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Biomass and catch in. thousands of tons Biomass

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significa a minha moradia, nele representei toda a comunidade.

Penso que é um lugar muito bom para morar, seguro, todo mundo se conhece. Saio para trabalhar e passo deixar os meninos e não temos nenhum problema. É o melhor lugar do mundo.

Alegria porque continuamos, tristeza pelas casas derrubadas, medo pelas remoções, insegurança porque não está muito segura, forte pela ajuda das pessoas, receio. Felicidade, contente, esperança, medo.

Acho que não comparo essa vila não. Acho que não tem comparação com outro lugar, mesmo que me oferecessem para ir morar na Beira- Mar eu continuaria aqui.

Estrutura: Cognitivo.

SENTIDO:

A Vila “Incomparável I” é uma comunidade de contrastes, onde, de um lado, a moradora vive momentos de medo, insegurança e tristeza ocasionados pelo receio de que a comunidade seja removida. Por outro lado, a felicidade e a confiança presentes nas relações com os vizinhos potencializam sua estima de lugar, fortalecendo sua implicação positiva para com a resistência.

Escala Estima de Lugar (EEL): 15 Imagem: Contrastes (Pertencimento x Insegurança)

A partir dos estudos de Bomfim (2010), Alencar (2010), Bomfim et al., (2014), Feitosa (2014) e Bomfim, Feitosa e Farias (2018) é possível compreender melhor as nuances da construção das imagens de Contrastes. As autoras apontam que compreensão sobre o papel dos contrastes nos mapas afetivos foram se transformando ao longo do desenvolvimento de pesquisas no Locus. Inicialmente, os Contrastes denotavam apenas sentimentos e emoções ambíguas, identificando uma estima de lugar despotencializadora (BOMFIM, 2010).

Em estudo realizado por Alencar (2010), sobre estima de lugar de adolescentes de três bairros e suas participações sociais, houve a prevalência de cerca de 57% dos mapas com

a categoria Contrastes. Na época, a imagem era considerada despotencializadora, no entanto, ao investigar mais profundamente, a autora percebeu o caráter dúbio da imagem. Para Alencar (2010), as predisposições que mais influenciaram para uma estima de lugar despotencializadora estavam ligadas às imagens afetivas de insegurança. Nesse caso, embora a imagem de Contrastes apresentasse sentimentos de pertença, as paisagens de medo, violência e drogadição se sobressaiam, repercutindo na despotencialização. A partir desse estudo, começou-se a se questionar a respeito das polaridades na imagem de Contrastes, observando de que modo estas tendiam para uma despotencialização.

Posteriormente, observou-se a possibilidade de implicação positiva dos moradores em relação aos seus ambientes, mesmo nas imagens de Contrastes com estima de lugar despotencializadora (FEITOSA, 2014). Os Contrastes, assim, apontavam para a coexistência de aspectos positivos nas pessoas, como a identificação com o lugar e a intenção de desenvolvimento de ações potencializadoras para melhorar as condições despotencializadoras do ambiente.

Com o processo de validação da Escala de Estima de Lugar (BOMFIM et al., 2014), constatou-se que a imagem de Contrastes tem tendência a ser transversal a todas as outras (Agradabilidade, Pertencimento, Destruição e Insegurança). Desse modo, os Contrastes podem ser tanto despotencializadores como potencializadores. O primeiro caso ocorre quando os sentimentos negativos culminam no aprisionamento e/ou na passividade das pessoas. No segundo caso, ao contrário, os sentimentos e as emoções despotencializadoras são utilizadas como incremento da potência de ação, assim, “[...] mesmo com sentimentos ambivalentes, [os Contrastes] levam a uma solução para o enfrentamento do problema”60 (BOMFIM et al., 2014,

p.145, tradução nossa).

Recentemente, Bomfim, Feitosa e Farias (2018) apresentaram resultados para a compreensão da transversalidade da categoria Contrastes na análise de fenômenos psicossociais relacionados ao encontro do indivíduo com o lugar. A investigação foi realizada com estudantes de escolas públicas da rede estadual de ensino na cidade de Fortaleza, Ceará, com o título “Estima de Lugar e indicadores afetivos de Contrastes em jovens no contexto de vulnerabilidade social: uma forma de avaliação da potência de ação e da ética na cidade (2014- 2015)”. Dentre os objetivos, buscava-se a compressão da imagem Contrastes relacionada ao sofrimento ético-político; avaliação dos contrates como dimensões potencializadoras e despotencializadoras; e a identificação da presença de contrastes em ambientes urbanos.

60 “[...] even with ambivalente feelings, leads to a solution to the problem faced [...]” (BOMFIM et al., 2014, p.145).

Nesta pesquisa, após a descoberta de indicadores afetivos despotencializadores de composição da imagem de Contrastes (“bairro inseguro”, “educadores despotencializadores”, “precariedade na saúde” e “precariedade na estrutura do bairro”), Bomfim, Feitosa e Farias (2018) realizaram atividades de intervenção, por meio de grupos focais, oficinas de fanzines, oficinas de fotografia e trilhas urbanas. Com efeito, as imagens de Contrastes diminuíram, ao passo que as imagens de Pertencimento e Agradabilidade aumentaram – sendo observadas poucas imagens de Insegurança e Destruição. Tais resultados levaram as autoras a inferirem que as imagens de Contrastes são dialeticamente construídas em um processo em que é possível a movimentação dos afetos em direção de uma implicação de emancipação. Neste sentido, os indicadores negativos na imagem de Contrastes podem ser transformados a partir de investimentos em intervenções psicossociais que envolvam a apropriação do espaço e afetos de prazeres e de pertencimento ao lugar, culminando em uma estima de lugar potencializadora.

Em decorrência da prevalência da imagem de Contrastes nos mapas afetivos da Vila Vicentina, dediquei-me em uma busca mais minuciosa para compreender como essas imagens foram construídas. Com as análises, comecei a observar que todas as vivências potencializadoras que os moradores relatavam sobre a Vila tinham um caráter temporalmente mais duradouro, com referências aos momentos de chegada à vila, à construção da família, às relações cotidianas com os demais moradores ao longo dos anos, às transformações ocorridas na comunidade e nos arredores, etc. Por outro lado, observei que as experiências negativas relatadas - expressão de sentimentos, emoções e ações com base no medo, abandono, na insegurança e na percepção da comunidade como “feia” e “destruída” –, em sua maioria, estavam relacionadas às atuais situações de ameaça de remoção, potencializadas, principalmente, a partir da demolição de algumas casas da comunidade em outubro de 2016.

Tendo isso em vista, procurei decompor a imagem de Contrastes – e apresento a combinação entre as imagens afetivas para formá-la – a fim de promover uma análise mais profundada de como esses contrastes se revelam na Vila Vicentina. Para isso, recorri a Heller (2004) para explicar a possibilidade de uma mesma situação comportar elementos de imagens afetivas opostas. A autora afirma que “sentir significa estar implicado”, sendo essa implicação parte inerente do pensamento e da ação humana (HELLER, 2004, p.21). A implicação pode voltar-se tanto para si própria como também pode ser direcionada para algo (pessoa, objeto, sentimento, etc.) que a ocasionou, ou seja, o foco da consciência ou está na implicação em si ou em algo em que se está implicado.

Entrelaçado a isso, tem-se que, conforme o foco de nossa consciência se organiza, o sentimento (implicação) pode ocupar o lugar de figura ou de fundo (HELLER, 2004). Se a

tônica estiver na própria implicação, as emoções e os sentimentos estarão no centro da consciência, ocupando lugar de figura. Por outro lado, a tônica pode estar em algo em que se está implicado, assim, a própria implicação volta-se para o plano de fundo. Com base em Heller (2004), podemos apontar que os afetos mais circunstanciais concebem a figura, por evocar o foco de nossa consciência para o momento. Já os afetos mais duradouros configuram o fundo, podendo ou não ser o foco da consciência em determinados momentos. Cabe, ainda, salientar a indispensabilidade do papel do fundo para a organização da figura, uma vez que “[...] não há solução normal de problemas, seleção de meios, percepção nem pensamento sem uma implicação no plano de fundo”61 (HELLER, 2004, p.26, tradução nossa).

Com essa perspectiva, nesse estudo, as imagens de Contrastes passaram a ser compreendidas por meio dos sentimentos e das emoções que estão no I) plano de fundo (fundo), que diz respeito às vivência dos moradores com a comunidade que evocam afetos mais duradouros, ou seja, os afetos que se relacionam às vivências dos moradores com a Vila antes das ameaças de remoção; e os afetos de II) plano de frente (figura), que, conforme as análises, decorrem do atual momento de ameaças de remoção, ou seja, caracteriza-se pelos sentimentos, pelas emoções, pelos pensamentos e pelas ações que se colocam como foco da consciência dos moradores no atual contexto.

Em síntese, os Contrastes, nesse estudo, constroem-se a partir dos afetos do plano de frente, enquanto expressão da atual situação da ameaça de remoção (atuando na construção, inclusive, de ações mais urgentes) que se contrapõem aos afetos mais duradouros na vivência com a comunidade, que caracterizam o plano de fundo. O Quadro 5 apresenta a (de)composição das imagens de Contrastes, seguida pela frequência com que apareceram nos mapas:

Quadro 5 - (De)Composição das imagens de Contrastes

Decomposição dos Contrastes

Plano de Frente: imagens afetivas decorrentes da atual vivência dos moradores em ameaças de remoção.

- Insegurança (09); - Destruição (05).

Plano de Fundo: imagens afetivas construídas a partir da vivência duradoura dos moradores com a Vila, anterior às ameaças e derrubadas das casas.

- Pertencimento (09); - Agradabilidade (05).

61 “[...] no hay solución normal de problemas, selección de medios, percepción ni pensamiento sin una implicación en el trasfondo” (HELLER, 2004, p.24).

Combinação das imagens decompostas dos Contrastes

- Pertencimento x Insegurança (9); - Agradabilidade x Destruição (5). Fonte: Elaborado pelo próprio autor.

Como mostra o Quadro 5, a imagem de Insegurança é a que mais se destaca nos afetos presentes no plano de frente das atuais vivências dos moradores com a Vila; contrastando com a imagem de Pertencimento, que revela os afetos mais duradouros dos moradores com a comunidade e que, por conta das ameaças, podem se tornar menos explícitas. Após a decomposição, observei quais as combinações mais comuns entre as imagens afetivas dentro de cada mapa. Como também aparece no Quadro, os Contrastes construídos com as imagens de Pertencimento e Agradabilidade são mais frequentes, sendo 09 mapas dos 14. A seguir, faço a apresentação de alguns mapas que expressam as nuances da decomposição dos Contrastes e suas combinações.

a) Pertencimento x Insegurança

Com a decomposição das imagens de Contrastes, observamos que os afetos relacionados ao Pertencimento e à Insegurança são os que mais se destacam, aparecendo em 09 dos 14 mapas. A imagem de Insegurança é concebida como o inverso de Pertencimento (BOMFIM, 2010), expressando os sentimentos de medo, a insegurança e a ameaça, cujas vivências podem levar a uma certa ansiedade quanto à permanência do morador no lugar.

Além disso, a imagem afetiva de Insegurança não necessariamente está relacionada aos índices objetivos de insegurança e à violência do lugar, mas denotam também o que é inesperado e instável (BOMFIM; FEITOSA; FARIAS, 2018). Tal aspecto foi observado a partir dos resultados dos mapas da Vila, os quais revelaram que a insegurança presente nos moradores (sendo os maiores itens de concordância no fator II de estima despotencializadora62) estão

relacionados às sensações de surpresa, de estar alerta e de que qualquer coisa pode acontecer. No quadro 6, podemos observar algumas das expressões contrastantes de Pertencimento e Insegurança a partir das respostas dos moradores ao IGMA:

Quadro 6 - Expressões dos Contrastes de Pertencimento x Insegurança

- “Alegria porque continuamos, tristeza pelas casas derrubadas, medo pelas remoções, insegurança porque não está muito segura, forte pela ajuda das pessoas, receio”. (Mapa afetivo de Cida)

- “O desenho significa a Vila Vicentina, onde existe diversos corações que são as pessoas que amam a Vila Vicentina. Do outro lado, as pessoas que amam o dinheiro. [...] Segurança ao saber que moro na Vila Vicentina, inseguro ao saber que existe força oculta agindo contra a tranquilidade de nossa moradia”. (Mapa afetivo de Filho)

- “O desenho da balança está entre o alto e o baixo, uma coisa que fica pelo meio. A gente tá aqui, a gente não sabe se vai ficar de verdade, como é que vai ser. Isso mexe muito com a cabeça da gente”. (Mapa afetivo de Maria)

- “Uma casa que eu moro há 43 anos. Sinto muito insatisfeito com essa situação de ameaça. Casa desmoronando a qualquer momento, suspeita de cair, boa moradia, amigos, inimigos, morar a vida toda”. (Mapa afetivo de Véi)

- “É um coração, significa amor a Vila. Cheguei aqui há muitos anos. Muito amor. [...] Não sei do futuro, mas queria que fosse bom”. (Mapa afetivo de Marília)

- “Ameaçada, desprotegida, resistir, fé, lutar e vitória. Não quero sair por nada. Me sinto feliz, me sinto completa. A Vila é tudo, minha vida”. (Mapa afetivo de Aline)

Fonte: Elaborado pelo próprio autor.

Também podemos observar pelo Quadro 6 que a combinação dessas duas imagens pode demonstrar que os moradores costumavam visualizar a Vila como um ambiente que participa na construção de suas histórias, um lugar onde criaram seus filhos, com o qual se identificam e nele compartilham uma vida comunitária. Por outro lado, as ameaças de remoção têm interferido em suas vivências cotidianas, ocasionando incertezas, medos e angústias quanto à permanência na comunidade, como é observado no Mapa Afetivo de Cida:

IDENTIFICAÇÃO:

Nome: Cida Sexo: F Idade: 44 anos.

Escolaridade: Fundamental completo. Tempo de residência: 17 anos.

SIGNIFICADO: QUALIDADE: SENTIMENTOS: METÁFORA: Este desenho

significa a minha moradia, nele representei toda a comunidade.

Penso que é um lugar muito bom para morar, seguro, todo mundo se conhece. Saio para trabalhar e passo deixar os meninos e não temos nenhum problema. É o melhor lugar do mundo.

Alegria porque continuamos, tristeza pelas casas derrubadas, medo pelas remoções, insegurança porque não está muito segura, forte pela ajuda das pessoas, receio. Felicidade, contente, esperança, medo.

Acho que não comparo essa vila não. Acho que não tem comparação com outro lugar, mesmo que me oferecessem para ir morar na Beira-Mar eu continuaria aqui. SENTIDO:

Estrutura: Cognitivo.

A Vila “Incomparável I” é uma comunidade de contrastes, onde, de um lado, a moradora vive momentos de medo, insegurança e tristeza ocasionados pelo receio de que a comunidade seja removida. Por outro lado, a felicidade e a confiança presentes nas relações com os vizinhos potencializam sua estima de lugar, fortalecendo sua implicação positiva para com a resistência.

Escala Estima de Lugar (EEL): 15 Imagem: Contrastes (Pertencimento x Insegurança)

A elevada associação entre as imagens de Pertencimento e Insegurança, embutidas em uma imagem de Contrastes, também foi encontrada em Feitosa (2014), ao realizar estudo sobre a vivência de psicólogos-residentes em relação aos serviços de saúde. Conforme a autora, ao mesmo tempo que havia a identificação dos profissionais com o ambiente de trabalho e as atividades realizadas na comunidade (plano fundo), estes contrastavam com a insegurança frente às precárias condições de trabalho, política de assistencialismo, etc. (plano de frente).

Em Feitosa (2014), a Insegurança nos profissionais decorria, dentre outros fatores, da percepção da conjuntura social e política relacionada aos ambientes de trabalho. Do mesmo modo, os moradores da Vila enxergam que as suas relações com a comunidade e com a vizinhança estão sendo afetadas em decorrência da instabilidade na comunidade, ocasionada por “terceiros” que almejam o afastamento dos moradores de sua casa, tal como expressa o Mapa Afetivo de Filho:

IDENTIFICAÇÃO:

Nome: Filho Sexo: M Idade: 37 anos.

Escolaridade: Pós-graduação. Tempo de residência: 37 anos.

SIGNIFICADO: QUALIDADE: SENTIMENTOS: METÁFORA:

In document Appendix (47 s.) (1.834Mb) (sider 26-47)