Uma produção intelectual espiritista como parte do intenso trabalho de criação dentro do movimento espírita havia se iniciado em décadas anteriores. Cedo, integrantes do grupo religioso se dedicaram à defesa de suas posições por via do escrito. Três autores se destacaram na produção de vários gêneros textuais. Bittencourt Sampaio, como editor da Garnier, já havia articulado a publicação pela editora de quatro das cinco obras do Pentateuco kardequeano. Em 1882, ele lançou “A Divina Epopeia de João Evangelista”. Segundo Wantuil, é uma versão poética do quarto Evangelho, sendo o texto bíblico convertido em versos decassilábicos no estilo das composições epopeicas (2002, p. 251).
Para o nosso estudo, entretanto, ainda mais importante foi a segunda parte desta obra. Sampaio inseriu após o poema um texto em prosa no qual analisa as passagens com base na Doutrina Espírita. Em seus comentários, procura defender a tese da divindade de Jesus, nitidamente uma apropriação roustainguista. Quando, em 1895, Bezerra de Menezes
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A noção de círculo parece-nos interessante, por explicitar o caráter marcadamente coletivo de sua produção, sem, óbvio, negar a questão da autoria individual. Assim, escolhemos chamar o grupo de literatos espiritistas integrantes do segmento “religioso” de círculo de Menezes, considerando que esses intelectuais “tiveram fortes laços de amizade, encontraram-se regularmente durante dez anos num grupo de estudos e partilharam um conjunto expressivo de ideias (FARACO, 2009, p. 13)”. Por anos, eles se reuniram em uma seção de estudos que funcionava no Grupo dos Humildes. Originários de posições sociais diversas e com uma formação plural, traziam como marca a heterogeneidade; porém estabeleceram uma unidade doutrinária em torno dos princípios evangélicos. Por suas características, guardadas as devidas proporções e especificidades, possuíam um funcionamento semelhante ao que vem sendo denominado de Círculo para classificar a escola linguística russa da análise do discurso (FARACO, 2009; BRAIT, 2009).
55 reassumiu a Presidência da FEB, ele compunha a comissão de frente, estando diretamente envolvido nas articulações para dar sustentação à gestão. Um dado pode nos possibilitar maior inteligibilidade sobre a clareza do grupo dos religiosos quanto à necessidade de produzir uma literatura capaz de dar sustentação doutrinária à suas posições. No mês de outubro, três meses depois da posse, Bittencourt estava trabalhando na escrita de outra obra no mesmo gênero da
Divina Epopeia, intitulada de Divina Tragédia do Gólgota, quando subitamente veio a óbito.
Os religiosos perdiam assim uma peça-chave. Morria um intelectual de referência e um dos principais articuladores das estratégias do grupo. O fato de ter a sua escrita sustada foi lamentado com veemência no Reformador (IDEM, p. 253). Há indícios de que existia em curso um projeto coletivo para intensificar a produção literária espírita. Diferentemente dos científicos da UEPB, que investiram na realização de eventos públicos com a utilização de diversos recursos musicais e teatrais, ao que tudo indica a aposta do círculo de Bezerra de Menezes foi a literatura27.
Uma peça importante na produção do círculo de Menezes foi Antônio Luiz Sayão. Carioca de nascimento, formou-se na faculdade de Direito de São Paulo, mas retornou à Capital do Império, aonde estabeleceu um escritório de advocacia no qual atuou por toda a vida. O aspecto que nos interessa, pórem, é o de sua militância no movimento espiritista. Sayão destacou-se como a liderança religiosa mais proeminente antes da cooptação de Bezerra de Menezes. Ante os conflitos internos que implodiram várias agremiações espíritas desde a década de 1870, ele tomou a iniciativa de fundar, em 15 de julho de 1880, um centro dentro dos moldes em que acreditava. Nesta perspectiva, começou a funcionar o Grupo Ismael, também denominado de Grupo dos Humildes ou até mesmo Grupo de Sayão. Extremamente vinculado a sua personalidade, os trabalhos organizados possuíam sua marca. Como já dissemos, as atividades deste, especializadas no estudo roustainguista, foram transferidas para a FEB em 1895. Durante mais de uma década, desempenhou a função de coordenação dos estudos roustainguistas, contribuindo para a formação de quadros no grupo religioso, atraindo lideranças que tiveram peso significativo nos rumos tomados pela Doutrina
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Não por acaso, no grupo a que pertencia Bittencourt Sampaio, floresceu uma produção literária, mas faltam esclarecimentos para potencializar a nossa compreensão acerca do seu papel. Até que ponto sua larga experiência como editor e poeta contribuíram na criação de uma literatura espírita nacional? Qual a relevância de sua inserção no mundo intelectual para a invenção do Espiritismo brasileiro? Estas são questões que permanecem sem respostas e estão fora das delimitações de nossa investigação. Resta-nos anunciar que sua morte, principalmente a forma como foi regulada sua perda, se constituirá em elemento central para a nossa trama.
56 Espiritista no Brasil. Não obstante, peso ainda maior neste sentido pode ter desempenhado sua produção intelectual.
Em 1893, no cenário das disputas intestinas, a experiência formativa do grupo Ismael foi sistematizada em um livro composto pela socialização de mensagens espirituais recebidas psicograficamente. Com 400 páginas, recebeu o título de Trabalhos Espíritas de um Pequeno
Grupo de Crentes Humildes. Apesar de não ter tido muita perenidade, essa produção foi o
indicativo da inserção de Sayão no mundo das letras espiritistas. Talvez um componente que explique a relativa falta de fôlego da obra quanto à perpetuação de tiragens nas décadas seguintes esteja relacionado ao gênero textual dominante em seu corpo. Observamos que, na História da invenção da literatura espírita mediúnica, diversos gêneros textuais e literários foram testados. Alguns encontraram sucesso editorial e foram consolidados, outros foram descartados no percurso ou adquiriram características marcadas pela efemeridade da circulação.
Quando analisamos mais detidamente esta obra assinada por Sayão, percebemos que ela foi constituída por mensagens, geralmente textos curtos que não ultrapassam duas laudas, nas quais se aborda uma temática específica com motivos evangélicos, se assemelhando de alguma forma aos textos inseridos no Evangelho Segundo o Espiritismo. Visam como mote ou compromisso primordial a não promover a fruição estética, mas a aprendizagem de conteúdos doutrinários.
Por suas características textuais, essa obra representou o surgimento dentro do círculo de Menezes, de uma publicação em suporte no formato de livro de textos obtidos via psicografia. Não obstante, mesmo constituída de textos psicográficos produzidos pelos médiuns da instituição nas reuniões do grupo, ela foi assinada por Sayão. À semelhança de Kardec, o regime de autoralidade da obra funciona nos molde de uma etnografia dos espíritos. Não há destaques nem concessões autorais aos psicógrafos. Representa um dado eloquente o fato de a maioria das mensagens psicografadas que a compõem, segundo Wantuil (2002, p. 357) foi produzida por um só medium: Frederico Júnior. Volveremos a alguns traços biográficos seus, mas por enquanto precisamos salientar que ele representou um parceiro essencial na criação deste livro. Sua publicação, entretanto, não traria mudanças quanto ao regime de autoralidade em funcionamento.
Com o acirramento das disputas internas, dando-se início ao projeto coletivo de intensificação da produção intelectual dos “Religiosos”, Sayão escreveu um texto ainda publicado na atualidade pela FEB. Seu objetivo era o de facilitar a recepção dos livros de
57 Roustaing. Deteve-se em produzir uma obra-síntese, encarregada de popularizar as ideias roustainguistas. Sua escrita denotava características semelhantes ao gênero da divulgação, comprometida com um aspecto didático, buscando facilitar o entendimento de uma produção considerada mais complexa. Neste sentido, há nela uma série de operações de seleção, correções, adendos, enxertos. O produto final adquiriu, assim, especificidades, trazendo uma configuração diferenciada da obra-matriz de referência. Ainda publicado pela FEB, o livro
Elucidações Evangélicas, de volume único, foi o instrumento responsável pela circulação e
perpetuação da defesa das teses roustainguistas em distintos momentos do século XX.
Esta obra, que apenas em sua primeira edição recebeu o título de Estudos dos
Evangelhos em Espírito e Verdade, foi prefaciada em abril de 1896, ano auge do conflito
entre religiosos e científicos, mas só vindo à luz em janeiro de 1897, após a deflagração da radicalização entre FEB e UEPB. Dividida em duas partes, a segunda era dedicada a mensagens psicográficas com temáticas abordando passagens do Evangelho. Novamente a parceria Sayão-Frederico Junior foi obnubilada. A segunda parte foi composta por quase cem mensagens doutrinárias psicografadas por Frederico Júnior. Permaneceu, porém, mais uma vez a questão autoral sem a fratura entre o autor empírico e o autor espiritual. O fato de a primeira edição ter incluído textos produzidos via psicografia, entretanto, parece representar uma aposta numa proposta editorial. Neste momento, a aposta foi malsucedida. Na edição posterior, sob a alegação de baratear os custos de venda para torná-la mais acessível aos consumidores, este encarte foi suprimido (WANTUIL, 2002, P. 357).
Outro dado interessante sobre esta obra refere-se ao recorte utilizado. Foram objeto de reflexão os textos dos evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, considerados sinópticos, já que o de João já havia sido analisado por Bittencourt Sampaio, inferindo-se uma possível divisão de tarefas pela complementaridade das obras escritas (WANTUIL, 2002, p. 148-149). Este nos parece outro indício de que havia um projeto editorial articulando e fomentando as produções literárias do círculo de Menezes com vistas à caracterização do Espiritismo como uma religião.
Mais um indicativo que compõe o espectro dos indícios sobre o projeto editorial febiano orquestrado pelo círculo de Menezes foi a defesa eloquente da obra assinada por Sayão na seção Bibliografia do Reformador de 01/02/ 1897.
O ilustrado doutor Antônio Luiz Sayão acaba de dar à luz um livro que destoa de quase todos os que têm saído publicados entre nós. Não é um brilhante repertório de coisas mais ou menos interessantes que, pela beleza da forma, dê testemunho da erudição do autor e sirva de agradável passatempo aos que só se preocupam com as
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grandezas mundanas. Não. É um livro que, por sua contextura elevada e útil como poucos, desafia a atenção dos que procuram no conhecimento das verdades eternas (...) Altíssima a missão dos que foram escolhidos para fazerem na terra a obra de Deus: a divulgação do Evangelho segundo a luz do Espiritismo; e dentre aqueles missionários espalhados por toda a terra, levantaram-se, entre nós, Bittencourt Sampaio, com sua Divina Epopeia e Antônio Luiz Sayão, com os seus Estudos dos Evangelhos. Aquele limitou seu trabalho, que é monumental, ao Evangelho de S. João. Este ergueu seu monumento, sobre os de S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas. Um completa o outro e ambos dão a luz, que a geração hodierna pode suportar, sobre toda a doutrina cristã (REFORMADOR, 1897, p. 06).
Em meio às qualificações elogiosas ao autor, vê-se o escritor situado no panteão de espíritos missionários, encarregados da continuidade da “divulgação do Evangelho segundo o Espiritismo” (REFORMADOR, 1897, p. 06). O livro assim foi apresentado como um texto- síntese baseado em Roustaing, mas procurou-se fundamentar as transgressões criativas, justificando os trechos corrigidos e aumentados com o argumento de autoridade, pois as mudanças teriam contado com o apoio dos espíritos superiores. Em resumo: “Seus trabalhos podem ser ditos: perfeito resumo da interpretação dos evangelhos em espírito e verdade, segundo Roustaing, corrigido e aumentado em certos pontos, sempre sob a assistência dos Altos Espíritos. (REFORMADOR, 1897, p. 06)”.
Ao que tudo indica, a obra Elucidações Evangélicas foi objeto de resistências em sua recepção inicial. Naquele momento, o movimento espírita se caracterizava por ser basicamente uma comunidade de leitores significativamente difusa. Os livros traziam a marca de autoridade de sujeitos oriundos de um País considerado referência em saber. Um passo muito importante para a continuidade do Espiritismo em terras brasileiras foi o estabelecimento de uma produção literária nacional. As disputas simbólicas internas, com grupos buscando implementar configurações diferentes para o Espiritismo nacional, parece ter posto em funcionamento uma complexa engrenagem que garantiu o florescimento de uma literatura espiritista com características locais.
Um dos recursos utilizados na produção da literatura espírita no Brasil foi a dos escritores nacionais se referendarem em autores ou “espíritos” europeus. Por algumas décadas adentro no século XX este procedimento existirá. Para Lewgoy (2000, p. 208) teria sido justamente Chico Xavier o responsável pela nacionalização das referências espirituais, com os espíritos-autores brasileiros assinando as obras. No caso de Sayão, ele se apropria do pensamento roustainguista, fazendo uma série de reelaborações e ajustes para deixar a obra mais acessível. Mesmo se referendando no autor francês, recebeu resistências que o
59 estava longe de ser uma unanimidade, mas provavelmente também por ser Sayão um autor autóctone, desenvolvendo e corrigindo seu pensamento.
Em 06 de abril do mesmo ano, Bezerra de Menezes veio em seu socorro na imprensa aberta. Por meio de sua coluna no jornal Gazeta de Notícias, respondeu à pergunta de um leitor que inquiria sobre a validade dos escritos de Sayão. Para ele, o
[...] livro de Sayão é um resumo do Roustaing, com as vantagens de Allan Kardec. (...) É, portanto, correto e adiantado, sob o ponto doutrinário e é claro e conciso sob o ponto de vista do método. (...) Contém as ideias de Roustaing e o método incomparável de Allan Kardec. (BEZERRA apud WANTUIL, 2002, p. 151).
Desde a segunda edição28 de Elucidações Evangélicas, o artigo-resposta de Bezerra desempenha a função de prefácio na obra. Seu argumento associava as apropriações da abordagem de Roustaing com a autoridade doutrinária de Kardec, conferindo legitimidade às operações realizadas. A figura do líder espiritista já famoso foi inserida para dar sustentação às teses roustainguistas via Sayão.
A atuação de Bezerra de Menezes, entretanto, não ficou restrita a apoiar os escritores de seu círculo. Ele se envolveu diretamente na produção literária. Sem dúvida foi o autor mais produtivo de sua geração e o principal responsável pela criação da matriz febiana, hegemônica na atualidade dentro do Espiritismo brasileiro. Responsável sob o ponto de vista não apenas político, mas acima de tudo doutrinário. Uma análise histórica da sua produção intelectual revela dados significativos. Apesar de as investigações acadêmicas (GIUMBELLI, 1997; ALMEIDA, 2007; ARRIBAS, 2010) darem ênfase aos textos Uma Carta de Bezerra de
Menezes e A Loucura sob Novo Prisma como suas obras de referência, estes foram publicados
20 anos após o seu falecimento. Desta forma, representam uma fonte importante para a compreensão do seu pensamento, mas não da recepção de sua obra. Não foi por meio delas que na sua contemporaneidade Bezerra escolheu defender a configuração do Espiritismo como religião.
Um cotejamento entre as datas de publicação de seus escritos e os enfrentamentos realizados no movimento revela que Adolfo Bezerra de Menezes fora inclusive um romancista. Desde o início de sua militância espiritista, o gênero romance se encontrava no cenário de sua produção literária. Dois anos após o anúncio público de sua conversão, começava a vir à luz A Casa Assombrada. Em formato de folhetim, foi publicado originalmente de 1888 a 1891 em uma seção específica do Reformador. Ainda em 1890,
60 publicou o segundo texto, Os Carneiros de Panurgio: romance philosophico-político, agora em formato de livro pela tipografia Serafim José Alves. Na sequência, lançou Lázaro, o
leproso em folhetim pelo Reformador de 1892 a 1896; União Spirita do Brasil. Spiritismo. Estudos philosophicos, em livro no ano de 1894 pela Moreira. Este último tratava-se da
coletânea de artigos – 69 ao todo - produzidos para sua coluna no jornal O Paiz. Depois, de 1896 a 1897 foi publicado o romance A História de um Sonho, como folhetim também pelo
Reformador. Bezerra de Menezes estava publicando em folhetim desde 1898 o romance Casamento e Mortalha, quando veio a falecer em 1900, permanecendo a obra inacabada. Com
a sua morte, a viúva doou à FEB quatro textos manuscritos inéditos publicados apenas postumamente. Foram eles: os romances A pérola Negra e o Evangelho do Futuro, bem como os já referidos Uma Carta de Bezerra de Menezes e A Loucura sob Novo Prisma. No conjunto são sete romances, cinco publicados em vida. Essa informação equivale a dizer que, como autor espiritista, Bezerra de Menezes optou por produzir uma literatura romanesca, na qual realizou uma série de operações inventiva para defender suas posições.
Essas obras serviram de instrumentos para divulgação doutrinária e caracterização de um Espiritismo-religião. Um bom exemplo pode ser encontrado em A História de um
Sonho(1901-1905). A trama foi ambientada no planeta Vênus, orbe no qual o personagem
principal, um terráqueo, teve acesso em viagens astrais realizadas por meio do sono. A composição da narrativa é nitidamente fundamentada em postulados kardequeanos. A concepção de pluralidade dos mundos habitados, com sociedades equivalentes à humana, está referida textualmente no Livro dos Espíritos (1857). O conteúdo geral, como tratava de vida em outros planetas, era considerado científico. Inclusive sobre ele havia se debruçado o famoso astrônomo e espírita Camile Flamarion. Lançada em um momento de efervescência discursiva e no auge da disputa interna, representaria esta obra uma concessão? Uma nova tentativa de contemporização? Selecionamos um trecho bastante eloquente para servir de amostragem das complexas engrenagens postas em funcionamento. Nele se estabelece um diálogo de instrução entre o personagem principal e seu guia espiritual, que em muitas passagens lhe fornece ensinamentos. Vejamos a fala do mentor, apresentado sob a designação de Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga.
Todos, pois, sem exceção, mais cedo ou mais tarde, mais lenta ou mais rapidamente, chegarão a ver Deus. Tu te sentes pequeno à minha vista; mas conscientiza-te de que nós, os espíritos mais adiantados do que tu, não nos sentimos maiores à vista do nosso sacrossanto irmão Jesus, o redentor, a cujas plantas não temos merecimento para chegar nossos lábios. Ele mesmo, em sua divina humildade, considera-se um nada à vista do Pai Supremo. (MENEZES, 2009, p.20).
61 A primeira frase remete diretamente a um princípio doutrinário de Kardec. Este converteu a concepção de progresso do iluminismo a uma escala de desenvolvimento espiritual. Um espírito, criado na condição de simples e ignorante, mediante as reencarnações sucessivas aprenderia com a diversidade de experiências vividas até chegar à condição de espirito puro, perfeito moralmente. Esta seria uma destinação inexorável, variando-se apenas na escala do tempo por depender das escolhas realizadas pelo livre-arbítrio individual29. A continuidade, entretanto, traz uma representação que não consta no universo conceitual kardequeano. Segundo o Livro dos Espíritos, Jesus seria o guia e modelo da humanidade por ter a condição de “ser mais puro que apareceu sobre a Terra” (KARDEC, 2011, p. 207). As expressões “sacrossanto irmão”, “o redentor”, “divina humildade” explicitam uma aproximação com a representação de Jesus como Homem-Deus, salvador de todas as humanidades interplanetárias. Esta é uma apropriação não de Kardec, mas de Roustaing.
A análise do livro permite, portanto, algumas deduções. A inserção de teses roustainguistas no edifício doutrinário eminentemente kardequeano é uma operação realizada no Espiritismo brasileiro não só por meio das obras amplamente conhecidas que tratam diretamente sobre o tema religioso. Também nos romances de Bezerra de Menezes, talvez de modo mais silencioso e eficaz, essas sínteses ocorreram. Especificamente na obra A História
de um Sonho, vinculada a uma temática considerada do campo científico, há uma
“religiosificação” das questões levantadas. Como o texto foi escrito e publicado no auge do conflito interno, isso parece indicar que a luta para o banimento das práticas do grupo dito “científico” não significou a exclusão do que se considerava o aspecto científico no corpo doutrinário, contudo, representou o estabelecimento de uma hierarquização na economia conceitual. Assim a conquista da hegemonia remeteu à estratégia de submeter qualquer tema, mesmo os de uma abordagem cientificista, ao talante da óptica religiosa. É eloquente, por exemplo, o fato de o personagem que ministra o ensinamento ser um religioso de alta patente e não um destacado cientista, se anunciando qual a fonte de saber legítima e desejável.