2. Stage 2: Pest Risk Assessment
2.1 Pest categorization
2.1.5 Biological characteristics of the pest
Ao iniciar o século XX, é visível a preocupação com o desempenho da cana-de-açúcar no Brasil diante do cenário internacional. Ferrenha crítica foi feita na Revista da Escola de Comércio de Porto Alegre, devido à grande venda feita pela Argentina à França de 6.000 toneladas de açúcar, em 1915.238
A matéria alertava os dirigentes para o perigo que se levantava contra a indústria secular brasileira, diante do que se impunha sua valorização, a começar pelo Rio Grande do Sul, onde, na região nordeste, eram consideráveis as plantações de cana. Diz ela:
[...] É sabido que até pouco tempo a maior parte do álcool vindo para esta capital provinha de Torres. Eram dezenas e dezenas de pipas que quase diariamente afluíam ao mercado, transportadas no clássico e típico carro de bois. Hoje, nem mais uma, chega até nós. Por quê? É simples e categórica a resposta a essa pergunta. Porque a estrada que nos conduz a Torres não é digna desse nome, é
237
STENZEL FILHO, Antônio. A Vila da Serra (Conceição do Arroio): sua descrição física e histórica: usos e costumes até 1872. 2. ed., Porto Alegre: IEL; Caxias do Sul: UCS, 1980. p. 86-87. Em Porto Alegre, o Beco da Garapa, um desvio da Rua da Praia, na continuação da General Câmara, era muito procurado pelos populares para beberem o precioso suco da cana. Ver: PEREIRA CORUJA, Antônio Alvarez. Porto Alegre: crônicas da minha cidade. Porto Alegre: Sulina, 1951. p. 60-63. A tradição canavieira em Osório se mantém viva até o presente. Ver: COLONOS de Osório mantêm tradição de fabricar bom vinho e aguardente. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 39, 05 mar. 1978.
238
LEAL, Ermeto. A indústria da cana no Rio Grande do Sul. Revista da Escola de Commercio de Porto Alegre, Porto Alegre: Grêmio dos Estudantes da Escola de Comércio, a. 1, n. 1, p. 15-16, jul. 1915.
um atoleiro sem fim, uma “biboca” apavorante, onde ninguém, a menos que esteja louco, vai arriscar a vida de seu gado, a totalidade de seus modestos haveres. Como se não bastasse isso, vem ainda dar o tiro de misericórdia na mísera moribunda, o despropositado imposto que o governo acaba de lançar. É inacreditável isso, mas a pura verdade. Imaginem os nossos bons leitores, que uma pipa de aguardente paga 18$000 de impostos e é vendida por 20$000. É o cúmulo da ganância. Considere-se ainda o custo do casco, consertos no mesmo, preparação, plantio, fretes, etc. e ver-se-á, que além de ter o plantador enorme prejuízo, uma pipa desse produto ficará, posta aqui, em condições de não poder concorrer com o similar procedente dos Estados do Norte, tal o seu despropositado custo.
E, irrisoriamente, chama-se a isso – proteger a indústria! [...]
Convençam-se todos que, sem meios baratos de transporte, sem estradas reais ou ferradas, toda e qualquer tentativa no sentido de melhorar a nossa lavoura há de fatalmente fracassar.
Haja vista o que se dá em Torres, que é o mesmo que acontece em toda parte, até mesmo aqui às portas da capital, em Viamão ou S. Antonio da Patrulha, e tudo isso pelo mesmo motivo desanimador – a falta de condução.
O que é necessário para melhorar esta situação infeliz, o que é imprescindível que se obtenha antes de tudo, é isso que vemos pedido em altos brados pelo Rio Grande, pelo país inteiro – menos política e mais trabalho. [...]
Construam-se estradas de rodagem e de ferro, rasguem-se canais na superfície virgem desta terra e deixe-se então à iniciativa privada o desenvolvimento das indústrias, do comércio, de tudo enfim que constitui o progresso moral e material dos povos cultos.239
Vivia-se a república comtiana, há pouco instalada. Ordem e Progresso era a orientação vigente. Um olhar foi, então, dirigido para a abandonada região canavieira, sempre carente em comunicações, que recebeu impulso, na década seguinte, com empreendimentos estimulados pela conjuntura internacional. Ou seja, nos primeiros anos da década de 1920, havia um déficit mundial de açúcar, e, apesar disso, em muitos países, inclusive o Brasil, a produção dessa mercadoria vinha sofrendo, há muitos anos, limitações severas.
Deflagrada a 1ª Guerra Mundial, naquela altura, a produção total do açúcar atingia 8.208.810 toneladas.240 A demanda pelo produto, na conjuntura, foi impulsionada, passando o
Brasil a contar, em 1921, com 215 usinas de açúcar, sendo 71 delas engenhos de meia aparelhagem, montados às pressas para atender o mercado internacional, com altas cotações. Entre os anos de 1924 e 1925, a produção foi de 15 milhões de sacos de açúcar, dos tipos cristal, demerara e bruto, com preços compensadores.241
239
LEAL, Ermeto. A indústria da cana no Rio Grande do Sul. Revista da Escola de Commercio de Porto Alegre, Porto Alegre: Grêmio dos Estudantes da Escola de Comércio, a. 1, n. 1, p. 15-16, jul. 1915. (Grifo nosso).
240
INDÚSTRIA açucareira. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 4, 20 dez. 1945.
241
Dados apresentados por Edgar da Silva em trabalho apresentado no Encontro Raízes de Osório, em 2002, depois publicado na obra do mesmo nome, em 2004. SILVA, Edegar da. A cana-de-açúcar no litoral gaúcho: da Usina Santa Martha à AGASA. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel et al. (Org.). Raízes de Osório. Porto Alegre: EST, 2004. p. 344-349.
De 1925 em diante, as cifras aumentaram, sendo que a safra de 1940/1941 ascendeu a 31.790.000 toneladas. Entretanto, a partir dessa época, a produção novamente declinou consideravelmente, estimando-se que, na Europa e na União Soviética, devido à destruição e paralisação das suas indústrias, os rendimentos caíram 60%, ou seja, mais de 6.000.000 de toneladas de açúcar de beterraba. A produção de açúcar de cana em Java e nas Filipinas, que era de mais de 3.500.000 toneladas, ficou fora do mercado internacional, em virtude da invasão japonesa. Em outros países, as safras decresceram por motivos diversos. Apenas Cuba progrediu.242 O déficit mundial de açúcar, em 1945, era estimado entre 9 e 10 milhões de toneladas, agravado pela deficiência de transportes.243
Sem dúvida alguma, o desempenho regional da cana-de-açúcar no Rio Grande do Sul deve ser abordado a partir das relações nacionais e internacionais vigentes na conjuntura, o que não é relacionado em alguns trabalhos apresentados acerca do espaço em análise. A propósito, aponta João Manuel Cardoso de Mello que a industrialização no Brasil, no período entre 1933 e 1955, se encontrava restringida porque as bases técnicas e financeiras da acumulação eram insuficientes para que se implantasse o núcleo fundamental da indústria de bens de produção.244
Com dada situação, as possibilidades de expansão industrial do açúcar no Brasil ainda eram restritas, o que só começou a mudar na passagem da década de 1950 para a de 1960. Assim, com as repercussões tardias do pós-guerra, somadas a uma nova fase das economias nacional e internacional, muitos estados animaram-se e tentaram delimitar seus espaços de produção açucareira. Foi, então, que o Rio Grande do Sul reagiu, sobretudo com os encaminhamentos que o Instituto do Açúcar e do Álcool vinha dando, no tocante à concessão de novas cotas para os estados açucareiros do Brasil. Era animadora a recomendação expressa no Decreto-Lei nº 9.827, de 1946, segundo a qual o IAA, além de possibilitar a transformação dos engenhos turbinadores245 em usinas, deveria permitir a fundação de novas fábricas de açúcar.246
242
Entretanto, com a crise de 1929, “Cuba fue uno de los paises mas afectados em América Latina.” Examinar, a propósito, GARCIA, Antonio Santamaria. Sin azucar no hay pais: la industria azucareira y la economia cubana (1919-1939). Sevilla: Universidad de Sevilla, Escuela de Estúdios Hispanoamericanos, 2002.
243
INDÚSTRIA açucareira. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 6, 20 dez. 1945.
244
MELLO, João Manuel Cardoso de. O capitalismo tardio: contribuição à revisão crítica da formação e do
desenvolvimento da economia brasileira. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 110.
245
Turbina é um aparelho em que se processa, por centrifugação, a separação entre os cristais de açúcar e os elementos não-cristalizáveis.
246
COUTINHO, Nelson. Economia açucareira nacional: sua posição actual e perspectivas para os próximos anos. Rio de Janeiro: IAA, 1948. p. 18-19.
Em jornal do interior do Rio Grande do Sul, no ano de 1935, foi expresso o sentimento de vergonha, face à exclusão, no mercado, do açúcar brasileiro:
Precisamos fazer pela cultura da cana e a indústria do açúcar, em todos os Estados produtores, o mesmo que se fez, com grandes resultados práticos, em São Paulo [...]. Se fizermos nos outros estados, o que se fez na Estação Experimental de cana-de-açúcar, de Piracicaba, em São Paulo, teremos dado um grande passo de progresso.
Precisamos adotar as mesmas práticas agrícolas adiantadas que se vêm pondo em execução nos outros países produtores, como Java, Cuba, Haway, Estados Unidos e Argentina, no tocante ao emprego das máquinas agrícolas, para o preparo do solo, sua mobilização, irrigação, capinas, enterramento perfeito do palhiço e extirpação das cepas. Outro tanto, relativamente ao melhoramento da planta e à adubação, em trabalhos metodicamente orientados por estações experimentais perfeitamente aparelhadas.247
Acentue-se que a produção gaúcha de cana estava registrada na esfera federal, como se observa na tabela a seguir, com uma posição respeitável para o ano de 1939, principalmente de aguardente. Um relativo número de engenhos que produziam açúcar bruto induz à conclusão de que Santo Antônio da Patrulha e região vinham tendo mercado crescente para o açúcar mascavo, o que, aliás, é voz corrente nos depoimentos orais colhidos a respeito, como este:
Nós lá tínhamos 14 hectares de terra. A plantação de cana não era muito grande. Devia ser umas cinco ou seis hectares. Nós fazíamos açúcar mascavo, melado... E vendíamos nos compradores: armazém... atacado, ali em Santo Antônio. O Paulino comprava... muitos compravam de nós, açúcar para exportar pra Caxias, Porto Alegre... Em Caxias, antigamente eles botavam açúcar no vinho. Misturavam para composição do vinho. As cantinas compravam quantidade de açúcar. Hoje em Santo Antônio, não sei se deve está vivo, porque eu não ouvi falar se morreu. Eu não sei o que ele faz hoje. Valia a pena ouvir o Antônio Correia de Andrade, conhecido como “Totonho”. Esse homem comprou muito açúcar e levou muito açúcar pra Caxias. Morava no Arroio do Carvalho. Ele levava açúcar e trazia vinho. Tinha muitos compradores de açúcar lá, muita coisa. Foi uma grande quantidade de açúcar mascavo para lá. Uma barbaridade, tu nem imagina!248
E as estatísticas confirmam:
Tabela 5 – Fábricas de açúcar, rapadura, álcool e aguardente existentes no estado do Rio Grande do Sul e cadastradas até 31 de dezembro de 1939
Estados Total de Fábricas Usinas c/ turbina e vácuo Engenhos c/turbina Engenhos (açúcar bruto) Engenhos (rapadura) Engenhos (exclusivamente aguardente) Acre 105 – – 73 29 3 Amazonas 95 – 6 27 35 27 Pará 146 6 2 55 16 67 Maranhão 969 4 10 202 395 358 247
PROBLEMAS da cana de açúcar. O Nacional, Passo Fundo, p. 2, 10 ago. 1932.
248
Piauí 1.554 1 3 2 1.441 107 Ceará 2.589 2 11 75 2.200 301 R. G. do Norte 551 3 – 102 413 33 Paraíba 1.384 9 – 64 1.138 173 Pernambuco 1.917 69 – 636 1.166 46 Alagoas 822 32 – 464 231 95 Sergipe 243 88 – 117 1 37 Baía 3.284 19 2 610 2.028 625 Espírito Santo 479 2 4 181 119 173 Rio de Janeiro 2.389 30 4 857 1.053 445 Distrito Federal – – – – – – São Paulo 3.918 36 149 913 981 1.839 Paraná 309 – 4 14 51 240 Santa Catarina 5.987 4 2 5.465 7 509 R. G. do Sul 1.800 1 – 274 47 1.478 Minas Gerais 29.645 28 103 5.692 23.765 57 Goiás 3.121 1 11 2.458 556 95 Mato Grosso 1.893 10 5 34 38 1.806 BRASIL 63.200 345 316 18.315 35.710 8.514 Fonte: MATTOS, Aníbal R. Açúcar e álcool no Brasil. Rio de Janeiro: IAA, 1942. p. 109.
São desse tempo as providências para a participação do Rio Grande do Sul na divisão nacional do trabalho, no tocante à produção açucareira. A primeira providência foi a criação da Estação Experimental de Cana-de-Açúcar, localizada em Conceição do Arroio.
2.3.2.1 A Estação Experimental de Cana-de-Açúcar de Conceição do Arroio (Osório)
Fundada pelo Governo Federal, vinculada inicialmente ao Ministério da Agricultura, a Estação Experimental de Cana-de-Açúcar de Conceição do Arroio (Osório) foi criada para apoiar e dinamizar a região canavieira do estado, onde estava instalando-se uma usina açucareira, a contar de 1925.249 Juraci J. Pasquoto, ex-professor da Escola Rural, situada onde anteriormente funcionou a Estação Experimental, entende que Getúlio criara, então, um pólo de desenvolvimento por causa da pobreza da região, pois, segundo ele:
249
Segundo Juraci J. Pasquoto, a área de terras foi comprada da família Pereira, concretizando a obra o Dr. Pinheiro, que fora nomeado diretor. A firma Andreolli executou a construção, sendo, logo depois, contratados operários e auxiliares. PASQUOTO, Juraci J. et. al. Origem da Escola Normal Rural Ildefonso Simões Lopes de Osório: a escola rural de ontem aos dias de hoje. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel Barroso et al. (Org.). Raízes de Osório. Porto Alegre: EST, 2004. p. 367. O Rio Grande do Sul cedo teve sua Estação Experimental; Santa Catarina, só mais tarde. A propósito, examinar: UMA ESTAÇÃO dedicada somente à cana-de-açúcar: Santa Catarina. Correio do Povo, Porto Alegre, 18 jul. 1980. Suplemento Rural, p. 10. Em 1926 foi criada também a Estação Experimental de Piracicaba/SP, diante da crise canavieira que o estado atravessava por várias moléstias, sobretudo o mosaico. Examinar a respeito: SZMRECSÁNY, Tamás; OLIVER, Graciela de Souza. A Estação Experimental de Piracicaba e a modernização tecnológica da agroindústria canavieira (1920-1940). Revista Brasileira de História, São Paulo: ANPUH; CNPq, n. 46. p. 37-60, jul./dez. 2003.
A idéia era tirar daquele estado de pobreza o nordeste do Rio Grande do Sul, ou seja, o Litoral Norte. [...] o Litoral Norte era tão pobre, não tinha estrada, não tinha uma economia definida. [...] era uma agricultura incipiente. [...] Então, ele, em função do clima da região, [...] subtropical, decidiu, quando governador do Estado, criar esse pólo de açúcar aqui na região, porque não geava. A região era própria para a produção de cana. Então, para desenvolver o Litoral Norte, iniciando por Santo Antônio, Getúlio criou a Estação Experimental por intermédio do governo federal.250
Para iniciar a experimentação da cana, o ministro designou o técnico Samuel Herberth Jhones (Mister Jhones), um inglês naturalizado, radicado em Pernambuco. Lá se especializou na cultura da cana, e depois foi transferido para atuar na Estação Experimental, em Conceição do Arroio. Destaca Pasquoto que Mister Jhones era um pesquisador dedicado e competente, do tipo Caxias. Ele importou mais de 20 variedades de cana-de-açúcar. Depois acabou ficando no município e prestando seus serviços.251
Leonel Mantovani, mais tarde Prefeito de Osório, no período inicial da Revolução de 1964, e também primeiro presidente da AGASA, foi nomeado auxiliar técnico em 1930, por Getúlio Vargas, para o órgão criado, depois de formar-se, em 1929, na Escola Técnica de Agronomia de Viamão. Nascido em Montenegro, seus laços se firmaram na terra da esposa, filha do escritor e historiador Manoel Fernandes Bastos, autor da consagrada obra Noite de
Reis.252 Ele, com mais de 90 anos e residindo em Porto Alegre, contrariou aqueles que diziam ser inadequada a região para a cultura canavieira.253 Lembra-se bem de Mister Jhones e diz:
[..] o Getúlio não saía de lá do nosso Instituto; se apaixonou pelo Instituto, porque realmente era uma instituição maravilhosa. [...] O Getúlio recebeu uma coleção de mudas do horto florestal do Rio de Janeiro, e entre elas veio uma peça de Java, javanesa. Então veio a tal POJ 213, que atualmente tomou conta da cultura da cana. Antes era a cana forrageira. [...] porque a estação foi criada como estação experimental de cana-de-açúcar pelo governo federal. [...] A estação passou a ser reprodutora da 213, e aí conseguimos esparramar um pouco no Estado. [...] Eu fui quem distribuí tais canas até Torres. [...] Nós requisitávamos as chatas, e eu enchia uma chata daquelas com um rebocador. Em tudo que era porto de lagoa até Torres eu encostava e distribuía de acordo com a quantidade de terra que o sujeito tinha. [...] A verdade é que o Rio Grande do Sul tem condições excepcionais para a cultura da cana javanesa. [...] Tanto é que esta costa de serra, nós conseguimos espalhar a cana. A mata atlântica era vigiada; tinha que estar pedindo licença. Porque esta
250
Depoimento de Juraci J. Pasquoto concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 20 jan. 2003.
251
Idem. Técnico já referido por Nilza Huyer Ely sobre sua atuação em Três Forquilhas.
252
BASTOS, Manuel Fernandes, 1935. Na sua reminiscência da antiga Conceição do Arroio, o autor centra-se na figura do Baiano Candinho, personagem controvertido da região, sendo considerado como bandido por alguns e, por outros, como justiceiro.
253
A construção de um discurso de adversidade e impropriedade da cana-de-açúcar, dirigido para a região norte- litorânea, ainda que firmada sua tradição canavieira, sustentou-se em argumentos geobotânicos para legitimar os insucessos de empreendimentos no setor. Ficaram encobertos, durante muito tempo, os motivos resultantes da divisão nacional do trabalho, que preservava a produção açucareira do Nordeste, em detrimento de outras regiões que pudessem ameaçar a sua hegemonia. Mas São Paulo acabou, enfim, por romper o cerco. Segundo Mantovani, o IAA tinha “uma quizila” com o Rio Grande do Sul por não permitir durante muito tempo que o estado produzisse açúcar. Depoimento de Leonel Mantovani concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 17 jan. 2001.
costa de serra não tem nada melhor para a cana-de-açúcar, esta 213. Chega a dar até cento e tantas toneladas por hectare. Normalmente é quarenta, quarenta e cinco toneladas por hectare. Mas a outra dava dez, doze, cinco, seis toneladas. [...] Mais tarde administrei a cidade. Emendei a estação experimental com a prefeitura, e aí ficou uma beleza.254
A resistência ao desmatamento por conta da expansão da cana foi o “revés” que o técnico da Estação enfrentou em sua atuação no órgão recém implantado.
Fotografia 8 –Estação Experimental de Osório, construída em 1920
Fonte: PASQUOTO, Juraci J. et al. A Escola Rural de ontem aos dias atuais. In: BARROSO, Véra Lucia Maciel et al. (Org.). Raízes de Osório. Porto Alegre: EST, 2004. p. 366.
De fato, a partir de 1926, foram feitas importações de exemplares estrangeiros, para resistir à decadência dos canaviais, em decorrência das moléstias.255 Através das praças do Rio de Janeiro e da Argentina, chegou grande número de variedades javanesas, ainda hoje cultivadas, como é o caso da variedade POJ 213, citada por Mantovani, também conhecida pelo nome Argentina, que foi uma das primeiras a chegar. Assim, foram substituídas a cana ripa, a cana caiana, a cana listrada, a cana rosa e outras, em franca degeneração.256
Entretanto, a economia dirigida pelo Estado Getulista257 fez um desvio de rota. Ao Nordeste foi preservado o monopólio da exploração da cana-de-açúcar.258
254
Depoimento de Leonel Mantovani concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 17 jan. 2001.
255
As principais doenças da cana são mosaico, gomose e sereh. A primeira é a mais difundida. Consiste em manchas vermelhas nas folhas, as quais perdem a coloração verde natural, o que impede a formação da sacarose.
256
Os estudos com a cana-de-açúcar realizados na Estação Experimental e pelos engenheiros agrônomos pautaram-se pela busca de variedades que se adaptassem à região e com boa produtividade. A propósito, examinar: VARIEDADE de cana para a nossa região. A Gazeta do Litoral, Osório, a. I, n. 10, p. 3, 10 abr. 1977.
257
Durante o governo do interventor municipal em Santo Antônio Teodorico Francisco Machado da Silva, houve estreita cooperação técnica da Estação Experimental com o município. Ver: SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA. Boletim Informativo de Santo Antônio. Prefeitura Municipal, ano III. n. 9, 1º set. 1944. p. 4.
258
Afirma Benito Izolan – professor aposentado da Escola Rural, em Osório, mais tarde com vínculos à administração da AGASA – que, no começo do governo Getúlio, houve interesse em desenvolver o açúcar e o álcool na região. Mas, no fim dos anos de 1930, Getúlio, por sua política de regionalização da cultura, passou a favorecer amplamente o Nordeste e a desativar o Sul. É o que se verá adiante nesta pesquisa.
Dois meses após assumir como Chefe do Governo Provisório do Brasil, Getúlio Vargas, juntamente com seu ministro da Agricultura, J. F. de Assis Brasil, assinaram o Decreto nº 19.493, de 16 de dezembro de 1930, transferindo ao Estado, além de outras, a Estação Experimental de Conceição do Arroio, com seus funcionários, suas instalações, maquinismos e utensílios agrícolas, laboratórios, animais e tudo mais.
A transferência, a título precário, seria por três anos, podendo ser renovada, o que se sucedia com o referido decreto, que renovava o anterior, de 27 de dezembro de 1928, sob nº 5.615.259 Com essa política, a Estação Experimental, em Conceição do Arroio, foi fechada como órgão de âmbito federal.260 A Estação Experimental passou a integrar a Secretaria de Estado da Agricultura, cabendo-lhe a assistência técnica aos produtores e, posteriormente, explorar outras atividades por determinação de lei do governo central. Com a recriação da Estação Experimental, a partir de então, de Fruticultura, foi mudado o foco, dirigido aos experimentos de fruteiros sub-tropicais, continuando Mister Jhones, paralelamente, com a