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Adotando a terminologia do conceito de intervenção social com grupos proposta por Carmo (2014), o projeto estudado situa-se a uma escala micro, o sistema interventor é constituído por uma parceria criada entre a rede de voluntariado ServeTheCity Lisboa e a equipa do Arte de Conversar. O sistema cliente é formado por um grupo de voluntários que pertencem à rede STC e que prestam apoio social e emocional a indivíduos em situação de fragilidade e exclusão social. As interações destes dois grupos ocorrem no ambiente do serviço de refeições e de convívio comunitário, denominado de Jantares Comunitários.

3.2.1. Sistemas – interventores

A Serve the City Lisboa, integrada na Serve the City Portugal, é uma rede de voluntariado nacional que pertence a uma rede internacional, a Serve the City International. Baseia-se num movimento de inspiração cristã que começou em Bruxelas, em 2005, e que atualmente está ativa em mais de 80 cidades em todo o mundo.

Incubado pela Fundação Bonfim, a Serve the City Lisboa (STC) iniciou as suas atividades em 2007, através da mobilização de voluntários de todas as idades, condições e convicções para servirem a comunidade urbana, fortalecer as relações interpessoais e promover uma cidadania ativa, responsável e de proximidade. Desenvolve várias atividades nas temáticas da fragilidade e exclusão social dirigidas à população em situação de sem-abrigo, idosa e isolada, às crianças e jovens em risco, imigrantes ou refugiados, assim como outros projetos em parceria com outras instituições, empresas, escolas, associações e comunidades de fé. Assume como missão contruir pontes entre pessoas, instituições e territórios, através do voluntariado, de forma a tornar a cidade mais justa, fraterna e solidária.

O Arte de Conversar é um projeto inspirado nas ideias do autor Theodore Zeldin e atividades da sua Fundação - o Oxford Muse - em Inglaterra. Esta fundação promove o encontro e conversas mais aprofundadas entre desconhecidos e pessoas de diferentes proveniências, de forma a criar

pontes, estimular a reflexão e abertura em relação ao outro. O Arte de Conversar desenvolve recursos e organização de eventos temáticos, procurando adaptar-se às necessidades da cultura portuguesa e dos contextos em questão. Tem como objetivo promover a conversa presencial, cara-a-cara, criar espaços de diálogo e encontro entre desconhecidos, a superação de preconceitos e estereótipos, proporcionando assim uma maior aproximação e conhecimento daquele que não pertence ao círculo habitual das relações sociais dos indivíduos que participam. Recorre a metodologias criativas de apoio à conversa, com o intuito explícito de facilitar a partilha, promover a escuta, estimular a empatia, a imaginação e reforçar a confiança nas relações sociais.

3.2.2. Sistema-Cliente

O sistema-cliente é constituído por um grupo heterógeno de voluntários da rede STC que participam regularmente nos Jantares Comunitários, com uma média de idade de 35 anos. Em termos de ocupação profissional é muito diversificado. Em termos de motivações para a prática de voluntariado e participação nos JC, e de acordo com os dados do focus group, destacam-se as seguintes: inspiração cristã, a partilha, conhecer e aprender com as histórias de vida de outros, desenvolvimento pessoal, sentir-se útil e necessidade de contribuir, bem-estar e gratidão, sentimento de pertença, o ambiente de acolhimento e familiar dos JC, o sentido de compromisso para com o Convidado no sentido de não defraudar as suas expetativas de ter a companhia do voluntário para jantar.

O processo de constituição da amostra dos Voluntários afetos ao projeto envolveu os seguintes passos:

• A convocatória de vários voluntários da rede para o Jantar de apresentação da parceria e do projeto. A seleção destes voluntários foi feita de acordo com os seguintes critérios: experiência em Jantares Comunitários, nível elevado de compromisso e assiduidade. No jantar de apresentação compareceram 22 voluntários;

• Deste grupo de 22, constituiu-se um grupo de 15, através das inscrições feitas para a formação em duas datas distintas.

Tabela 2 - Caraterização dos voluntários da amostra

Fonte: Autoria própria

3.2.3. Utentes dos Jantares Comunitários

Os utentes dos JC constituem uma população heterogénea, de diferentes idades e naturalidade, sexo e condição social, composta por indivíduos em situação de sem-abrigo, tanto recente como prolongada, indivíduos em situação de pobreza, de desemprego, com pensões e rendimentos baixos, idosos isolados, jovens marginalizados, imigrantes desenquadrados legal e profissionalmente, famílias com rendimentos insuficientes e indivíduos com deficiência auditiva. Na linguagem inclusiva da STC, são denominados de Convidados e tratados pelo seu nome próprio. À entrada de cada jantar é escrito o seu nome numa fita cola e colocado na lapela de cada um para ser visível a todos. Os Convidados que participaram no Conversas com Vizinhos correspondem a estas categorias.

Voluntários Sexo Idade Ocupação Participa nos Jantares desde V1 F 36 Jornalista 2013 V2 F 31 Fisioterapeuta 2014 V3 F 26 Estudante de Ciência Politica 2013 V4 F 39 Informática e Account 2012 V5 M 27 Músico e Tradutor 2013 V6 M 35 Informático e Professor de dança 2011 V7 M 23 Área de Gestão de empresas 2013 V8 F 47 Técnica Administrativa 2011 V9 F 24 Estudante de mestrado 2014 V10 F 29 Organização de eventos e hotelaria 2012 V11 F 35 Agente imobiliária 2013 V12 F 49 Socióloga 2014 V13 F 45 Assistente técnica ... V14 F 39 Informática 2011 V15 F 39 Redatora publicitária 2014

3.2.4. Contexto dos Jantares Comunitários

Impulsionado pelo Ano Europeu do Voluntariado 2011, os Jantares Comunitários nasceram, nesse mesmo ano, da necessidade de se criar um lugar seguro e descontraído onde pessoas em situação de sem-abrigo ou socialmente fragilizadas, pudessem criar vínculos afetivos e sociais com os voluntários das várias organizações que os apoiavam regularmente, ou com aqueles que quisessem aderir a uma experiência singular de voluntariado de proximidade. O encontro e interação entre estes, dá-se à mesa e em torno de uma refeição servida por voluntários oriundos de diversas organizações e empresas. Os Jantares Comunitários assentam na crença de que o processo de inclusão social da população fragilizada, sem-abrigo e excluída, pode acontecer através do fortalecimento da rede de suporte emocional e social, de amizades e relacionamentos saudáveis. Procuram tratar todos os participantes pelo nome, como iguais, de forma digna e acolhedora, considerando que as pessoas em condição de sem-abrigo e socialmente excluídas, são frequentemente tratadas como se fossem invisíveis, o que acaba por levá-los a assumirem esse papel. Em termos de organização e logística, estes jantares formam um sistema complexo, envolvendo várias equipas de voluntários com objetivos e tarefas bem definidas: a equipa de coordenação, a equipa que cozinha, a equipa que serve às mesas, a que janta e conversa, a equipa de acolhimento que faz a receção e distribuição das senhas aos Convidados, a equipa do bengaleiro que guarda os pertences dos voluntários e a equipa de intervenção para o encaminhamento, resolução e mediação de situações imprevistas que possam surgir. Requer também um conjunto de parceiros formais como empresas e outras organizações e comunidades de fé, de forma a viabilizar a sua concretização, financiamento e sustentabilidade. Realizavam-se quinzenalmente no refeitório de Alcântara da Câmara Municipal de Lisboa e, à data do estudo, serviam 300 refeições por Jantar, contando com a presença de 170 indivíduos da população em situação de fragilidade e exclusão social e cerca de 130 voluntários. Em 2016, por indisponibilidade do antigo refeitório, passaram a realizar-se quinzenalmente e às quartas-feiras, no refeitório do Instituto Superior Técnico de Lisboa.