Neste capítulo o que pretendo é mostrar as mudanças vividas por nossas mulheres ao longo do seu processo de militância no MSZL de São Paulo. Mais do que simples mudanças, o que quero é flagrar nessa dinâmica do seu cotidiano entre família, reuniões, passeatas e atos de protesto, flashes de um processo de sua constituição mesma como sujeitos históricos.
As contradições de classe e conflitos vividos por essas mulheres na luta por melhores condições de saúde a partir de carências sentidas por elas na periferia desta cidade, levaram-nas a um embate direto com o Estado. Neste embate, a percepção de que há interesses diversos na sociedade e que certamente os interesses das classes populares não estão sendo respeitados, as impele para uma organização na forma de um movimento social urbano que vai se esmerando na criação de instrumentos de luta por esses interesses.
No entanto, concomitante a isso, uma série de outros conflitos e contradições vão se delineando no cotidiano delas. As tensões vivenciadas em casa na tentativa de harmonizar o papel de mãe, esposa, com o de cidadã, as superações dos limites em cada atividade do movimento, a vontade de desistir muitas vezes, a alegria das vitórias obtidas, as frustrações e desencantos próprios da luta vão criando contornos novos de possibilidades e de atuação.
A cada momento vivido, a cada experiência compartilhada, toda vez que tinham que enfrentar o Secretário de Saúde para expor suas necessidades, ou quando sentiam o coração partir por ter deixado os filhos tanto tempo com a avó, ou encarar o marido zangado por ter voltado muito tarde da reunião, em todos estes momentos vão sentindo e racionalizando suas vidas, vão computando prós e contras, vão fazendo escolhas ao mesmo tempo afetivas e racionais dentro de uma complexa rede social na qual estão inseridas.
A consciência adquirida e revista passo a passo nem é meramente política, nem econômica, social ou cultural. É múltipla, concomitante, é diversa e plural. Esses rasgos de consciência que vão vivenciando não possuem uma hierarquia, tampouco ocorrem primeiro um depois o outro, são sincrônicos e integrativos do ser como um todo e não estanques e mensuráveis. Talvez a consciência de classe adquirida por estas mulheres desta forma não corresponda ao “grau” esperado pelos marxistas mais ortodoxos, já que não foi incorporada no processo uma capacitação conceitual que permitiria ao “bom militante” discernir o caminho revolucionário. É possível que essas mulheres não tenham feito a revolução que pretendia Marx
da tomada do poder pelo proletariado. E talvez não tenham adquirido a consciência de gênero pretendida por alguns grupos feministas, já que não romperam definitivamente com as amarras do patriarcado. Muitas continuaram e continuam a levantar cedo para deixar a comida pronta para o marido, filhos e, quiçá, netos.
No entanto, a nosso ver, estas mulheres fizeram sim uma revolução. Dentro do contexto cultural no qual vivem, tomaram o poder sobre suas próprias vidas e arrastaram, na medida do possível, suas famílias, seus vizinhos, seus bairros, neste caudal de transformações que desencadearam. São palavras delas, sentem-se revolucionárias, sentem-se mais livres e mais aptas para o futuro que as espera.
No convite a uma reflexão de todo o processo vivido e das mudanças sentidas por elas, essas mulheres despejam uma torrente de emoções e de idéias que nos dão uma noção da riqueza da experiência vivida. Na voz estampam sentimentos e emoções como satisfação, orgulho, gratidão, alegria. O tom da fala traduz certeza, obviedade e convicção da mudança vivida.
“(...) hoje em dia eu sou uma pessoa quasemente dona do meu nariz. Eu antes pensava ou a gente ficaria com o marido ou não comia e nem bebia; só que depois de toda essa caminhada, desde trinta e poucos anos, eu comecei a conhecer que não é isso, a mulher tem que gostar dela e ela tem que aprender a fazer aquilo que ela gosta, não ficar atrelada ao marido. Então, isso aí eu aprendi muito. Até a época do movimento eu pensava assim, então teve uma coisa, eu fui libertada, e hoje em dia eu sou uma pessoa que vou em tudo o que é lugar e sou querida, eu vou a Brasília conversar com os presidentes, na subprefeitura...”
(...)
“Há vinte anos atrás eu era uma infeliz, agora eu me vejo outra, me vejo melhor”
(...)
“Aprendi (muita coisa), pois é como eu te falei, até o que era cidadania eu não sabia, vim a aprender o que era cidadania, qual é o direito que nós temos como cidadão, foi dentro do movimento de saúde” (Justelita)
Lembrando sua vida, Justelita ressalta a independência e a autonomia que desenvolveu não apenas em relação ao seu marido, mas também de uma forma geral. Ter liberdade, poder ir para onde quiser, ser querida e reconhecida pelos outros lhe dá a medida dessa autonomia. Identifica o início dessa mudança na entrada para o MS, mas a vê como processo ainda em andamento (“quasemente”, “caminhada”, “comecei a conhecer”). Na experiência socialmente compartilhada do movimento, aponta para o crescimento em consciência ao descobrir noções
como direitos e cidadania. Ressalta o sentimento de gostar-se, de sentir-se melhor como importante para a mudança sentida.
“Antes, ainda mais nessa parte de bicho grilo (...) eu me sentia uma alienada. Se pegar a minha história de quando eu comecei a participar, eu descobri que eu era alienada. Quando eu comecei a participar em reuniões do PT, no comecinho de 83, foi liberado aquele filme do Reinaldo Farias que chamava ‘Pra Frente, Brasil’, e aí eu fui sozinha pro cinema ver esse filme (...) Aí eu saí revoltada, eu não saí revoltada pelo que eu vi da repressão, da tortura, eu fiquei mais revoltada de saber que em 1974 eu já tinha... eu era adolescente, não era mais criança e eu tinha vivido aquela fase sem informação daquilo. Quando eu saí do filme, eu fiquei com uma raiva tão grande, eu já tava começando a participar do PT e tudo o mais, e saber que aquele pedaço da vida foi uma coisa muito nebulosa, pra mim a maior revolta foi essa. E aí, comparando aquele antes e hoje, foram duas fases bem importantes pra mim, ter essa noção, uma visão critica. Tem um monte de coisa que falta entender ainda, mas foi super importante” (Aninha)
A superação da alienação política a partir do início de sua inserção no PT e no MS é apontada por Aninha como a superação de um período nebuloso em sua trajetória de vida. Comparando o antes (alienação) e o agora (visão crítica), aponta para o futuro (“falta ainda”). Começar a participar impeliu-a a uma revisão de sua própria vida e a uma transformação.
“Ah! Eu acho que mudou bastante, porque quando você não participa, você também não interessa saber o que está acontecendo, quem é quem, o que fulano fez, o que fulano deixou de fazer, e quando você participa, você fica conhecendo, e quando você conhece, você fala com certeza, você não fala assim ‘eu acho que era desse jeito, eu acho que não era’, você fala que não era...
Então, assim, eu tive um conhecimento muito grande, porque a gente teve até aula de política no nosso movimento, porque a gente ia fazer um trabalho e tinha que esclarecer pro pessoal quem era quem, o que o fulano faz, o que deixou de fazer né? Então tudo isso é um aprendizado, né, você vai aprendendo, muda com certeza. Eu não sabia que existia senador, eu não sabia nada, era uma bobinha mesmo quando entrei no movimento...”
(...)
“Olha, antes do movimento, eu tinha uma imagem assim: ‘ah, eu vou junto né, mas o que será que a gente vai resolver, será que a gente vai conseguir? Ah, mas se todo mundo vai, eu vou também, eu quero conhecer, eu quero ver’. Hoje eu fico pensando como eu era boba, como eu era ingênua, mas tudo o que eu aprendi, eu agradeço a Deus por eu ter sido curiosa, e querer participar, querer tá junto, eu agradeço e eu gosto do que eu fiz, e eu me sinto assim realizada, porque todos os lugares que eu fui, eu tenho certeza que eu tinha mais gente que gostava que eu tava presente do que alguém que gostaria que eu não estivesse” (Orlanda)
Orlanda associa o conhecimento adquirido (como ter noções da estrutura política do país, saber quem é quem no jogo do poder) à sua participação social (“querer estar junto”) e também à sua curiosidade e interesse nas coisas (“eu quero conhecer, eu quero ver”). Também vê aí um processo acontecendo (“tudo é um aprendizado, você vai aprendendo).
“Eu fiquei mais aguçada, observar mais... por exemplo: primeiro você me contava seus fatos e eu ouvia seus fatos, hoje eu vou além, eu vou nas entrelinhas do assunto, quero saber mais daquilo que você tá me falando. Isso mudou muito em mim, eu parei de participar do movimento, mas isso é uma coisa que ficou em mim. A gente faz um tipo de trabalho, a gente aprende, não é à toa que a gente aprende sozinha, a gente no movimento... ele era muito preparado para essas coisas, libertar as pessoas... deixar a gente mais astuta, não é muito bom não, às vezes incomoda as pessoas que a gente convive, sabe? Mas é uma coisa que a gente aprende e nunca mais esquece, às vezes a gente não quer fazer aquilo, mas a pessoa tá conversando e você tá observando a pessoa...” (Graça)
Astúcia e agudez dos sentidos são vistos por Graça como qualidades desenvolvidas no MS e que permitem ver as coisas com mais profundidade, fazer uma leitura da realidade nas “entrelinhas”, deixar as pessoas mais libertas. Esse aprendizado é um legado do MS e às vezes incomoda na relação com os outros, porque questiona.
“Olha, eu acho que, assim, a importância é muito grande, eu acho que o que eu tenho hoje, o que eu conheço, eu devo ao Movimento de Saúde. Foi o que eu te falei, eu acho que é questão de interesse de cada um, né, e pra mim é assim, acho que foi a história da minha vida, né, eu acho que eu não consigo contar nada que não seja do Movimento de Saúde. É a história da minha vida” (Ivoneide)
A vida permeada pelo MS, intrincada nessa inserção no MS, pautada por ele. Tal inserção é vista como uma escolha sua, um interesse manifestado num determinado momento de sua história.
“Ah! Eu posso dizer que aprendi muito, tudo o que eu aprendi de movimento social, foi iniciado no movimento em 83, foi uma porta que se abriu, é como se eu tivesse numa casa sufocada com uma porta fechada e consegui enxergar esse lado, porque eu acho que muitas mulheres donas de casa se sentem assim como eu me sentia”
(...)
“Eu aprendi muito a me valorizar, essa coisa de optar mesmo, de optar pela vida, isso eu aprendi na época de movimento de mulheres, porque a gente tinha que ter uma opção, quem trabalhava vendo as mulheres morrendo tanto, tinha que fazer uma opção de vida que era levantar a auto estima de alguma maneira, porque senão você ficava tão envolvida com os problemas das companheiras que morriam porque não conseguia fazer mamografia...”
(...)
“Eu era uma pessoa que tinha medo de enfrentar, não sabia conversar determinadas coisas porque não conhecia, de fato, tanto as questões da política quanto da saúde, não tinha informação, então acho que isso mudou, eu era uma pessoa, não digo que sou outra, mas foi se transformando por conta dos conhecimentos que a gente vai adquirindo na vida, a gente perde o medo, e o medo também era porque estávamos no regime militar, então a gente tinha mais medo” (Fermina)
A participação no movimento social dando margem a um processo de crescimento da consciência (abrir a porta, enxergar o outro lado). A partir de um sentimento de sufoco, de opressão, a busca de informação e convívio social, a “opção pela vida”, a escolha do caminho. Os ganhos (superação do medo, da angústia) são obtidos no processo (“foi se transformando”, “a gente vai adquirindo”), sempre socialmente compartilhado.
“Ah! Eu cresci muito, cresci muito! Porque eu cheguei lá do norte, aí sabe como é, a gente vem do norte com aquela cabecinha, e então quando eu cheguei aqui junto com eles, o movimento, eles fizeram, não só a mim, mas a muita gente daqui do bairro, cresceu, abriu a visão, que nós éramos gente também e tínhamos direito”
(...)
“Mudou (a minha cabeça) porque naquela época eu não entendia bem de política não, mas agora eu vejo onde tá a safadeza. Eu acompanho a política e o meu voto eu só dou pra quem merece. Eu passei a me valorizar mais” (Zuleide)
As noções políticas de cidadania, de direitos, de voto consciente saltam da fala de Zuleide e são associadas à participação no movimento. A idéia de um crescer na consciência é vista como um processo social (dela e de muitos) que ocorre no bairro todo a partir do MS.
Em todos os relatos percebemos a idéia de um antes e um depois tomando como base, senão a participação propriamente no MS, ao menos alguma forma de envolvimento social em suas vidas. Essa divisão temporal produzida pela memória no processo de contar reflete a percepção de uma mudança real em suas vidas a partir desse processo vivido. No entanto, é bom ressaltar que essa percepção elaborada pela memória e com a consciência do presente projetada no passado é abrupta demais, pois desconsidera os processos vivenciados até então, como se a consciência tivesse surgido somente á partir dali. Essa sensação, essa percepção pode ser explicada pelo forte impacto que provoca, racional e emocionalmente, a participação de indivíduos num processo social de ampla mobilização. Ao viver intensamente esse processo, nossas mulheres experimentaram um fazer-se da consciência também intenso que marcaram profundamente esse momento de suas vidas.
Por isso não estamos utilizando aqui o Movimento de Saúde como único local de atuação política dessas mulheres, mas sim como um mediador que nos permite observar as mulheres na construção de si mesmas como sujeitos históricos. Queremos crer que os movimentos sociais urbanos, definição na qual incluímos o Movimento de Saúde, têm desempenhado um papel importante num processo amplo e intenso de experiências socializadas que têm contribuído, inclusive, para a redemocratização do país e o estabelecimento de um estado de cidadania e de direitos. No entanto, acreditamos também que tais movimentos não se constituem como entes autônomos, mas são compostos e formados por sujeitos históricos que num determinado momento optaram por formar um movimento de luta social e que podem, a todo o momento, continuar fazendo escolhas, dentro ou fora dele. Dessa forma, o movimento não existe em si, mas enquanto criação social numa determinada conjuntura histórica.
Assim que, privilegiar o MS aqui tem o papel de ver através dele, a constituição de sujeitos históricos num processo onde ele mesmo é construído socialmente, mas não independente do contexto social e cultural de seus vários articuladores (as mulheres donas de casa, os padres, seminaristas, freiras, médicos sanitaristas etc) e, muito menos, sob qualquer forma determinista.
Além do mais, muitas outras mulheres e homens entraram para o Movimento de Saúde (ou outros movimentos) e, nem por isso, tiveram suas consciências despertadas para uma atuação política e social e para transformações profundas no seu modo de viver. Alguns freqüentaram o movimento até conseguir o posto de saúde para o seu bairro, ou o Hospital para a sua região. Não foram chacoalhados por grandes indagações, conflitos ou contradições. Sobre essa questão, Fernando Altemeyer comenta.
“(...)... por exemplo, a D. Tereza, que tinha experiência e compromisso social dez anos antes com igreja... então algumas mulheres como essa que não tinham grandes experiências políticas e, no entanto, tinham essas experiências no interior ou no Nordeste, tinham esse empenho de enfrentar, sempre tem a marca de alguém. E há também aquelas que, como a Orlanda do São Rafael, ela tava dormindo e aí ela acordou. Houve mulheres que acordaram. Por que acordou? Você sempre se faz essa pergunta, eu também fiz na minha tese, por que um cara acorda e assume a sua cidadania e por que outro continua bêbado etc? Por que há esses despertares e a pessoa vai assumir o papel de sujeito etc? Por que há favorecimentos e outros continuam trabalhando durante 15, 30 anos e fica pedinte e alienado etc? Bom, aí eu não sei. Acho que tem a ver com história, tem a ver com dores, tem a ver com suporte, acho que tem a ver com estalo, uma luz que acende lá dentro... Algumas mulheres acordaram. Aí, você com seus depoimentos saiba dizer porque. Foi uma pessoa, foi um
lugar, foi um momento? Essa D. Tereza disse assim: ‘quando eu vi vocês todos parados pra bloquear os caminhões de lixo, ah! Eu vou voltar a fazer aquilo que fazia quando jovem’. E ela tinha dormido uns cinqüenta anos” (Fernando Altemeyer)
Esse acordar como sujeito histórico de que fala Fernando, a forma como se dá o crescer da consciência, o fazer-se enquanto sujeito histórico é, em suma, a grande questão que permeia este trabalho, nossa grande indagação. Concordamos com Fernando em que tem a ver com a história, com as dores, com os sonhos e suportes de cada um na sua trajetória de vida. Não temos a pretensão de saber a resposta, mas apontamos pistas para essa compreensão,
Relendo as narrativas inicialmente descritas de como se sentem transformadas e mais conscientes de seu mundo, não devemos supor que tal sentimento tenha sido obtido de golpe. Seus depoimentos expostos ao longo da pesquisa vão deixando entrever os dilemas vividos no decorrer das experiências relembradas e retrabalhadas.
Essas lembranças também deixam ver que o crescimento de cada uma se dá em diversos momentos de suas vidas e em diversos lugares, ainda que reforcem o MS como o lugar e o tempo privilegiados desse crescimento.
Para Orlanda, por exemplo, ter ido trabalhar na Rodhia quando se mudou para São Paulo representou para ela a superação em parte de sua timidez, e um grau maior de sociabilidade.
“Então, quando eu entrei lá trabalhar eu era... eu era, assim, muito vergonhosa, eu era tímida, assim que, nossa, eu nem comia na frente de ninguém porque eu tinha muita vergonha. E depois fui fazendo amizade com o pessoal, conversando, e aí parece que eu fui me soltando um pouco, mas mesmo assim, quando eu saí de lá, eu bem assim... bem caipira mesmo” (Orlanda)
A Igreja também representou um espaço de aprendizagem muito importante. Em passagem anteriormente já citada, Orlanda afirma que foi na Igreja que aprendeu realmente a ler, por insistência de um padre. Fazer as leituras na missa, além de vencer a timidez, fazia-a reforçar sua capacidade de ler, mesmo não tendo ela continuado seus estudos.
Outras, porém, acabaram por se empenhar nos estudos, como é o caso da Fermina.
“(...) as meninas (minhas filhas) cresceram, se formaram, as duas se formaram e eu sempre pensei: ‘quem sabe um dia eu vou fazer uma faculdade’. Porque eu consegui
fazer o fundamental e o médio quando eu já era mãe, e aí ‘quem sabe um dia eu consigo fazer uma faculdade de psicologia’. Eu sempre tive uma queda por psicologia, talvez por conta da militância, essa coisa de ajudar o outro, mas não tinha muita esperança, eu pensava ‘um dia quem sabe’, e aí no ano da gestão Marta surgiram aquelas benditas bolsas da prefeitura e me ofereceram uma e eu com muito medo disse não, porque eu tinha muito medo quando falavam em faculdade. Já viu, né, eu não estudei nada, eu vou repetir, vou sofrer o tempo inteiro, chega lá eu não sei falar, aquela coisa, e a pessoa (?) me encorajou muito e eu fui praticamente escondida, só a minha filha mais velha que sabia. Aí eu fui, prestei e passei, o meu marido tava até na Bahia, ele não sabia, quando ele chegou eu já tinha começado a estudar. Mas eu fui assim, com um pé atrás, não sabia muito, eu costumo dizer que o primeiro semestre foi pra que eu conhecesse a realidade” (Fermina)
Muitos medos e inseguranças permearam a decisão de Fermina. A primeira oportunidade é dispensada, recusada. A faculdade era amedrontadora, significava um campo de atuação novo, acadêmico, onde novos códigos de comunicação se processam e a “norma culta” significava um impedimento (“chega lá eu não sei falar”). E, enfim, a opção de ir.
Hoje, já no final do seu curso, a reflexão é retomada num outro nível, numa avaliação de ganhos e perdas e do significado que a faculdade acabou tendo na sua vida.
“Hoje eu estou no último semestre38. E aí não aprendi grandes coisas porque tenho muitas dificuldades ainda, mas o pouco que eu aprendi foi pra minha auto-estima algo que não tem