4. Proposta educativa
4.2 Desenvolupament i anàlisi de la proposta
4.2.3 Bloc 3: Geometria
Antes de entrar diretamente nessa questão, convém relembrar que, classicamente, o conceito de formação corresponde à busca de uma imagem ou forma interior ideal ou arquetípica, enquanto a educação corresponde a todo um conjunto de preceitos, normas e conhecimentos “profissionais”, mais destinados à inserção social e profissional. Portanto, a educação diz respeito mais à dimensão exterior e social do homem, enquanto a formação está mais relacionada com a dimensão interior e espiritual.69
Essa “imagem ou forma interior ideal” buscada pela formação foi definida de maneira muito semelhante pelas culturas que convencionei chamar de tradicionais. No entanto, na história da educação do Ocidente, foi definida de muitas maneiras diferentes, conforme a resposta que as elites intelectuais de cada época deram às perguntas “O que é o ser humano?” e “O que é o mundo?”, que, como vimos, variou muito nos últimos sete séculos.
Numa abordagem transdisciplinar, as diferentes respostas à primeira pergunta, respostas vindas da biologia, sociologia, psicologia, antropologia, teologia, das tradições de sabedoria, etc., não se excluem, mas, devido à lógica do terceiro incluído, elas se complementam, uma vez que a transdisciplinaridade não considera a realidade como unidimensional nem unirreferencial, mas multidimensional e multirreferencial (Carta da Transdisciplinaridade, artigos 2 e 6).
O mesmo vale para a segunda pergunta (“O que é o mundo?”). As respostas vindas da física, da astrofísica, da cosmologia contemporânea, da cosmologia tradicional, dos mitos, etc., não se excluem, mas se complementam. Com isso, cada disciplina ou cada área do conhecimento fornece elementos que enriquecem um ou vários dos níveis de realidade do objeto estudado, seja no campo do objeto (no caso, o mundo), seja no campo do sujeito.
Numa análise mais contemporânea do termo, formar implica “numa ação profunda sobre a pessoa” e numa transformação de todo o ser, remetendo “aos saberes, ao saber fazer e ao saber ser” (Goguelin, citado por Couceiro, p. 14). “(...) vem da palavra latina formare que, no sentido forte, significa dar o ser e a forma, e, no sentido fraco, organizar, estabelecer” (Fabre, citado por Couceiro, p. 35), de modo que, nesse sentido forte do conceito, a formação é “uma intervenção muito completa, muito profunda e muito global, na qual o ser e a forma são indissociáveis” (Pineau, 1994, p. 438)
Essa definição contemporânea permite-nos uma análise mais neutra em relação aos diferentes quadros epistemológicos e antropológicos em que se insere cada olhar, cada pedagogia, cada cultura, cada disciplina. Podemos partir dela para incluirmos as outras, mais fracas (que se confundem com conceitos vizinhos como “ensinar”, “educar”, etc.), e a definição ainda mais forte da corrente platônica e das culturas tradicionais (da qual os conceitos de paidéia e de Bildung se aproximam).
Esse sentido forte do conceito de formação nos remete também, como vimos no item 2.4, à teoria tripolar da formação formulada por Gaston Pineau: a formação na relação consigo mesmo (autoformação), a formação na relação com os outros (heteroformação) e a formação na relação com o meio ambiente (ecoformação).
No entanto, se a formação consiste na “lapidação interior do homem tendo em vista sua forma (eidos) ideal”, seria necessário refletir sobre a pertinência e os limites da heteroformação ⎯ ou da formação numa relação de escuta do ensino do outro ⎯ e da autoformação ⎯ ou da formação numa escuta de si mesmo (“conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”). Pois até que ponto um outro pode acompanhar, auxiliar o sujeito, no processo de descoberta da sua forma ideal, e quando é o próprio sujeito que deve tomar em mãos esse processo formativo?
Outras perguntas se abririam a partir dela: Há uma forma ideal a ser buscada? Há uma ou várias definições dessa forma ideal? Quais são essas diversas definições? A formação do sujeito é fruto da
influência do meio (empirismo) ou o conhecimento lhe é inato (inatismo) ou é fruto da interação entre o sujeito e o ambiente (construtivismo)? Como se desenvolve o processo ensino/aprendizagem?
Voltarei a essas questões adiante, no item em que proporei um diálogo entre a pedagogia e a transdisciplinaridade.
Se pensarmos na formação enquanto Bildung e nesta em seu sentido original de busca da imagem (Bild) celeste, de acordo com a qual cada ser humano foi criado ⎯ não só no dizer das Escrituras judáico-cristãs, mas conforme todas as tradições de sabedoria (hinduísta, budista, tupi-guarani, etc.), inclusive o platonismo e o neoplatonismo ⎯, podemos imaginar, no topo do pólo da autoformação, uma etapa de ontoformação, quando, depois de um trajeto longo de formação percorrido entre os pólos da auto, da hetero e da auto, depois de um longo solilóquio consigo mesmo, o formando/herói tem acesso à sua imagem eterna (Corbin, 1995) e a sua formação passa a ser pilotada também pelo seu arquétipo, pelo ser (onto) do seu ser (Plotino, 2002, p. 29). Com isso, poderíamos dizer, contraditória e complementarmente a Hegel, que também é possível ver a formação como a passagem do geral ao particular, pois na formação enquanto Bildung o formando busca a imagem única do seu ser, a sua Forma arquetípica (Plotino, 2002, p. 23), a sua natureza celeste (Corbin, 1995), diferente da de todos os outros seres, e ele passa, então, do geral ao particular, à sua Forma singular e única.
O que ainda importa ressaltar aqui é que, se nas primeiras etapas da vida podemos ver um processo diacrônico entre esses três ou quatro pólos da formação, pois esta seria predominantemente bi-polar, constituída da heteroformação (com os outros) e da ecoformação (com o meio ambiente) ⎯ a ontoformação caberia, nesse momento, aos pais, que, com o seu olhar e a sua atitude, deveriam remeter, por espelhamento, a criança ao Ser do seu ser ⎯, a partir de um certo momento da constituição da sua identidade, o indivíduo tenderia a se abrir, sem exclusão dos dois outros pólos, à autoformação e à ontoformação.
No entanto, esse processo pode ser interrompido se, em lugar da Bildung, o jovem passar por uma
Halbbilgund (uma formação medíocre, conforme a teoria de Adorno).
Com lembra Freitag, apoiando-se em Kant, o mau educador produz outros maus educadores, gerando assim um círculo vicioso. Pois “como alguém que não acredita na razão, na justiça, na solidariedade, na honestidade pode transmitir esses valores às próximas gerações?” (2001, p. 26).
“A limitação da reflexão educativa à ação das gerações adultas sobre as gerações jovens, as concepções fixistas e mesmo involutivas da vida, tornaram-nos em grande parte ‘analfabetos’ em relação a metade desta vida e incapazes de compreender, e de dominar, o seu decurso cheio de contradições.” (Pineau, 1988) Vimos que os conceitos vizinhos informação, instrução, ensino, educação e formação correspondem a níveis diferentes da ação pedagógica, correspondentes a diferentes níveis do sujeito: a formação que daria ênfase à informação, a formação que daria ênfase ao saber, a formação que daria ênfase à ciência, a formação que daria ênfase à sabedoria, que gerariam pólos de auto, hetero e ecoformação menos presentes e menos amplos nos primeiros casos (na formação para a informação ou para o saber) e muito presentes e muito amplos no último (na formação para a sabedoria). Vimos também que pedagogias que se apóiam em epistemologias e antropologias mais reducionistas sobrepõe vários desses conceitos, tornam-nos equivalentes, uma vez que desconsideram ou empobrecem os diferentes níveis do sujeito.
Além disso, se “a disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são as quatro flechas de um único e mesmo arco: o do conhecimento” (Nicolescu, 2001, p. 53) e, como diz Maria do Loreto Couceiro, o aprender a conhecer está mais ligado à disciplinaridade, o aprender a fazer está mais ligado à multi ou pluridisciplinaridade e o aprender a ser, à transdisciplinaridade, então esses arcos também correspondem a diferentes níveis da formação, que poderíamos chamar, provisória e preliminarmente de nível mental, prático e humano, todos eles importantes no processo formativo do ser humano global.
Tudo isso nos remete também às diferentes teorias do conhecimento (holismo, racionalismo, positivismo, empirismo, etc.), cada uma embasando predominantemente um desses níveis de formação.
Portanto, uma visão limitada da educação é responsável pela interrupção do processo de formação, com exclusão do pólo da autoformação e da ecoformação, para não dizer do pólo da ontoformação, e forma educandos “analfabetos” no que diz respeito a esses três pólos mais internos da formação, enquanto uma visão transdisciplinar, ao contrário, busca favorecê-los e inclui-los, o que nos remete, de novo, ao preceito que estava escrito no pórtico de Delfos na Grécia antiga: “Conhece-te a ti mesmo [autos] e conhecerás o universo [eco] e os deuses [hetero/onto]”.
Se retornamos então ao conceito de transdisciplinaridade, podemos dizer, a partir do que vimos no Capítulo 3, que ela pode ser definida como:
(1) o que está entre, através e além das disciplinas;
(2) que deve ser buscado num diálogo entre as disciplinas e entre os diferentes campos do conhecimento: as ciências exatas, as ciências humanas, a filosofia, a arte e as tradições sapienciais; (3) que, para ser possível entre atores ou sujeitos diferentes, deve ser empreendido utilizando a metodologia transdisciplinar: os diferentes níveis de realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade da realidade.
Portanto, se tentarmos responder à primeira pergunta formulada neste item: “O que é uma formação transdisciplinar?”, poderíamos afirmar (responder): é uma formação que inclui:
(1) os diferentes olhares das disciplinas, dos diferentes campos do conhecimento, e das diferentes antropologias e cosmologias a respeito da estrutura, natureza e finalidade da vida humana;
(2) as diferentes definições do conceito de formação, dos mais “fracos” aos mais “fortes”, e os três pólos (auto, hetero e eco) do processo formativo.
Se tentarmos responder à segunda pergunta: “Como realizar uma formação transdisciplinar?”, poderíamos afirmar:
Para tornar possível esse diálogo entre tantos olhares diferentes das disciplinas, dos diferentes campos do conhecimento, das diferentes antropologias, cosmologias e epistemologias, uma formação transdisciplinar utilizará os três pilares da metodologia transdisciplinar e os três princípios da atitude transdisciplinar (Carta da Transdisciplinaridade, Artigo 14): rigor, abertura e tolerância. E, dependendo do nível de formação em que o educador estiver atuando,70 não explicitará os três pilares, os explicitará pouco ou os explicitará muito.
No caso de uma formação transdisciplinar de formadores, será necessária a explicitação e o aprofundamento dos três pilares da metodologia transdisciplinar, pois eles é que fundamentarão a sua reflexão pedagógica, o diálogo do formador com seus pares e sua prática nos ambientes formais ou não-formais de ensino.
Nesse sentido, é possível afirmar também que uma formação de formadores só será transdisciplinar se levar em conta esses três ou quatro pólos do processo de formação, e se o fizer levando em conta um diálogo inter e transcultural uma vez que esse diálogo é um dos fundamentos da atitude transdisciplinar (Carta da Transdisciplinaridade, artigos 5, 9, 10, 11 e 13).
Candau, em sua obra Rumo a uma nova didática, diz que atualmente há, basicamente, quatro perspectivas nas quais a formação de educadores se baseia no Brasil:
“a) centrada na norma (na legislação), que pretende adequar a realidade às leis; b) centrada na dimensão técnica, que está dirigida primordialmente para a organização e operacionalização dos componentes do processo de ensino aprendizagem: objetivos, seleção de conteúdos, estratégias de ensino, avaliação, etc., c) centrada na dimensão humana, que enfatiza a relação interpessoal presente em todo o processo formativo (que condições devem ser levadas em conta para que a relação intersubjetiva seja facilitadora do processo de aprendizagem); d) centrada no contexto, com seu foco no contexto político social (o educador está a serviço da manutenção do status quo ou da transformação social) e, portanto, na conscientização dos educadores. Portanto, parece que o cerne da discussão deveria se situar no modo como conceber, no processo educacional, a articulação entre essas diversas perspectivas, uma vez que, de fato, a educação apresenta uma dimensão humana, uma dimensão técnica e uma dimensão político-social, que, assim, deve ser vista como um processo multidimensional” (1994, pp. 43-48). E se olharmos mais detidamente para cada uma das perspectivas apresentadas por Candau, veremos que a realidade multidimensional da questão da formação de educadores é mais complexa ainda. Na perspectiva a), centrada nas leis, emergirão todas as nuances que estas permitem (no Brasil, a nova Lei de Diretrizes e Bases amplia muito as possibilidades da educação formal). Na perspectiva b), centrada na dimensão técnica, há, entre tantas outras, a questão recente da informática e da educação a distância. Na perspectiva c), centrada na dimensão humana, há a questão dos diferentes níveis que constituem o ser humano, o que remete à própria Bildung e à questão filosófica e antropológica “O que é o homem?”. Na perspectiva d), centrada na dimensão político-social, há a questão de todo o campo cultural, de toda a diversidade cultural que deve ser valorizada e respeitada por uma abordagem transdisciplinar. Nas questões b) e c), também emergem o diálogo com e a reflexão sobre os conceitos vizinhos ao de formação e os diferentes pólos desta, conforme definidos por Gaston Pineau: autoformação, heteroformação e ecoformação.
Quanto à terceira pergunta: “Como ocorre a formação transdisciplinar?”, ela será abordada nos próximos capítulos, pois esta é a pergunta de base para a parte empírica desta pesquisa.
Portanto, antes de entrar nessa segunda parte da dissertação, proponho apresentar uma reflexão do que seria uma pedagogia transdisciplinar. Se, para refletirmos sobre a formação transdisciplinar, podemos nos apoiar nos três pólos da formação propostos por Pineau ⎯ auto, hetero e ecoformação (coroados, na definição mais forte do conceito de formação, por um cume da autoformação: a ontoformação) ⎯ , uma reflexão sobre a pedagogia transdisciplinar pode se utilizar do triângulo pedagógico de Houssaye: professor, aluno, saber.