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Se na educação houve uma incorporação do projeto por parte do STRI, quando os trabalhadores rurais da região do Fundão e do Laranjal II criaram a Sociedade do Adubo, em 1986, repetiu-se a mesma estratégia por parte desse órgão sindical. Trata-se de experiência cujo nascedouro contou com esses atores sociais e que foi sendo assumida pelo Sindicato como um projeto desenvolvido pela própria entidade de representação.

A idéia de trabalho e compra comunitária sempre esteve presente nos debates produzidos pela Igreja e STRI. Porém, a pesquisa que empreendi me mostrou que tais instituições não conseguiam concretizar algumas dessas propostas, de modo que coube aos trabalhadores rurais colocá-las em prática.

Nos debates, nas conversas e nos diálogos cotidianos eram recorrentes questões relacionadas à idéia de comprar os insumos para suas lavouras, quer seja nos espaços sindicais, nos religiosos ou de convívio social. Os trabalhadores da Fazenda Fundão e Laranjal II, diante da possibilidade de conseguir preços mais acessíveis para o fertilizante a ser utilizado na safra do ano, propõem a criação de compra conjunta de adubo, o que, posteriormente, concretizou-se na conhecida Sociedade do Adubo.

Essa Sociedade nasceu em um conversa travada entre Adão Queiroz, Bertolino João de Sousa, Olício Garcia Peixoto, Dorval Bento, sobre a possibilidade de comprar conjuntamente o adubo e pagar um preço abaixo do mercado. Dada a grande quantidade, podia-se negociar diretamente com a fábrica. De posse do volume levantado, considerada a demanda de cada associado, Adão Queiroz e Peixoto partiram para a tomada

de preços, o que foi feito em vários locais, como Goiânia e Uberlândia, quando constataram uma economia de 20% se o produto não fosse adquirido no comércio local.

Assim, procuraram a direção do STRI e reivindicaram o apoio e a estrutura logística sindical, passando a fazer os contatos telefônicos a partir desse local.

Estava, desse modo, criada a Sociedade do Adubo. Segundo Relatório da CPT (1986), essa associação contou com a participação de

companheiros em dois lugares da roça e depois na sede do Sindicato para comprar adubos juntos. Calculamos uns mil sacos de adubo e pusemos os vendedores em concorrência. Quem vendesse no preço menor nós iríamos comprar garantindo uns mil sacos. Foi um sucesso, pois dos mil sacos previstos já chegou a 7 mil sacos comprados. Até pequenos fazendeiros compraram através da sociedade do adubo.

Todo o sucesso da empreitada foi possível graças ao desenrolar do projeto de modo prático, sem burocracia, atraindo outros companheiros que viam no ato coletivo um passo importante para diminuir os custos de sua produção. Como vimos, de mil sacos de adubos que planejavam inicialmente comprar, conseguiram fazer uma carga de mais de sete mil.

Com a listagem dos compradores e com o dinheiro em mãos, os organizadores tiveram o poder de negociação aumentado. Saiu ganhadora uma empresa do estado de Minas, como registrou o Relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT, 1986).

[Os trabalhadores rurais decidiram que] quem vendesse no preço menor nós iríamos comprar garantindo uns mil sacos. Ganhou a firma “Orquimi” de Uberaba que vendeu a 3.500,00 o saco do 8-30-16, quando na praça o preço era 4.600,00. Não precisou de emprego de nenhum capital, pois o preço nós combinamos juntos e depois cada um fez individualmente o seu contrato de compra, da quantidade que queria, e fez seu pagamento.

A Sociedade do Adubo foi importante por ter mostrado a possibilidade de um trabalho organizativo em Itapuranga e, sobretudo, por ter despertado em outros trabalhadores rurais de outras regiões do município a possibilidade de compra conjunta dos insumos e outros produtos consumidos. Com a divulgação dessa experiência, através dos

trabalhos da Igreja, da Comissão Pastoral da Terra e de outros Sindicatos, em outros espaços, indubitavelmente, a sociedade saía de seus limites locais, passando a se tornar um instrumento que fora apropriado por muitos outros trabalhadores.

No que concerne ao STRI de Itapuranga, tal intento serviu como um instrumento para despertar, nos dirigentes sindicais, a possibilidade de outras atividades que iam além do espaço da militância e formação sindical. Por exemplo, a aproximação com outros trabalhadores rurais que não estavam ligados diretamente ao STRI, como um meio de levá-los para o seio dessa entidade.

A partir desse momento, muitos passaram a ajudar na organização e a apoiar essa estrutura sindical. Assim, em 1987, vendo uma possibilidade de mostrar serviço junto aos seus associados, o sindicato criou a Associação dos Pequenos Agricultores de Itapuranga, na qual o adubo era uma mercadoria essencial.

No que concerne ao adubo, o sindicato, anos depois, conseguiu uma representação de insumos que instalou dentro dessa entidade. A representação foi do adubo Ouro Verde, que deteve o monopólio de revenda no município e cidades circunvizinhas. Com este trabalho, viabilizaram-se preços mais competitivos, atraindo não somente os associados, mas também agricultores e fazendeiros que sempre foram contrários ao trabalho sindical.

Na medida em que os trabalhos do STRI foram se desenvolvendo, as divergências de ações e de posicionamentos apareceram, sobretudo quando alguns membros da direção sindical descobriram que a Sociedade do Adubo havia se tornado uma empresa intermediária nas negociações de insumos. E o que era pior, a representação não pertencia ao STRI e sim a um dos sócios, João Benfica, o que provocou uma dissensão entre essas lideranças. Com a perda de espaço no STRI, João Benfica perdeu as eleições e afastou-se dos trabalhos sindicais, permanecendo consigo a representação do adubo.

Essa Sociedade do Adubo, que, como vimos, nasceu em meio a um grupo de trabalhadores rurais, ao ser incorporada e institucionalizada, perdeu o seu cunho associativista, tornando-se um projeto apenas de alguns. De líder sindical, com muitos trabalhos prestados ao movimento, João Benfica tornou-se comerciante de insumos agrícolas na região. Muitos dos trabalhadores rurais que antes compravam do Sindicato passaram a ser seus clientes.

Essa atitude de Benfica, ainda hoje, constitui objeto de discussões em muitas rodas de amigos e assembléias do Sindicato. Mesmo porque, para alguns deles,

como João Justino, o líder sindical aproveitou-se da confiança dos filiados ao sindicato, “levando a revenda do adubo”.

A Sociedade do Adubo, nascida de um desejo e de uma esperança de melhorar a condição de vida de um grupo de trabalhadores rurais da região do Laranjal II e Fundão, viu sua proposta sendo utilizada pelo STRI. Além disso, aquilo que tentavam combater agora estava sendo feito, segundo alguns trabalhadores, como Peixoto, por um companheiro que teve e continua tendo uma história importante na trajetória do movimento social em Itapuranga.

Mesmo diante de problemas como o ocorrido na Sociedade do Adubo outras experiências foram desenvolvidas, a despeito, também, das divergências de posicionamento que ainda prevaleciam. Tanto que, ao longo da década de 1990, além da Cooperativa Mista dos Produtores de Itapuranga, mais quinze outras associações de produtores foram fundadas, todas elas fruto do trabalho da Sociedade do Adubo, mais tarde reunidas na Associação dos Agricultores de Itapuranga (ASPA).

4.5 ASSOCIAÇÃO DAS COMUNIDADES DE BAIXA RENDA DE ITAPURANGA

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