5. ANALYSE
5.4 S PEILENDE PROSESSER
5.4.1 Blir større fordi de andre er store, men skiller seg likevel ut?
Para compreender o que são os territórios dentro do ciberespaço, toma-se como ponto de partida a participação de sujeitos em sua plataforma mais ampla, ou seja, a internet. As porções desse espaço que são apropriadas ou dominadas por
sujeitos variados constituem seus territórios e, nesse sentido, em alguns momentos apresentam similaridades com o que ocorre no espaço geográfico e, em outros momentos, configuram-se como territórios com características exclusivas.
Para iniciar uma visualização das possibilidades territoriais no ciberespaço, deve-se observar uma divisão simples em termos de alcance dos territórios em busca de uma primeira classificação. Tal divisão apresenta o universo básico de estruturação territorial no ciberespaço e corresponde à tríade: meio empresarial, governo e sociedade civil. A disposição desses três universos não apresenta necessariamente um escalonamento, mas, o meio empresarial necessita ser avaliado inicialmente por ser ele o que serve, na maioria dos casos, o acesso a porções específicas do ciberespaço aos demais segmentos que compõem os domínios e apropriações desse espaço.
No que tange ao meio empresarial os territórios que o conformam, podem ser dispostos da seguinte forma:
- Provedores de Hospedagem de Sites: são os territórios iniciais do ciberespaço, alguém vende uma quantidade específica de bytes que podem ser utilizados por algum usuário para ali alocar seu domínio de um site. Esses provedores disponibilizam a infraestrutura para que um site possa ser armazenado, ou para que mais um território seja criado dentro da internet. São os responsáveis primários pelo armazenamento físico dos dados que circulam pela internet.
- Motores de Busca: para além de serem territórios ocupando suas devidas proporções no ciberespaço, os motores de busca são os territórios de entrada para grande parte do conteúdo existente na internet. Eles são responsáveis por indexar os sites e seus conteúdos de modo a permitir que um usuário possa acessar algum site a partir de palavras-chave. Eles constituem territórios, uma vez que orientam e em alguns casos até determinam o que será acessado dentro do ciberespaço. O poder de controle e de condução das mobilidades no ciberespaço é altamente executado por pelas companhias de motores de busca, sendo que seu alvo principal é o de auferir lucros com a
experiência dos usuários em suas plataformas.
- Servidores de E-mails: esses territórios reúnem a capacidade de disponibilizar a usuários serviços de comunicação, tendo como grande diferencial de poder dentro do ciberespaço, o fato de contar com o armazenamento da troca de informações de milhões de usuários. Por mais que todos os termos e condições de uso dos serviços de e-mails sejam pactuados entre usuários e servidores, garantindo a privacidade, atualmente tal prerrogativa tem sido posta em xeque com as atuais repercussões do uso do programa PRISM pelo governo estadounidense83. O fato é que a
quantidade de dados e as possibilidade de cruzamento e relacionamento dos mesmos que o controle de um serviço de e-mail possibilita são infinitas, tornando-os territórios de controle de dados – baseados em troca de informações entre usuários – extremamente importantes no atual cenário do ciberespaço.
- Redes Sociais: os territórios constituídos pelas chamadas redes sociais ganham uma dimensão extremamente grande em termos de participação dos usuários no ciberespaço, esses territórios nada mais são que espaços em que uma determinada empresa estruturou uma forma de comunicação entre os usuários de modo a facilitar a troca de informações. A princípio pouca informação é produzida pelos mesmos, mas eles canalizam as informações produzidas em outros locais para uma única plataforma que pode ser acessada, comentada, compartilhada e disseminada por qualquer usuário. São territórios em que empresas disputam o domínio pelo maior número de acessos e de usuários possível com vistas, obviamente, na obtenção de algum tipo de benefício, mais especificamente um benefício financeiro via publicidade e propaganda e aluguel de porções territoriais.
- Portais de Comunicação: são sites que agregam diversos tipos de informação e serviços, modulando no ciberespaço os processos de comunicação de meios tradicionais como os jornais, revistas, televisões e
rádios. Eles correspondem a uma grande parcela de uso no ciberespaço, pois estão vinculados a esses outros meios, que orientam em certo sentido o acesso e o uso do ciberespaço. O domínio territorial desses portais ocorre através da reverberação que seus conteúdos possuem dentro da rede, promovendo assim, a ampliação do número de acessos aos mesmos e uma maior rentabilidade de seus serviços e, lógico, mais publicidade e propaganda.
- Jogos Eletrônicos: os jogos eletrônicos hoje constituem territórios em que são promovidas interações entre usuários seguindo uma lógica de contato em rede através da vivência de experiências de relações sociais moldadas segundo a estrutura e a narrativa impostas pelos desenvolvedores desses jogos. Cada jogo procura angariar maior porção dentro do ciberespaço valendo-se da venda substancial do mesmo ao maior número de usuários possível, além de outros produtos relacionados.
- Sites Comerciais: são responsáveis pela presença de empresas no ciberespaço, utilizando-se do comércio eletrônico como forma de vender seus produtos ou sua marca. Exercem domínio sobre uma porção do ciberespaço ao aplicar estratégias de marketing para ampliar seus negócios, garantindo presença plena nas redes sociais e nos portais de comunicação.
- Outros Sites: uma infinidade de outros tipos de sites que correspondem a outros territórios podem ser identificados, mas que não possuem tanta repercussão em termos do universo empresarial como os acima elencados. Dentre eles poderiam ser exemplificados os sites de bancos e de serviços privados de educação e saúde, que promovem mais serviços aos usuários do que vendas propriamente ditas e que, em grande medida, estão ocultos – não indexados na rede pública – por serem vinculados a atividades que necessitam de maior proteção à privacidade dos usuários.
No âmbito dos territórios possíveis estabelecidos por uma perspectiva governamental, diversos sítios são proporcionados com foco na operação de uma perspectiva de transparência e proximidade com os cidadãos. Os territórios dos
governos utilizam-se do aparato dos territórios privados para instaurar seus domínios no ciberespaço, mas também para dispor de serviços aos cidadãos em busca de uma maior eficácia e eficiência na gestão pública. Dentre os territórios estabelecidos pelos governos, os mesmos podem ser classificados através de dois grandes grupos:
- Sites Governamentais de Acesso Público : são territórios em que informações de domínio público são postas ao acesso de cidadãos, servindo de plataforma de divulgação de ações governamentais, bem como de serviços à sociedade que podem ser abertamente exercidos.
- Sistemas Governamentais de Acesso Restrito : esses sistemas, normalmente utilizados por meio da internet, não são utilizados por todos os cidadãos e tem seu acesso restringido ao amplo público. Sistemas de prestação de contas, sistemas militares, sistemas de informação estratégicas se enquadram nesse rol.
O último espectro de territórios empreendidos no ciberespaço diz respeito àqueles apropriados e dominados – pelo menos em termos de forma e conteúdo – pela sociedade civil. Tais territórios são dispostos, normalmente, utilizando-se algum dos territórios do meio empresarial e, como a característica de rede da sociedade contemporânea e da cibercultura que permeia os grupos e indivíduos da sociedade civil que experienciam o ciberespaço, em muitos casos os territórios civis do ciberespaço são formados pela utilização de vários territórios do meio empresarial.
Os territórios da sociedade civil dentro do ciberespaço podem ser visualizados seguindo uma distinção básica: territórios individuais e territórios coletivos. Como exemplo dos primeiros observa-se os sites pessoais, blogs, micro- blogs, sites de compartilhamento de imagens, avatares de jogos eletrônicos e páginas de redes sociais. Esses territórios formam o universo que compõe a fragmentação identitária pós-moderna, nos quais, a presença subjetiva de indivíduos é dispersada em diversos territórios já consolidados. Seria possível imaginar que tais “territórios” não o seriam configurados enquanto tal, uma vez que o domínio dos sites – os macro- territórios – em que esses sujeitos ali depositam suas identidades e subjetividades não pertencem a eles, entretanto, cada indivíduo possui uma porção desses territórios nos
quais lhe é facultado agir enquanto tendo o seu domínio. Eles são apropriados pelos usuários de modo a que a eles seja permitida a identificação enquanto a sua porção do ciberespaço, os seus territórios. Os territórios coletivos seguem a mesma lógica, entretanto, não são passíveis de uma atribuição a um único indivíduo e sim, a um grupo que, em tese, age segundo uma causa e estabelecem nos macro-territórios empresariais o seu domínio ideológico.
É certo que, para além de serem territórios fixos, os mesmos são flexíveis, adaptáveis aos condicionamentos subjetivos momentâneos de cada um de seus dominadores. Tais territórios se formam no uso dos mesmos, na participação ativa nos macro-territórios, mas sempre ciente de que é uma experiência condicionada pelas bolhas instauradas por esses macro-territórios: uma rede social como o Twitter só permite a utilização dos usuários em mensagens de 140 caracteres, em termos da possibilidade de disponibilização de informação. Os territórios empresariais estabelecem, por meio de sua estrutura, limites que podem ser desempenhados aos seus usuários, tornando os territórios individuais determinados pela forma como é possível se criar um outro território nessa estrutura. O grau de liberdade é pequeno, mas nada que impeça de serem criados territórios subjetivos nos macro-territórios. O que ocorre é uma ressignificação dos macro-territórios, transformando partes desses em territórios subjetivos, por meio de processos de territorialização que se dão no ciberespaço.
O interessante é que essa apropriação de porções dos macro-territórios não é fato identificável apenas aos territórios individuais ou coletivos da sociedade civil, ele é imperativo a todos os sujeitos do ciberespaço. Empresas variadas localizam-se em páginas de redes sociais, portais de notícias dão conectividade a redes sociais, governos utilizam-se das duas esferas seja por meio da presença virtual nas redes sociais ou pela publicidades nos portais. Tudo isso dispõe o quão arraigado está o fenômeno da multipresença dentro do ciberespaço, constituindo mesmo uma das dimensões da cibercultura. Dessa forma os territórios se conectam, formando um amplo espectro de territórios em rede, de certa forma, todos condicionados pelas mesmas estruturas territoriais.
Esse universo de territórios em rede contribui para práticas territoriais em que sujeitos buscam avidamente a aquisição de uma parcela do ciberespaço que possua suas marcas identitárias. A própria noção de identidade dentro do ciberespaço se confunde com a lógica mercadológica do marketing, e ao final, todos fazem um certo tipo de marketing pessoal, vendendo sua forma de ser, seus sentimentos, seus posicionamentos políticos, seu gosto pessoal, como uma forma de personificação ideal dentro do ciberespaço. Os territórios que a sociedade civil constrói no ciberespaço são assim, projetos ideais do que ela julga ser ou do que ela pretende ser, seguindo a lógica da propaganda em seu sentido mais estrito. É claro, que a perspectiva do anonimato, promove outros tipos de territorialização dentro do ciberespaço, como as vinculadas às participações – que tentam promover algum grau de domínio – dentro de sites de notícias.
Os comentários anônimos são um tipo de prática territorial no sentido de dar àquele espaço que não lhes pertence alguma marca identitária sua, de certo modo, assemelha-se à perspectiva dos pichadores no meio urbano: o objetivo é desafiar o senso comum, a legalidade, imprimindo naquelas paredes virtuais suas marcas pessoais que lhes dão algum status, principalmente entre seus pares, afinal, os comentários anônimos em páginas da internet normalmente estão associados a alguma perspectiva ideológica não assumida publicamente, mas que ganha peso ao ser identificada por outros que dela compartilham. Cabe ressaltar o peso que a estética ganha nesse cenário de territorialidades baseadas na identidade ideológica dentro da rede e que se assemelha ainda mais ao caso dos pichadores, o objetivo é em grande parte das vezes o de causar algum tipo de impacto a quem lê, não pelo fato de que a ideia ali posta é algo realmente impactante, mas que, dado o contexto em que ela surge, o meio pretensamente civilizado em que ela se insere e sua descontextualização muitas vezes agressiva, dá o contorno de uma estética da violência que só é apreciada àqueles que vivenciam essa experiência estética.
As práticas territoriais do ciberespaço, nesse ínterim do anonimato, também recaem sobre condições mais drásticas do que a pichação virtual em comentários anônimos de notícias, ela se dá na batalha ideológica empreendida contra certas
determinações da rede impostas pela aliança formada pelo meio empresarial e os governos. Os ataques cibernéticos são nesse sentido, cada vez mais corriqueiros e colocam-se como alternativas de militância e de protestos num cenário político e cultural em que o ato de militar e protestar foram praticamente colocados como atos incivilizados. Os ataques cibernéticos, como a derrubada de sites, a invasão de e- mails e banco de dados, a implantação de vírus eletrônicos em determinadas redes ou computadores pessoais são hoje ferramentas utilizadas em larga escala por grupos ou indivíduos que não aceitam certas determinações ideológicas impostas à sociedade, ou mesmo para aqueles que simplesmente querem cometer atos ilícitos como o sequestro de informações, de perfis ou de avatares, o roubo de dados e informações sigilosas, privadas ou confidenciais ou mesmo para a prática de crimes financeiros. De todo modo, tais práticas configuram-se como práticas territoriais de invasão de espaços, são conflitos de poder e de autoridade sobre porções do ciberespaço. É interessante notar que, mesmo sendo uma prática que ocorre em larga escala no ambiente da sociedade civil, tais práticas também resvalam na conduta de empresas e de governos, que se valem das mesmas prerrogativas de técnicas de anonimato na rede para realizar a invasão de territórios privados na rede.