4.3 Instrumenter
4.3.2 C-BiLLt
Walter Benjamin, também do quadro teórico frakfurtiano, fala, sobretudo em seu texto O narrador, da importância da memória e da experiência. Para Benjamin a memória tem estreita relação com a transmissão da experiência que existia nas narrações de história orais. Uma experiência que, conforme explicita Kehl (2009), passa de geração em geração e não é idêntica à perpetuação da tradição, o que é fundamental diferenciar, posto que a tradição tem a função de indicar o lugar a se ocupar na ordem social, e está ligada à perpetuação do poder. A experiência, diferentemente, tem relação ―com o sentido que a coletividade é capaz de extrair a partir do que seus antepassados viveram, ou das narrativas que seus contemporâneos trouxeram de regiões e de países distantes.‖ (KEHL, 2009, p. 155-156). Estamos aqui a falar de uma dimensão ampla de
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Narciso, de onde vem o conceito de narcisismo, provém do grego narke, de onde também vem a palavra narcótico. Designa entorpecimento, embotamento. (BRANDÃO, 1992, p. 155)
memória, enquanto capacidade de manter sentido de história, de manter o sentido de passado, presente e futuro, capacidade de passar por um crivo crítico esse mesmo passado. E as gerações atuais parecem ter dificuldade nesse aspecto. Parece lhes ser característico uma fixação na etapa infantil, em que o sujeito não reconhece nem passado nem futuro, apenas o presente. Por isso que a pretensão do estádio atual do fetichismo de associar às mercadorias a possibilidade de ―viajar‖ — mesmo que momentaneamente, a exemplo dos alucinógenos — a mundos encantados ou paradisíacos, onde toda falta é negada, tende à pretensão impossível de restabelecer os estádios infantis em que domina majoritariamente essa temporalidade única do presente. Esse desejo de ser ―eterna criança‖ mantém o acento no presente. E essa ―espécie de durabilidade repousando sobre a impermanência das pessoas e das coisas, o dinamismo do vir-a-ser, a prevalência das situações‖ é algo pelo qual Maffesoli (2007, p. 100) não esconde o entusiasmo.
Mas para nós, trata-se de um presenteísmo no qual não reside qualquer potencial de emancipação, uma vez que a perda do sentido de história concorre ao desarmamento da tensão crítica, como explica Russell Jacoby em seu livro de título sugestivo, Amnésia social (1977):
O próprio esquecimento é comandado por uma por uma crença inabalável no progresso: o que vem mais tarde é necessariamente melhor do que o que veio antes [...] A celebração do presente é auxiliada pela história instantânea. As banalidades de hoje aparentemente adquirem profundidade ao se afirmar que a sabedoria do passado, apesar de todas as suas virtudes, pertencem ao passado. ( p. 15).
Maria Rita Kehl (2009) explica que já no início do século XX o homem moderno se sentia pressionado para estar disponível para o novo, independente de seu conteúdo. E a velocidade das mudanças ―exigiu que as pessoas se despojassem tanto de sua própria história quanto da memória de seus antepassados.‖ (p. 156).
Benjamin, no artigo Experiência e pobreza (2010), cita uma frase de Brecht para explicar o que, para ele, está em jogo: ―‗Apaguem os rastros !‘‖. E ele segue : ―Ficamos pobres.
Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio humano, tivemos que empenhá- las muitas vezes a um centésimo do seu valor para recebermos em troca a moeda miúda do ‗atual‘‖ (BENJAMIN, 2010 , p. 118-119). A grande atualidade dessa questão diz respeito ao fato de que a sociedade presente parece querer manter preso o sentido da história num presente contínuo, em que o novo é sempre louvado num processo tresloucado de novidade incessante, mas um novo imanente à realidade imediata.
fechado enquanto preceito moral a ser seguido, mas aberto à interpretação. Diferentemente da informação — ―que só tem valor no momento em que é nova [...] só vive nesse momento e precisa entregar-se inteiramente a ele e sem perda de tempo tem de se explicar nele [...] — a narrativa conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver [...] Ela se assemelha a essas sementes de trigo que durante milhares de anos ficaram fechadas hermeticamente nas câmaras das pirâmides e que conservam até hoje suas forças germinativas.‖ (Idem, 2010, p. 204).
As características que Benjamin exprime sobre informação — em comparação com a narrativa — são aquelas que caracterizam a organização social contemporânea que busca incessantemente a novidade que não permanece senão espaços curtos de tempo. Essa sociedade busca sempre a mudança constante para permanecer sempre a mesma. A essa sociedade Benjamin chamaria de sociedade da vivência que esmaga a construção de sentido. A narrativa perdura e mantém suas propriedades germinativas no tempo, constitui-se enquanto experiência, saber comunicável e aberto, por isso permite a construção de um sentido, pois possui qualidades distintivas, embora não necessariamente positivas. A vivência, por outro lado, não é comunicável, esgota-se no instante e, por isso, precisa agarrar esse mesmo instante. ―Não sei nem explicar como é bom quando eu vou fazer compras, é bom, ora‖, disse certa vez uma aluna. As vivências que propõem as mercadorias contemporaneamente, com seus ideais de autenticidade, de liberdade, de bem-estar, de beleza, de poder, etc. evaporam-se tão logo se encontram com seu comprador, porque logo vêm outras que prometem outras vivências que jamais poderão se transformar em experiências, pois se trata de objetos que são pura forma sem conteúdo e nunca serão nem mesmo simbólicos. São objetos cujo fetichismo (MARX, 1984) as tornou antes de tudo sígnicos (BAUDRILLARD, 2008), duplamente fetichizados (SEVERIANO, 2007), arbitrários. A eles podem ser atribuídos poderes psicossociais diversos. Já os objetos simbólicos são passíveis de comunicação de experiência e de sentido, pois podem permanecer também com suas ―propriedades germinativas‖ por bastante tempo. A dessimbolização do mundo (DUFOUR, 2005) vai de par com o enfraquecimento da memória da experiência no sentido de Benjamin, e o
Show do eu, trazido à discussão também por Paula Sibilia (2008), é signo da fragilização da experiência coletiva. ―Quando Walter Benjamin se referia à extinção da experiência na modernidade, aludia às implicações do modo de vida instaurado pelo capitalismo urbano e industrial, que dinamitou as condições para uma experiência coletiva e partilhada‖ (2008, p. 261).
É importante resguardar-se de mal-entendidos e esclarecer que não alimentamos uma nostalgia em relação à fase pré-capitalista. O que trazemos à discussão aqui, sob a forma de narrativa, é justamente a reflexão sobre a minha experiência docente com vista a analisar e tentar por em questão alguns aspectos do capitalismo que são fundamentais para se pensar uma sociedade para além dele. Porque é da utopia, das possibilidades utópicas do homem no dizer de Marcuse, da possibilidade de ir para além do universo já dado de uma vez por todas, para além do universo estabelecido da palavra e da ação, que se trata aqui. E não há como surgir utopia sem que haja uma tensão com a forma social vigente, que pode ser tida como a mais adequada por um grupo, a maioria, mas que não poderá sê-lo para a totalidade das pessoas. Essa parte para a qual a realidade social imediata bem que poderia ser outra ―concebe a utopia como processo que se antecipa no tempo ao que ainda não é, mas que aos olhos dessa minoria nada impede que possa ser. (SOARES &EWALD, 2010, p. 170) .
Na experiência como professor, alimentei a idéia de trazer a lume ―essa realidade sempre tensa‖ entre o real e o possível. Mas, nas discussões em sala de aula, na construção da experiência vivida com os jovens, senti a cada dia a angústia de alguns, a cada ano em quantidade maior, que não conseguiam expressar uma opinião, de forma oral nos debates, ou de forma escrita nas redações. Alguns simplesmente não ligavam para isso. O contra ou o a favor, o sim ou o não sem qualquer argumentação, sem qualquer desenvolvimento de idéia é algo que atormenta o professor e também os alunos, imagino.
Com o tempo, notei que nem mesmo opiniões ―reacionárias‖ conseguiam mais ser elaboradas. O que é, é assim e pronto. Parece de fato estar em perigo a capacidade mesma de elaborar um pensamento. O rodeio que significa o pensamento — rodeio que só pode existir quando algo não se encaixa, quando algo falta, rodeio em busca do que falta compreender — apresenta-se como esforço desnecessário. Pensar, refletir, problematizar, são categorias fora de moda.