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O povoado surgiu ao redor da Igreja de Santana por volta de 1863. A comunidade pertencia ao município de Cataguases. O Distrito teve sua emancipação política em 1962, tendo como a base de sua economia a produção de café, porém com a crise de 1929 e, consequentemente, a queda do preço do café, vários fazendeiros foram à falência. As atividades econômicas do município foram diversificadas, destacando- se, atualmente, a cultura do arroz, produção de leite e carne (SANTANA DE CATAGUASES:2012).

Segundo os dados do Censo demográfico do IBGE (2010) a população total do município é de 3.622 habitantes. Sendo que deste total 2.917 são residentes em área urbana e 705 na zona rural.

A ocupação da fazenda da Fumaça de 2.800 hectares aconteceu no dia 01 de maio de 2006 com a participação de 32 famílias (CPT- 2010). Segundo o relato de um dos militantes dado ao jornalista Jacyntho Batalha (2006) a ação contou com mais de cem famílias oriundas de Santana de Cataguases e de municípios circunvizinhos.

E aí deu neste grande acampamento que a gente ta fazendo aqui, com mais de cem famílias acampadas aqui hoje (Militante – Zequinha, 2006).

Nota-se que há um desencontro em relação ao número de famílias participantes nesta ocupação. Os dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) são bem menores que os informados pelo militante do MST. Nesse sentido é preciso haver seriedade, tanto por parte das Instituições de pesquisa quanto dos militantes dos movimentos sociais na divulgação destes dados, o que facilitaria a leitura desta realidade. As pessoas envolvidas na luta pela terra não podem ser consideradas apenas como número, ou seja, massa de manobra, pois se trata de trabalhadores em busca de melhores condições de vida, dignidade e cidadania.

De acordo com as imagens cedidas pelo jornalista Jacyntho Batalha (2006), as famílias ocuparam uma área próxima à sede da fazenda e iniciaram os preparativos e a limpeza do local escolhido para construção dos barracos e formação do acampamento. A partir de então, conforme as orientações do MST, as famílias se organizaram em núcleos, foram constituídos os diversos setores: segurança, educação, higiene, disciplina, finanças, produção, saúde, entre outras necessidades.

Após esta formação foi definida a coordenação do acampamento formada por dois representantes de cada núcleo de família sendo um representante de cada setor instituído, dois coordenadores de área, um dirigente estadual e um coordenador de Brigada.

A Brigada, segundo o militante do MST, é uma nova estratégia de atuação, visando a uma divisão de poder entre as lideranças do movimento.

A Brigada é um termo militar que a gente usa para definir um certo grupo organizado. Antigamente, nós não nos organizávamos por brigadas, nós nos organizávamos por região. Então se você pega a região da Zona da Mata, com certeza a região da zona da mata é maior do que muitos países que existe no mundo. Então, você vai colocar um dirigente político para coordenar a Zona da Mata, é uma coisa muita ampla, muito grande. Então nós decidimos que 200 famílias formam uma brigada. Então isto significa se nós fizermos mais quatro acampamentos aqui na zona da mata e nós tivermos 400 famílias, nós vamos ter duas brigadas. Porque a gente dividindo em brigadas, a gente também divide poder. Se tem duas brigadas, ao invés de ter um dirigente, tem dois, ao invés de ter um coordenador de brigada tem dois, ao invés de ter um coordenador de saúde têm vários (Dirigente Estadual – MST, 2012).

De acordo o dirigente estadual a Brigada já está sendo utilizada pelo MST em outros estados. A opção por sua utilização em Minas Gerais foi referendada no encontro estadual, ocorrido no município de Teófilo Otoni, no ano de 2005. Nesse sentido, Magno (2011) já chamava a atenção de que na afirmação de sua territorialidade, os movimentos sociais têm se recriado, com novas formas de organização, de produção e de existência coletiva (MAGNO:2011).

A nossa brigada na Zona da Mata é a Brigada Manuel Marulanda. (....) Como ela está dentro de uma região, a nossa regional chama Antônio Ventura que também é uma homenagem a um outro companheiro que no dia da nossa ocupação no Dênis Gonçalves o companheiro morreu (Dirigente Estadual – MST, 2012).

Então a Brigada envolve as famílias do assentamento Olga Benário e do acampamento Francisco Julião, sendo composta por 01 (um) dirigente Estadual; Frente de Massa, 01 Coordenador da Brigada e representantes dos setores já constituídos no assentamento e acampamento.

Entretanto, os assentamentos e acampamentos são espaços sociais totalmente distintos. D‟Incao e Roy (1995) enfatizam que os interesses nos acampamentos são homogêneos, o objetivo é obter um pedaço de terra. “Nessa ocasião, tanto os trabalhadores como os agentes externos participantes das mobilizações tinham uma mesma aspiração e um mesmo objetivo: a conquista da terra” (D‟INCAO e ROY:1995:30). Nos assentamentos as peculiaridades afloram, cada família tem em mente seu próprio projeto de vida e que nem sempre as decisões dos mediadores são bem aceitas pelos

E, agora, o desejo de autonomia na terra conquistada se encarregaria de fazer emergir as muitas diferenças existentes entre essas famílias singulares. Diferença de idade, de composição da família, de conhecimento agrícola, etc. diferenças de trajetórias de vidas e, consequentemente de objetivos, de sonhos e de fantasia que, necessariamente, tornariam mais complexas aas negociações entre eles mesmos e com seus assessores (...). Homens que haviam enfrentado, juntamente com suas famílias, toda sorte de adversidade para chegar a terra conquistada. Que aspiravam liberdade e tinham um projeto de autonomia para ser realizado nessa terra (INCAO e ROY:1995:31).

Percebe-se que a organização em Brigada é uma estratégia mais em função do projeto político dos dirigentes e lideranças do Movimento que uma necessidade das famílias, pois de acordo com a fala do dirigente esta forma de organização surge no contexto nacional e não da especificidade das famílias envolvidas neste processo.