A Vila de São Paulo foi o primeiro núcleo colonizador português fundado a certa distância da área litorânea. A vila foi fundada em 1554, por padres jesuítas que, a partir de São Vicente, subiram uma escarpa densamente recoberta pela Mata Atlântica – a Serra do Mar – guiados pelos índios tupi-guaranis. No planalto, fundaram um colégio “de onde se vislumbrava o vasto panorama da várzea do rio Tamanduatehy, afluente do Rio Tietê, cujas cabeceiras se situam no Caminho do Mar” (ROLNIK, 2003, p. 14).
Após a fundação de São Paulo, os senhores da Câmara iniciaram a distribuição das terras visando a ocupação do território.
Segundo as clausulas ordenativas, lembrando que o centro administrativo era a região do Pátio do Colégio, a ocupação da vila deveria ser a partir deste centro, estabelecer uma área de seis quilômetros de raio para o centro administrativo e demais instituições. O próximo círculo seria composto pelo rocio e casario dos habitantes num raio de seis léguas e, por fim, o círculo externo seria conhecido como „termo desta Villa‟ ou „do Conselho‟, os arrabaldes da vila (PMSP, 2011a, p. 10.1-7).
Dessa área, expandiu-se a cidade de São Paulo devido ao aumento populacional e a busca por novas terras, tendo dois fatores importantes: a criação de igrejas e as formações das chamadas freguesias ao redor destas, que dariam origem aos futuros bairros.
Devido ao pouco interesse que despertava na Corte Portuguesa, a vila viu o poder político ser exercido pelos grandes proprietários de terra, recriando um ambiente feudal em que as elites repartiam as terras e as riquezas entre si, possibilitando pouco crescimento econômico na região.
Os homens da vila partiam para as Bandeiras, deixando o cuidado da terra e dos filhos a cargo das mulheres, que tinham a vida norteada pela busca do sustento diário e pela obediência religiosa.
O povoamento do território pelos portugueses só se consolidou, efetivamente, durante o século XVIII. Por sua localização geográfica, tornou-se ponto de
convergência entre três importantes caminhos abertos rumos ao litoral e ao interior: o primeiro, seguia pelo Vale do Paraíba e serviu de rota das expedições para Minas Gerais e para o norte e nordeste brasileiro. Um segundo caminho, passando por Campinas e Mogi Mirim, se dirigia a Minas Gerais e Goiás. E, o terceiro, buscava a região sul, atravessando Sorocaba e Itapetininga.
As expedições rumo ao interior demandaram o surgimento de entrepostos e locais de pouso que, mais tarde, tornaram-se vilas que deram origens a cidades no estado de São Paulo e em outros locais. São Paulo tornou-se um entreposto comercial entre o litoral e o interior da colônia, sustentado por pequenas lavouras, pelo comércio de escravos indígenas e de produtos básicos de sobrevivência.
O ouro encontrado nas terras paulistas e o solo fértil da região, que favorecia o desenvolvimento de lavouras diversificadas, eram responsáveis pela sobrevivência de grande parte da população. A partir do século XVIII ganha destaque a produção da cana-de-açúcar e São Paulo torna-se um dos maiores produtores e exportadores do produto para a Europa, promovendo o desenvolvimento de povoados e o aumento do sistema viário.
Apesar desses fatores, por mais de três séculos de sua fundação, a cidade de São Paulo correspondeu ao território situado entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, não tendo grande importância para a economia do país, centrada no Nordeste e no eixo Rio de Janeiro-Minas Gerais.
A partir de meados do século XIX, a posição econômica da cidade sofre mudanças com a expansão do cultivo do café gerando transformações urbanísticas, étnicas e política. A cidade conquista um papel estratégico na economia do país, principalmente pela importância das conexões com o Porto de Santos e com o vasto interior paulista.
A instalação da Faculdade de Direito no Largo São Francisco, em 1827, teve um papel fundamental nesse processo, pois a instituição atraiu estudantes, muitos vindos de outros estados ou do interior do país.
(Os estudantes) traziam consigo outras experiências, visões e um ímpeto juvenil que fazia falta à cidade. Mais do que isso, promoveram também um pequeno surto populacional, reordenando o fluxo demográfico do centro, aquecendo a economia com a introdução de novos e mais itens de consumo (PMSP, 2011a, p. 10.1-9).
A atividade açucareira lançou as bases de uma estrutura agrária que viria a sustentar por um longo período a produção de café. O auge da produção de açúcar ocorreu por volta de 1850 e, a partir daí, a produção e exportação do café avançariam tornando-se a principal atividade econômica da região.
A expansão da produção do café para o interior do estado e a necessidade de melhorar o trajeto até o Porto de Santos exigiram a construção de ferrovias que possibilitassem agilidade na comercialização do café.
A primeira rede ferroviária instalada em São Paulo, em 1867, viabilizou a integração territorial do planalto (Jundiaí) à Baixada Santista (Santos); e, em 1875, a Sorocabana ligava a cidade de São Paulo à de Sorocaba.
Esse é um momento de intensos fluxos migratórios e a instalação de indústrias têxteis e alimentícias, que ocupavam a várzea por onde passavam as ferrovias, constituindo as grandes regiões operárias de São Paulo20, formadas por imigrantes que moravam em casas coletivas e pensões.
O primeiro grande grupo estrangeiro a chegar, em fins do século XIX, foi o italiano. Entre 1888 e 1900 passaram por São Paulo quase mil imigrantes, dos quais 70% eram provenientes da Itália.21
A região dos Campos Elíseos foi escolhida pelos fazendeiros que ocuparam a região e viriam a formar o primeiro bairro planejado da cidade. Ruas espaçosas, alamedas arborizadas, mansões em estilo europeu marcaram o surgimento do bairro dos Campos Elíseos e, mais tarde, de Higienópolis. Em seguida, a Avenida Paulista, é inaugurada em 1891.
Nesse episódio se esboça o fundamento de uma geografia social da cidade, da qual até hoje não se conseguiu escapar. O setor sudoeste, que foi desenhado a partir do percurso Campos Elíseos/Higienópolis/ Paulista e depois se completaria com os loteamentos da Companhia City nos Jardins, configura uma centralidade da elite da cidade (ROLNIK, 2003, p. 19). Também os fazendeiros de café, donos de enormes fortunas, vinham a São Paulo efetuar negócios. Para isso, adquiriam terra e construíam suas residências em locais próximos às estações, como no bairro da Luz. Armazéns e hotéis também surgiram em locais estratégicos para o desenvolvimento da economia local.
20Constituíram-se ferrovias como a Sorocabana, a Paulista, a Ituana e a Central do Brasil, formando-
se às suas margens os bairros da Lapa, Bom Retiro, Brás, Pari, Belém, Mooca, Ipiranga.
Nesse período, são implantados os serviços de água encanada, o transporte por bondes elétricos, a iluminação pública e a pavimentação das ruas que aconteceu de forma distinta nos espaços da cidade.
No final do século XIX, a cidade tinha três áreas para expansão:
a) A Zona Leste, plana, e cuja ocupação exigia a transposição do obstáculo representado pela barreira Tamanduateí-ferrovia-várzea inundável.
b) A Zona Oeste, que exigia a transposição do Vale do Anhangabaú. c) A cumeeira divisora de águas entre os dois rios (onde aliás já estava a
cidade) na direção do Bixiga e da Liberdade que não exigia a transposição de nenhum obstáculo. Tratava-se, entretanto, de um sítio estreito, vincado de vales (VILLAÇA, 2001, p. 116).
A cidade se expandiu em todas essas direções, porém de forma diferenciada. Na direção da zona oeste, surgiram os loteamentos das camadas de mais alta renda, e a zona leste, “desprezada por essas camadas e deixadas às classes populares” (VILLAÇA, 2001, p. 116).
O desenvolvimento industrial da cidade se afirmava na zona leste, em especial nos bairros do Brás e da Mooca, com algumas industrias às margens das ferrovias, nos bairros da Barra Funda e Bom Retiro.
As elites ocuparam os bairros na direção oeste e, mais tarde, à sudoeste, através da Vila Buarque e Higienópolis, chegando à Avenida Paulista.
Em 1924, inicia-se a implantação urbanística proposta por Prestes Maia, que visava expandir a cidade, privilegiando o ônibus, em detrimento dos bondes e trens, para tornar acessíveis ao centro todos os bairros da periferia. São implantadas, a partir dos anos 1940, as avenidas Nove de Julho, 23 de Maio e Radial Leste; e canalizados rios e córregos em que se implantam avenidas como a Nove de Julho, sobre o córrego canalizado do Saracura, e a Avenida do Estado, sobre o Rio Tamanduateí.
A expansão horizontal ilimitada, concepção coerente com o próprio modelo radioconcêntrico de sistema viário proposto pelo plano, foi o elemento que ajudou a configurar a metrópole que temos hoje. A possibilidade de autoconstrução e a expansão ilimitada dos loteamentos era a resposta, do ponto de vista da economia imobiliária, à crise, na medida em que permitia aos trabalhadores de baixa renda comprar um lote a prestações, num loteamento distante,e ir construindo pouco a pouco sua moradia (...) (ROLNIK, 2003, p. 34).
A partir dos anos 1940, inicia-se a verticalização da zona central e a consolidação do setor centro/sudoeste como polos concentradores dos bairros para
a população de alta renda. A expansão industrial, sobretudo das indústrias metalúrgicas, metal-mecânica e elétrica, ocorre ao longo das rodovias, gerando uma nova expansão no ABC, ao longo da Via Anchieta, e em Guarulhos, ao longo da Via Dutra.
A cidade de São Paulo que, naquele momento já é o centro industrial mais importante do país, passa a ser também o mais importante centro financeiro e a maior cidade brasileira, suplantando o Rio de Janeiro. Em 1950, a cidade de São Paulo tem mais de 2 milhões de habitantes, e cresce mais de 5% ao ano durante das décadas de 50, 60 e 70, atingindo 6 milhões de habitantes em 1970 (ROLNIK, 2003, p. 34).
Com esse crescimento expressivo, nas décadas de 1980 e 1990, a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (COHAB/SP), institui uma política habitacional voltada à construção de conjuntos habitacionais exclusivamente residenciais, na extremidade das periferias, segregando de forma explícita a população residente. Na Zona Leste são criados os conjuntos Itaquera 1, 2, 3 e 4, com 35 mil moradias, e Cidade Tiradentes, com 30 mil moradias.
A instalação desses conjuntos, além dos aspectos negativos na circulação dos moradores e na drenagem do solo, criou um modelo de exclusão territorial. Segundo Rolnik (2003, p. 58), os altos índices de violência da década de 1990 possuem relação direta com a constituição desses guetos para a população de baixa renda, excluída dos serviços públicos de qualidade e das oportunidades de emprego.
A autora refere-se à cidade como um “mosaico”, em que os padrões de territorialização são marcados pela dualidade da exclusão e da inclusão, revelando uma fragmentação dos espaços com diferenças marcantes no acesso à qualidade e à quantidade de empregos, serviços e equipamentos.
Também as mudanças no capitalismo contemporâneo, a partir da década de 1970, com o neoliberalismo e a globalização e o fortalecimento de capitalismo financeiro inseriram a cidade em uma ampla discussão do seu caráter “global”.