A ambigüidade do espelho
O drama vivido por Narciso diante das águas de uma fonte remete à cena vivida
pela criança diante de um espelho, como ensina Lacan (1966/1998), pois ambos revelam
o paradoxo existente entre subjetividade e alteridade, com base no engodo
proporcionado pela imagem do próprio corpo. O acontecimento do bebê diante do
espelho levou Lacan a formular a noção de estádio do espelho como protótipo da
constituição do eu em correspondência ao conceito de narcisismo em Freud. Lacan
assinala que o estádio do espelho é um momento de tensão, de conflito, pois é, ao
mesmo tempo, uma forma alienante e constitutiva do sujeito. A imagem que aparece no
espelho apresenta a antecipação de uma função unificada, um corpo totalizado. O bebê
se vê completo na virtualidade, mas na realidade não está, pois ele ainda se encontra
1966/1998, p. 97). Essa é a primeira alienação, mas é também seu primeiro ideal, uma
vez que aspira ser um outro ao qual jamais se igualará.
A visão do corpo no espelho leva a criança a uma “assunção jubilatória de sua
imagem especular” (Lacan, 1966/1998, p. 97). Esse júbilo mostra uma satisfação
narcísica de se ter um corpo, mas um corpo inteiro, que leva também a assumir uma
imagem inteira, em detrimento de um corpo fragmentado. Pois bem, essa fascinação por
uma imagem totalizante pressupõe o encobrimento de toda e qualquer falta, já que “a
característica do espelho é não refletir o que falta. Ou, ainda, não há imagem daquilo
que falta” (França, 1997, p. 82). No entanto, a unidade da imagem corporal precisa ser
validada pelo Outro. Essa experiência diante do espelho leva a criança a estabelecer
uma relação de identificação com seu semelhante em uma tentativa de elaboração da
vivência de um corpo despedaçado. Para Lacan, esse momento não se constitui ainda
como determinante do surgimento de uma subjetividade. O que ocorre nessa fase é um
primeiro esboço em que se produz apenas um eu especular, tendo em vista que a relação
do infans com o outro se dá de forma direta, sem a mediação da linguagem. O estádio
do espelho apresenta, para Lacan, a constituição do eu em uma vertente essencialmente
imaginária. No entanto, essa dimensão imaginária não exclui o processo de
reconhecimento simbólico do Outro para que o eu se constitua, embora a prevalência
recaia na vertente imaginária. Assim, no momento de formação de um primeiro esboço
do eu, a criança ainda não fala e não dispõe da função simbólica. Contudo, ela é
marcada desde o seu nascimento pela fala do Outro.
Lacan (1966/1988) marca, nesse momento, a distinção entre o interior e o
exterior: “A função do estádio do espelho revela-se para nós, por conseguinte, como um
caso particular da função da imago, que é estabelecer uma relação do organismo com
Estabelece-se assim, uma relação dual que ao mesmo tempo se identifica e se aliena,
pois, na busca por si mesma, o que a criança encontra é apenas a imagem do outro, o
que o autor chama de “servidão imaginária” (1966/1998, p. 103). Bela armadilha! Pois
essa relação dual só levará à não separação entre si e o outro, restando apenas a
demarcação do próprio corpo como um lugar de inscrição do desejo do Outro.
Armadilha na qual tanto Narciso quanto o infans se vêem pegos, pois ficam fascinados
por algo que jamais poderão apreender e que sempre lhes escapa. Daí a funesta
constatação de Narciso de não poder se separar do seu corpo e da satisfação enganosa
do bebê de ser Um corpo. Desse modo, o estádio do espelho coloca em evidência um
drama vivido pelo sujeito, na medida em que o estabelecimento da identificação
imaginária pressupõe que a matriz de constituição do eu é correlativa da recusa da
alteridade. Se, de um lado, a alteridade impede uma fusão mortífera, de outro lado, ela
ameaça o eu que depende do Outro para se constituir.
A concepção lacaniana do estádio do espelho indica que a relação entre a criança
e seu semelhante é marcada, ao mesmo tempo, por uma necessidade de identificação e
de alienação. No processo de identificação narcísica com o outro, a criança se vê presa
em uma relação alienante, pois, ao tentar encontrar a unidade de si, ela encontra apenas
uma imagem que, na verdade, não é sua, mas de um outro. Considerando que é o outro
que detém sua imagem, o eu fica, como conseqüência, alheio ao desejo, já que o desejo
se refere ao desejo de um outro. Esse fato é produtor de tensão que evoca intensa
angústia, gerando uma tendência para destruir esse outro que é a origem de sua
alienação. De acordo com Garcia-Roza (2000), “toda relação dual especular é uma
relação mortal, só superável como o surgimento do simbólico” (p. 68). Embora essa
alienação marque o início da estruturação subjetiva a partir do campo do Outro, ela
necessária a destruição do outro que é a origem de sua alienação. É nesse sentido que
Lacan (1966/1998) estabelece uma correlação entre narcisismo e agressividade,
afirmando a existência de uma “evidente relação da libido narcísica com a função
alienante do [eu], com a agressividade que dela se destaca em qualquer relação com o
outro” (p. 102).
3.4. Espelho, espelho meu, existe alguém mais perfeita do que eu?
A clínica da histeria revela como um dos traços característicos do funcionamento
histérico a busca ambiciosa pela perfeição. Observamos uma grande angústia suscitada
diante de qualquer situação que possa evocar a falha, a impermanência ou qualquer
experiência que traga a proximidade de um vazio de sentido. Seguindo essa via, Israel
(1996), como já apontamos, afirma que “a histérica está pronta a sacrificar, a ver
destacar dela o que a torna imperfeita” (p. 74). O que ela busca no espelho é justamente
o reflexo do Um que lhe assegure a imagem de um corpo totalizado, sem cortes. Essa
questão nos remete às considerações de Freud sobre o eu ideal que corresponde ao
conceito de narcisismo primário.
Freud, no texto de 1914c, introduz o termo eu ideal como sendo
o alvo do amor de si mesmo desfrutado na infância pelo ego real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, o qual, como o ego infantil, se acha possuído de toda perfeição de valor. Como acontece sempre