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que um trabalho qualitativo exige uma disposição irrestrita de tomar algo que já se imagina como conhecido e aprofundar, tanto quanto se possa, nossa compreensão mediada pelo olhar de quem se encontra existencialmente imerso naquilo que desejamos apreender.

2.1.2 Considerações teóricas sobre a autobiografia

educativa

Do nosso ponto de vista, a metodologia de pesquisa mais adequada para este trabalho constituiu-se pela modalidade qualitativa denominada “História de Vida” ou “Pesquisa Autobiográfica”20.

De acordo com observações de Josso (2004), uma das primeiras teóricas do uso desta metodologia, por meio da pesquisa autobiográfica, o pesquisador pode suscitar recordações de experiências significativas em relação ao questionamento que orienta a narrativa dos sujeitos

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Sabemos da existência de um debate mundial a respeito das denominações utilizadas para definir os trabalhos de pesquisa-formação que fazem uso de dados qualitativos, informados por meio oral ou escrito, referentes à vida dos sujeitos. Tal debate animou as discussões promovidas pelo II Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)biográfica, realizado em Salvador em setembro de 2006, no qual grande parte dos palestrantes mencionou a variedade de definições de metodologias de pesquisa atuais que se caracterizam por aspectos da (auto)biografia. No mesmo período, foi lançado o volume 32 da Revista da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo cujo foco incidiu sobre o tema: “Histórias de Vida e Formação”, organizado pelas Professoras Doutoras Helena Coharik Chamlian e Belmira Bueno. O conjunto de artigos publicados pode ser considerado como outra mostra da fecundidade desse debate, sobretudo por abranger uma pluralidade de olhares de teóricos atuantes em diferentes países, inclusive no Brasil.

envolvidos. A referida professora ainda afirma que, para uma experiência ser considerada formadora, é preciso que ela seja tratada sob o ângulo de quaisquer tipos de aprendizagem: atitudes, comportamentos, pensamentos, saber-fazer e sentimentos, que caracterizam uma subjetividade e identidades.

O trabalho proposto por Josso é composto por diversas etapas. Num primeiro momento, cabe ao responsável pela pesquisa mediar momentos de narração de experiências pessoais (de acordo com temas e eixos predeterminados21). Ele deve ter em mente que a escuta das narrativas pretende garantir que os sujeitos colaboradores da pesquisa possam expor todo o tipo de informação sobre suas vidas. Numa fase mais adiantada do trabalho, o conjunto de informações, após cuidadosa análise por parte da pesquisadora e dos sujeitos pesquisados, é utilizado como elemento de construção das respostas exigidas pelo objeto a ser investigado.

Como exemplo, tivemos nesta pesquisa os seguintes eixos: afetividade, sociabilidade, estudo e religiosidade. Ao longo dos encontros, surgiram, entre outros, os seguintes temas: solidariedade, solidão, carinho, saúde, tolerância e preconceito lingüístico.

A importância da metodologia de pesquisa e de formação autobiográfica reside, fundamentalmente, na característica de constituir-se como meio de proporcionar aos sujeitos que dela participam a oportunidade de vivenciarem, simultaneamente, o papel de sujeito e de objeto de sua formação (JOSSO, 2004). Assim, os sujeitos em situação de processo formativo expuseram suas experiências de vida de modo que suas realidades se desvelassem, paulatinamente, conforme o grupo elaborava, com a mediação da pesquisadora, a percepção de que as histórias de vida não consistem numa sucessão de acasos, mas em um sistema de ações e reações pelas quais todos nós somos responsáveis ou, pelo menos, co-participantes.

O caráter sócio-educativo do trabalho se faz bastante claro na seguinte passagem de Gaston Pineau, outro precursor deste tipo de abordagem:

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Compreendemos como eixos narrativos os assuntos de caráter generalizante que podem servir como condutor das narrativas de modo a permitir que novos assuntos, relacionados ao eixo, tomem espaço na exposição dos sujeitos. Os temas, por sua vez, emergem dos eixos na forma dos assuntos presentes nas narrativas desencadeadas.

A resposta não está predeterminada. Ela se constrói e se desconstrói cotidiana e perpetuamente nas fronteiras dos indivíduos e das instituições, nas relações de trocas que se estabelecem. Nesses lugares e momentos estratégicos, tomando mais parte para um do que para outros, os movimentos sócio-educativos representam uma força importante. Seguindo as opções de seus membros, a corrente das histórias de vida em formação pode fazer dessas práticas uma arte poderosa de autonomização ou, ao contrário, de submissão dessas pessoas (PINEAU, 2006, p. 341-342).

De acordo com Pérez (2003), perseguimos a compreensão do ato de narrar as histórias das próprias vidas como algo além de um mero falar sobre coisas cotidianas, mas como um ato de conhecimento. Buscamos analisar o conteúdo narrado considerando que: “o sujeito constrói uma cadeia de significantes que estrutura formas cognitivas de representar o mundo e compartilhar a realidade social, ao mesmo tempo em que engendra sonhos e desejos e utopias” (PÉREZ, 2003, p. 50).

O desenvolvimento do trabalho de campo nos mostrou, de maneira cada vez mais contundente, que as funções de pesquisadora e de formadora se fundem na perspectiva adotada. Novamente, concordamos com Pérez:

Tendo como pressuposto que as narrativas auto-biográficas são, ao mesmo tempo, um instrumento de investigação e de formação, em que a ação de investigação coincide com a ação educativa, procuro desenvolver uma abordagem metodológica que busca articular ação-reflexão, a partir da formulação de novas relações entre pesquisadora-pesquisadas. Tal abordagem se insere numa perspectiva que recusa a dicotomia sujeito/objeto, pois entendo o conhecimento como uma produção intersubjetiva, uma construção solidária que se realiza na co-presença e por meio de interações recíprocas. Portanto, o outro não é tomado como objeto de conhecimento, mas como participante de um processo de formação-investigação em que o fundamental não é um modelo final a ser atingido, mas a própria dimensão formadora da narrativa (PÉREZ, 2003, p. 43).

Entendemos com isso que, ao propor uma pesquisa com caráter metodológico qualitativo e autobiográfico, não podemos nos isentar da dimensão formadora22 inerente ao trabalho com “Histórias de Vida”. Integrando pesquisa e formação, podemos afirmar que

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No caso da presente pesquisa, o caráter formador incluiu a alfabetização e o letramento, uma vez que o uso do diário de bordo pelos sujeitos pesquisados propiciou oportunidades de: reflexão sobre o uso e a funcionalidade da escrita, balanço de competências e construção de conhecimentos relacionados à língua escrita. Sendo assim, podemos afirmar que, em alguns momentos, a pesquisadora também se posicionou e foi vista pelo grupo, como alfabetizadora. Utilizamos o termo “diário de bordo” em conformidade à caracterização dada por Jean Biarnès em seu trabalho Universalité, diversité, sujet dans l'espace pedagogique (1999). O diário de bordo, em nosso trabalho, consistiu em um caderno tipo espiral, fornecido pela pesquisadora a cada um dos sujeitos, no qual todo o registro escrito dos encontros foi realizado. Por meio deste material, cada participante teve condições de acompanhar a trajetória dos temas tratados pelo grupo, a periodicidade de nossos encontros, assim como fazer todo tipo de anotação espontânea. Em 2007, ao apresentar ao grupo a cópia digitalizada e impressa de todos os diários de bordo, a pesquisadora foi solicitada a providenciar uma cópia para cada integrante. Nas palavras de Almeida: “quero guardar, como recordação, tudo que eu e minhas colegas escrevemos. Quem sabe, um dia, eu

buscamos uma interação com os sujeitos deste estudo na qual a formação recíproca se constituísse enquanto valor fundamental. Nesse sentido, desejávamos que as pessoas participantes se beneficiassem da convivência no grupo de narração de histórias de vida, a partir da construção de conhecimentos significativos para sua trajetória como indivíduo livre e consciente, ao mesmo tempo em que contribuíssemos para o aprendizado da leitura e da escrita com a proposição de atividades de registro. Ou seja, a formação das participantes não foi menos importante que o êxito pretendido pela pesquisadora na elaboração dos conhecimentos propriamente exigidos para a conclusão deste trabalho. Surgiu, então, a necessidade de que os papéis de formadora e pesquisadora do grupo se fundissem por meio: da escuta dialógica, da intervenção emancipadora e da organização da sistematização coletiva das narrações realizadas. Diante desse quadro situacional, o grupo, constituído como relação simbiótica entre pesquisadora e pesquisadas, tendeu a enriquecer cada um de seus componentes não apenas nos aspectos intelectuais, mas também como seres mais humanizados e, portanto, mais conscientes de sua existência como sujeitos de suas histórias.

De acordo com Delory-Momberguer (2006), acreditamos no poder socializador da atividade biográfica, sobretudo quando ela acontece em momentos coletivos de reflexão sobre as experiências vividas por cada sujeito individualmente. E, da mesma forma, refletimos juntamente com Pierre Dominicé ao afirmar que:

Na época atual, as grandes opções ideológicas quase não impregnam mais as mentalidades, e o registro psicológico tende a predominar. Os adultos pensam sobre sua vida mais em termos de realização pessoal do que em aventura coletiva (DOMINICÉ, 2006, p. 351).

O trabalho com histórias de vida, na perspectiva socializadora, pressupõe uma opção política clara no sentido de realizar um trabalho de pesquisa-formação junto com atores em situação escolar e social desfavorecida. Especialmente por se tratar de um grupo composto por migrantes pauperizados, consideramos a autobiografia educativa como forma de construção de histórias de vida em formação como algo que: “indica um caminho de formação significativo [...] cuja história pessoal estilhaçada tem a tendência a forjar, pelo fato da ruptura, uma vida dividida em pedaços e pensada em termos de fraturas” (DOMINICÉ, 2006, p. 353).

Para compreendermos o ambiente sócio-cultural em que os sujeitos participantes desta pesquisa estão inseridos, introduziremos para o leitor algumas informações de cunho histórico, geográfico e estatístico sobre o município de Guarulhos, palco de vivência atual de nossos sujeitos.

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