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Bildekvalitet og diagnostisk verdi

A História Oral como metodologia de pesquisa reivindica tanto pelo sujeito que a implementa quanto pelo cenário no qual ela é implementada, cujo terreno é formado pelas narrativas.

Assumir as narrativas como fundamentais para conhecer algo, como resíduos de enunciação a partir dos quais o pesquisador intencionalmente cria fontes históricas, implica desestabilizar o registro, a interpretação, aceitando a verdade do sujeito que fala sobre aquilo que se pretende conhecer (GARNICA, 2007, p. 31).

Narrativa, na concepção de Bolívar (2002), é: “[...] a qualidade estruturada da experiência entendida e vista como um relato; [...] uma particular reconstrução da experiência, por meio da qual e mediante um processo reflexivo, se dá significado ao vivido” (p. 5).

As narrativas revelam-se, frente ao pesquisador, como uma alternativa para a abordagem de mundos individuais de experiência, que possibilitam o alcance do mundo experimental, agora, de outro modo, com a estruturação do mundo presente. Entendemos com Larrosa (2001) que experiência “é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca” (p. 4). Para esse autor, experiência não se insere em uma conotação exclusivamente empírica ou experimental, nem se configura como uma prerrogativa de autoridade, muito menos como sinônimo de prática; não é um conceito, nem um fetiche, nem um imperativo. Na presente investigação, pensamos, portanto, a

experiência “não a partir da ação, mas da paixão, a partir de uma reflexão do sujeito sobre si mesmo do ponto de vista da paixão” (LARROSA, 2005, p. 4). Cada indivíduo, portanto, narra sua experiência passada, reavaliando-a frente à situação profissional, histórica, social do presente. Tratamos experiência, aqui, como

o modo de habitar o mundo de um ser que existe, de um ser que não tem outro ser, outra essência que sua própria existência – corporal, finita, encarnada no tempo e no espaço – com outros... Talvez, por isso, trata-se

de manter a experiência como uma palavra e não fazer dela um conceito...38

(LARROSA, 2003).

Logo, as narrativas constituem não só o instrumento para o alcance das experiências, mas são elas próprias constituídas dessas e constituintes de (novas) vivências.

Ora, podemos dizer que a postura envolvida com a História Oral é genuinamente hermenêutica: o que fascina numa entrevista é a possibilidade de tornar a vivenciar as experiências do outro, a que se tem acesso sabendo compreender as expressões de sua vivência. [...] “Compreender”, diz Dilthey, “é reencontrar o eu no tu” (p. 191). É alargar nossos horizontes em relação às possibilidades de vida humana, é vivenciar outras existências (ALBERTI, 2003, p. 2 – grifo da autora).

Em vista disso, nossa ótica esteve voltada para as experiências/vivências por meio das narrativas em seus mais variados contextos relacionados aos livros didáticos de Matemática, considerando que elas detêm tanto posicionamentos frente aos usos desses livros quanto elementos possivelmente desconhecidos ou ocultos.

Um trabalho em História Oral é, “pois, sempre, um inventário de perspectivas irremediavelmente perpassado pela subjetividade, um desfile de memórias narradas, um bloco multifacetado de verdades enunciadas” (GARNICA, 2010, p. 31).

Cabe destacar, no entanto, que as narrativas têm em si – às vezes de forma latente, conforme Walter Benjamin (1994) enfatiza – uma dimensão utilitária que varia entre um ensinamento moral, uma sugestão prática, ou uma norma de vida, mas sua arte está em evitar explicações. Para esse autor, narrativa é “uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para, em seguida, retirá-la dele” (BENJAMIN, 1994, p. 205).

A adoção da História Oral exige, portanto, maior atenção em relação às diferenças e singularidades, pois segundo Meihy (2002), elas colaboram na compreensão das identidades e dos processos das construções narrativas, nos quais “todos são personagens históricos, e o cotidiano e os grandes fatos ganham equiparação na medida em que se trançam para garantir a lógica da vida coletiva” (p. 20-21). A necessidade da História Oral se fundamenta, conforme esse autor, no direito de participação social, e, nesse sentido, vincula-se ao direito de cidadania.

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No original: “el modo de habitar el mundo de un ser que existe, de un ser que no tiene otro ser, otra

essencia, que su propia existencia: corporal, finita, encarnada, en el tiempo y en el espacio, con otros... Tal vez por eso se trata de mantener la experiencia como una palabra y no hacer de ella un concepto...”

Trabalhar com História Oral é, sobretudo, não querer uma história totalizante a partir dos depoimentos; tampouco provar uma verdade absoluta. É dar espaço aos sujeitos anônimos da História na produção e divulgação dessa, procurando articular suas narrativas aos contextos e elementos do(s) objeto(s) em pesquisa. É estar preparado para compreender que nem sempre o ato de rememorar é uma ação saudável e positiva para o sujeito, pois pode trazer dores e sofrimentos. É escrever história sem sacramentar certezas, mas diminuindo o campo das dúvidas (SILVEIRA, 2007, p. 41).

No nosso caso, investigamos por regimes de verdade que cada uma das versões registradas em relação aos livros didáticos de Matemática cria e faz valer, possibilitando, assim, reestabelecer as dimensões tanto dos registros quanto das práticas docentes quando do uso dos livros nas aulas de Matemática.

Nosso referencial teórico-metodológico nos permitiu “trafegar por outras cercanias, ter outros interlocutores e vizinhos, outras questões de pesquisa que não as ‘históricas’” (GARNICA, 2007, p. 21), apesar de não ser possível segregar de nosso trabalho aspectos historiográficos, já que

quem usa a História Oral visando a compreender o que quer que seja, estará, intencionalmente, produzindo fontes que podem – ou não – servir para expor perspectivas biográficas e contextuais não só sobre aquilo que se estuda, mas sobre aqueles que, com seus depoimentos, nos permitem uma aproximação ao objeto analisado. (GARNICA, 2010, p. 31).

Assumir a História Oral segundo a perspectiva de nosso estudo é, portanto, apreender usos dos livros didáticos de Matemática por meio da natureza e do contexto da rememoração, sendo que memória não se resume a um exercício simples de lembranças, pois existem inúmeras formas de rememorar e diferentes razões por que nós queremos (ou não queremos) rememorar (ERRANTE, 2000, p. 143).

Dentre as enunciações teóricas que envolvem a memória, Ferreira (2002) destaca a do sociólogo Maurice Halbwachs, a qual também elegemos como coerente em relação a nosso estudo. Nesse caso, a memória é tratada quando da relação entre a

repetição, considerada como revisão, e a rememoração. A rememoração advém da

incapacidade de lembrarmos “as imagens do passado como elas acontecem, e sim de acordo com as forças sociais do presente que estão agindo por nós”; afirmando- se, com isso, que “a memória coletiva depende do poder social do grupo que a detém” (p. 321). A memória deve ser entendida, portanto, como uma construção feita no presente a partir de experiências ocorridas no passado, ou seja, uma produção decorrente de muitos estímulos.

A História Oral que praticamos é disciplinada e autêntica pela preservação da integridade de nossos colaboradores, com o registro de múltiplos pontos de vista. Nesse contexto, a realização de entrevistas, necessariamente, leva em conta a vasta gama de significados conflituais e mesmo paradoxais que possam emergir entre as versões registradas. Em nossa investigação, sem realizar classificações prévias, consideramos tanto as tensões entre as histórias particulares dos professores quanto aquelas que marcam os contextos culturais em que eles se mostram inseridos.

Nossa intenção de análise39 nesta investigação que faz uso da História Oral é tecer

um “arrazoado das compreensões” que se consegue “costurar nessa trama de escuta atenta” (GARNICA, 2007, p. 61) do que é dito a nós pelos colaboradores. Trata-se, portanto, de uma escuta que vai além de uma simples captura de um som pelo ouvido, pois alcança uma busca de sentido, de entendimento ao que se ouve, incitando uma postura de estudo e de produção de significados (FIORENTINI, 2012). Concordamos com Garnica (2007) que nossos depoentes não meramente narram sobre algo, ou seja, não só narram a respeito de livros didáticos de Matemática e seus usos; nossos depoentes “narram-se” e, assim, “explicitam plenamente a subjetividade que o pesquisador deve respeitar ao tramar suas análises” (p. 44). É exatamente por isso que na presente pesquisa e em pesquisas em História Oral – salvo raríssimas exceções – a polêmica relacionada ao anonimato dos sujeitos não se estabelece.

Segundo Garnica e Souza (2012), os desígnios dos pesquisadores em ocultar sob pseudônimos seus colaboradores, em quaisquer modalidades de pesquisa qualitativa, frequentemente deslizam para um “pseudoanonimato”, já que as características gerais do entrevistado devem ser sempre tornadas públicas, uma vez que as percepções do depoente estão imbricadas às suas experiências e aos lugares que tomam no mundo. Sendo assim, “explicitar – de uma forma ou outra – quem são os depoentes é necessário até para avaliar a pertinência desses depoentes no processo de construção solidária das compreensões que a pesquisa busca” (Ibid. p.104).

39 Explicitaremos melhor, no Capítulo 4, o modo como a análise das narrativas acontece nesta

Com esses pressupostos, a tarefa proposta aqui é tentar atribuir sentido ao modo como os professores se narram para, assim, assumirmos o lugar de pesquisadoras para a produção de significados.