2. Theory
2.5 Bioavailability of Phosphorus
pela terra e de formação dos assentamentos, crescendo muitas vezes em um ambiente no qual o futuro é indefinido, pois esta significa apenas uma nova fase de desafios na vida das famílias.
Percebemos que, nessa nova fase, o momento a partir do qual se tornam assentados – uma vez que as famílias já se estabeleceram em seus lotes, com uma vida menos turbulenta que no período imediatamente anterior – as crianças e jovens tendem a retomar a vida escolar, muito embora nem todos a tenham abandonado durante os períodos vividos nos acampamentos, por mais improvável que isso possa parecer dadas as condições enfrentadas.
Até aqui pensamos no contexto da chegada ao assentamento, no estabelecimento da família em seus lotes. Após o momento da chegada, passamos a tentar compreender como se deu a vida dos jovens no assentamento, suas impressões e planos para o futuro, até o segundo momento do nosso trabalho, a entrada no Curso Magistério da Terra.
1.3.2 A juventude e o seu período de autoafirmação
Ao entrarem na juventude, quando olham em torno de si e precisam pensar alternativas de sobrevivência por conta própria, esses jovens se dão conta aos poucos das dificuldades que terão que enfrentar. Esse momento pode ser caracterizado como um momento de reconhecimento das dificuldades, devido às características do lugar social que ocupam e dos poucos recursos de que dispõem para reverter o quadro, e é também o momento de elaborar estratégias para enfrentar essas dificuldades.
Uma das características da juventude é que ela é o momento de definição de projetos para o futuro (NOVAES, 2010). É nesse processo de definição de projetos e de autoafirmação no mundo que se dá a constituição de suas identidades, ou seja, da definição de grande parte das características que levarão vida afora.
Em sua historicidade, uma identidade social carrega tudo o que o indivíduo foi, criou e se tornou, bem como tudo aqui que se incorporou da sociedade, consciente ou inconscientemente (MOREIRA, 2005, p. 17). Daí a importância de compreendermos essa trajetória que tem início nas lutas dos movimentos sociais e que acaba por influenciar em aspectos que vão desde a organização do espaço físico até suas aspirações mais subjetivas no plano individual, aspirações essas que sofrerão constantes transformações a partir das escolhas e relações estabelecidas.
Nos parágrafos a seguir tentamos compreender, a partir da alguns pontos característicos da relação dos jovens com o assentamento nesse momento de suas vidas, os direcionamentos tomados rumo a uma vida independente, de elaboração de planos para o futuro, mas também das inseguranças e incertezas que esse momento lhes impõe. Nos primeiros contatos que tivemos com os jovens assentados já no Centro de Formação constatamos que um traço marcante daquele período de suas vidas era o sentimento, em muito contraditório, traduzido pela emergência de, em alguns momentos, deixarem o assentamento e em outros de conciliarem a vida do assentamento com a vida na cidade.
Um dos problemas enfrentados pelos jovens assentados quando estão nesse período de definição de suas vidas é que não há espaço físico suficiente para que todos casem e construam as suas casas nos lotes dos pais. Estudos recentes que têm como objeto de estudo os padrões sucessórios na agricultura familiar apontam as dificuldades encontradas pelos jovens nesse processo. No caso específico dos assentamentos rurais, os lotes individuais não podem ser legalmente divididos entre os filhos. E, mesmo que isso fosse possível, não haveria espaço suficiente para que todos os filhos dos assentados pudessem produzir. Esse é um tema sensível no que diz respeito à juventude rural como um todo.
Como nem todos os filhos podem permanecer na propriedade familiar, geralmente apenas um dos herdeiros é beneficiado no processo de sucessão, na maioria das vezes, o filho homem mais novo ou mais velho. Recentemente, é possível constatar a mudança nos padrões sucessórios devido à redução do número de filhos, bem como através do processo de individualização dos jovens em relação à lógica coletiva familiar (CORDEIRO, 2009, p. 6).
Em muitos casos, esse processo torna imperativo para os jovens conquistar espaço em outras áreas de geração de renda que não estejam necessariamente ligadas à agricultura. Não sendo a área das terras suficiente para que todos os filhos possam dar continuidade às suas vidas com garantias mínimas de conseguir uma renda satisfatória para a sua família, ainda que construam e continuem como agregados ao lote dos pais, necessitam encontrar alternativas de trabalho em outras áreas ou atividades.
Percebemos nas falas dos jovens com os quais trabalhamos que esse impulso ocasionado pela falta de espaço para constituírem uma vida com base nas atividades agrícolas ultrapassa as barreiras do puramente econômico, principalmente quando é levado em consideração o acesso a bens de consumo típicos do urbano. O modo de vida de seus pais, visto como simples por muitos, do ponto de vista material, parece não mais interessar a parcela significativa desses jovens. O intercâmbio com a cidade, principalmente com a cidade grande, através das mídias às quais têm acesso, como a televisão, filmes ou mesmo através da internet, acessada a baixo custo nas lan houses, permite-lhes conhecer um conjunto de bens de consumo típicos do urbano que, na sua visão, podem tornar suas vidas, no mínimo, mais confortáveis.
Estudos sobre juventude rural têm enfatizado que esta categoria envolve grupos com origens sociais, espaciais e históricas diversas e que as suas estratégias de reprodução social são múltiplas. Alguns continuam no trabalho agrícola, outros migram para trabalhos temporários, há os que se engajam em trabalhos urbanos nas capitais, e ainda, os que buscam outras profissões através da educação formal (MENEZES, 2006 apud MALAGODI; MARQUES, 2007, p. 198).
Nesse processo, ficar e sair são estratégias complementares, baseadas em condições objetivas das famílias de agricultores e também pelos significados que essas alternativas oferecem para os jovens na montagem dos seus projetos de vida. O dilema entre ficar e sair esconde, de um lado, valores que se formam na mente dos jovens a partir das condições de que dispõem suas respectivas famílias, enquanto ao mesmo tempo representam alternativas do exercício de trabalho nos espaços rurais e fora deles. São as condições objetivas e subjetivas que formam as concepções dos jovens assentados e lhes fornecem elementos para que elaborem
seus planos de ação, que por sua vez orientam suas trajetórias de vida (MALAGODI; MARQUES, 2007, p. 199).
Em nosso caso, percebemos que, além das referências existentes no assentamento, esses jovens compõem o seu modo de ser com base em outros modelos, o que os leva a constituir modos de vida diferentes. Entretanto, esse intercâmbio não os descaracteriza enquanto jovens rurais. Eles não deixam de fazer parte do universo do assentamento por se espelharem em determinados aspectos da vida urbana. Isso é característico do processo de construção de suas identidades, um processo relacional entre espaços com características distintas: de um lado, o modo de vida tradicional, do outro, o urbano.
Para Moreira (2005, p. 17), cada identidade é expressão de múltiplas ordens relacionais que acontecem em redes materiais e efetivas de pertencimento. E pensando especificamente no processo que estamos analisando, esse pertencimento ao assentamento não se anula, embora transforme as suas relações com o local.
Percebemos isso, por exemplo, quando em suas falas nos relatam o momento de suas vidas em que constatam que conseguir determinados bens de consumo demandaria para eles muito tempo e dinheiro. A saída desse impasse se dá, para muitos desses jovens, através do adiamento do casamento, com o objetivo de “aproveitar a vida”, o que na prática implica em uma reflexão sobre as possíveis armadilhas que um futuro incerto pode trazer para suas próprias vidas e para as vidas dos filhos que teriam no futuro. Esse era um quadro bem recorrente nas conversas dos jovens, principalmente na época inicial do Curso, mas esse dilema os acompanharia durante todo o trajeto, transparecendo os planos e as estratégias pensadas para que alcançassem seus objetivos.
De fato, o que percebemos aqui, nesse processo de construção de suas identidades, é que o modo de vida eminentemente urbano não os transforma, assim como o modo de vida dos seus pais não é reproduzido integralmente. Eles moldam sua forma de ser a partir de diferentes referencias. Isso fica claro em suas escolhas. Percebemos isso quando os indagamos sobre o trabalho, tema que exploraremos em seguida.
1.3.3 Trabalho e gênero
No cotidiano de suas ações, os jovens iam descobrindo que não era possível viver de planos. O presente lhes batia à porta, e, enquanto se indagavam sobre os diferentes caminhos a serem trilhados em um futuro que, ao que tudo indicava, não tardaria a chegar, era preciso viver, dar conta do presente. E esse “dar conta do presente” na maioria dos casos significava ajudar as famílias no trabalho dos lotes.
No trecho a seguir, um relato sobre as perspectivas de ficar ou sair do assentamento, na qual um dos jovens, comentando a sua situação e a dos seus amigos, aponta alguns detalhes sobre a busca por trabalho e sobre como cada um deles optava pela continuidade da vida no assentamento; sobre a tentativa de viver na cidade ou sobre como alguns conciliavam a vida no assentamento e na cidade ao mesmo tempo:
O trabalho do campo é atrativo pra quem tá adaptado, mas para quem não tá se torna pouco. Tem pessoas que saem, mas retornam, tá entendendo? É assim, é favorável àquelas pessoas que querem ficar na área de assentamento, por exemplo, eu tenho três irmãos, mas nenhum quer ir pra lá, só quem frequenta lá sou eu, quem vai ter prioridade no lote sou eu, que convivi com meus pais.
[...] Geralmente quem fica [no assentamento] é o homem. Não quer dizer que é trabalho escravo [o trabalho agrícola], mas é que... o homem conhece mais o que é o trabalho do campo, a mulher não tem tanto assim essa preocupação. [As mulheres] saem mais pra estudar também, outras vêm trabalhar de doméstica aqui na cidade. Não voltam. Aproveitam o hoje e o amanhã a Deus pertence, não é? (M. S. - Aluno do Magistério da Terra).
A fala nos mostra um pouco de como se dá a construção de suas identidades com base em diferentes valores, inicialmente a questão de estar ou não “adaptado” ao trabalho no campo. Por trás desta inabilidade com trabalho no campo podemos identificar alguns dos pontos que levantamos até o momento, como a necessidade de sair do assentamento por falta de espaço, a necessidade de buscar emprego em outras áreas ou na cidade e também questões subjetivas, como a valorização de um modo de vida diferente daquele que o trabalho no campo poderia lhes proporcionar.
Um dado interessante da fala anterior é a referência feita entre as diferentes perspectivas de trabalho para os homens e para as mulheres e de como, a partir delas, cada um cria suas estratégias. Ela nos revela a concepção tradicional da vida