Os anos 60 foram um período no qual as preocupações com o modelo de desenvolvimento econômico adquiriram uma conotação diferente, quando o processo de urbanização e a ampliação da esfera produtiva desvelaram problemas que até então eram apenas potenciais. Como nas fases precedentes, a população era dispersa e muito do que se tinha era a produção para o autoconsumo, os empreendimentos econômicos não demandavam uma quantidade significativa dos recursos naturais e as externalidades geradas atingiam um número pequeno de pessoas. Mesmo em situações mais extremadas, como explosões de unidades fabris e contaminação de bacias aéreas ou hídricas, o raio de impacto não trazia comprometimentos mais intensos nas comunidades (o que não quer dizer que a ecologia local não fosse seriamente degradada). Todavia, no momento em que os eventos passaram a ceifar vidas humanas e se destacaram nas cenas cotidianas, alguns atores tiveram que rever seu modo se atuação, ou então foram pressionados a fazê-lo. Não é de estranhar, portanto, que organizações públicas e privadas começaram a dar maior atenção ao que poderia ser feito para evitar incidentes fatais ou comprometedores.
Já neste primeiro momento, Barry Turner, professor de sociologia da Universidade de Exeter, Inglaterra, alertou que o foco principal estava sendo direcionado para aspectos secundários (TURNER, 1976). Cônscio das dificuldades inerentes à lide das incertezas futuras, o autor asseverava que as ações das organizações eram
mais determinadas por “regras de bolso” e por procedimentos costumeiros, capazes de gerar um clima de tranqüilidade para o processo decisório. Fortemente influenciado pela premissa da racionalidade limitada, cunhada por Simon nos anos 50 (SIMON, 1997 [1945]), Turner reconhecia que a realidade é caracterizada por problemas pouco estruturados, de difícil enunciado. Para as organizações, restaria tão-somente adotar seus próprios critérios para selecionar o que olhar e o que não olhar. E, no caso em questão associado aos acidentes, as organizações não estavam selecionando as lentes que proporcionavam a melhor acuidade.
Em termos sintéticos, o argumento de Turner dizia que os esforços estavam sendo direcionados, de forma predominante, para o entendimento do que havia acontecido de errado. A preocupação ficava circunscrita às manifestações aparentes, em uma autêntica investigação da gênese do evento. Segundo sua opinião, a partir de tal modelo o que vinha a tona eram falhas de natureza humana ou tecnológica, havendo sempre um culpado bem delineado, fosse um trabalhador fosse um equipamento. Por esse caminho, o autor era “desmascarado” e recebia a execração pública em múltiplas arenas. Na sequência, contudo, novos eventos de natureza similar tinham vez, sem que houvesse vozes capazes de prevê-los, até por que, afinal, não seria viável a antecipação da vontade humana. Para Turner, a circularidade do pensamento não era cabível e condenava parcelas da sociedade ao fenecimento. Claramente, algo estava equivocado e necessitava ser revisto.
Sua proposição básica consistiu no redirecionamento dos holofotes, no sentido de deixar um pouco na penumbra os elementos restritos do instante da tragédia e tentar iluminar os percursos que desembocaram no evento. Somente assim poder-se-ia identificar o fenômeno criado e compreender os motivos pelos quais ele não foi previsto. Atente-se que o autor não estava acometido pela soberba, pois não advogava a solução para os acidentes: sua motivação era entender como as organizações se comportaram, para permitir que se chegasse a um fato social considerado extremado por parte significativa da comunidade, em uma autêntica ruptura dos padrões culturais vigentes. Se essa ruptura levaria a uma mudança nas práticas e valores de sorte a inibir a reedição dos acidentes, seria outra cena a ser redigida.
A pesquisa que Turner empreendeu para elaborar sua perspectiva sobre os acidentes enquadra-se no ramo da Grounded Theory (TURNER, 1981), e contemplou uma série de desastres de larga escala que, conquanto potencialmente previsíveis e evitáveis, mostraram-se inesperados e graves a ponto de provocarem a reavaliação dos procedimentos administrativos para evitar sua repetição no futuro. Os dados obtidos tinham por origem os relatórios dos inquéritos realizados para mais de oitenta acidentes ocorridos na Inglaterra, para os quais foi elaborada uma codificação e posterior tratamento de forma a permitir a construção de categorias analíticas. A sua conclusão sublinhou que a frequente iniciativa de encontrar o culpado estava equivocada, haja vista que, no mais das vezes, a erupção dos acidentes correspondia a um resultado fruto das condições sociais e organizacionais, e não a uma conseqüência de uma intervenção individual. Tanto isso era factual que, entre 70% e 80% das recomendações dos inquéritos objetivavam alterações sem ser de caráter técnico, e sim gerenciais ou regulatórias (TURNER, 1994, p. 215).
O primeiro elemento destacado por Turner, muito recorrente nos casos estudados, era a rigidez nos valores e percepções dos padrões organizacionais. O argumento é que o credo cristalizado ao longo da prática acaba por reforçar atitudes que influenciam o processo decisório, sem considerar alterações exógenas. O agravante é que as vozes dissonantes tendem a ser abafadas ou expurgadas, reduzindo a diversidade de olhares, configurando um processo de imbreeding. Ou seja, a organização delimita suas transações com o ambiente externo e inibe a inovação e reduz a capacidade de resposta diante de novos vetores de força.
O segundo ponto levantado pelo autor, em uma tradução livre, é o problema do engodo. O que se percebeu é a forte tendência de haver o destaque de aspectos secundários, que são mais estruturados do que as demais dimensões do problema. Face a um conjunto que não consegue ser compreendido em sua totalidade, os atores se calçam naquelas facetas que possuem mais segurança, deixando ao largo as questões centrais.
Outro movimento assíduo é o descaso com as opiniões proferidas por pessoas externas à organização. Partindo da premissa de que os profissionais internos estão
mais preparados para entender e lidar com o trabalho, acaba-se desprestigiando outros saberes. No limite, pode-se chegar a beira da insensatez, tal qual definido por Tuchman (1986), quando as opções para uma encruzilhada são conhecidas e verbalizadas, só que são descartadas por aqueles que devem decidir.
Uma terceira condição encontrada e com grande impacto no agir organizacional está na comunicação interna das informações. Nos casos abordados por Turner, a presença de ambigüidade nos alertas, ordens e controles foi marcante, o que associado a informações equivocadas entre as áreas, desencadeou desencontros entre os níveis gerenciais. As razões para tanto são muitas, desde as idiossincrasias pessoais até a estrutura organizacional, passando pela falta de capacitação dos envolvidos e procedimentos anacrônicos. Assim, pode haver informações desconhecidas ou na posse de alguns poucos, informações que não são confrontadas com outras disponíveis, capazes de elucidar o quadro, e informações conhecidas, mas sem capacidade de reverberação no mapa cognitivo da organização.
Também com potencial disruptivo é a presença de pessoas estranhas aos serviços que lidam com substâncias perigosas e procedimentos de risco. A advertência pode parecer prosaica já que, a rigor, locais susceptíveis não deveriam estar ao acesso de pessoal não qualificado. Perrow nos ensina, entretanto, que até instalações de alta segurança como usinas nucleares podem permitir a entrada sub-reptícia de estranhos (PERROW, 2007, p. 137). Acontece ainda que não é apenas em áreas claramente perigosas que a questão aflora, como bem ilustra o lembrete de Turner de que mesmo a evacuação de um cinema pode ter pessoas indevidas em locais indevidos (TURNER, 1976, p. 390).
Ainda contribui para a conflagração dos acidentes a vigência de regulações obsoletas, que logicamente não são obedecidas e com isso catalisam comportamentos descuidados. A desatenção vira regra e a justificativa inicial que o aparato regulador possuía fica esquecida.
Por fim, pode emergir situações em que o perigo é desprezado. Tanto pode ser que a ameaça seja entendida como de somenos, como haver o conflito de opiniões,
dando azo à inércia. Outra possibilidade é que as pessoas atuem para minimizar o problema e considerem que o perigo foi sanado, quando não o foi.
A partir desse anteparo, Turner alinhavou um modelo ideal, segundo a tradição weberiana, composto de seis estágios, a saber: 1) normas e valores prevalecentes; 2) período de incubação; 3) precipitação do evento; 4) choque; 5) ajuste imediato e
ad hoc; e 6) reajustamento cultural. Denominado Man Made Disaster (MMD), o
modelo inovou ao realçar a latência que as causas dos desastres possuem, o que era relegado. Sem embargo, a hegemonia dos trabalhos atinha-se ao momento de eclosão e dos ajustes seguintes, sem a dimensão temporal ampliada. Mais importante, no entanto, foi o reconhecimento explícito de que os desastres são eventos sócio-técnicos (PIDGEON, 1997, p. 2), nos quais há um gerenciamento negligente ao não conseguir ler os sinais que o período de incubação proporciona (TURNER, 1994). Abriu-se assim a porta para que a análise organizacional pudesse entrar.
Na concepção de Gherardi (1998, p. 80), o MMD chega a ser um fato cultural em si ao cunhar uma frase que ficou incrustada no mundo científico e que também superou os muros da academia. Tamanho papel deriva de ser a primeira obra que distingue os desastres naturais daqueles provocados pelo homem, reforçando que os últimos não são atos divinos. Com detalhes, a autora esclarece que:
MMD is about how technical, social, institutional and administrative arrangements can produce disasters; it is about the relationship between information, error and surprise in organizations, `for we know that responsibility for failure can be just as dispersed and fragmented as responsibility for success (GHERARDI, 1998, p. 80).
Em termos analíticos, o MMD trouxe uma abordagem abrangente, capaz de englobar as múltiplas possibilidades para um fenômeno organizacional complexo, em todo o seu espectro de ocorrência. Com o fito de explorar sua potência explicativa, contemplando inclusive suas fragilidades, utilizar-se-á, a seguir, a crítica
de Gephart (1984), a qual apareceu pouco tempo após a divulgação do modelo e que continua, em muitos aspectos, válida35.
Robert Gephart, professor da Universidade de Alberta, Canadá, redigiu sua tese de doutorado no período próximo das publicações de Turner sobre o MMD, e uma de suas inquietações era que os modelos das organizações formais, tradicional objeto de atenção da teoria organizacional, não eram aplicáveis às organizações emergentes no final dos anos 70, principalmente nas situações caracterizadas por fortes relações interorganizacionais. Para eventos desestruturantes como os acidentes, então, a adequação era ainda mais distante. No vazio encontrado, o autor foi um dos poucos a perceber imediatamente a riqueza da elaboração de Turner e conseguiu lançar peias em balizas seguras com os alicerces do modelo, quando este deixou de priorizar os efeitos sociais dos desastres e descortinou os fatores organizacionais presentes (GEPHART, 1984, p. 208 e 209). A aproximação, porém, não se deu sem controvérsias. Na opinião de Gephart, Turner haveria conseguido pressentir as dificuldades com as abordagens tradicionais, só que teria desprezado a dimensão política e o papel que o poder desempenha nas relações sociais. Em razão dessas limitações, procurou ampliar as características do modelo MMD, chegando, inclusive, a propor uma nomenclatura diversa, que denominou
Organizationally Based Environmental Disasters (OBED). O resultado que obteve foi
interessante ao detalhar aspectos que estavam subentendidos, mas não é razoável admitir que tenha desenhado uma inflexão. A rigor, sua ótica está inserida no arrazoado de Turner, conferindo ao MMD uma clareza aos papéis desempenhados pelos atores sociais, mas não é aceitável dizer que seja um novo constructo teórico.
A crítica inicial é que o MMD parte do princípio que há uma realidade externa independente das pessoas e organizações, e que é viável o discernimento de uma verdade absoluta. Ora, Turner em momento algum explicita tal posição, advogando, sim, que existem normas e valores que fornecem os contornos para o agir social. Tanto isso é verdadeiro, que as falhas que permeiam a fase de incubação estão atreladas, em sua essência, aos diferentes olhares e entendimentos sobre o que é a realidade. E essa multiplicidade de imagens decorre justamente da impossibilidade
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Short e Rosa (1998) comentam a pouca repercussão à época. Este assunto será retomado mais à frente.
de haver “a” realidade. Quando Turner sublinha as dificuldades de comunicação, por exemplo, o que está em questão não se reduz a um problema de interpretação racional, que poderia ser sanada por medidas administrativas; o que ele chama a atenção é que a complexidade do mundo e os valores criam fluxos comunicativos mediados por aqueles que vocalizam as informações. Daí existirem tantas realidades quanto forem as pessoas que pretendam entendê-las, sabendo, também, que cada uma delas tenderá considerar tacitamente a sua como a correta.
O outro ponto criticado é que os atores sociais são motivados a aceitar as propriedades do mundo como elas são, recorrendo nessa lide aos mecanismos de comunicação e negociação. O desconforto de Gephart seria com o virtual desprezo pelos interesses contraditórios em qualquer sociedade, sejam os individuais sejam os estimulados pelas organizações e instituições. Aqui, mais uma vez, as tintas estão exageradas. Desde seus primeiros trabalhos, Turner fixou seu estudo nas implicações decorrentes das sociedades industriais e como as organizações exercem a dominação no ambiente de trabalho e alhures. Nesse labor, o cuidado com as falas e demais formas de manifestação de opiniões era uma tônica, afirmação que se respalda nas próprias ferramentas metodológicas por ele utilizadas, tal qual a valorização dos inquéritos com seus depoimentos. Chega a ser injusto, até, cogitar que as práticas eram tidas como isentas de simbolismos diante da mobilização empreendida para encontrar, no caldeirão das estórias narradas, categorias analíticas que apoiassem uma formulação teórica que contribuísse na elucidação dos encontros e desencontros entre os atores envolvidos nos acidentes.
Registre-se, todavia as diferenças acima elencadas entre os autores, que, em sua maioria, as proposições do modelo de Turner enriquecem o MMD. Um aspecto que logo desperta atenção está nas diferenças entre as posturas assumidas nas situações de acidentes. Na avaliação de Gephart, as visões dos setores capitalistas são convergentes com as do governo, sendo que as duas se distanciam das dos segmentos críticos. Isso se dá pela minimização, quando não pela banalização dos impactos que os eventos trarão. O lado antagônico, por seu turno, procura maximizar os problemas, tanto na intensidade dos impactos quanto na sua natureza. Perceba-se que esse estado de coisas está afeto às fases posteriores à precipitação do evento; apenas não há por que não ser aplicado às falhas descritas para o
período de incubação. Afinal, as dificuldades de percepção das pistas que surgem na gestação dos acidentes e as dificuldades de comunicação, têm boa parte de sua origem nos valores dos atores. O que Gephart propõe, ao fim e ao cabo, é localizar os interesses do capital, indicando que o Estado sanciona o interesse econômico em detrimento dos demais em todas as fases do MMD.
A outra dimensão que de certa forma procura ser destrinchada é a retórica, quando se aponta que aqueles afinados com o capital justificam os acidentes em argumentos fundamentados em questões técnicas, que no mais das vezes contradizem a opinião pelos prejudicados pelo evento. Esses, bem como seus representantes, resgatam as ameaças ao meio ambiente, independente da razão primeva do acidente, e fazem uso de correntes técnico-científicas e mesmo das experiências pessoais, naquilo que Brown (1992; 1995) denomina epidemiologia popular. Vê-se aqui, mais uma vez, que a tônica de Gephart reside na distinção entre o capital e as outras instituições públicas e as estratégias utilizadas.
Até como corolário dessas duas colocações, a terceira proposição é que os críticos não conseguem prevenir ou interromper a eclosão e duração dos acidentes, dado que não possuem acesso às arenas onde as intervenções podem vir a ser tomadas. Novamente, verifica-se que a intenção de Gephart é demarcar a assimetria na posse do poder na economia capitalista, o que é perfeitamente acolhido pelo MMD. Ao que tudo indica, o modelo de Turner é mais “magnânimo” ao deter uma amplitude heurística maior, podendo ser utilizado por seus detratores.
Reforçando sua sanha, Gephart inclui uma quarta proposição que salienta que as benesses da riqueza são distribuídas entre a classe capitalista e as externalidades negativas, como os acidentes, atingem com muito mais fúria a população local e o meio ambiente. Não há como negar a validade da assertiva, sendo ela tradicional na sociologia das organizações desde os escritos de Weber (STTALINGS, 2002). Turner de fato não enfatiza o ponto; o que não se pode esquecer é que os desdobramentos dos acidentes não estava no seu rol de investigação.
A quinta proposição não solicita tratamento, visto que consiste em uma redação diferente do fenômeno da incubação. Há uma observação de que o período de
duração do período pós-eclosão também é desconhecido, tal qual a fase de latência, que chega a ser, nos dias de hoje, aceito por muitos. O que aparta as organizações e pessoas, de fato, é a quem cabe o ônus das medidas corretivas a serem aplicadas.
A última proposição é pertinente ao relembrar o conceito de acidentes de Turner: estes são situações extremadas quando há a ruptura de valores de parcelas da sociedade, sem que isso acarrete, necessariamente, mudanças no futuro. Em outros termos, são eventos focalizadores que abrem janelas de oportunidade, as quais podem ou não ser aproveitadas (BIRKLAND, 1998; 2007; 2009). O que Gephart acredita é que a regra consiste na manutenção do status quo, e com isso propõe que o que sucede aos acidentes é a trivialização do evento. Nesse porém Turner não é explícito sobre quando há um aprendizado político ou não, demarcando apenas a hipótese teórica de vir a acontecer.
Do exposto, considera-se que Gephart carregou o MMD com adjetivos, sem que isso desmereça qualquer dos dois autores. O resultado é um modelo que influenciou as correntes seguintes, que se tornaram hegemônicas e se digladiam na atualidade (PERROW, 2009)