Cross-cutting focus areas
4.1 Biotechnology and society
No quadro 2 estão apresentados resultados obtidos no que diz respeito à utilização das CP no treino e na competição.
Observando os scores totais obtidos e, de acordo com o estudo de Frey, Laguna e Ravizza (2003), podemos afirmar que os atletas do nosso estudo utilizavam moderadamente as CP no treino e na competição. No referido estudo, um resultado igual ou superior a 128 corresponde a um uso elevado de CP, um resultado entre 96 e 127 corresponde a um uso moderado das CP e um resultado igual ou inferior a 95 corresponde a um baixo uso das CP. Esta utilização moderada das CP, quer no treino, quer na competição, leva-nos a pensar que o TCP foi já uma preocupação na preparação dos atletas do nosso estudo.
Comparando o score total utilização das CP no treino e na competição, podemos verificar que os atletas utilizavam mais as CP em ambiente de treino do que em ambiente de competição e, embora esta diferença não seja estatisticamente significativa, o valor de prova encontra-se muito próximo daquele por nós considerado para as diferenças estatisticamente significativas. Este resultado vem contrariar os estudos de Frey et al., (2003) e Thomas et al., (1999) realizados com atletas ditos normais, nos quais estes recorreram mais à utilização das CP em ambiente competitivo do que no treino. No que diz respeito ao desporto adaptado, não encontramos nenhum estudo com o qual fosse possível realizar esta comparação. O facto dos atletas do nosso estudo utilizarem mais as CP em ambiente de treino do que em ambiente de competição remete-nos novamente para a ideia por nós apresentada anteriormente, de que a utilização das CP é cada vez mais uma preocupação dos treinadores e atletas, nomeadamente ao nível do treino. Os atletas deste estudo demonstraram estar conscientes de que as CP podem influenciar positivamente o seu treino, e consequentemente, beneficiar o rendimento em
Quadro 2 – Utilização das CP pela amostra total no treino e na competição.
TREINO COMPETIÇÃO T-TEST MEDIDAS
EMPARELHADAS
Média ± dp Média ± dp t Sig.
SCORE TOTAL 99,12±16,46 97,12±14,88 1,985 0,050 AUTOMATIZAÇÃO 3,03±0,61 2,64±0,79 4,903 0,000 CONTROLO EMOCIONAL 3,10±0,89 3,16±0,82 -0,925 0,357 FO 3,55±0,83 3,75±0,93 -2,760 0,007 IMAGÉTICA 2,95±0,83 3,21±0,83 -4,214 0,000 RELAXAMENTO 2,67±1,07 2,89±0,92 -1,773 0,079 SELF-TALK 3,58±0,78 3,58±0,83 0,073 0,942 ACTIVAÇÃO 3,26±0,82 3,48±0,76 -2,831 0,006 CONTROLO ATENCIONAL 3,28±0,72 --- --- --- PENSAMENTOS NEGATIVOS --- 2,19±0,82 --- ---
No quadro 2, no qual são também apresentados os valores relativos à utilização das diversas CP no treino e na competição, podemos constatar que a FO e o self-talk foram as CP mais utilizadas pelos atletas, sendo isto verdade para o treino e para a competição. Estes resultados estão em consonância com os resultados apresentados por Gould et al. (2002), Harwood, Jennifer e Fletcher (2004), Jackson et al. (2001) e Thomas et al. (1999), tendo estes estudos sido realizados com atletas ditos normais. Este acordo também se verificou com os estudos de Leite (2007) e de Penna, Sharon, Burden e Richards (2004), realizado com atletas portadores de deficiência, tendo o primeiro sido realizado com atletas praticantes de Boccia.
Como nos referem Locke e Latham (1985, cit. por Weinberg & Gould, 2003), a FO permite que o atleta dirija os seus esforços e a sua atenção para tarefas específicas, aumentando o seu esforço e a intensidade da sua acção, ao mesmo tempo que o torna mais persistente face ao insucesso e lhes permite desenvolver estratégias de aprendizagem e solucionar problemas. Estas razões possibilitam-nos a justificar o facto de a FO ter sido uma das CP mais utilizadas no treino e na competição.
Como podemos constatar, o self-talk constitui-se como uma importante ferramenta para os atletas do nosso estudo, uma vez que esta foi também uma das CP mais utilizadas pelos atletas no treino e na competição. Este resultado
está de acordo com as afirmações de Hardy et al. (2005), para quem o self-talk pode ser usado tanto no treino como na competição uma vez que, a sua grande flexibilidade e a sua fácil utilização, fazem com que seja uma das CP mais utilizadas pelos atletas, quer seja com funções motivacionais ou instrucionais.
No que diz respeito às CP menos utilizadas pelos atletas encontramos o relaxamento e a imagética nos ambientes de treino e os pensamentos negativos e a automatização em ambiente de competição. Os estudos de Gould et al. (2002), de Jackson et al. (2001) e de Thomas et al. (1999) identificaram também o relaxamento e a imagética como sendo as CP menos utilizadas em ambiente de treino e nos ambientes competitivos os autores identificaram os pensamentos negativos como sendo a CP menos utilizada.
Ao comparar a utilização das diferentes CP no treino e na competição (quadro 2), verificamos a existência de diferenças estatisticamente significativas ao nível da automatização, da FO, da imagética e da activação.
No que diz respeito à automatização, os atletas do nosso estudo utilizaram mais esta CP em contexto de treino do que em contexto competitivo. Este resultado foi também verificado por Leite (2007), estando no entanto em desacordo com o estudo de Gould et al. (2002). De acordo com Singer (2002), a execução das habilidades desportivas depende do processamento controlado e do processamento automático, pelo que é objectivo dos atletas realizar uma execução cada vez mais automática e sem erros. No entanto, segundo Viana e Cruz (1996), esta execução automática não diz apenas respeito ao gesto motor em si mas sim a toda a cadeia de processamento de informação. E é com base nesta afirmação que justificamos a existência de diferenças estatisticamente significativas entre a utilização da automatização no treino e na competição, uma vez que o carácter altamente táctico e estratégico do Boccia leva a que, em competição, a execução do lançamento não seja realizada de uma forma tão automática como em treino.
A utilização da FO em ambiente de competição foi também superior à utilização da FO em ambiente de treino, sendo esta diferença estatisticamente
(2007), Penna et al. (2004) e Thomas et al. (1999) revelaram também o mesmo resultado, apontando a FO como sendo mais utilizada em competição do que em treino. O facto de ser em competição que os atletas expressam o máximo do seu rendimento leva a que os atletas orientem uma grande parte dos objectivos formulados para a competição, justificando assim o resultado alcançado.
Ao nível da utilização da imagética pelos atletas do nosso estudo, esta foi maior no treino do que na competição, diferença esta que se apresenta como sendo estatisticamente significativa, resultado que foi encontrado também pelos estudos de Gould et al. (2002), de Harwood et al. (2004), Leite (2007), Penna et al. (2004) e Thomas et al. (1999). Estes resultados estão assim em concordância com Munroe et al. (2000), que afirma que os atletas utilizam mais a imagética associada à competição, como forma de aumentar a performance e o rendimento, do que em treino para facilitar a aprendizagem.
Relativamente à activação, os resultados do nosso estudo estão também de acordo com os estudos de Gould et al. (2002), de Leite (2007) e de Thomas et al. (1999), uma vez que estes também apontam para uma maior utilização da activação em competição do que no treino.
No que diz respeito ao controlo emocional, ao relaxamento e ao self-talk não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas na comparação da sua utilização em treino e em competição. No caso do relaxamento e do controlo emocional, os atletas do nosso estudo demonstraram utilizar mais estas CP em competição do que no treino, resultado que também foi alcançado por Gould et al. (2002), por Leite (2007), por Penna et al. (2004) e por Thomas et al. (1999). As afirmações de Hardy et al. (1996), para quem o ambiente competitivo é superior ao treino na sua capacidade de gerar elevados índices de stress e variadas emoções, parecem- nos ser justificações para estes resultados.
O valor médio para a utilização do self-talk foi idêntico para o treino e para a competição. Os estudos de Gould et al. (2002), de Harwood et al. (2004), Leite (2007), Penna et al. (2004) e Thomas et al. (1999) também encontraram valores próximos para a utilização desta CP no treino e na
competição, o que mais uma vez demonstra a sua grande flexibilidade e facilidade de utilização, características que fazem desta CP uma das mais utilizadas pelos atletas deste nosso estudo.
O controlo atencional e os pensamentos negativos são as únicas CP em que a sua utilização é especificamente avaliada no treino e na competição, respectivamente. O controlo atencional foi a terceira CP mais utilizada pelos atletas do nosso estudo o que, juntamente com os estudos de Gould et al. (2002), Leite (2007) e Thomas et al. (1999) nos quais foram também encontrados valores elevados para a utilização desta CP no treino, demonstra a importância desta CP. Relativamente aos pensamentos negativos, foi a CP que apresentou o valor de utilização mais baixo do nosso estudo, facto também observado por Gould et al. (2002), Leite (2007) e Thomas et al. (1999), o que indica que os atletas do nosso estudo foram pouco invadidos por pensamentos negativos durante a competição.