O contexto de pobreza e de privações enfrentado pela família é bastante gritante, faltando apoio em todos os níveis. A morte do filho ficou diluída num mar de outros problemas. Ester aproveita a entrevista para desabafar acerca das dificuldades enfrentadas, o que leva a pensar em que medida a pesquisadora foi vista como uma extensão do CDS e possível porta-voz das reivindicações da família, já que a instituição não consegue ter braços para atingi-los, tanto do ponto de vista financeiro, quanto emocional (falta também um serviço especializado que acolha e forneça apoio psicológico na própria instituição).
Por mais que Ester enfatize o sonho de que os filhos estudassem, o mundo da marginalidade apareceu como opção mais concreta e mais próxima. Um dos filhos de Ester está em liberdade condicional, outro já cumpriu medida socioeducativa e o neto também está em conflito com a lei. Apesar de Ester insistir que o falecido Samuel não tinha passagem pela justiça, foi vitimado pela violência da mesma forma. Todos foram expostos a situações de risco. No genograma familiar, aparece ainda o alcoolismo do marido que, apesar de superado, já trouxe dificuldades para as relações, pois João tornava-se agressivo com todos quando bebia. Fica difícil ter projetos fora deste circuito de pobreza e marginalidade e, nesta família em que o mote é a desistência, há falta de forças para lutar contra um mundo que tem sido cruel. Não é a toa que o ambiente da casa em que moram passa a sensação de opressão e de abandono. Ninguém está podendo ocupar-se dela, da mesma forma que ninguém está podendo ocupar-se de si mesmo.
O Relacionamento de Ester com o marido é distante: ela deprimida, ele negando os problemas. Não conseguem apoiar-se mutuamente. O casal ainda é a figura central na família, mas ocupar este lugar é cada vez mais desgastante. Neste momento de fragilidade dos pais que se sentem velhos, além de não terem o respaldo do governo (aposentadoria), parece que nenhum dos filhos conseguiu desenvolver a condição de ajudá-los. A única filha que trabalha, ainda lhes delega a responsabilidade de criar e orientar seus três filhos.
Quanto à depressão de Ester, com certeza o envolvimento dos filhos com a justiça, o alcoolismo de Mateus (que está bastante doente) e a morte de Samuel foram deixando
marcas irreversíveis, refletindo diretamente em sua saúde física e mental. O sofrimento transparece em seu corpo, pois Ester aparenta ser muito mais velha do que realmente é. E como uma ressonância ainda desse ciclo, o neto Micael começou a repetir a história. O prognóstico em relação ao neto não é dos melhores, pois não consegue se comprometer com a medida, ficando difícil imaginar a possibilidade de que encontre outros caminhos fora do circuito da marginalidade. Afastou-se da escola e desistiu dos cursos oferecidos pelo CDS.
O envolvimento dos jovens com a criminalidade é visto como decorrência da falta de oportunidades (emprego) e também do uso de drogas. Na visão de Ester, acima de tudo é um fator social, ligado às conturbadas relações socioeconômicas que marginalizam uma grande parcela da população. Ressalta também a questão do preconceito, vivenciado sobremaneira por Mateus, que carrega o estigma de ser um ex-presidiário. Mateus tem visto, dia-a-dia, as portas se fechando cada vez mais.
Outro ponto que chama a atenção, é que parece ser “mais desculpável” a violência cometida contra o filho morto por seus colegas do que a violência policial. Ester minimiza o assassinato do filho ao dizer que foi uma “rixinha” fútil e boba. A violência policial é que aparece como a grande vilã da história. Isso se traduz na confiança maior da mãe no “malandro que conhece” do que nos policiais. A relação com a polícia é de desconfiança, pois a família não acredita em sua idoneidade. Na experiência pessoal da família, Ezequiel já foi exposto à violência dos homens fardados, ativando um medo que não mais se desfez.
Em relação ao fator justiça, a lei do silêncio impede que a justiça seja aplicada corretamente. Os assassinos de Samuel não foram punidos por falta de testemunhas que aceitassem depor. Mesmo diante de uma situação grave como é um assassinato, é preferível calar, por medo de retaliações e a lei do silêncio acaba se sobrepondo à gravidade do fato. A impunidade impera. Não aparece a dimensão protetora da justiça, pois nada assegura que quem falar será protegido, se tornando melhor opção calar.
O silêncio existe dentro de casa também. A morte de Samuel tem de ser silenciada, não se pode falar no assunto, pois, o medo de sofrer represálias é grande (os assassinos intimidaram os outros irmãos). Essa postura de “deixar para lá” implicou que a família não vivencia a morte de Samuel com o senso de que tenha ocorrido uma justiça verdadeira. Ao
contrário, a única perspectiva de justiça vislumbrada seria a vingança e, como ela não pôde ocorrer, fica uma lacuna, um vazio. A morte, assim, perde a chance de ser elaborada.
A lei de Talião aparece presente nesta saga da família frente ao assassinato. Ester tem o senso de que, pelo emprego desta lei primitiva, deve ser aplicado castigo idêntico à violência sofrida, o “olho por olho, dente por dente”. Mas, tem a noção de continuidade, pois, se matarem o rapaz, a família dele também vai querer vingança, num ciclo que se estenderá eternamente. O olhar ameaçador do assassino para com os outros filhos de Ester, denuncia o medo que ele próprio tem de sofrer retaliações pelo crime praticado. Tenta, assim, impor respeito, pois não quer tornar-se também vítima.