Durante o período de observações, com a dinâmica de ensaio dos encontros, houve uma rara situação de discussão sobre uma das músicas do espetáculo: Beira mar novo. Uma participante fez um comentário que desencadeou uma série de intervenções das outras integrantes com idéias sobre essa música (D.C.7, p. 4, p. 10).
Em uma das oficinas regulares, antes de as participantes começarem a cantar, M.2 explicou sobre a execução desta música durante o espetáculo: & 8
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4 + O " ) )
) (D.C.7, p. 3). Neste trecho da explicação dada pela multiplicadora, já foi
possível identificar uma associação estabelecida com esta música: ela faz “referência aos cantos de lavadeira do Vale do Jequitinhonha”.
Ao propor que as integrantes encenassem que estavam lavando as saias enquanto cantavam, a multiplicadora tratava da relação entre os cantos de lavadeira do Vale do Jequitinhonha e o ato de lavar as roupas que as lavadeiras realizam enquanto cantam, ou seja, a música remetia à ação de lavar roupa. Também foi possível perceber que este número era executado apenas por mulheres, uma vez que os cantos de lavadeiras não são executados por homens. Neste caso, as associações estabelecidas pela multiplicadora (tanto no caso da cena de lavar as saias como na escolha das mulheres para a realização desta cena) apontaram para “fora da música”, para aspectos extra-musicais presentes na execução desta música no espetáculo.
Depois de cantarem a música uma vez, uma das participantes comentou:
, ) # % , $ #
# .E( (D.C.7, p. 4). O comentário desta participante mostra que ela
possuía uma concepção sonora referente ao andamento que ela considerou “lento” e que ele foi o motivador da opinião dela sobre a música (“feio”, “dando sono”). Na seqüência, ela falou sobre cantar como no CD, o que sugere que ela conhecia a
música previamente, que já possuía uma referência sonora, um modelo, e que a forma proposta para cantar esta música no espetáculo divergia da que ela conhecia.
Este comentário desencadeou uma série de opiniões de outras
participantes: $ ) $ 8
P 8 , ou 8 $ #
# ; e uma das multiplicadoras também argumentou: 8
P " (D.C.7, p. 4). Por um lado,
todas as integrantes que disseram não ter gostado da forma de execução dessa música, alegaram que o andamento estava muito lento. Por outro, para as que gostaram daquela forma de execução, a música expressava o canto de lavadeira e atribuíam à música as características de melancolia, tristeza e sofrimento. Ou seja, o andamento foi associado a idéias que justificavam a necessidade dele ser lento.
Depois outra multiplicadora interveio: ) " 4 % , " 4 $ " C (D.C.7, p. 4). Ao contrário
do que aconteceu nos dois trechos anteriores, a multiplicadora relacionou a opinião da participante com aspectos da própria música: as entradas e a velocidade.
Os argumentos utilizados pelas integrantes na situação descrita acima evidenciam aspectos relacionados aos significados intra-sônicos e delineados. Os argumentos que a primeira multiplicadora utilizou para defender a execução dessa música num andamento mais lento / ), evidenciam idéias
e concepções que ela associa com essa música, dando indicações de prováveis delineamentos na relação indivíduo-música. A multiplicadora associou esses argumentos às cantigas de lavadeiras do Vale do Jequitinhonha, idéia que seria apresentada no espetáculo por meio da cena das mulheres lavando as saias durante a execução desta música. Esta cena é uma referência à temática do espetáculo (cultura popular), escolhida durante o processo de criação, que mostra uma influência dessa temática na construção do fazer musical. Outras associações, vindas de outras participantes, também emergiram a partir do andamento lento (um componente dos materiais sonoros da música): e
Na entrevista individual, a participante confirmou que tinha achado a música feia naquele ensaio. Ela disse: " )
% %%%! G " ) "
) # # % %%%! & $ (E.P.10, p. 6). Na
seqüência, comentou sobre o “ritmo normal” da música: 5 "
$ 8 % 5 $ (E.P.10,
p. 6).
Para esclarecimento, perguntei-lhe o que era o ritmo normal. Ela disse que era o da gravação que os participantes tinham num CD que foi entregue em uma das oficinas que observei e que ela gostava daquela versão: G " 8
$ (E.P.10, p. 6). Esta participante tinha um
conhecimento prévio daquela música e estava acostumada com uma forma de executá-la – a gravação do CD que ela ouvia em casa. Assim, a execução proposta para o espetáculo fugia do padrão sonoro que ela tinha vivenciado no CD e que orientava a sua concepção de execução. Ao comparar as duas formas de interpretação da música, ela referiu-se ao andamento (mais lento, no espetáculo e mais rápido, mais agitado, no CD) e também citou a percussão presente na versão do CD. Em ambos os casos, a comparação foi relativa aos componentes da música.
A música Beira mar novo voltou a ser alvo de uma discussão no ensaio geral para o espetáculo. Na transição para esta música, era encenada uma feira que terminava com cada uma das participantes já posicionadas para cantar a música. Quando houve consenso em relação à forma de realização da feira e o posicionamento de cada pessoa, uma das participantes comentou: , $ "
) $ ) # % < )
# " 8 $ C (D.C.10, p. 1). Na
entrevista, a participante acrescentou que o caráter desta música era de sofrimento e por isso comentou com uma das participantes: ) ! $
! " # ) $ 8 " #
(E.P.9, p. 11). Nas falas dessa participante a música foi novamente associada a um caráter sofrido e choroso.
Neste mesmo ensaio geral, a música Beira mar novo também foi comentada por outra participante no momento de fazer a transição para Sabiá lá na
gaiola (ver roteiro do espetáculo no Anexo 3): * 8
(D.C.10, p. 2). Quando entrevistada sobre este comentário, ela esclareceu que cada uma dessas palavras era associada a uma música diferente.
Beira mar novo era a música %%% E C % & C (E.P.7,
p. 7-8) e Sabiá lá na gaiola foi relacionada à brincadeira porque
) " " $ ) 8 $ (E.P.7, p.
8). Novamente, a música Beira mar novo remeteu ao caráter triste. Neste caso, a participante relacionou o caráter da música com o conteúdo da letra, que “fala da tristeza”. Nesse caso, a referência à tristeza também veio desacompanhada da referência ao andamento lento como na situação inicial. Assim, nota-se que as duas entrevistadas valorizaram o caráter expressivo da música ou os delineamentos para composição da expressão musical.
Nas situações relacionadas à música Beira mar novo, observa-se um exemplo da complexidade existente nas práticas musicais do projeto: aspectos inerentes da própria música (como o andamento lento) são explicados por meio de idéias, concepções, características e imagens vinculadas à música (como a cena das mulheres lavando as saias que acompanha a música, e os argumentos utilizados para defender a idéia de que a música deveria ser mesmo lenta: melancólica, triste, sofrida, expressiva, bonita). É possível perceber que as evidências de significados musicais, neste caso, surgiram a partir de expressões verbais das integrantes do projeto, mas estavam também refletidas no figurino e na cena que acompanhava a música. A partir da observação dessa situação foi possível que a insatisfação com a execução de um elemento musical levasse à expressão de uma série de associações que as pessoas do grupo estabeleciam com a música. Assim, ficou evidente a inter-relação entre os dois aspectos do significado musical, definidos por Green (1988).
5 – CONCLUSÃO
Partindo de uma problematização da minha formação musical e experiência como professora de música, exemplificada por duas situações distintas na introdução deste trabalho, cheguei à temática da pesquisa: a relação indivíduo- música. O objetivo geral foi investigar esta relação no projeto Cantadores do Vento na perspectiva dos significados musicais definidos por Green (1988; 2008) e os específicos buscaram compreender de que forma os significados inter-sônicos e delineados emergiam, como eram vivenciados e se e como eles eram integrados nas práticas do projeto.
Para responder às questões de pesquisa, o estudo de caso apresentou-se como a estratégia mais adequada. Na coleta de dados, observei as oficinas do projeto selecionado e entrevistei 15 de seus integrantes. As observações foram de caráter participativo e as entrevistas semi-estruturadas. Esta metodologia permitiu conhecer a dinâmica de realização das oficinas do projeto, bem como as perspectivas dos integrantes a respeito da relação que é tema desta dissertação. O
Cantadores do Vento foi selecionado por estar com o trabalho mais focado na
música, dentre os projetos da ONG EMCANTAR. Seus participantes e multiplicadores foram os sujeitos de pesquisa.
A pesquisa teve abordagem qualitativa e os dados foram analisados a partir da literatura revisada (ARROYO, 1999, 2002; GREEN, 2000, 2003, 2005, 2006; PRASS, 2000, 2004) e especificamente, das definições de significado musical – inter-sônico e delineado – e experiência musical (GREEN, 1988, 1997, 2005, 2006, 2008). A organização desta análise foi pensada a partir de temáticas emergentes dos dados: a relação entre a ONG e o projeto, os multiplicadores, sua formação, a música dentro do EMCANTAR, a relação entre música e cena e a expressão “ensaio só da música”, e o caso da música Beira mar novo.