O I Congresso Regionalista do Nordeste contou inicialmente com a participação de Carlos Lyra Filho, Moraes Coutinho e Gilberto Freyre, e posteriormente, com uma comissão designada especialmente pelo Centro Regionalista do Nordeste e responsável pela elaboração do regimento interno, composta por Moraes Coutinho, Luiz Cedro e Odilon Nestor (FREYRE, 1977, p. 176). Sobre a realização do I Congresso Regionalista, presidido pelo professor Odilon Nestor e inaugurado no salão nobre da Faculdade de Direito de Recife, alguns jornais da época veicularam informações sobre a programação, sessões e reuniões plenárias. O Jornal do Brasil e o órgão A Província destacavam antecipadamente a instalação do Congresso, evidenciando os diversos assuntos pautados pelos regionalistas e o interesse que despertava principalmente aos arquitetos:
Na cidade do Recife, realiza-se no dia 7 de fevereiro próximo, o 1º Congresso Regionalista do Nordeste. Este Congresso vem despertando bastante interesse nos meios intellectuaes, porque nelle serão discutidos diversos assumptos pela primeira vez estudados em nosso paiz, taes como urbanismo, defesa architectonica, architectura paisagista, hygiene das habitações, etc. Os nossos architectos estão bastante interessados pela sua realização (Jornal do Brasil, 26 de janeiro de 1926).
[...] o Congresso... Regionalista se propõe a tratar dos assumptos, os mais variados: a defeza do nosso patrimonio artístico, a physionomia das cidades, a unificação intelectual, os maracatus, os sambas, o miudinho; o candomblé, o passo da ema, o sae azar, o chão de barriguinha, os torrados, o cuscus; o angu de milho; a papa de maisena; a tapioca de coco; o macasado; a brôa de gomma, o mingau de araruta, o peixe frito, o pirarucu, a pipoca, e... segundo informou-me um amigo até a gaiola de passarinhos! Certamente de tudo isto ficará encarregado o Sr. Gilberto Freyre... (A Província, 29 de março de 1925).
Em relação às teses apresentadas, de acordo com os jornais A Província, em sua edição de 16 de outubro de 1925, e o Jornal do Brasil, em edição do dia 26 de janeiro de 1926, a programação geral dividia-se em duas partes. A primeira parte definida como
27 O Centro Regionalista do Nordeste foi inaugurado em Recife nos idos de 1924 e presidido por Odilon Nestor
(1874-1968). Sobre a sua fundação e o programa de ação, ver: (GIUCCI, Guillermo; LARRETA, Enrique Rodríguez, 2007, p. 290-296).
Problemas Econômicos e Sociais estava aliada a cinco temas que tratavam sobre: 1º - Unificação econômica do Nordeste. Ação dos poderes públicos e dos particulares; 2º - Defesa da população rural, habitação, instrução e economia doméstica; 3º - O problema rodoviário do Nordeste. Aspecto turístico e valorização das belezas naturais da região; 4º - O problema florestal. Legislação e meios educativos; 5 º - Tradições da cozinha nordestina. Aspectos econômicos, higiênico e estético. Já a segunda parte, intitulada de Vida Artística e Intelectual, foi distribuída em quatro temáticas, sendo elas: 1º - Unificação da vida cultural nordestina. Organização Universitária. Ensino artístico. Meios de colaboração intelectual e artístico. Escola primária e secundária; 2º - Defesa a fisionomia arquitetônica do Nordeste. Urbanização das capitais. Planos para as pequenas cidades do interior. Vilas proletárias. Parques e jardins nordestinos; 3º - Defesa do patrimônio artístico dos monumentos históricos; 4º - Reconstituição de festas e jogos tradicionais.
Conforme as edições entre os dias 7 a 11 de fevereiro, do órgão A Província, durante a sessão inicial foi servido aos congressistas um almoço ao ar livre à maneira pernambucana pelos antigos estudantes do curso jurídico de Olinda e dos veranistas de Ponte d’Uchoa e de Poço. As reuniões plenárias foram realizadas no salão de conferências do Departamento de Saúde e Assistência, onde foram discutidas e apresentadas várias teses de diferentes congressistas e magistrados, sendo bastante aclamado e causando “optima impressão” o trabalho “A esthetica e as tradições da cosinha nordestina”, de Gilberto Freyre. Segundo a edição do dia 11-02-1926 do já referido jornal, o Congresso encerrou-se na quinta-feira, com um jantar servido à moda regional nordestina, nos terraços do Departamento de Saúde e Assistência.
Foi no I Congresso Regionalista que surgiu a polêmica sobre o Manifesto Regionalista, pois Gilberto Freyre (1996, p. 47) afirma ter lido o texto de seu “Mani-festo” naquela ocasião, muito embora só tenha sido publicado em 1952. Contudo, de acordo com Roseli Cunha (2007), assim como Wilson Martin, o escritor e jornalista Joaquim Inojosa desconfia da autenticidade dessa afirmação, lançando três volumes nomeados O movimento modernista em Pernambuco (1968) e mais tarde, “com outros dois libelos tão desajeitados quanto o primeiro: Pá de cal (1978) e Susum corda! (1981)” (CUNHA, 2007, p. 108).
De qualquer maneira, tendo ou não lido o Manifesto, o que se sabe é que naquele momento Freyre acentuou uma importante reflexão sobre a necessidade de preservação da identidade cultural de cada região brasileira. Em vários artigos publicados entre os anos 1918 e 1925, especialmente no Diário de Pernambuco, Gilberto Freyre já pregava um regionalismo que, a partir das nossas peculiaridades e condicionantes específicos de diferentes regiões
geográficas, vinha ao encontro de uma grande unidade cultural. A culinária foi uma das questões mais enfocadas por ele, tida como indispensável e primordial para a manutenção da identidade nacional. Segundo Ricardo Luiz de Souza (2007, p. 184), a culinária representava para Freyre um fator tanto de identidade nacional quanto regional, pois ambas além de indissociáveis serviam para ligar o indivíduo ao seu passado, seja na perspectiva histórica quanto pessoal, resgatado por meio de lembranças sensórias.
O Congresso Regionalista e as ideias regionalistas perpassadas por Freyre e demais participantes28 foram difundidas e aceitas entre alguns escritores e artistas influenciados pelo
movimento regionalista. Conforme evidencia Tadeu Rocha em sua obra Modernismo e Regionalismo (1964), houve grande influência do regionalismo em Alagoas. Não é à toa que o jornalista Mario Marroquim publica uma crônica no Jornal de Alagoas, transcrita posteriormente no órgão A Província, exaltando a necessidade de Alagoas representar o Congresso Regionalista e colaborar eficientemente com o Centro Regionalista do Nordeste “para salvar das nossas tradições o que ainda for possível salvar” (A Província, 14 de abril de 1925).
Porém, esse movimento repercutiu também nos Estados vizinhos. Na Paraíba, ainda que reconhecidos romancistas e poetas da época como José Lins do Rego (1901-1957) e José Américo de Almeida (1887-1980) não tenham participado do Congresso, de acordo com Manuel Diégues Júnior, em prefácio dos Anais do cinquentenário do Congresso Regionalista do Recife (1976), ambos os escritores inspiraram-se nas ideias afloradas pelo movimento regionalista, repercutindo direta ou indiretamente em suas obras e, sobretudo, nos “romances regionalistas” 29. No que concerne a José Rodrigues de Carvalho, muito embora também não
tenha comparecido ao evento regionalista, em vários trechos de suas obras sente e elucida o terreno do regionalismo. Em um pequeno trecho da edição de 1928 do Cancioneiro do Norte, em notas intituladas Antes do Prefácio, Carvalho ressalta:
Sente-se que a displicência intelectual do momento nos leva para um terreno extravagantemente regionalista, em matéria literária. Do Rio Grande, da Amazônia, de Minas, de S. Paulo e Bahia, livros e mais livros de assuntos
28 Conforme José Aderaldo Castello (1961, p. 51-54) participaram diretamente do Congresso: Amaury de
Medeiros, Gouveia de Barros, Ulysses Pernambucano, Carlos Lyra Filho, Luís Cedro, Samuel Campelo, Aníbal Fernandes, Joaquim Cardoso, Mário Melo, Mário Sete, Manuel Caetano Albuquerque, Odilon Nestor, Morais Coutinho, Antônio Inácio, Júlio Belo, Samuel Hardman, Gaspar Peres, Pedro Paranhos, Leite Oiticica, Ascenso Ferreira e, naturalmente, Gilberto Freyre.
29 O “romance regionalista” tinha como intuito esboçar os conflitos e contradições de um Brasil moderno, urbano
e industrializado, em meio aos problemas da seca, a decadência dos engenhos de açúcar, além de descrever as “peculiaridades” paisagística, humana e cultural. A estudiosa Lúcia Miguel-Pereira caracteriza o romance regionalista em analogia à figura do turista, na sua ânsia em “descobrir os encantos peculiares de cada lugar que visita, sempre pronto a extasiar-se ante as novidades e a exagerar-lhes o alcance” (MIGUEL-PEREIRA, 1973, p. 180).
puramente regionais aparecem, ocupando lugar nessa confusa feira-livre de literatura da hora que passa. (CARVALHO, 1995, p.31).
Em seguida, ele salienta que os jornais do Rio de Janeiro proclamavam a excelência de concepções como “Esta negra Fulô, esta negra Fulô”30, achando de início ruim. Mas,
depois de tanto ouvir as sugestões alheias, já achava lindo o poema da negra “engendrando” ciúmes a senhora e “entontecendo” o senhor branco. (CARVALHO, 1995, p. 31). Isso demonstra que, apesar de não ter tomado parte do movimento, não implica afirmar que tenha agido em total hostilidade à pregação regionalista.