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Se a instrução ao sósia é o nosso procedimento de coleta principal devemos então detalhar como e para que empregá-lo, para discutirmos as possibilidades de aplicação e de utilidade do procedimento. Isso é o que nos propomos nesta seção.

Basicamente, a instrução ao sósia resume-se em duas etapas: uma de coleta das instruções do trabalhador (texto oral gravado em áudio) e outra da produção escrita do trabalhador sobre suas próprias instruções. Nesta segunda etapa, o trabalhador lê as suas instruções já transcritas e tece um comentário por escrito sobre elas.

Entretanto, a realização da instrução ao sósia pode ser muito mais complexa. Segundo Kostulski (2010, em curso), o procedimento consiste em algumas etapas que podem ou não serem realizadas integralmente, vejamos:

17 Curso: “Linguagem, Trabalho e Desenvolvimento”, ministrado pela Profa. Dra. Kátia Kostulski, durante a semana de 25 a

29 de Outubro de 2010, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP.

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1º. Pede-se ao trabalhador instruções sobre como realizar uma atividade específica, a partir da situação fictícia que se criou de substituição do trabalhador por um sósia (fisicamente parecido com o trabalhador). Isso pode ser realizado com um ou mais profissionais da mesma área, assim, teremos várias instruções sobre uma mesma atividade. Em média, o tempo de coleta das instruções não deve ser muito maior que quarenta minutos de gravação para cada participante, para que não fique desgastante;

2º. Ao encerrar as gravações, o grupo de profissionais ou mesmo o trabalhador com o sósia poderá/rão discutir sobre as instruções;

3º. No dia seguinte, os trabalhadores realizam efetivamente a atividade que instruíram;

4º. Após realizarem a atividade, os trabalhadores, então, escutam as gravações de suas instruções e as transcrevem, registrando: suas surpresas, o que instruiu e não fez, o que não instrui e fez etc.

5º. Por fim, os participantes do procedimento reúnem-se, discutem sobre suas experiências e tecem um comentário.

Como podemos identificar, a instrução ao sósia é um processo bastante rico, porém simples e fácil de ser aplicado, ainda assim, nem sempre é possível realizá-lo em todas suas etapas. Por exemplo, nesta pesquisa, recorremos a duas participantes (com tempo de serviço diferente), utilizamos duas etapas (oral e escrita) de forma individual, não havendo um confronto direto entre as instruções das participantes, mas houve a determinação de uma atividade específica para a coleta das instruções. Kostulski, ao discutir e contribuir com esta pesquisa, esclareceu que o procedimento de instrução ao sósia apresenta uma grande variedade de formas de aplicações, ora é o pesquisador que a transcreve, ora recorre-se a apenas um trabalhador ou mais, ora apenas se coleta as instruções da primeira etapa... Em outras palavras, o procedimento é flexível e pode ser adaptado conforme os objetivos que se propõem ou mesmo às condições de pesquisa que se tem. O mais importante é criar, na primeira etapa, a situação fictícia de substituição, pois é a partir do confronto do sósia com o trabalhador, da surpresa do sósia sobre uma dada instrução que emerge aquilo que funciona e aquilo que empaca no trabalho (KOSTULSKI, 2010, em curso).

Na etapa em que o trabalhador deve tecer um comentário sobre as suas próprias instruções, segundo Clot (2006), há novamente um conflito entre o trabalhador e “uma atividade de escritura que é ela mesma, eventualmente, endereçada a outros que não o sósia”

(CLOT, 2006, p. 144). Essa atividade de “escritura” é o resultado do conflito entre as instruções do trabalhador e os questionamentos do sósia, além da atividade efetivamente realizada pelo trabalhador (CLOT, 2006), eis a condição para se desenvolver uma nova “tomada de consciência” não apenas sobre o objeto, mas sobre si mesmo. O trabalhador tem, então, a oportunidade de se perceber no outro, no questionamento do outro, na forma conjunta que desenvolveram uma atividade e da forma como a realizou, despertando uma consciência para novas possibilidades. Para Clot (2006) “a tomada de consciência não é apenas uma nova representação do objeto, sendo também, simultaneamente, outra representação do sujeito que ‘se percebe’ na atividade do outro, esse outro que ele investiu e com quem se confronta” (CLOT, 2006, p. 148). Muniz (2008) defende que a instrução ao sósia é um recurso metodológico que não pode ser considerado uma técnica a favor do simples conhecimento da atividade, mas sim, um instrumento de “desenvolvimento do poder de agir dos protagonistas do trabalho” (2008, p. 80), em outras palavras, do coletivo de trabalho.

Esta é a grande motivação por optarmos pela instrução ao sósia, por a compreendermos como um dispositivo de instrumentalização psicológica e crítica tanto para o trabalhador como para o futuro trabalhador, isto é, possibilita o desenvolvimento e formação do métier e dos sujeitos trabalhadores, sejam experientes ou iniciantes. Isso é possível, porque o procedimento tem uma base filosófica monista-materialista (SPINOZA, 1677/1965), que assume o homem trabalhador na sua integridade de suas capacidades físicas, emotivas, fisiológicas, psíquicas, o que implica em priorizar a linguagem no processo de formação e de desenvolvimento humano. Clot (2006) argumenta que numa perspectiva vygotskiana, o diálogo e o conflito são energias motrizes do desenvolvimento, logo, o procedimento de instrução ao sósia, por si só, já provoca transformações.

Devemos também considerar outros aspectos da instrução ao sósia: é flexível quanto à forma e ao contexto de utilização; constitui e fortalece o coletivo de trabalho; protege o trabalhador da exposição direta do seu trabalho (com o uso do pronome você, o profissional afasta-se de sua atividade e tem a oportunidade de vê-la externada como mais um elemento do

métier de trabalho); gera um embate, um confronto entre o que se externa e o que se faz realmente, comprovando para o próprio trabalhador o alto nível de complexidade de seu trabalho, em síntese, gera maior criticidade sobre o que se faz e como se faz. Por isso, é um procedimento também utilizado na formação de futuros professores.

Na formação inicial para professores podemos citar: Saujat (2002) e Faïta (2005) do grupo ERGAPE (Ergonomie de l’Ativité dês Professionnels de l’Education), do Institut de

Formation de Maîtres de Marselhe; Goudeaux (2007), da Universidade Genebra, Charmillot, Goudeaux, Seferdjeli & Stroumza (2006) e Goudeaux & Stroumza (2004) que defendem a instrução ao sósia como um dispositivo de pesquisa, de formação e de desenvolvimento. Esses são alguns nomes que recorrem à instrução ao sósia para a formação de professores, e é válido destacar, que esse procedimento é muito utilizado em outras situações de pesquisas, como em Kostulski (2009) que investigou o trabalho jurídico francês.

No Brasil, como já mencionamos, o procedimento ainda é pouco difundido, todavia, diferentes pesquisadores o utilizam para conhecer mais sobre o trabalho do professor ou outros campos de trabalho. Por exemplo, o trabalho de Muniz (2008), integrante do grupo ALTELIER, do LAEL, na PUC/SP, da linha de pesquisa Linguagem e Trabalho, que investigou o trabalho da defensoria pública de Minas Gerais.

No campo do trabalho do professor, temos: Maria Isabel Tognato (2008) que utilizou a etapa oral de coleta das instruções do trabalhador ao sósia, durante uma semana com professores do ensino fundamental, em Língua Inglesa, da rede pública do Estado do Paraná. Segundo Tognato (2008), em suas conclusões, o uso do procedimento de instrução lhe permitiu enxergar além do óbvio, pois, seria muito natural que, com a pesquisa, chegasse às minúcias do trabalho dos professores (como chegou: atividades antes, durante e após a sala de aula), porém, o que ela também constatou foi que a instrução ao sósia lhe possibilitou reavaliar e repensar sobre seu próprio trabalho.

Adriana Pinto (2009) investigou o trabalho do professor do interior paulista, do Ensino Fundamental, com a etapa oral de coleta das instruções com o procedimento de instrução ao sósia. A partir da pesquisa, a pesquisadora identificou os elementos do trabalho do professor (professor, outrem, objetos) e a relação do professor com esses elementos, isto é, os conflitos e as possíveis soluções para esses conflitos, como também, detectou as tarefas prescritas e autoprescritas. Com isso, concluiu que através do procedimento de instrução podemos adequar melhor as pesquisas científicas ao trabalho do professor, evitando ser mais um problema para o professor resolver e, sim, contribuindo de fato para uma transformação do

métier e dos trabalhadores e não apenas absorvendo informações ou mesmo censurando-as. A pesquisadora, Siderlene Muniz-Oliveira (2011), integrante do grupo ALTER, recorreu à primeira etapa do procedimento de instrução ao sósia (o texto de instruções) para investigar o trabalho do professor de pós-graduação, strictu sensu, de uma universidade pública. A estudiosa constatou a multiplicidades de funções exercidas pela professora, que

apresentou em suas instruções um esgotamento com a sobrecarga de ter que gerir várias atividades, que implicam em funções e posicionamentos profissionais diferenciados. Segundo Muniz-Oliveira (2011), essas dificuldades deveriam ser colocadas no coletivo de trabalho, para que assim, o próprio coletivo buscasse “caminhos para sanar essas dificuldades e renormalizar as prescrições, visando a diminuição de seu sofrimento no trabalho” (2011, p. 156). Logo, o procedimento lhe permitiu ter uma dimensão mais abrangente da complexidade que marca o trabalho do professor de pós-graduação, inclusive da necessidade de consolidação do métier de trabalho (MUNIZ-OLIVEIRA, 2011).

Em outras palavras, com os resultados dessas pesquisas (pesquisas de doutorado), podemos afirmar que o procedimento de instrução ao sósia contribui para uma maior sensibilidade e criticidade sobre a complexidade da atividade do trabalhador, o que é um fator positivo tratando-se de um dispositivo que vise à formação e ao desenvolvimento do trabalhador e de seu métier.

Encerramos esse capítulo, após definirmos o procedimento de instrução ao sósia, como podemos utilizá-lo e o que nos motivou a isso, conforme proposto. Passaremos, então, a discussão dos caminhos metodológicos de coleta e de análise próprios dessa pesquisa.