• No results found

Teruya (2007), seguindo a linha de Halliday, afirma que estrutura temática e estrutura de informação são sistemas paralelos e interagentes na língua japonesa. O Tema pode estar mapeado sobre a estrutura informacional – Dado/Novo – o que pode fazer do Tema ou um elemento Novo – salientado por ga – ou um elemento Dado – salientado por wa. Este morfema, marcador típico de Tema, foi amplamente estudado na linguística japonesa, contudo, geralmente, de uma perspectiva da oração e da palavra, em detrimento de uma perspectiva discursiva15 Para o autor, em japonês, o pico da proeminência temática é o elemento destacado pela

15

Um dos raros estudos em língua portuguesa sobre o assunto é o de Mukai (2003). O autor se preocupa com a Estrutura Informacional e se serve da “combining approach” para tratar do morfema wa da língua japonesa, do ponto de vista semântico-funcional e pragmático-discursivo. Ele relaciona a função de tópico sentencial e de tópico contrastivo com a Estrutura Informacional aportada pelo morfema wa. Segundo Mukai, a informação dada constitui tópico sentencial, enquanto que o tópico contrastivo pode ser realizado com informação nova ou informação dada. Seu estudo aponta, ainda, que o nível pragmático-discursivo de wa é também importante fator de análise, pois a contrastividade e o pseudotópico sentencial [Cf. pseudoinformação de Mathesius: informações novas que o falante/escritor introduz, pragmaticamente motivado, como Dado] detectam a atitude subjetiva do falante/escritor, imprimindo suas intencionalidades no discurso.

posposição do morfema wa. Teruya (2007, p. 111) afirma que, também na língua japonesa, de forma geral, uma unidade de informação cria uma onda que se inicia com a formação da vaga, ou seja, a informação Dada, e cresce culminando com a informação Nova no seu pico, correspondendo à estrutura Tema/Rema. No entanto, chama a atenção para o fato de que a informação Nova pode vir tanto no início quanto no fim da estrutura informacional. A propósito, tanto em português quanto em outras línguas, existem estruturas que permitem colocar a informação Nova antes da Dada, como a cleft sentence (sentença clivada): "Foi a Mary que quebrou o vaso", em que "Foi a Mary" é informação Nova.

Além disso, Teruya (2007) afirma que o Tema pode servir como referência catafórica, indicado por 'sore wa' – ou anafórica, 'sore ga'. Ele acrescenta que o pico da proeminência temática é o elemento destacado pela posposição do morfema wa, mas, ao mesmo tempo, informa que o Tema pode, também, realizar-se sem nenhuma marca segmental. Há outros morfemas que também funcionam como marcador temático, como: mo, koso, sae, dake, shika, dentre outros.

Por seu lado, Martin (2004, p. 52-53) mostra que os morfemas wa e mo marcam focos opostos, ou seja, a função de wa é de backgrounding enquanto que a de mo é de foregrounding. Para o autor, o morfema wa envolve sempre um sentido de contraste. Partindo desse postulado, Thomson (1998, p. 234) conclui que wa contribui efetivamente para a organização de uma mensagem coerente, sendo parte do significado textual, não operando, no entanto, na estrutura temática (Tema/Rema), mas, sim, na estrutura informacional (Dado/Novo) da oração.

Essa questão foi evidenciada por uma pesquisa realizada por Thomson (1998). Ela discute o Tema na língua japonesa a partir de dados coletados em textos jornalísticos e conclui que o morfema wa nem sempre é necessário para a realização do Tema. A autora seleciona dois textos jornalísticos, um sobre cultura e outro sobre roubo a banco e, com a ajuda de um falante nativo, altera os inícios das orações, preservando, porém, as relações lógicas e a estrutura gramatical. As duas versões – a original e a modificada – foram submetidas a trinta informantes nativos que leram e fizeram seus comentários quanto à facilidade de leitura e compreensão dos textos.

Das 25 respostas computadas, 76% dos informantes preferiram o texto original sobre cultura e 95% o texto original sobre o roubo a banco. Thomson conclui que „primeira posição‟ tem um papel no desenvolvimento temático, e que um GN+wa

não se mostrou necessário como „orientador‟ para a mensagem: no texto sobre cultura, 50% e no texto sobre roubo a banco, 55% das orações não tinham a presença do wa. A propósito, para Teruya (2007), o wa não é a única marca de Tema na língua japonesa e pode, também, ser omitido sem prejuízo de sua função.

Por outro lado, para Halliday (1985, 1994) há apenas um Tema topical na oração em inglês. Kuno (1973, p. 30-31) também declara, de forma similar, que há apenas um Tema em uma oração em japonês, e afirma que caso haja mais de um elemento marcado por wa em uma oração, apenas o primeiro sintagma marcado por wa será o Tema; o segundo sintagma wa deve ser interpretado como Contrastivo.16 A propósito, na língua japonesa, quando a Circunstância de tempo ou lugar é realizada nominalmente – 'hoje', 'amanhã', dentre outras – o morfema temático (wa ou ga) pode ser omitido. Além disso, Teruya (2007, p. 79) e Martin (2004, p. 36) referem-se ao fato de na língua japonesa a Circunstância vir, em geral, em primeira posição, antes do Sujeito, o que a caracteriza como elemento "não marcado" nessa língua. A posição não marcada do elemento circunstancial e a extensão de Tema até o elemento salientado por wa faz Teruya admitir a existência do que chamou de Tema ideacional duplo (Tema circunstancial + Tema topical).

Além disso, Teruya (2007) chama a atenção para o fato de que os continuativos e as conjunções, que são inerentemente temáticos, nem sempre ocorrem no início da oração, como acontece no inglês, fato também apontado por Rose (2001). Por outro lado, na língua japonesa, a natureza do mood da oração, em seu aspecto interpessoal, vem no final, nunca constituindo Tema, portanto (TERUYA 2007, p. 94).

Quanto ao Tema nas orações paratáticas e hipotáticas, segundo Teruya, o que se verifica é que as orações paratáticas podem apresentar ou não o mesmo Tema. Quando as orações nessa condição têm o mesmo Tema, o segundo será elíptico.

Assim como acontece na língua portuguesa, a elipse na língua japonesa, é, também, tida como um dispositivo implícito que opera permitindo que o significado seja traçado no contexto e no cotexto, ou seja, a elipse é exofórica ou catafórica. A

16

Kuno (1973, p. 27-28) distingue duas funções para o uso de wa e três para ga. (1) wa expressando Tema [Tarô wa gakusei desu/ Tarô é estudante]; (2) wa expressando contraste [Ame wa futte imasu ga, yuki wa futte imasen/Está chovendo, mas não nevando.]; (3) ga expressando listagem exaustiva [Tarô ga gasusei desu/ É o Tarô que é estudante.]; (4) ga expressando descrição neutra [Oya, Tarô ga kimashita/ Olha, o Tarô chegou.]; e (5) ga expressando objeto direto [Boku wa Hanako ga suki da/Eu gosto da Hanako.].

elipse exofórica do Sujeito ou do verbo pode ocorrer quando esses elementos são interpretados com base no conhecimento do leitor/ouvinte da tendência da língua deixá-los de fora (TERUYA 2004, 2007; THOMSON 2005). Assim é que Teruya (2007) prevê a ocorrência da elipse do Tema também em japonês e o nomeia de Tema implícito, Tema que pode ser recuperado pelo contexto, o que também é previsto por Halliday (1994) nas orações em relação de parataxe.

Teruya (2007) discute, ainda, o conceito de Tema absoluto. Trata-se, segundo o teórico, de um elemento contextualizador da oração enquanto mensagem, realizado em primeira posição por um grupo nominal salientado por “de^wa”, “ni^wa”. Contudo, neste caso, esses morfemas não têm o significado circunstancial convencional que lhe é atribuído, não exercendo uma função na estrutura da transitividade da oração, como pode ser observado em:

39. Ôku no dôbutsu de wa, kotai ni yotte osumesu no chigai ga mirareru.

Muito NO animal DE WA cada um NI YOTTE macho e fêmea NO diferença GA ver-PSV-inf. T.Absoluto (ôku no dôbutsu de wa) ^ T. circunst.(kotai ni yotte) ^ T.topical (osumesu no chigai

ga)

(Em muitos animais, dependendo da espécie, a diferença entre macho e fêmea é possível de ser vista.)

A seguir, trato da função e do comportamento do Sujeito na língua japonesa, como complemento ao entendimento de Tema.

2.9.1 O Sujeito na língua japonesa

Na oração como evento comunicativo, o Sujeito é a função responsável pelos vários significados interpessoais, tais como: polaridade, polidez, respeito, modéstia e as modalidades várias que são realizadas pelo Predicado (TERUYA 2007).

Como uma característica geral da língua japonesa, o Sujeito é frequentemente implícito, desde que a responsabilidade modal seja aparente. Assim, quando um Sujeito já estiver estabelecido, ele poderá ser implícito e consequentemente „backgrounded‟, mas quando ele é introduzido pela primeira vez, ou é reintroduzido ou se torna obscuro no decorrer da conversa, é, então, explicitado e consequentemente „foregrounded‟.

Assim, também, para Teruya, Sujeitos são realizados por um grupo nominal posposto pelos morfemas wa ou ga, mas essas marcas não são a única maneira de definir Sujeito, nem como esse elemento é reconhecido.

A seguir, apresento no Quadro 3, um resumo sobre o conceito de Tema na língua japonesa.

Tema na língua japonesa

Tema Dado salientado por "wa" – não marcado Tema Novo salientado por "ga" – não marcado Tema topical Sujeito – não marcado

Tema circunstancial circunstância – não-marcado

Tema duplo Circunstância+Sujeito – não marcado

Tema múltiplo textual^interpessoal^circunstancial/topical – marcado Indicação pode ser indicado também por: “mo”, “koso”, "Ø" e outros Referência "sore wa" (catafórica)

"sore ga" (anafórica) QUADRO 3 – TIPOS DE TEMA NA LÍNGUA JAPONESA

Fonte: Teruya (2007)