No campo dos estudos sobre a língua portuguesa e o uso de gêneros textuais, teóricos como Bronckart e Marcuschi nos mostram ser consenso entre os linguistas que a língua deve ser encarada como um instrumento de comunicação, devendo o ensino da língua materna ser realizado por meios de textos, focalizando a compreensão, a produção e a análise textual. Essas observações são bastante pertinentes, tendo em vista que, como afirma Bakhtin (2011, p. 261), “Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem”, que se concretiza através da língua, seja por enunciados orais ou escritos. Como os contextos sociais são diversos e dinâmicos, ao longo da história, várias formas de construir textos foram sendo elaboradas, portanto, existem várias espécies de texto que se agrupam de acordo com as suas especificidades, ao qual chamamos gêneros textuais.
Os gêneros textuais contribuem para a ordenação das atividades linguísticas do dia a dia, de acordo com as necessidades socioculturais, não é difícil perceber quando estamos diante de um aviso, de um bilhete, de uma bula de remédio ou de um manual de eletrodoméstico. Segundo Koch (2006), desenvolvemos uma capacidade metagenérica que nos possibilita interagir de modo adequado, na medida em que nos envolvemos nos diversos contextos sociais, é essa competência que nos permite produzir e compreender a diversidade de gêneros textuais. Essa profusão de gêneros é rotineira no nosso cotidiano e em cada
situação escolhemos um com características temáticas, estilísticas e estruturas próprias. Bakhtin nos diz:
A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório dos gêneros, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo. (BAKHTIN, 2011, p. 262)
Assim como as esferas das atividades humanas são muito heterogêneas, da mesma forma acontece com os gêneros textuais, apresentando grande heterogeneidade, indo desde uma conversa informal com um colega até uma tese científica.
Apesar de em cada contexto de comunicação os gêneros possuírem características específicas, não devem ser vistos como formas estáticas, possuindo estruturas rígidas, são “formas culturais cognitivas de ação social” (grifos do autor) (MARCUSCHI, 2011, p. 18). Dessa forma, os gêneros devem ser vistos como dinâmicos, situacionais e históricos, são entidades que mudam, se aglutinam, a fim de manter sua identidade funcional. Marcuschi (2010) afirma que os gêneros são artefatos culturais construídos historicamente pelos indivíduos, não entidades naturais como as pedras, as flores ou os rios, por esse motivo, certas propriedades que lhe devam ser necessárias, não são suficientes para podermos defini-los, assim, se ao escrevermos uma carta pessoal, esqueçamos de colocar o local e a data – que fazem parte da estrutura da carta pessoal – ela não deixará de ser uma carta.
Para Bhatia (2009), existem três aspectos que são fundamentais na descrição dos gêneros: (1) ênfase no conhecimento convencionado – os gêneros se desenvolvem em contextos convencionados, originando um conjunto de propósitos comunicativos para grupos sociais distintos, que, por sua vez, estabelecem formas estruturais relativamente estáveis; (2) a versatilidade da descrição dos gêneros – detalha o relacionamento entre texto e contexto, o uso que os indivíduos fazem da linguagem e como isso é possível, bem como o relacionamento entre língua e cultura; (3) tendência para a inovação – tendência natural à mudança, os gêneros textuais possuem uma espécie de complexidade dinâmica que, não raramente, é atribuída ao desenvolvimento tecnológico, aos artefatos multimídia, às interdisciplinaridades nos contextos dos trabalhos e, além de tudo isso, à necessidade de criação e inovação em ambientes profissionais competitivos.
Assim, para Bhatia (2009), a análise dos gêneros não é prescritiva e nem estática, cabe ao indivíduo uma exploração inovadora ou uma exposição limitada dos contextos genéricos padronizados, “O conhecimento de gêneros deve ser visto preferencialmente como um
recurso para a exploração das convenções genéricas, a fim de responder a situações retóricas recorrentes, ou não recorrentes, não como um esquema a ser copiado” (BHATIA, 2009, p.192).
Foi baseado nessa concepção discursiva que o Ministério da Educação (MEC) publicou Os Parâmetros curriculares Nacionais (PCN) – documentos que propõem diretrizes curriculares para o Ensino Fundamental brasileiro. Esses documentos propõem uma aprendizagem da língua baseada em dois pontos: uso da linguagem, por meio da leitura, da escuta e da produção textual; e reflexão sobre a língua, conforme o quadro abaixo:
Quadro I6: Aprendizagem da língua – uso e reflexão USO
1. Prática de escuta e de leitura de texto;
2. Prática de produção de textos orais e escritos.
REFLEXÃO Prática de análise linguística
A partir dessas concepções, os PCN mostram que os gêneros discursivos devem ser o objeto de aprendizagem da língua, propondo que não basta ensinar o código e seu conjunto de regras abstratas, mas se apropriar da língua é se apropriar dos diversos gêneros. Para os PCN (1998, p. 21), “Todo texto se organiza dentro de determinado gênero em função das intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos discursos, as quais geram usos sociais que os determinam.” Assim, os PCN (1998, p. 57) sugerem uma lista de gêneros que podem ser trabalhados, durante o Ensino Fundamental, como objetos de aprendizagem da língua oral e escrita:
6 Esquema adaptado dos Parâmetros Curriculares Nacionais Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental -
Quadro II7: Gêneros sugeridos pelos PCN
GÊNEROS SUGERIDOS PARA A PRÁTICA DE PRODUÇÃO DE TEXTOS ORAIS E ESCRITOS LINGUAGEM ORAL LINGUAGEM ESCRITA
LITERÁRIOS DE IMPRENSA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA Canção Textos dramáticos Notícia Entrevista Debate Depoimento Exposição Seminário Debate LITERÁRIOS DE IMPRENSA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA Crônicas Contos Poemas Notícia Artigo Carta do leitor Entrevista Relatório de experiência Esquema e resumo de artigos ou verbetes de enciclopédia
Dentre os gêneros apresentados pelos PCN, alguns foram escolhidos para serem trabalhados com a turma do 8º ano do Ensino Fundamental II, que serviu como base para essa pesquisa. Para o desenvolvimento da linguagem oral foram escolhidos: entrevista e debate; e para o desenvolvimento da linguagem escrita foram escolhidos: conto, artigo e relato de experiência.
A escolha dos gêneros textuais não foi aleatória, mas por acreditarmos que estariam mais relacionados com a faixa etária desses adolescentes. Além disso, os gêneros textuais, tanto os utilizados para o desenvolvimento da linguagem oral quanto o da linguagem escrita, estavam estritamente associados aos gêneros digitais.
Infelizmente, a tabela apresentada pelos PCN não enfatiza um tipo de texto que emergiu na sociedade contemporânea – o texto eletrônico –, chamado por Marcuschi (2010)
7 Quadro publicado nos Parâmetros Curriculares Nacionais Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental -
Língua Portuguesa - 1998. .
de gêneros emergentes, talvez pela época em que foi publicada (1998), em que essa explosão digital ainda estava no começo e se restringia a poucos. Mas, como sabemos, na atual vida social grande quantidade de relacionamentos está acontecendo de forma virtual, sendo mediados por textos escritos, onde a interação convencional face a face cedeu lugar às telas do computador.
Portanto, os gêneros textuais são entidades sócio-históricas com tendência à inovação, nas últimas três décadas, vários gêneros emergiram no contexto da denominada mídia eletrônica, apesar desses novos gêneros não serem inovações absolutas, pois partem de gêneros já existentes, eles possuem identidades próprias e merecem um estudo mais aprofundado.