Um questionamento importante que existe em relação ao uso da internet por parte das crianças é o modo como elas lidam com toda essa interatividade e comunicação virtual. Como se dá a relação entre a infância e os ambientes virtuais?
Cruz (2005) explica que as atividades infantis sofreram um impacto contundente, diferente da relação que havia entre as crianças e a televisão no passado, onde o ato de brincar seria quase anulado para que a criança pudesse acompanhar a programação televisiva, apresentando assim uma participação passiva. No ambiente virtual, pelo contrário, as crianças são estimuladas ao brincar e a desenvolver novas habilidades, encontrar soluções de problemas e a se divertirem na maior parte do tempo de forma ativa. As novas gerações possuem um novo perfil frente às novas tecnologias da informação. Elas se alfabetizam nessa
nova linguagem desde muito cedo, por meio do acesso cada vez mais precoce a computadores, notebooks, tablets e smartphones e a uma inúmera gama de games e atividades desenvolvidas para esse público. Elas, inclusive, possuem uma facilidade maior de utilizar mídias diferentes e realizar várias atividades tudo ao mesmo tempo (CANATO, 2010; ALVES, 2007).
Essa geração atual tem sido chamada por alguns autores como nativos digitais, ou geração Z, por ser uma geração que nasceu mergulhada em todo esse avanço e desenvolvimento da Web 2.0 e da popularização das tecnologias que permitem o acesso à internet, principalmente as tecnologias móveis. A geração Z é “moldada pela massificação das redes sociais, o culto ao iPhone e o sucesso de consoles como o Wii, o Playstation e o Xbox. Nativos digitais são também os ultraconectados” (YURI, 2010, p. 63).
Essa forma de classificar os usuários relacionando com o desenvolvimento tecnológico pode ser exemplificado da seguinte maneira (YURI, 2010, p. 64):
• Baby-boomers: nascidos entre 1949 e 1964, durante o período de nascimento e popularização da televisão;
• Geração X: nascidos entre 1965 e 1979, durante o período de desenvolvimento da televisão e sua programação, bem como o surgimento dos primeiros videogames e outros aparelhos que podiam ser ligados à TV, como o videocassete;
• Geração Y: nascidos entre 1980 e 1994, durante a popularização dos computadores e da internet;
• Geração Z: nascidos entre 1995 e 2009, durante o fortalecimento e desenvolvimento da internet e a popularização de outros equipamentos eletrônicos, como celulares e smartphones;
• Geração Alpha: a partir de 2010, com o fortalecimento da transmidiação e integração de diversas mídias diferentes.
A partir da geração Z, há um novo modo de pensar e utilizar as mídias digitais, onde a interação e conectividade é algo já bem definido e estabelecido. Eles possuem um poder de imersão e colaboração muito maior e mais complexo, sendo muito críticos e exigentes. Bottoni (2011) apresenta algumas características desse público:
• Suas atividades no mundo virtual são acompanhadas de perto por seus pais;
• São acostumados a ver muitas coisas ao mesmo tempo sem se focar em nada específico;
• Gostam de ter contato com seus personagens e interesses favoritos tanto no mundo real quanto no virtual. Assim, é comum uma marca feita para aparelhos eletrônicos ganhar versões em brinquedos e outros produtos que as crianças podem usar e brincar fisicamente;
• O seu acesso é muito voltado para a interatividade, querem participar e interagir do mundo virtual de forma constante.
Grande parte do tempo utilizado pelas crianças enquanto navegam é dedicado ao uso de jogos e atividades lúdicas. Além de jogar, elas também procuram soluções para passar de fases em jogos, conhecidos como detonados, e buscam por informações sobre novos jogos no mercado. Esse interesse também é percebido no uso delas em aparelhos de celular, smatphones e tablets. O acesso a essas tecnologias ocorre cada vez mais cedo e é facilitado pela simplicidade de se manipular esses aparelhos que, com o avanço da tecnologia, estão cada vez mais intuitivos e utilizam simples toques com os dedos. Crianças com pouco mais de um ano já conseguem utilizar e brincar com aplicativos simples e a assistir vídeos infantis com rápidos toques de tela.
A geração Z e Alpha são o público alvo do Sítio, por isso os desenvolvedores estão sempre atentos às suas características e seus interesses para oferecer um produto atrativo, educativo, com conteúdo e que gere fidelização de público. Além de pesquisas, eles acompanham o público por meio de suas participações em redes sociais e interagindo com elas, de modo que elas percebam que a opinião delas é importante. Dessa interação, resulta até mesmo em mudanças no portal, para que se torne mais agradável a elas e as estimule ainda mais a participar e a opinar sobre o portal como um todo.
As crianças se tornaram um público consumidor sólido e diversas empresas patrocinam e buscam divulgar seus produtos para elas por meio de inserções comerciais em sites infantis, jogos patrocinados e a criação de universos narrativos que oferecem jogos e brincadeiras utilizando elementos de marketing em toda a sua estrutura. Canato (2010, p. 20) explica que “estas mesmas crianças, por viverem em tal ambiente rico em exposições midiáticas, entram em contato cada vez mais precocemente com marcas e os mecanismos do marketing” (CANATO, 2010, p. 20).
Porém, uma preocupação atual a respeito de produção de conteúdo para crianças é a questão de leis e normas que regem a publicidade para esse público. Em 04 de abril de 2014, foi publicada a resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança (Conanda) que foi aprovada por unanimidade em plenária do dia 13 de março do mesmo ano (Anexo 5). Esta resolução procura reafirmar e garantir que se cumpra o que já é estabelecido no Código de
Defesa do Consumidor (lei 8.078, artigo 37) que caracteriza como abusiva e ilegal a publicidade destinada a crianças menores de 12 anos, por elas não possuírem ainda a capacidade de julgamento sobre o conteúdo dessa publicidade (RUAS, 2014). “O texto considera abusiva a prática do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço” (TURLÃO, 2014, online). A resolução também considera abusiva a presença de publicidade em creches e ambientes escolares, bem como em materiais escolares e uniformes. É considerado irregular também o uso de qualquer elemento ou referência ao universo infantil, como: linguagem infantil, vozes de crianças, representações de crianças, uso de artistas com apelo do público infantil, personagens ficcionais de programas ou animações infantis, entre outros. Uma das motivações da resolução é a preocupação com a saúde e aumento de casos de obesidade infantil. A restrição às publicidades de alimentos considerados pouco saudáveis seria uma ferramenta importante na prevenção deste problema.
[...] a resolução é resultado de um extenso trabalho do Conanda, órgão ligado à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, que sempre recebeu denúncias de abusos e violações de direitos, o que inclui a publicidade dirigida às crianças. O Conanda trata, dentre outros temas ligados à infância e à adolescência, o direito à educação, saúde e combate à exploração sexual, da questão da publicidade dirigida às crianças. E o assunto também esteve na pauta da 9ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, realizada em Brasília em 2012, que contou com a aprovação de uma moção contra a publicidade infantil (RUAS, 2014, online).
A resolução é ainda considerada polêmica e com várias interpretações e conflitos. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que define as normas a serem seguidas pelos anunciantes no país, ainda não se posicionou sobre o assunto e as agências publicitárias devem seguir as recomendações dos dois órgãos (TURLÃO, 2014).
O debate sobre a resolução trouxe a tona também as discussões sobre o projeto de lei 5921/2001 que se encontra em tramitação e aguarda parecer do relator na comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC). Desde que foi apresentada pela primeira vez, em 12 de dezembro de 2001, a lei passou por análise e discussões em diversas comissões na câmara dos deputados. O objetivo dela, caso seja aprovada, é o de proibir a publicidade e propaganda para a venda de produtos infantis6.
6 Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=43201>. Acesso em: 22 jul. 2014.
O debate promete se estender por um bom tempo ainda antes de ter um destino concreto, mas já percebemos uma preocupação grande por parte das empresas de mídias e agências publicitárias em rever seus trabalhos para o público infantil e fazer as devidas adequações.
Um ponto negativo que se percebe é que toda essa restrição pode diminuir ou até mesmo acabar com a produção de produtos destinados às crianças, principalmente para a televisão, internet e mídia impressa. Sem publicidade, torna-se inviável a produção de programas destinados a esse público, e já sentimos o reflexo disso no cancelamento de programação infantil em diversas emissoras de televisão aberta no Brasil.
No caso do Mundo do Sítio, os reflexos dessa regulamentação aconteceram recentemente com o fim de jogos e ações patrocinadas e das cotas de patrocínio do portal (antes era possível ver na página inicial as marcas patrocinadoras, agora elas foram retiradas e ficaram apenas os logos da editora Globo e Globo Marcas).