1. Introduction
1.2. Pollution and aquatic macrophytes
1.2.3. Bioindicators and toxicological principles
O mestre Luiz Caboclo, como é conhecido, nasceu em 1958; atualmente reside em Condado. Se eu pudesse defini-lo em um predicativo, certamente seria simpatia. Sorridente e meio tímido, ele anda pelo terreiro, normalmente sem camisa e descalço, conversando com os vizinhos, com as crianças, observando as atividades da escolinha, “ajeitando” o que estiver fora do lugar. A sua oficina, ao lado da sede, pode ser chamada de pequeno espaço de exposição artística. Ali ficam os chapéus do maracatu, a calunga, as vestimentas dos caboclos e lanças, as arrumações do cavalo-marinho e de outras brincadeiras. Grande parte daqueles objetos foi confeccionada por ele, exímio artesão reconhecido como um dos melhores da região.
Seu Luiz chegou no Estrela de Ouro no ano 2000, antes disso, passou por muitos maracatus. Ele diz que cumpre uma missão deixada por seu tio, o que remonta a perspectiva de identidade cultural a partir da memória, do fio ancestral.
O tio de Seu Luiz era um brincante inveterado de maracatu. Sempre tentou levar seu
140 sobrinho para brincar com ele, mas o pai de Luiz não deixava, por conta dos conflitos que ainda existiam no folguedo, o “cruzamento de bandeiras”, e também devido ao preconceito da sociedade com a brincadeira. Até que um dia, o tio fez uma arrumação especial para Luiz, que ainda era criança:
Meu pai não queria que eu brincasse esta história de maracatu, mas eu tinha um tio que brincava muito, e então ele “batia” pra botar eu dentro do maracatu, e meu pai não deixava. Até que um ano, ele fez uma arrumação pra mim e deixou na casa dele. E quando foi num sábado de Zé Pereira, ele chegou lá em casa montado numa besta e me levou, e quando foi num domingo de arrocha, eu cheguei na casa do meu pai, já vestido de caboclo. Aí meu pai disse: rapaz, eu não disse a você que não queria Luiz brincando este tal de maracatu?! Ele disse: Bastião, bota na tua cabeça que dos teus três filhos, quem tem história para maracatu só é Luiz.
Sebastião não queria o filho envolvido naquilo; mas depois de muita insistência, acabou cedendo. Por um ano, tio e sobrinho brincaram juntos o maracatu; até que, num acidente “ao cair da besta”, o tio de Luiz ficou bastante doente. Este episódio marcou a vida de Seu Luiz, que me contou, emocionado, a lembrança dos últimos minutos de vida do tio:
Ele adoeceu, caiu de mau modo da besta, e adoeceu. E passou nove meses em cima de uma cama e antes de morrer, ele mandou me chamar. Meu pai foi visitar ele, e ele: “cadê Luiz?”. Aí pai disse: Luiz ficou em casa. Aí ele: vai buscar Luiz, que eu quero ver Luiz...e deste mundo eu não quero mais nada, que vai chegar na minha última hora e eu tenho muita coisa pra dizer a Luiz. Aí pai volta na besta e vem me buscar. Aí eu vou, cheguei lá, ele estava deitado na sala, quando a gente chegou, eu desci da besta, pedi a bença a ele...”bença, meu tio”... ele tomou a bença e disse: “senta aqui na beira da cama, meu fi, tem muita coisa pra conversar”. Aí eu sentei na beira da cama e ele disse: eu vou pedir um negócio a você. Eu disse: diga! Ele disse: cê não tá vendo eu falando aqui com você, mas falta pouquinha coisa para eu ir embora, desse mundo aqui eu não quero mais nada. Aí eu era criança nesta época, comecei logo a chorar. Ele falou “não chore não, meu fi, que daqui pra frente você ainda vai se alembrar de mim e de tudo que eu tô dizendo a você. Outra que eu vou pedir a seu pai: que não empate você brincar de maracatu que, na frente, seu pai ainda vai se orgulhar de você”. Quando ele acabou de me dizer, se encostou assim, já foi morrendo...
Luiz seguiu o pedido do tio, sem o impedimento do seu pai. Passou por muitos maracatus – Leão da Aldeia, Leão da Mata Nova, Leão Brasileiro, Leão de Ouro, Cambina de Cuma. Passou também pelo Estrela de Ouro no período de Mestre Batista, ali brincou por 9 anos. Quando Batista se foi, Luiz saiu do Estrela de Ouro e retornou somente em 2000, a pedido de Seu Zé Duda.
O Mestre Zé Duda admirava o jeito de Luiz conduzir o maracatu, via neste um profissional diferente, criativo, e esperava o momento oportuno para convidá-lo a fazer parceria no Estrela de Ouro. Refiro-me a um momento oportuno porque havia um empecilho.
141 Segundo o Mestre Zé Duda, Luiz andava constantemente alcoolizado110, e ele aguardava o dia em que Luiz parasse de beber. E esse dia chegou. O telefonema de um brincante anunciou a boa nova; Seu Zé Duda assim relata:
Aí eu tava em casa, o cara ligou pra mim. “Ô Zé Duda, tudo bem?”. “Tudo bem”. “Tás aonde?”. “Tô em casa, aqui na praia.” “Tenho uma novidade pra tu.” Eu disse: “o quê?”. Ele disse: “diz quem deixou de beber?” Eu disse: “quem tava bebendo!” Ele disse: “Luiz Caboclo deixou de beber!” Eu disse: “comé a história?” “Luiz Caboclo deixou de beber”. (...) troquei de roupa e parti pra casa dele em Condado. Quando eu cheguei lá, ele tava botando a ração prum garrote dele, aí a esposa dele me arrecebeu, eu disse “Cadê Luiz?” “Está ali”. “Chame ele que eu quero falar com ele”. Lá vem ele: “diz!”. (...) ele chegou: “diga, tudo bem?” Eu disse: “melhorou agora”. “Qualé o problema?” “O problema é que eu to precisando de você”. “De mim?” Eu disse: “sim”. “No que eu posso lhe ajudar?” “Eu quero você como meu mestre caboclo”. “Seu? Estrela?” Eu disse: “eu quero. Vá rapaz, sou eu que tô querendo, sou eu que tô querendo você. Você vai se dar bem.” Aí ele aceitou. Quando ele aceitou, hoje em dia, é a unha do meu dedo. Todo mundo se admira como foi que ele me mudou. Ele tá estes ano todinho como mestre caboclo comigo, ele nunca me deu um grito, nem eu dei nele. Eu nunca ensinei nada a ele, nem ele ensinou a eu, no olhar assim, a gente se namora nos desfile. Caboclo, chapéu de toda a qualidade, eu escolho uma cor e faço o dele, pra eu achar ele onde eu quero. Lá do pé do terno, eu acho ele como se fosse lá na pista... eu trago ele no olhar. A gente tem este contato, a gente dois. Então, é uma felicidade.
Nasceu uma grande parceria. Os mestres Luiz e Zé Duda estão sempre juntos, nos terreiros e nos palcos, nas atividades como mestres griôs. Zé Duda relembra: “Se você visse Luiz antigamente, você num dava um centavo em Luiz. Mas hoje em dia, dinheiro do mundo é pouco pra comprar Luiz, porque domesticaram.” Ao mencionar a “domesticação”, Seu Zé Duda se refere à forma de Luiz agir, pois antes de entrar no Estrela de Ouro, era considerado um homem de pouca paciência, “estourado”.
Quatro anos após Seu Luiz assumir o Maracatu Estrela de Ouro como chefe da caboclada, o Ponto de Cultura foi implantado. Perguntei a ele se houve diferença entre antes e depois de 2004, ao que ele me respondeu:
Ah, demais! Porque antes de ser Ponto de Cultura, era uma dificuldade retada pra gente botar o maracatu fora. O maracatu tinha muita história e a gente trabalhava pra não ser deflagrado aos outros. (...) antes de ser Ponto de Cultura era uma batalha pesada, e quando terminava o carnaval, taí o dono que não deixa eu mentir, quando terminava o carnaval, só era dívida. Teve carnaval aqui de a gente pagar o povo, chegando outro carnaval. Que a despesa do Estrela de Ouro é pesada. A gente pra botar um maracatu deste na rua, agora, no ano passado foi 40 e poucos mil reais. É um maracatu que é pesado demais pra se colocar fora. Um maracatu que sai 70 e poucos “folgazão” só de caboclo de lança , 175 componentes, 176, aluguel de 4
110 A cachaça é uma bebida bastante comum na Zona da Mata, região destacada por sua produção. Também faz
142 ônibus, 4 ônibus pra levar, ter um carro pra carregar a arrumação, comida pra esse pessoal, água pra manter este pessoal tudo em riba pra brincar
A primeira transformação pontuada pelo Mestre Luiz Caboclo foi a econômica. Como ele mencionou, antes do Ponto de Cultura chegar, existia grande dificuldade em estruturar o grupo para brincar no carnaval. As dívidas, antes do PC Estrela de Ouro, são uma lembrança comum na fala das pessoas do local; ou seja, a transformação econômica é sentida pela comunidade. Mas a mudança na vida do Mestre Caboclo também é algo que precisa ser enfatizada, pois é um exemplo claro de empoderamento.
Quando Seu Luiz foi para o Estrela de Ouro, em 2000, ele ainda trabalhava no corte da cana. A atividade só foi abandonada depois da chegada do Ponto de Cultura.
Ó, na minha vida, mudou muita coisa, porque é o seguinte – quando você vive dentro do mato, é uma coisa difícil. Porque eu fui um cabra criado em engenho, depois saí do engenho pra rua com 14 anos de idade. Mas minha vida era o que? Dentro da cana, minha vida era cortar cana. Trabalhei uns tempos cortando cana, do corte de cana, fui trabalhar de feitor de cabo, aí de cabo, quando eu vim me embora pra aqui, tomar conta aqui do Ponto de Cultura, como mestre caboclo aqui, eu ainda trabalhava de feitor, aí depois que se tornou Ponto de Cultura, foi que eu abandonei o corte de cana. Aí fizeram os projetos, os projetos aí...devagarzinho deu pra eu sair do corte da cana e agora, hoje eu me torno um homem realizado dentro da cultura. Não é esta coisa toda, não vou dizer “tô rico”, “tem muita coisa que eu arranjei” não, mas a bóia do meu fi tá mais tranquila do que quando eu cortava cana e trabalhava de feitor.
“Um homem realizado dentro da cultura”, dedicado a uma atividade que não lhe deixou rico, tampouco lhe permitiu adquirir grandes bens materiais, mas agora pode garantir, por exemplo, uma melhor alimentação para seu filho, melhor perspectiva de futuro para este.
A brincadeira que era discriminada, hoje traz orgulho. Seu Luiz percebe a mudança do tempo em que seu pai o proibia de brincar, e do agora, quando pais de crianças da região ficam encantados com o folguedo e pedem que seus filhos participem. Situação que lhe enche de orgulho:
Na época em que eu comecei a brincar maracatu, bem poucos pais deixava o filho se encontrar ao maracatu, porque era no tempo da violência, (...) tinha uma grande violência dentro do maracatu, tinha o negócio do cruzamento de bandeira, mas agora maracatu hoje é uma paz, todo mundo quer ver a boniteza. Hoje eu tenho um neto de nove anos de idade, brinca de caboclo aqui no centro de maracatu mais eu, entendeu? E é isso, eu tenho vários meninos de 12 anos, 13 anos, brincando neste maracatu cuidado por mim, e a minha responsabilidade é muito grande neste maracatu. (...) Eu tenho um menino aqui que já deu umas dez viagens, mora em Patininga, pra eu guardar a arrumação pra ele brincar. Tem cinco no Condado, tudo do tipo desses daí pra eu botar pra brincar este ano, por quê? Porque...uma que os pais confia neu e no trabalho que eu faço na escola que é decente demais. O pai bate em cima de mim [falando] “eu quero brincar”, vou na casa dos pais, levo o DVD das
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Figura 18: Bordado manual com lantejoulas
em gola de caboclo de lança, 2013.
Figura 19: Oficina de golas no Ponto de
Cultura Estrela de Ouro, 2014.
Fonte: A autora. Fonte: Perfil do Facebook do PC Estrela de Ouro. oficinas que eu dou, o pai fica embelezado como é que eu faço uma coisa dessa com as criança. Meu trabalho é esse.
A fala de Luiz adiciona um outro ínterim: a utilização de mídias para difundir as atividades da cultura popular desenvolvidas no Ponto de Cultura. Vídeos e discos são algumas das produções do Ponto, produzidos e disseminados em rede, demonstrando não apenas solidariedade entre as comunidades, mas também articulação política. Sem esquecer, a circunstância é intrínseca à folkcomunicação.
Seu Luiz é um dos ativistas constantemente presentes nas produções midiáticas. Trata-se de um profissional polivalente e muito respeitado. Desenha e borda golas, faz chapéus dos caboclos, lanças, saias das baianas, brinca o maracatu, dirige a caboclada. É, certamente, o principal responsável pela beleza das indumentárias do maracatu e, consequentemente, pela beleza do desfile do Estrela de Ouro em tempos de carnaval, especialmente. Segundo ele, quando chegou no Estrela, inventou um tipo de gola diferente para os caboclos, corte que acabou sendo reproduzido posteriormente em outros grupos. Depois de anos, praticamente sozinho, dedicados como artesão; ensinou o ofício a outros colaboradores, que hoje o auxiliam nas tarefas:
E então o trabalho de gola é cansativo demais, puxa muito pela vista da gente, que é um brilho medonho que a lantejoula tem. Mas já fiz muitas golas e a pior que eu fiz foi a de vidrilho, aquelas pedras compridas, aí você tem que dar dois pontos...um começo do ponto matando, e dois pontos na frente matando também, pra sustentar um vidrilho. E fiz várias de lantejoula, hoje eu não faço mais porque no carnaval aqui, o compromisso pra mim é grande. Eu mexo com guiada, amarrar guiada, saia de baiana, contato com baiana tudo é comigo, todas estas roupas que a gente tem ali, desenhado e a ser desenhado, tudo é eu que dou a história do desenho pra um menino que tem agora aqui, Léo...tudo é por mim. Imposto de chapéu, eu faço a armação, cuido do papel, vou pra casa lá, quem faz a cobertura do chapéu tudinho. Tinha ano aqui que fazia aqui, 50 e poucos chapéu, eu sozinho.
144 Ensinar ofícios é uma missão levada a sério por Seu Luiz. Uma constante em sua fala é a alegria que tem em passar o que sabe aos outros, especialmente a arte do maracatu às crianças. Questionei a ele porque isto era importante, ao que me respondeu: “É porque hoje, se a gente não desenvolver as crianças pra cultura... O velho tem que pendurar a chuteira um dia e então se a gente não fizer as crianças pro amanhã, cada vez mais a cultura vai descendo.” Seu Luiz vê, na transmissão dos saberes e fazeres, a continuidade da cultura popular; vê nas crianças o futuro da memória sociocultural da comunidade e, de certa forma, da sua missão. Isto parece ser a sua maior satisfação.
Na trajetória desta missão, o orgulho de ver seu neto (9 anos) e seu filho (19 anos), brincando o maracatu, também foi destacado em uma de nossas conversas informais. Fábio Silva, filho do Mestre Luiz, participa do maracatu como caboclo de lança e também brinca o cavalo-marinho. Participa das atividades da Biblioteca Mestre Batista e de outras oferecidas pelo Pontão Canavial; como aluno aplicado, participou ativamente da nossa oficina de fotografia. Recentemente, Fábio gravou cena, brincando o maracatu, para uma novela da Rede Globo. O fio identitário assim segue, revelando a cultura popular, muitas vezes midiatizada, a partir de novas gerações. Folkcomunicação, folkmídia e empoderamento andando lado a lado.