Conhecer e aprender são processos autopoiéticos auto-organizativos (MATURANA e VARELA, 2005). Criar espaços necessários à eclosão das práticas e vivências capazes de permitir aos jovens exercitarem-se como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso para se auto-organizarem exigem recursos pedagógicos que vão além da sala de aula. Nessa seção, serão analisadas as iniciativas de auto-organização de grupos de estudantes, a partir dos projetos de investigação propostos pelas professoras de ciências investigadas.
O projeto reciclagem de alumínio, desenvolvido na escola sob a coordenação da professora Rosa, teve como um de seus objetivos desenvolver a iniciativa em seus alunos.
Trabalho reciclagem de alumínio com a 5a. Série. Eles trazem as latas de alumínio, vendemos e administram o dinheiro desde o recolhimento ao seu destino final. São os alunos que decidem onde aplicar. Eu acompanho de perto. Estão muito animados.Eles querem comprar um data show24, mas já estão revendo devido o preço (Rosa).
A professora manifesta ter autonomia organizativa em sua prática pedagógica ao
criar situações de ensino que vão além do currículo estabelecido para a disciplina, quando
incentiva a tomada de iniciativa por parte dos alunos, levando-os a se auto-organizarem em torno do objetivo estabelecido e assim se situar na raiz dos acontecimentos, por meio de discussões que conduzem à deliberação, resultando em ações objetivas, possibilitando um processo de autonomia organizativa, também por parte dos alunos.
Essa prática de incentivo à coleta de latas de alumínio, que possibilita aos alunos discutir sobre o destino coletivo do recurso financeiro adquirido, se associa ao protagonismo juvenil. A professora, ao criar situações para os adolescentes se envolver em atividades direcionadas à solução de problemas reais, cria condições para o aluno atuar com iniciativa, liberdade e compromisso, possibilitando aos adolescentes ações que os levam à participação ativa e construtiva do jovem na vida da escola, posteriormente podendo ser estendida à comunidade ou à sociedade mais ampla. Para Hart (1992), essa característica se constitui o cerne do protagonismo, complementado por Costa (2000), quando afirma que:
A participação autêntica do adolescente/jovem se traduz para ele num ganho de autonomia, autoconfiança e autodeterminação numa fase da vida em que ele se procura e se experimenta, empenhado que está na construção da sua identidade pessoal e social e no seu projeto de vida.
(http://escola2000.net/aprendizagem/ac-protagonismo.htm)
E assim, o educando, a partir dos espaços criados na escola, passa a empreender ele próprio a construção do seu ser, ou seja, a realização de suas potencialidades em termos pessoais e sociais.
Por outro lado, percebo que essa prática de incentivo à coleta de latas de alumínio não tem contribuído para a construção da consciência ecológica crítica dos alunos, constituindo-se em uma oportunidade para modernização da escola, carente de recursos financeiros, tendo os alunos, priorizado a aquisição de equipamentos, um data show. Visto
por esse prisma, o trabalho de educação ambiental é abordado de forma superficial, apenas em benefício do “homem”.
Ao pensarmos na relação entre cidadania e meio ambiente, faz-se necessário remetermo-nos ao conceito de ecocidadania, que se refere a uma ética ecológica, na medida em que insere a busca de defesa por direitos humanos e pelas demais formas de vida. Incluindo esse pensar na prática pedagógica, os educadores necessitam estar atentos ao discurso ecológico oficial ao incentivar a prática de coleta de latas de alumínio para reciclagem, para não reproduzi-lo simplesmente. Esse discurso altera a ordem de prioridade da pedagogia dos 3Rs25, conferindo máxima importância à reciclagem, em detrimento da redução do consumo e do reaproveitamento, tornando-se meramente uma prática comportamentalista que se distancia da prática emancipatória de caráter dialógico relembrada por Giroux (1996). Neste sentido, Layrargues (2005, p. 188) diz que:
O discurso oficial tem a capacidade de produzir um efeito ilusório, tranqüilizante, na consciência dos indivíduos, que podem passar a consumir mais produtos, sobretudo descartáveis, sem constrangimento algum, pois são recicláveis e, portanto, ecológicos.
Dessa forma, através do discurso corrente, em vez da redução, cria-se a oportunidade de manter o padrão convencional de consumo. Contudo, passa-se uma falsa segurança que significa a alienação da realidade, que cumpre a função de gerar a sensação de um comportamento ambientalista correto.
No entanto, julgo necessário aliar a educação ambiental ao protagonismo juvenil, pois isto possibilitará uma educação para a cidadania na perspectiva de promoção de experiências de formação, conforme propõe Josso (2004). Entendo que essas experiências formativas, necessitam ter como base uma prática dialógico/coletiva, pois não se trata de aprender tudo sozinho, por tentativa e erro, nem tampouco de se exercitar simplesmente para seguir um procedimento. Isso possibilitaria níveis de autonomia intelectual que permitiria compreender as relações de interdependência entre as diferentes instâncias sociais e econômicas, as políticas públicas prevalecentes e as conseqüências dessas interrelações na qualidade de vida.
Neste caminho, as deliberações e ações conjuntas levariam a integrar saberes, habilidades, informações, métodos para enfrentar, para decidir em tempo real, para assumir
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Que trabalha pedagogicamente as implicações na geração de lixo, apontando as possibilidades de trajetória do lixo para o Reduzir, Reutilizar e Reciclar.
riscos. E, assim, a sala de aula passa a ser um local de processamento e produção de conhecimento e não apenas um local de transmissão e avaliação do conhecimento, (ALARCÃO, 2007, p. 29). É por meio do aprendizado, da interação sujeito-objeto, sujeito- sujeito e sujeito-mundo que o indivíduo assume o comando de sua própria vida, possibilitando uma autonomia que para os gregos significa a capacidade de elaborar preceitos, de decidirem o que fazer. É também uma qualidade inerente à cidadania.