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5.7. Management Area H
5.7.1. Botney Gut- Silver Pit (FU 5)
Toda pesquisa depende de uma teoria que a oriente, desde a formulação do problema, passando pela coleta, sistematização e apresentação dos dados. A teoria, mesmo não sendo indicada explicitamente, permeia a atividade de pesquisa, como o sangue irriga o corpo, mesmo sem ser visível. De modo geral, os estudos sobre a pesquisa em educação elencam os principais paradigmas teóricos que servem de parâmetros para a compreensão dos objetos pesquisados. É possível elencar diferentes classificações dos paradigmas teóricos que, de modo geral, fundamentam a pesquisa nas ciências humanas e, de modo específico, na pesquisa educacional.
Discutindo de modo amplo a relação entre conhecimento e interesse, Habermas (1987) estabelece uma conexão específica entre as regras lógico-matemáticas e o interesse que orienta o conhecimento. Assim, distingue três tipos de conhecimento: o empírico-analítico da ciência, que está ligado ao interesse teórico; a ciência histórico-hermenêutica, cujo interesse está voltado para a prática; e o conhecimento crítico, o interesse cognoscitivo libertador.
A ciência empírico-analítica, direcionada para o conhecimento do mundo físico, estabelece conexões hipotético-dedutivas, que permitem derivar leis hipotéticas com conteúdo empírico. Já a ciência histórico-hermenêutica, tem seu interesse voltado para a compreensão e o estabelecimento do significado de eventos históricos. Diferentemente do âmbito empírico- analítico, o âmbito histórico-hermenêutico não elabora seu quadro de referência a partir do sentido da verificação das proposições. "O plano da linguagem formalizada e o da experiência objetivada ainda não são distintos. Nem a teoria é construída dedutivamente nem a experiência é organizada tendo em vista o resultado da operação." (HABERMAS, 1980, p. 306). O acesso aos fatos ocorre via compreensão do sentido e não por meio da observação, e a verificabilidade sistemática das leis cede lugar à exegese dos textos, cujo possível sentido é determinado pela regra da hermenêutica. Por fim, o âmbito da ciência sistemática da ação social, voltado para a explicitação das situações de opressão e dominação, tem seu quadro metodológico determinado pelo conceito de autorreflexão. "A auto-reflexão liberta o sujeito de poderes hipostasiados e por sua vez define um conhecimento libertador." (HABERMAS, 1980, p. 307).
Demo (2009) aborda a questão da metodologia a partir da Sociologia do Conhecimento, considerando-a como uma discussão teórica que inquire criticamente sobre as maneiras de se fazer ciência, e embora tenha caráter instrumental, indo além dos métodos e
técnicas, "[...] é condição necessária para a competência científica, porque poucas coisas cristalizam incompetência mais gritante do que a despreocupação metodológica." (DEMO, 2009, p. 59)
Tomando por referência o campo das Ciências Sociais, discute a questão da cientificidade da produção científica, a partir da confluência entre o formal e o histórico, à luz da Teoria Crítica. Para o autor, o objeto científico é construído a partir da concepção de realidade que está servindo de base para a opção metodológica. Toda abordagem metodológica envolve, pois, elementos fundamentais, que além das categorias básicas sobre as quais se alicerça, privilegiam determinados fenômenos sociais considerados relevantes; igualmente, cada abordagem metodológica é determinada por pressupostos ontológicos, ou seja, por uma visão de mundo subjacente, mesmo que em nível de pressupostos não explícitos, que interfere na escolha dos caminhos para apreender a realidade.
Para Demo (2009), a metodologia mais conveniente e, até mesmo, a postura metodológica específica para a realidade social é a dialética, porque apreende o fenômeno histórico subjetivo que a caracteriza. O ambiente próprio da dialética é a historicidade, já que somente o fenômeno histórico pode ser compreendido dialeticamente. "A história se 'move' por leis necessárias objetivas, mas a par de seu lado objetivo natural, possui o lado subjetivo, político, de conquista humana cultural." (DEMO, 2009, p. 89). Ao apresentar o empirismo e o positivismo como abordagens que estabelecem seu fundamento nos dados empíricos, assume a postura crítica de que "[...] a questão da empiria coloca, antes da coleta e do uso do dado empírico, problemas teóricos, porque um dado não fala por si, mas pela boca de uma teoria. O dado não é em si evidente, mas feito evidente no quadro de referência em que é colhido." (DEMO, 2009, p. 133).
Outras abordagens metodológicas apresentadas são o estruturalismo, que se fundamenta na proposição de que toda realidade, inclusive a social, é regida por leis; e nessa mesma perspectiva, o sistemismo e o funcionalismo. Finalmente, apresenta outras metodologias que denomina de alternativas, entre as quais a fenomenologia, a hermenêutica, a pesquisa participante e a avaliação qualitativa.
Refletindo especificamente sobre a fundamentação teórica da pesquisa educacional, Goergen (1981) considera como sendo um perigo que ronda tal temática, "[...] a promoção unilateral da pesquisa educacional empírica ou da pesquisa teórica e o respectivo desligamento da prática social" (GOERGEN, 1981, p. 65). Partindo da relação necessária entre a Educação, as condições sociais e os valores vigentes na sociedade, discute a questão
da função crítica da pesquisa educacional a partir dos três principais referenciais que orientam tal pesquisa: fenomenológico-hermenêutico, empírico e crítico.
O método fenomenológico-hermenêutico busca captar a essência, através da descrição, por meio de uma consciência científica pura, isolada da realidade social em que está inserido. A pesquisa educacional "[...] seria a aproximação descritiva e sem preconceito da realidade educacional, obtendo-se um conceito e um diálogo diretos com o objeto estudado. O método pretende alcançar a essência atemporal de qualquer educação, independente da prática histórica." (GOERGEN, 1981, p. 70). Por não levar em conta os interesses que determinam a sociedade e, nela, a educação, reduz a pesquisa a um estudo acrítico da essência cultural- filosófica.
O método empírico, por sua vez, alicerça o estudo da realidade educacional na "[...] análise empírica dos relacionamentos e controle de sucessos" (GOERGEN, 1981, p. 73). A maioria dos pesquisadores já superou o empirismo ingênuo, reconhecendo que tal análise depende de teorias que orientam a prática pedagógica, ou seja, que as leis não são descobertas objetivamente e nem o fato puro existe em si, mas são realidades construídas. Entretanto, a aplicação do esquema "constatação, descrição e explicação", conserva o ideal de alcançar a neutralidade axiológica. Goergen (1981), afirmando ser a realidade determinada pelo contexto histórico-cultural e pelo jogo de interesses dos grupos sociais, conclui que "[...] a ciência que pretende partir de uma realidade neutra, move-se, desde o início, fora da realidade, e os seus resultados serão falsos." (GOERGEN, 1981, p. 75)
Por fim, o método crítico se fundamenta na teoria crítica a qual afirma que os ideais educacionais não são fixados livremente, mas são imposições resultantes do relativismo histórico-cultural. O fundamento principal desta abordagem são as reflexões da Escola de Frankfurt, que a partir de uma Teoria Crítica sobre a sociedade e do estudo da relação entre conhecimento e interesse, buscam a emancipação do homem. Assim, a pesquisa educacional orientada pelo método crítico tem por objetivo, "[...] provocar uma reflexão sobre o relacionamento entre teoria e prática, entre interesses vitais e racionalidade científica, entre os condicionamentos e efeitos do conhecimento. A consequência disso, naturalmente, será a crítica ideológica." (GOERGEN, 1981, p. 80)
A complexa relação entre a Educação e o meio social em que está inserida, exige que a pesquisa educacional não se feche em um único método, mas leve em consideração três dimensões: histórica-filológica-filosófica, empírica e crítica, pois
A ciência da educação que se vale unicamente do método histórico- filosófico ou aquela que pretende usar somente o método empírico abordaria apenas um aspecto da realidade educacional. Ambos os métodos não devem ser considerados contraditórios, mas complementares, e devem ser completados por uma terceira dimensão, que é a função crítica da ciência da educação. (GOERGEN, 1981, p. 95)
Nosella e Bufa (2009), refletindo sobre o método de investigação na pesquisa de instituições escolares, além do método dialético marxista, elencam também as tendências teóricas do positivismo, idealismo, estruturalismo e do culturalismo. O positivismo assume o dado empírico como algo em si mesmo, absoluto; para o idealismo a subjetividade e a intencionalidade são os criadores da história; o estruturalismo considera a sociedade fruto do jogo entre estrutura e superestrutura; e o culturalismo apenas descreve as diversas formas culturais. Consideram a dialética marxista como o método ideal para o estudo das instituições escolares porque, apesar da dificuldade em estabelecer dialeticamente a relação entre escola e sociedade, ela é "[...] o único caminho rigorosamente científico pela simples razão de que o homem toma consciência das condições infraestruturais somente no âmbito da superestrutura." (NOSELLA; BUFA, 2009, p. 83),
Sánchez Gamboa (2012) identifica os diferentes paradigmas epistemológicos a partir do estudo da produção científica, tomando como objeto de análise as teses e dissertações produzidas nos centros de pesquisa em Educação no Estado de São Paulo. As diversas vertentes identificadas foram agrupadas pelo autor em três grandes grupos: as empírico-analíticas, as fenomenológico- hermenêuticas e as crítico-dialéticas. Conclui que o primeiro grupo, que predominava período inicial da pesquisa em Educação no Brasil, vem cedendo lugar para os outros dois grupos.
As pesquisas fenomenológicas e dialéticas tidas como alternativas, apesar de serem relativamente novas no contexto da produção em pesquisa educacional, vêm contribuindo para a formação de uma "massa crítica" que questiona os reducionismos metodológicos e técnicos, e para a recuperação dos contextos sociais, as condições históricas dos fenômenos educativos e os fundamentos epistemológicos da produção de conhecimento sobre a educação. (SÁNCHEZ GAMBOA, 2012, p. 103- 104
Lima (2003) ao analisar teses e dissertações da UNICAMP, aponta a utilização dos seguintes paradigmas como referenciais teóricos: o quantitativo, o qualitativo, o paradigma dialético e o da complexidade.
Outras formas de compreensão dos paradigmas que orientam a pesquisa são elencados por Santos Filho (2009).53
A partir dessas diferentes propostas de definição dos referenciais teóricos para a pesquisa educacional, e sem a pretensão de determinar em absoluto o quadro teórico de referência, delimitamos quatro paradigmas epistemológicos, os quais consideramos mais recorrentes nas diferentes propostas apresentadas: o Positivismo, a Fenomenologia, o Materialismo Histórico Dialético e as tendências da pós-modernidade. Arrolamos estas tendências como um quarto paradigma por uma opção didática, tendo consciência da complexidade que envolve tal questão.
Considerando a densidade teórica que envolve a pesquisa em Educação, torna-se necessária uma sólida fundamentação filosófica de tais paradigmas. Os autores elencados nos capítulos subsequentes não esgotam todo o arcabouço teórico que compõe cada paradigma. A eleição destes seguiu o critério da importância que possuem no panorama filosófico, como referências imprescindíveis para a compreensão dos quatro paradigmas epistemológicos que consideramos mais comuns na pesquisa em Educação.
53 Além de Habermas, anteriormente apresentado, Santos Filho (2009) cita Richard J. Bernstein, com seus três tipos básicos de paradigmas: o empírico, o fenomenológico e o crítico; Burrel e Morgan, que indicam quatro paradigmas sociológicos: o funcionalista, o interpretativo, o humanista radical e o estruturalista radical; Popkewitz, o qual delimita três paradigmas em pesquisa educacional: o empírico-analítico, ciência simbólica e ciência crítica; Soltis, que propõe quatro paradigmas na pesquisa em Educação: o empírico, o interpretativo, o crítico e o normativo; Torsten Husén, que defende o uso de dois paradigmas: o científico e o humanístico; e Hoshmand, que classifica os paradigmas alternativos de pesquisa em naturalístico-etnográfico, o fenomenológico-hermenêutico e o cibernético e outros "contextos altos".