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Pode-se afirmar como Comblin que a ―conversão é um processo do pecado para santidade185‖. Portanto, surge uma pergunta: O que é pecado? Para Comblin o pecado é o sistema de dominação que reaparece sempre em toda a história, é o princípio de morte que está presente em toda a sociedade e tende a corrompê-la186, é o contrário da fraternidade e do amor. Toda forma de dominação que diminui a vida é o mesmo que matar o outro187, ou seja, torna-se dominação, opressão e pecado. Pode-se dizer que a sociedade está envolvida em um pecado estrutural, o qual compromete todas as suas áreas com a injustiça, como diz José Comblin:

―O mundo fica no pecado em todas as suas estruturas: econômica, política, cultural; o pecado impregna tudo, no sentido de que não depende do homem individual pecar ou não pecar. O homem deve cometer a injustiça e sofrê-la em virtude das estruturas do mundo. A economia está construída de tal modo que não seja possível praticar a justiça. A política está elaborada em função da ordem que se quer manter numa sociedade injusta. A força do Estado está a serviço de situações injustas e opressoras. A própria cultura é feita para tornar compreensível, aceitável e suportável a situação de pecado. Faz o possível para ocultar os lados negativos e mostrar as belezas da sociedade estabelecida. Trata-se de convencer o homem da necessidade de aceitar as coisas tais quais. Quem pretende praticar a justiça precisa fugir destas ações‖188.

Nota-se nos escritos acima a maneira como o autor articula o conceito de pecado, cujo o mesmo passa a ser fator que não está mais sobre o ser humano como indivíduo, e sim,

185 COMBLIN, José. A Igreja e sua missão no mundo. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, pg. 109. 186 COMBLIN, José. A Liberdade Cristã. São Paulo: Paulus Editora, 2009, pg. 51.

187 Entrevista com Pe. José Comblin ''A Igreja Católica suspeita da democracia'' Fonte Unisinos.

http://contribuicoes.blogspot.com.br/2011/01/entrevista-pe-jose-comblin.html acessado em 20/05/2012.

estruturalmente na sociedade, desenvolvendo desta maneira um processo de destruição da humanidade. Além disso, o autor deixa claro que a sociedade quer ocultar o seu pecado, o lado negativo, demonstrando somente as belezas. Porém, Comblin afirma: ―quem quer praticar a justiça precisa fugir destas ações‖, com isso, temos uma afirmativa para visualizar como deveria ser a prática da justiça. Além dessas afirmações constata-se também muito claramente nos evangelhos, as controvérsias de Jesus com as autoridades de seu povo (Mat. 23, Jo. 7-8), e nos comentários de Paulo, sobretudo na sua carta aos Romanos. O pecado é tudo o que destrói a vida, ou seja, a prática da injustiça. Deus em Jesus quer dar vida, isto é, a própria prática da justiça, aquele que deseja destruir a vida, também quer destruir a obra de Deus. Nota-se também na morte do Cristo descrita nos evangelhos a injustiça sendo aplicada, ou melhor, o pecado de provocar a morte de Deus encarnado, pendurando-o na cruz, tentando colocá-lo para fora da sociedade. Este fato provoca a morte da justiça de Deus, gerando vítimas e cooperando com a morte dos fracos, e tais atitudes não desapareceram e estão vivas ainda hoje no mundo189, isto é, ações contra os mais fracos, a história se repete em todas as épocas, o forte vencendo o fraco. Porém , quando Cristo ressuscita, vence a injustiça, gera uma nova significação a respeito do modo de ser e de viver sobre o fundamento da justiça. Leonardo Boff comenta a partir da ressurreição de Jesus, rompe-se o circulo de opressão (injustiça), libertação (justiça), opressão (injustiça), libertação (justiça):

―Pela ressurreição a verdade utópica do Reino de Deus torna-se tópica e evento de certeza de que o processo de libertação não permanece numa indefinida circularidade de opressão-libertação, mas desemboca numa total e exaustiva libertação‖190.

É necessário compreender que tudo que se levanta contra a justiça é também contra o evangelho, certo deste fato, a conversão – segundo Comblin - deve colocar o cristão em um movimento de realização de atos de justiça, uma vez que este teria recebido

189 SOBRINO, Jon Onde está Deus? São Leopoldo: Editora Sinodal, 2009, pg. 104.

a vida. Quem entra nesse movimento do Reino de Deus rompe com tudo o que destrói a vida, rompe com seu egoísmo pessoal, com o egoísmo coletivo, o egoísmo da dominação que configura a sociedade. Entra numa luta contra o pecado que está nele ou nela, e contra o pecado inserido na sociedade que destrói a humanidade em todos os níveis.

Em termos bíblicos o Reino de Deus significa um movimento que leve uma sociedade a ser justa, igual e abundante191. Porém hoje, ainda temos um problema que esta em vigor, que também tenta esconder o pecado, o qual Comblin denomina de ―espiritualismo suspeito192

e a Igreja denominou de espiritualismo do sofrimento; trata-se da confusão do discurso entre pobreza material e pobreza espiritual, fruto de interpretações ultrapassadas em nossa sociedade ocidental que tende ao discurso dicotômico. Na maioria dos casos, para justificar a pobreza material ainda vemos o velho discurso ―de aparência‖ inofensiva de que a pobreza material é substituída pela riqueza espiritual e eterna. Trata-se de uma teoria da justificação ultrapassada que alimenta ainda mais o terror da sociedade sem piedade, permeia a mentalidade dos cristãos; os quais, com essa crença, distorcem literalmente a mensagem do Evangelho, e este discurso contribui com a insensibilidade e escraviza a comunidade cristã à inércia. Por isso, precisamos ficar atentos e de sobreaviso contra os discursos a respeito de um evangelho que não condiz com as boas novas de Jesus, que traz justiça para humanidade.